As Virtudes Vicentinas

Pe.  Lauro Palú, C. M.

A  M O R T I F I C A Ç Ã O

O QUE SÃO VICENTE ENSINAVA SOBRE A MORTIFICAÇÃO?

A mortificação implica a renúncia ao prazer dos sentidos externos (tato, vista, gosto, olfato, ouvido) (IX, 23; X, 59, 151, 246, 280, 399; XII, 215). São Vicente insistia ao mesmo tempo na modéstia de vista e na aparência alegre, para nos aproximarmos das pessoas e não as afastarmos. A mortificação de não comer fora das horas de refeição levaria a evitar o consumo exagerado e o próprio consumismo: comer de tudo, não só do que agrada, e comer como os Pobres, sem delicadezas…

Também renúncia aos sentidos internos (e São Vicente cita a capacidade de compreensão [a inteligência], a memória e a vontade) (X, 151, 246, 280). Evitar encher-se de curiosidades e de vaidade (a ciência incha); evitar viver de saudades do passado, especialmente da própria família e também das obras anteriores em que trabalhamos. Renunciaremos também às paixões da alma, ao ódio, ao desespero, estimulando o uso das paixões contrárias, o amor, a esperança.

Numa palavra, seria submeter as paixões e os impulsos à razão (X, 56).

A mortificação leva à indiferença, como virtude ativa (X, 282), ao desapego das coisas, das pessoas e dos cargos (XII, 20). Tudo isso, sabemos, facilita nossa obediência e nos torna totalmente disponíveis à vontade de Deus.

Os motivos de mortificar-nos aparecem no que nos diz a Sagrada Escritura (Mt 10, 37; 16, 24; Lc 14, 26; Rm 8, 13; 2 Cor 4, 10). E especialmente nos exemplos de Jesus Cristo, que veio cumprir a vontade de Pai (IX, 170; X, 61, 398; XII, 214). Devemos modelar nossos sentimentos pelos de Cristo (XII, 227).

Muitos sofrimentos fazem parte da vida, nem precisamos buscá-los. Devemos saber usá-los, aproveitar quando ocorrem e usá-los bem (X, 186-187).

A mortificação ajuda a rezar (IX, 427; X, 279) e expia nossos pecados (X, 61).

Não podemos matar-nos à custa de tanta mortificação (X, 98), mas precisamos usar como mortificação o esforço de melhorar nosso caráter, modificando nosso temperamento (X, 245; XI, 70) e acolhendo os sofrimentos como vindos das mãos de Deus (X, 284). São Vicente citou seu próprio caso, como sofreu para deixar seus pais e parentes (XII, 219).

Os meios para mortificar-nos são ou sejam estes:

– Fazer repetidos atos de desapego, mortificação e indiferença, com paciência e mansidão (V, 436). Supõe-se o esforço para suportar-nos uns aos outros (IX, 176), aceitar as exigências da vida em comum (IX, 188-189), segurar a língua (X, 403), ser prudentes e reservados no trato com as mulheres (X, 60, 151; XII, 21).

– Recomenda que mortifiquemos a vontade, o juízo e os sentidos, o amor à família (RC II, 8-9), até esquecermos a vida passada (conferência de 2 de maio de 1659). Renunciar às pompas, ao cuidado excessivo de nós mesmos e a viver na folga (XII, 221-223).

– Para evitar os excessos, é preciso pôr nosso diretor espiritual a par do que estamos fazendo, para não nos matarmos de tanta penitência, deixando o campo aberto e disponível ao demônio (RC X, 15)…

COMO FALAR DA MORTIFICAÇÃO HOJE?

Será por certo a menos popular das nossas cinco virtudes, mas é uma das mais funcionais e necessárias.

A cultura atual rejeita a idéia do homem composto de uma parte animal, sujeita ao mal e ao pecado, e de uma parte racional, mais elevada. Por que sacrificar os apetites ou os gostos da gente? Em nome de quê? Os autores, hoje, falam mais de disciplina, como Gandhi, que recomendava disciplina e oração para realizarmos as coisas boas; como Erich Fromm, que fala da disciplina como primeira etapa na prática do amor; como Dietrich Bonhoeffer, que a descreve como uma etapa no caminho da liberdade.

Alguns dos seus exemplos, São Vicente hoje possivelmente não daria. Não cheirar uma flor na beira do caminho? Ou colhê-la, cheirá-la, louvar a Deus por sua criação e alegrar-nos por ser assim agraciados por Deus? Praticamente romper com a família? Ou amar nossos pais e ser-lhes imensamente gratos e aprender deles a valorizar nossos Coirmãos idosos e valorizar os jovens, como  nossos pais fizeram conosco? Jesus Cristo fala de renunciar a nós mesmos, isto é, de não nos pôr em primeiro lugar, mas de pensar nos outros, de pensar primeiro nos outros, de pensar sobretudo nos outros, de pensar só nos outros, como fizeram os santos, como fizeram São Vicente e Santa Luísa.

a) O sentido da mortificação é renunciar a uma coisa boa por uma melhor. Não fumo para conservar a saúde, não bebo para ser sempre dono de mim, ter idéias claras e noção das coisas e consciência das pessoas. Somos celibatários para agirmos com liberdade e nos dedicarmos só e totalmente ao Reino. Nossa pobreza deve ser a prioridade dada às pessoas, chamar-se solidariedade, não ser só um uso restrito ou mesquinho dos bens e ser uma prática generosa da partilha, do desapego para o serviço. Vivo em comunidade para pôr meus talentos em conjunto com os dos outros, em prol do bem de todos, sobretudo dos Pobres.

b) Mortificamo-nos por reconhecer que temos objetivos a alcançar; por isso canalizamos nossas energias limitadas para alcançar esses bens. Já que não podemos ser e ter tudo na vida, temos projetos pessoais e comunitários e nos preparamos para realizá-los: Cristo diz de renunciar à sua casa, à sua mulher, ao seu pai, à sua mãe, ao seu irmão, à sua irmã, a todas as coisas, por causa dele e do Reino.

c) Mortificação é um exercício de aprender a morrer, até chegarmos à oração de Cristo: “Pai, em tuas mãos entrego meu espírito” (Lc 23, 46).

d) Pe. Robert P. Maloney sugeriu, em seguida, onze atitudes como práticas da mortificação nos dias de hoje (ib., p. 76-78):

1 – Prontidão para responder às necessidades da Congregação e do Povo de Deus, sobretudo na aceitação dos cargos. Há as necessidades do Povo de Deus e há os dons que Deus nos deu para o serviço. Os cargos ou as tarefas são ocasiões de descobrir e desenvolver estes dons.

2 – Ser fiéis aos deveres de estado, preferindo-os a tudo o que possa parecer mais agradável e realizador à primeira vista ou de imediato. Aqui entram como exemplos a televisão vista passivamente, horas seguidas, ou os bate-papos com os outros, que podem distrair-nos e desviar-nos dos deveres de nosso ofício.

3 – Trabalhar muito, como servidores, procurando ser responsáveis e atentos ao uso de nosso tempo, sem o desperdiçar, mesmo se não temos estruturas que nos obriguem a horários e formas de trabalhar.

4 – Levantar-nos prontamente, para podermos louvar a Deus e unir-nos aos outros na oração. Os trabalhos pastorais noturnos devem ser bem regulados por isso, até porque o povo de nossas comunidades precisa levantar-se cedo para seus serviços e seus empregos.

5 – Ser comedidos no adquirir ou aceitar os bens materiais, como roupas, dinheiro, equipamentos, etc. Nada nos leva naturalmente à ascese; ao contrário, a propaganda nos leva ao consumismo.

6 – Disciplinar-nos no comer e no beber. São Vicente falava de não comer entre as refeições. Isso tem a ver com nossas carências, com a necessidade de mantermos o peso conveniente e as boas condições físicas, sobretudo se nossa vida é muito sedentária. Quem se contém no comer e no beber também pode conter sua raiva, suas irritações, aumentar sua paciência e tolerância, agüentar amolações e enfrentar certos cansaços, como os da preparação e avaliação das atividades.

7 – Moderar-nos e ter espírito crítico em relação à televisão, ao rádio, ao cinema e aos meios técnicos de que dispomos hoje em dia. Há muita passividade nos lazeres, muita incitação à violência e à liberdade sexual. O que vamos absorvendo constantemente por nossos sentidos acaba influenciando inevitavelmente nosso comportamento.

8 – Evitar viver de favores ou de exceções. É o sentido de nossos planejamentos comunitários, hoje já tão restritos e tão pouco exigentes. É o mínimo para vivermos de fato como irmãos, como amigos que se querem bem, na expressão de São Vicente.

9 – Evitar o espírito de crítica e o que pode provocar discórdias. Nossa palavra deve ser de preferência sempre construtiva e dita a quem pode resolver as coisas.

10 – Procurar conviver com os amigos e com os que não consideramos ou não tratamos como amigos, procurando completar nossas preferências naturais com o carinho e o amor fraterno que devem caracterizar nossas comunidades. Não excluir ninguém de nossa atenção, nossa ajuda, nossa paciência e nossa amizade.

11 – Participar com esforço dos processos de tomadas de decisões: encontros, questionários, cartas de consulta, etc. Faz parte da ascese atual, é nosso cilício. A auréola dos santos se deslocou da cabeça para outra parte de nosso corpo cansado de reuniões… Participar não é um luxo, um privilégio ou a responsabilidade de uns poucos, mas um dever de todos. Só podemos ouvir o que Deus nos diz em comunidade se todos nos esforçamos para participar e dizer nossa palavra.


Mais algumas observações que imaginei úteis para nossa reflexão e oração durante este retiro:

a) Os nossos votos nos levam a atitudes de extrema e eficiente solidariedade com nossos irmãos mais necessitados. Basta pensar na nossa obediência e no silêncio de quem não pode abrir a boca e criticar nada, que será despachado do emprego. Ou em nossa castidade e na solidão dos doentes incuráveis, dos doentes terminais, dos prisioneiros políticos. Ou em nossa pobreza e nas filas dos serviços públicos. Do mesmo modo, nossa mortificação nos leva à solidariedade com os outros nos seus sofrimentos.

b) A mortificação que nos propomos como vicentinos é funcional, visa, primeiro, impedir que certas coisas nos atrapalhem e, em seguida, nos ajuda a agir com mais liberdade e segurança, com total disponibilidade.

c) A mortificação pode também entender-se como esforço de preparação de nossas atividades, como paciência nos grupos, por causa das diferenças de ritmos da participação de cada um, especialmente dos mais simples; e o esforço de planejar juntos, executar juntos (quando às vezes preferiríamos trabalhar sozinhos para não ser atrapalhados pelos lerdos e incompetentes…) e avaliar juntos o que conseguimos. Na linha da mudança de estruturas, ter esta coragem de trabalhar com os que Deus manda ao nosso encontro, não só com os melhores, os mais capazes e competentes, é uma ação de transformação, pois a linha do eficientismo elimina imediatamente os menos capazes, fazendo-nos pensar em trabalhar apenas com os que possam render mais e muito.

d) Podemos pensar na mortificação como perseverança no esforço e na ação, o que garante em seguida a continuidade, os frutos, os bons resultados. Sabemos quanto é fácil começar um caderno com letra bonita, como é gostoso o primeiro trabalho na enxada para capinar aquela hortinha ou o jardim, como foi agradável a primeira reunião, antes de começarem a aparecer os abacaxis do grupo… Continuar depois disso é que são elas… A gente amola a faca já afiada ou a faca boa e sabe como ajuda.

Caraça, 31 de dezembro de 2008

Rio de Janeiro, 3 de fevereiro de 2009

Pe. Lauro Palú, C. M.

 

OITAVA MEDITAÇÃO 

O   Z E L O   A P O S T Ó L I C O

COMO SÃO VICENTE FALAVA DO ZELO APOSTÓLICO?


O zelo é uma grande qualidade do amor. “Se o amor de Deus é um fogo, o zelo é sua chama. Se o amor é o sol, então o zelo é seu raio” (XII, 262, 307-308). “Quando a caridade penetra numa alma, toma posse de toda a sua potência. Não descansa nunca. É um fogo que consome sem cessar” (XI, 276). O amor a Deus e aos nossos irmãos nos impede de ficar ociosos: move-nos à salvação e à ajuda aos outros; é o desejo de ser agradável a Deus e útil aos outros. Leva-nos a trabalhar duro, para ajudar a salvar os outros.

Pelo zelo, queremos ir por toda parte, para estender o Reino de Deus; leva-nos a ir sempre adiante, com amor ardente. Usando uma categoria estranha da teologia do século XVII, São Vicente diz: “Peçamos a Deus que dê à Companhia este espírito, este coração, este coração que nos faça ir por toda parte, este coração do Filho de Deus, coração de Nosso Senhor, coração de Nosso Senhor, coração de Nosso Senhor, que nos disponha a ir como ele iria e como teria ido, se sua sabedoria eterna tivesse julgado conveniente trabalhar pela conversão das nações pobres. Ele enviou para isso os apóstolos; ele nos envia como os enviou, para levar por toda parte o fogo, por toda parte” (XI, 291; cf. XI, 402; XII, 307). O zelo é participação do ardor e do empenho de Jesus Cristo. É uma caridade missionária, compassiva, misericordiosa e operosa.

O zelo supõe também o desejo de morrer por Cristo, de consumir-nos por ele, de dar-nos a Deus para isso, de nos despojar, de certo modo, para nos revestirmos dele. E ir por toda parte aonde aprouver a Deus enviar-nos. E São Vicente dizia: “E eu mesmo, apesar de velho e idoso como estou, não posso deixar de ter esta disposição em mim, mesmo a de ir às Índias, para conquistar as almas de lá para Deus, mesmo que eu tivesse de morrer pelo caminho ou no navio” (XI, 402; cf. XI, 371, 415).

Por zelo, devemos trabalhar, incansavelmente, para salvar o próximo: “Amemos a Deus, meus irmãos, amemos a Deus, mas que seja à custa de nossos braços, que seja com o suor de nossos rostos. Porque muitas vezes tantos atos de amor de Deus, de complacência, de benevolência e outros afetos e práticas interiores de um coração terno, embora muito boas e desejáveis, são, entretanto, muito suspeitas, quando não se chega à prática do amor efetivo” (XI, 40).

O zelo se opõe tanto à preguiça, à acomodação, ao deixar as coisas correrem, ao laxismo, à falta de fervor ou de sensibilidade (XI, 17, 193; XII, 321) como ao zelo indiscreto (I, 84, 96; II, 140; X, 671). Pelo zelo indiscreto nos sobrecarregamos, expomo-nos à estafa e expomos outros a perigos (I, 84; IV, 121). Os exageros levam a ser muito rigoroso consigo ou arrogante com os outros, como o são por vezes os jovens (II, 70-71).

Como motivos de praticar o zelo, São Vicente sugere contemplar Jesus Cristo, cujo amor era tão grande que o fazia querer morrer por nós: é um reflexo do amor de Deus revelado em Jesus Cristo e por ele. Daí, que o sangue dos cristãos se torna semente do cristianismo (XI, 415). Foi pelo martírio que Deus começou a Igreja (XI, 415, 422).

Os meios são, por exemplo, pensar nas pessoas que nos estendem as mãos, pedindo nosso socorro, sem o qual correrão o risco de se condenarem. Ao Pe. du Coudray, que queria dedicar-se à tradução da Bíblia do siríaco ao francês, São Vicente escreveu que os Pobres estariam dizendo: “Ai, Padre du Coudray, você que foi escolhido desde toda a eternidade pela providência de Deus para ser nosso segundo redentor, tenha compaixão de nós que estamos perdidos na ignorância das coisas necessárias à nossa salvação e nos pecados que jamais ousamos confessar e que, por falta do seu socorro, seremos infalivelmente condenados” (I, 252).

Já ao Pe. Escart, São Vicente aconselhou a crescer numa caridade alimentada pela ciência experimental e que evitasse o rigor e os excessos (II, 70-72).


COMO FALAR DO ZELO HOJE EM DIA?

Hoje, já não diremos zelo “pelas almas”, como no tempo de São Vicente. Mas o zelo continua tão importante, urgente e carente como naquele tempo.

a) O zelo consiste num amor ardente: devia doer em nós como o ciúme, que deixa as pessoas inquietas, agitadas, atentas, aproveitando toda ocasião, não perdendo nenhuma oportunidade, imaginosas, criativas, às vezes até obsessivas… Pelo zelo, enfrentamos as condições difíceis para anunciar Cristo e seu Reino. É a passagem, que São Vicente comentava, do amor afetivo à realização concreta, ao trabalho e ao sacrifício efetivo.

Um tempo se falava do martírio como sinal extremo do zelo. Mas às vezes é mais difícil viver por Cristo, com ele e por ele, do que morrer por ele. É querer continuar trabalhando apesar dos fracassos, das decepções, do cansaço, das contradições. Apesar do Bispo, do Superior, da Comunidade, da burocracia, do ciúme ou da inveja dos outros. O zelo nos leva a vencer as dificuldades do clima, do tipo de comida, da cultura ou da falta de tudo isso…

b) Zelo é o amor perseverante e fiel. Hoje em dia em geral não se assumem compromissos duradouros. O cantor se casou e durou 15 dias seu casamento. As revistas ainda estavam nas bancas e já se tinha separado. A cantora durou casada 55 horas. As revistas ainda não tinham chegado às bancas e ela já se tinha separado… Os políticos trocam de partidos antes da eleição, depois de eleitos, quando se escolhem ministros e secretários, voltam ao partido, trocam de novo para serem eleitos presidente da câmara ou para presidirem alguma comissão ou CPI.

Nosso zelo deve ser inventivo ao infinito (XI, 146). Mas deve durar. São Vicente falou aos Coirmãos: “Quanto a mim, apesar de minha idade, diante de Deus não me sinto excusado da obrigação que tenho de trabalhar pela salvação dessa pobre gente. O que poderia me impedir disso? Se já não posso pregar todos os dias, muito bem, pregarei duas vezes por semana; se não posso ir aos grandes púlpitos, procurarei ir aos pequenos; se ninguém me ouvisse nem nesses pequenos, quem me impediria de ir falar simples e familiarmente com essa boa gente, como estou falando com vocês neste momento, reunindo as pessoas à minha volta como vocês fizeram?” (XI, 136).

c)  O zelo nos leva a procurar outros operários para a messe de Senhor. Cada um procurará atrair outros para o serviço dos Pobres. Como a Congregação se definiu na Assembléia Geral de 1980, quando explicitou, na formulação do nosso fim na Igreja: formar os clérigos e os leigos e os animar para a evangelização dos Pobres. Suscitar e formar multiplicadores de nossa ação deve ser sempre uma de nossas linhas de ação em todas as nossas obras.

Mas chamo a atenção para um ponto da nossa pastoral, da pastoral vocacional aos mais variados ministérios: a impressionante diminuição e falta de vocações sacerdotais e religiosas é um sinal dos tempos, que somos chamados a ler com inteligência e fé, com desassombro e coragem. Ao mesmo tempo, o surgimento espantoso dos leigos que se engajam em todo tipo de trabalhos pelos necessitados é um sinal não apenas dos tempos mas do Reino de Deus, pois não é apenas uma circunstância, é um chamado, claro e insistente de Deus, é uma indicação segura de um caminho, a indicação clara de uma direção, para superarmos a várias formas de clericalismo, nossa tendência centralizadora, o costume de tratar os leigos como crianças, como menores de idade. Supõe nossa maturidade e adultez, para não ficarmos ciumentos dos leigos, especialmente quando fizerem melhor do que nós ou forem mais admirados e mais badalados que nós… É a hora, então, de agradecer a Deus por essas vocações leigas, de esforçar-nos por formá-las, de modificar nossos modos de agir para que os outros também tenham lugar e lugar importante em nossas obras e atividades.

Jesus não hesita em chamar os apóstolos, direta e claramente. É preciso apresentar aos jovens e aos adultos os ideais maduros do serviço, do engajamento. Na experiência do Colégio São Vicente, os Alunos respondem muito prontamente aos apelos para serem monitores no curso noturno de Educação de Jovens e Adultos. E os Professores e Funcionários, mais de uma centena, e muitos Alunos, já se apresentaram para trabalhar em nossos projetos sociais, na Bahia, no Vale do Jequitinhonha e em Riacho Fundo II. Participam com gosto dos dias ou manhãs de espiritualidade e formação, das preparações e das avaliações ao final do período de trabalhos nas férias.

d) São Vicente adverte-nos contra duas faltas graves em relação ao zelo: Primeiro, a falta de interesse, a indiferença, o desencantamento. Muitos já não distinguem, no burburinho da vida, os problemas reais da disparidade entre ricos e pobres, do custo crescente de recursos humanos e financeiros para a produção e vendas de armas. Essa omissão, a demissão, diante dos problemas, é o que São Vicente chamava de “relaxamento, falta de fervor e de sensibilidade e preguiça”.

O segundo mal é o zelo indiscreto, os excessos no trabalho… Temos limites e não podemos excedê-los, saudavelmente, isto é, se desejamos manter-nos em condições razoáveis de continuar trabalhando. Felizmente, precisamos de repouso e lazer, que nos restituem ao humanismo necessário, para trabalharmos com alegria e sem azedumes e animarmos outros a trabalharem conosco, sem os censurar em tudo e por tudo, como se não tivessem zelo, quando precisam de descansar ou de pensar e cuidar da família. Se estamos liberados para o trabalho, o mesmo não acontece com nossos auxiliares leigos.

Algumas observações a mais, que completam a releitura do zelo feita pelo Pe. Maloney:

a) Uma das bases mais sólidas do nosso zelo é a estima das pessoas concretas a quem servimos. Se me refiro aos Alunos como dizia um Coirmão, antigamente: “Essa cambada não quer nada com nada”, dificilmente terei zelo com eles em sua educação, não terei paciência, não terei delicadeza, não terei gosto em trabalhar, farei um serviço de péssima qualidade. Ao passo que, se tenho estima individual pelas pessoas com quem trabalho, não me cansarei de inventar meios novos, de estimular minha criatividade e imaginação, para servir melhor aqueles que amo. Quem ama desculpa tudo, crê e espera, como diz São Paulo.

b) Mas, ao mesmo tempo, nos guardaremos das preferências pessoais.  Ninguém pode dizer, em sã consciência, que é amigo de todo mundo, pois de fato amamos alguns e os demais são paisagem… Nosso esforço vai na linha de aumentar nosso gosto natural, na linha de estimar as pessoas pelas qualidades que revelam no seu dia-a-dia, especialmente, como é o caso de que falo, no trabalho que vão realizando conosco ou no trabalho que realizamos com elas. Precisamos ampliar o número das pessoas que conhecemos pelo nome, dos que sabemos o que querem e o que não querem, o que fazem e o que não suportam. Quanto mais conhecermos, melhor os trataremos, reconhecendo suas qualidades, sem nos fixarmos na aparência agradável ou na simpatia imediata. As simpatias, o que têm de imediatas têm de fugazes, de inconstantes. E nossos apostolados precisam ter bases sólidas para os levarmos adiante e a bom termo, até os resultados visados, em geral de médio e longo prazo.

c) E aqui entra outra realidade: como os apostolados demandam tempo, até que comecem os frutos e se multipliquem os resultados, é preciso manter o esforço, aturar o esforço. Nisso, as inconstâncias nos tentarão, o cansaço nos ameaçará, as decepções nos marcarão muito negativamente, as ingratidões nos ferirão e nos fecharão no desencanto. Embora tudo isso aconteça e se explique pelas contradições da vida, nada se justifica, se temos consciência de trabalhar na vinha do Pai, cumprindo a missão de Jesus Cristo, que ele confiou à Igreja e a Igreja à Congregação. Não buscaremos pretexto na má vontade ou nas más disposições dos outros para desanimar e desistir. Faremos o esforço da generosidade, da perseverança e do perdão, por causa do Reino, baseados no amor de Deus, em sua paciência, em seu perdão, em sua providência, para continuarmos, após as contrariedades, os fracassos, porque a base do nosso zelo não é um gosto pessoal, mas a bênção da obediência, o sadio do trabalho em equipe, o forte da esperança, a certeza de que o Reino vem por força de Deus e não apenas por nosso trabalho.

d) Porque essas coisas que mencionei são realidades muito concretas e mais do que possíveis, e até freqüentes, precisamos, num processo de revisão normal de nossas atividades, nos momentos de confissão e direção espiritual, no aceitar novas colocações ou no pedir afastamento de certos lugares ou de determinadas atividades, precisamos, eu dizia, renovar os motivos de agir, procurar conservar ou recuperar o fervor primitivo, o primeiro amor. Nisto nos ajudará muito ter os olhos fixos em Cristo e na sua missão, não personalizar nosso serviço, não levar como coisas pessoais as crises das obras, da Província, da diocese, do mundo de Deus…

e)  Zelo é também o capricho, a fineza dos pormenores, o cuidado de tudo, não só do que aparece na superfície. Visitei uma vez uma plantação de morangos, em Estiva, no sul de Minas. O rapaz me mostrou a produção e me ensinou o que chamam de “moranguinho de boca”, aqueles grandes e bonitos que se põem por cima dos outros, na caixinha de vime ou de plástico. Em cima os grandes, bonitos, em baixo os pequenininhos, enrugados, azedos mais que tudo… Nosso trabalho se caracterizará pelo entusiasmo, pelo gosto de fazer bem feito, na linha das coisas boas de São Vicente. Não vamos zelar só pelas aparências. Lembro-me de um elogio que Gaston Courtois cita num retiro para padres. Falando de um padre, alguém comentou: “É um grande sacerdote: diz bem a missa, fecha bem as portas”.

Caraça, 1º de janeiro de 2009

Rio de Janeiro, 4 de fevereiro de 2009

Pe. Lauro Palú, C. M.