As Virtudes Vicentinas

Pe.  Lauro Palú, C. M.

A  H U M I L D A D E  


A HUMILDADE, NA VIDA E NO ENSINAMENTO DE SÃO VICENTE

Segundo São Vicente, a humildade consiste em reconhecer que todo bem vem de Deus (VII, 98-99) e não de nós mesmos. Por isso mesmo, Deus abençoa os humildes, que podem fazer muito bem (I, 182). Reconhecemos nossa pequenez e nossas faltas (RC II, 7) e, por isso mesmo, desenvolvemos grande confiança em Deus (III, 279; V, 165). Também nos ajuda a ser humildes o reconhecimento e a confissão de nossos pecados (XI, 397).

Como não atribuímos a nós, mas a Deus, o bem que fazemos, também devemos considerar os outros como melhores e mais capazes do que nós (V, 37; IX, 303). As outras Congregações também são melhores que a nossa (IX, 303; XI, 434; XII, 438).

Por isso, a humildade significa reconhecer voluntariamente nossa pequenez (esvaziar-nos de nós mesmos) (XI, 61312; V, 534), preferir ficarmos desconhecidos e sem consideração, evitar chamar a atenção e procurar os aplausos (I, 496; VII, 312; X, 148, 152). Procurar ocupar o último lugar (IX, 60) e gostar de passar despercebido (IX, 680).

Mas tudo isso, evidentemente, com equilíbrio, sem neuroses, sem traumas…

Motivos de praticar a humildade:

– Foi a virtude de Jesus Cristo, manso e humilde de coração; Cristo foi profetizado como o último dos homens, nem parecendo gente (I, 182, 534; XI, 400). É Cristo que dará esta virtude à Congregação (XI, 57; XII, 204) e às Filhas da Caridade (X, 527).

– Os santos também eram humildes (XI, 56-57). Mas devemos cuidar para não pensar em ser humildes para sermos santos…

– Deus abençoa os humildes, está na origem do bem que fazemos, nos chama a fazer grandes coisas (X, 128, 198; IX, 674). Perseveraremos pela humildade (I, 528; X, 528; XII, 304).

– Pela humildade, vencemos o demônio e as formas do mal (I, 536; XI, 312). Por ela, progredimos nas virtudes (XII, 210: RC II, 7).

– Com a humildade, a vida comunitária se torna um paraíso (X, 439). Sem ela…

Como meios de adquirir e praticar a humildade, procuraremos pregar Jesus Cristo e não a nós mesmos (XII, 22).

– Reconhecendo que todos temos nossos defeitos, procuraremos suportar os outros, como esperamos que façam conosco (X, 438). Rezaremos para Cristo e seus Santos, modelos de humildade, nos ajudarem (IX, 680; XI, 56-57).

– Reconheceremos publicamente nossos defeitos e erros (V, 164); XI, 54); aceitaremos as correções fraternas (IX, 382).

COMO ENTENDER E VIVER HOJE A HUMILDADE? 

Estranhamos muito algumas frases de São Vicente, dizendo-se, por exemplo, o maior pecador, mais miserável que o diabo, dizendo que nossa Congregação é a menor e a mais desprezível. Mas ele estava tocando o coração do Evangelho: Deus veio para os pequenos, os Pobres de Israel, os de coração bom, os que reconhecem suas necessidades e sabem que precisam de Deus, sem se bastarem escandalosamente…

a) A humildade reconhece que fomos criados por Deus e resgatados por ele, dependendo totalmente dele. O que somos nos foi dado em favor dos outros, não para sermos o pavão misterioso, pássaro formoso.   E também dependemos dos outros, como de Deus, pois não somos auto-suficientes. Mas nossa interdependência pode ser ao mesmo tempo um sinal de nossas limitações e uma fonte de enriquecimento. É com os outros que caminhamos para o Reino e a retidão deles nos ajuda a caminhar retamente.

Somos pecadores, sim, mas também fomos resgatados por Jesus Cristo dos nossos pecados, desses pecados que, por uma característica dos tempos, somos levados sempre mais a negar, nos outros e especialmente em nós: “preconceitos, tendência a classificar as pessoas por categorias e a falar abertamente dos seus defeitos, preguiça em relação à oração, inaptidão a nos comover com os valores evangélicos, seleção do que ler nas Escrituras, dificuldade de partilhar nossos bens com os Pobres, hesitação de nossa parte em renunciar ao poder e em sustentar os necessitados em sua miséria, submissão às estruturas sociais injustas” (Maloney, Robert P. Un chemin vers les Pauvres, p. 67). De tudo isto Deus nos perdoa, se nos abrimos à sua graça, em Jesus Cristo.

b) A humildade nos faz reconhecer os dons recebidos de Deus: Reconhecê-los e corresponder a eles, desenvolvê-los com responsabilidade e pô-los a serviço dos nossos irmãos. Os Pobres em geral são muito agradecidos por tudo o que fazemos por eles, como se não merecessem, como se fôssemos bons demais. Deus sim é de fato bom demais para conosco e nos enriquece mais do que merecemos, um sinal claro de que nos deu seus dons não por nós nem para nós, mas para os pormos a serviço dos nossos irmãos, sobretudo dos mais desprovidos e necessitados dentre eles.

c) Esta disposição de servir é elemento essencial da humildade: procuraremos ser mais, desenvolver todos os nossos dons, crescer quanto for possível em todas as dimensões do nosso ser, para servirmos melhor. Jesus que lava os pés dos apóstolos (Jo 13, 12-15) nos dá o exemplo: não diz que o serviço nos rebaixa; pelo contrário, mostra que serviu exatamente por ser o Senhor.

Os postos de mando e governo, hoje, não são lugares nem ocasiões de prestígio: a administração e o governo, hoje, supõem funções humildes, como participar em reuniões com os últimos, mesmo os menos capacitados, os mais lentos, ouvi-los com paciência, estimulá-los com esforço sincero e verdadeira esperança, depois fazer relatórios que no geral encontram poucas reações positivas e críticas de todo tipo…

d) A humildade nos leva ainda a deixar-nos evangelizar pelos Pobres. Eu diria até mais: a fazer-nos evangelizar pelos Pobres. Não no sentido de pormos os Pobres a nosso serviço, mas porque nos esforçaremos por fazer que as atitudes deles de fato mudem nosso comportamento, nossa visão do mundo, de Deus e das coisas de Deus.

A Igreja tem procurado com esforço estar atenta às sementes do Evangelho, presentes nas culturas e na religiosidade popular. O que temos de superar é a atitude do formador ou do superior que chega a dizer que tem orgulho quando um seminarista ou um jovem em formação faz alguma coisa boa… Como se não pudesse fazer, como se fosse por exceção que o fizesse, como se não se pudesse esperar dos seminaristas nada de bom, como se deles só se pudessem esperar burradas…

Para ser evangelizados pelos Pobres, precisamos escutá-los, como à burra de Balaão, como ao jovem Samuel, como ao Zaqueu, como à viúva dos dois centavos. Escutar, aqui, é ver os atos que os outros fazem, procurar entendê-los e aproveitar deles, para ser evangelizados por eles. É matricular-nos na escola dos Pobres e freqüentá-la, não matar as aulas… (Cf. Maloney, Robert P. Un chemin vers les Pauvres, pp. 44-46 e 66-70). 

Quero acrescentar umas observações a esta releitura da humildade feita pelo Pe. Maloney. 

a) Como nós estranhamos algumas expressões do tempo de São Vicente, também nos entusiasmamos com algumas expressões ou atitudes de nosso tempo e nem sempre notamos que às vezes são bobagens, às vezes bobagens solenes, nem por isso menos bobagens. Num dos livros de Educação Moral e Cívica que usei quando trabalhava na formação, um autor dizia que a palavra mais importante da língua é Nós e que a palavra menos importante é Eu. Até entendo o que queria dizer, no contexto. Mas, se o eu não vale nada, o conjunto de eus que forma o nós também não vai valer nada, é ainda pior que um só eu.

b) Do mesmo modo, precisamos ler criticamente a expressão já do tempo de São Vicente, de que somos mais miseráveis que o diabo. Na realidade, não somos, pois ainda podemos converter-nos e achar o caminho e perseverar nele e a graça de Deus poderá realizar em nós maravilhas. Não somos piores que o diabo, porque temos a vida, a fé, a vocação, o carisma vicentino, os votos, o sacerdócio, a graça de estado, as graças atuais para cada ministério que empreendamos, os sacramentos e os sacramentais, a oração de nossos Pais, a bênção de nossos Padrinhos, o apoio do povo, a oração dos humildes, a gratidão dos simples, a correção fraterna, o bom exemplo dos outros, os documentos do Papa e dos Bispos, as cartas e orientações da Congregação, Superior Geral e Visitador, um verdadeiro milhão de coisas para provar que não somos piores que o diabo.

c) Mas mesmo que fôssemos muito ruinzinhos, ainda assim teríamos motivos de sobra para sermos muito esforçados.

E isso é uma das coisas que mais nos ajudam a viver a saudável virtude da humildade, no espírito de São Vicente. Ele dizia que devemos trabalhar com esforço como se as coisas dependessem só de nós e depois esperar como se as coisas dependessem só de Deus. Se deu certo e produziu bom resultado, não nos exaltamos, porque foi Deus que o fez, por nosso intermédio. Se deu tudo errado e não conseguimos nada, foi Deus que ainda não quis, ainda não foi vontade de Deus, vamos continuar esforçando-nos até que praza a Deus realizar tal coisa, por sua pura bondade. Ter consciência de que de fato nos esforçamos nos impedirá de cair no desânimo ou nos deprimirmos. E, pelo contrário, nos levará a avaliar melhor as coisas, nosso modo de agir, nossa preparação, nossos meios, nossos processos, etc. Isso nos tornará mais criativos, mais atentos, mais flexíveis, mais capazes, sem dúvida alguma. O fato de sermos pouca coisa não nos diminuirá, mas nos dinamizará, até porque temos que compensar o que nos falta.

d) Outra bobagem que falamos com freqüência e solenemente é esta: “Sou assim, vocês têm que me aceitar como sou”… Não, senhor! Ninguém tem que me aceitar como eu sou, com meus defeitos e meus problemas, como se eu só pudesse ser isso. Em outras palavras, aceito você como você é, mas como ponto de partida e não como ponto de chegada. Você pode ter um montão de dificuldades, ser um verdadeiro poço de problemas, mas, com seu esforço, com nossa ajuda, com a graça de Deus, você pode vir a superar tudo isso. Isso não é desculpa de modo algum para os acomodados, para os que não querem esforçar-se, os que acham que nós é que temos que agüentá-los… Nasceu com problema e quer morrer pior ainda? Aqui, não. Aceito você e seus problemas, como ponto de partida de um belo esforço pessoal e comunitário de entreajuda, de correção fraterna, de oração, de conversão, de ascese, de alegrias por vitórias sucessivas e conquistas inesperadas e inimagináveis.

e)  Ligada a isso, temos a expressão “humildade de gancho”. Falamos negativamente de nós mesmos, para atrair elogios, na esperança de que alguém diga que não, que não somos assim, que nossa pregação foi boa, que soubemos liderar bem a reunião e encaminhar os assuntos de maneira eficiente. São Vicente trabalhou demais esta realidade com suas comunidades, porque desejava basear-nos solidamente na verdade. Essa era uma das funções do capítulo de culpas que tínhamos costume de fazer. Nós mesmos apresentávamos algumas de nossas faltas, alguns dos nossos defeitos, e pedíamos aos Coirmãos que nos fizessem a caridade, nos ajudassem com suas observações fraternas, apontando outras coisas a corrigir. Isso caiu num formalismo e num vazio completamente estéril, quando nos acusávamos de ter corrido na escada, de ter olhado para trás na igreja, de ter… e tudo continuava na mesma. E a correção fraterna que éramos chamados a dar se perdia às vezes porque censurávamos o que nos incomodava e irritava e não propriamente as faltas dos outros, com desejo maduro e sincero de ajudá-los.

f)  É certo que precisamos da aprovação dos outros, ela nos faz bem: Então, que nos elogiem não nos faz mal. Antigamente se dizia que não devíamos elogiar ninguém, pois podia contribuir para que ficasse orgulhoso, faltasse contra a humildade… E então nisso nós obedecemos, nunca elogiamos ninguém, nem tivemos que reconhecer que os outros muitas vezes fizeram melhor do que nós, fazem melhor do que nós, mais do que nós, com imaginação, energia, generosidade, lealdade, perseverança… Mas também se dizia que não devíamos falar mal de ninguém. Mas nisso não obedecíamos, supondo, misericordiosissimamente, que criticá-los os ajudaria a serem humildes.

Só consegui elogiar francamente, com bondade de coração e verdade na alma, quando tive a coragem de reconhecer que eu criticava antes era por inveja e ciúme do que os outros estavam fazendo bem, muito bem e melhor do que eu fiz ou faria. Também posso dizer que só depois de reconhecer minhas invejas é que tive a liberdade de elogiar, tive a honestidade de reconhecer o bem que os outros fazem, tive segurança interior para não me sentir ameaçado nem diminuído pelas qualidades dos outros, sobretudo não me sentir ameaçado ou diminuído por ter reconhecido as qualidades dos outros. Eles terem qualidades não diminui nem ameaça as minhas, se as tenho.

g) Este é o papel das avaliações comunitárias: Nós todos precisamos da aprovação dos outros, pois ela nos ajuda a viver com tranqüilidade, com motivação e otimismo, tendo confiança em nós e podendo por isso confiar nos outros. No Colégio, tenho trabalhado com os Professores esta noção: Nossa função, por exemplo, ao corrigir uma prova, um exercício, não é apenas apontar os erros dos Alunos, mas criar com eles condições de terem segurança em si mesmos, para que possam ser autônomos, donos de si e de suas motivações, e capazes, por isso, de se dedicarem a trabalhar com os outros, para transformar o mundo. Então, nossas avaliações comunitárias têm o papel de nos ajudar a estar bem com nós mesmos, de nos ajudar a ter confiança no que somos e fazemos, de nos incentivar a ser bons com os outros porque os valorizamos como nos sentimos valorizados, de nos levar a tratar os outros como nos sentimos tratados. Nada disto vai contra a humildade. Pelo contrário, por estarmos bem com nós mesmos, por não ter medo dos outros, das qualidades dos outros e de suas iniciativas, porque também as nossas são reconhecidas e valorizadas, por isto podemos tentar a verdadeira humildade, que é atribuir tudo isso a Deus, sendo-lhe imensamente gratos, sentindo-nos igualmente muito responsáveis pelo que ele nos deu para pormos a serviço dos outros, especialmente dos mais necessitados.

Caraça, 28 de dezembro de 2008

Rio de Janeiro, 2 de fevereiro de 2009

Pe. Lauro Palú, C. M.

SEXTA MEDITAÇÃO

 A  M A N S I D Ã O

COMO SÃO VICENTE FALAVA DA MANSIDÃO E A VIVIA?

Mansidão é a capacidade de reprimir nossa cólera, acabando com ela ou expressando-a de modo inspirado pelo amor e pela caridade (XII, 186-188). É também o jeito cordial, gentil, delicado, sereno, como tratamos as pessoas (XII, 189). Suportamos as ofensas com coragem e somos capazes de perdoar e de tratar com respeito até os que nos ofendem e nos ferem (XII, 191). A pessoa mansa é capaz de oferecer a Deus as provações ou provocações que agüenta e permanecer em paz de coração (XII, 192).

A mansidão se baseia no respeito às pessoas (IX, 269).

São Vicente falava em temperar a mansidão com uma gota de vinagre, a exemplo de Cristo, manso e humilde de coração e ao mesmo tempo muito firme. É só com a mansidão e a paciência que conseguimos ganhar os corações. A mansidão corrige sem deixar as pessoas caírem no desânimo. É a mansidão que torna atraente a mensagem de quem evangeliza.

Motivos para sermos mansos:

– É o modo como Deus nos trata (I, 341: IV, 53; IX, 266). Os missionários também devem ser mansos, para agüentar a dureza ou rudeza das pessoas (XII, 305).

– Os que não são mansos em geral também são inconstantes, agitados pelas paixões e pelas reações ao que os outros nos fazem.

– Às Irmãs, especialmente, São Vicente recomendou a mansidão, na própria comunidade, para não se transformar num inferno, e, sobretudo, no trabalho, se desejam de fato ser Filhas da Caridade (IX, 268). Os hereges, que querem sempre discutir, ter razão e convencer-nos, os presos que sempre são inocentes e querem convencer-nos disso e os endurecidos de coração só se ganham com paciência e cordialidade (I, 341; IV, 53, 120, 449; XI, 66).

Como meios, São Vicente sugeria o esforço de cada dia, como ele mesmo o fez (IX, 64). A gente fala em morder a língua. São Vicente aconselhava segurar a língua, acalmar-se (XI, 67), aprender a submeter ao juízo dos outros nosso modo de avaliar e pensar (XII, 318).

– Com isso, conseguimos evitar as gritarias e discussões, as palavras duras (IV, 53); começamos a falar menos forte, com mais moderação e sossego.

– Ao mesmo tempo, exercitaremos o pedir perdão o mais prontamente possível (IX, 275).

– Se começarmos a suportar as coisas contrárias, conseguiremos não nos deixar levar pelas práticas inconvenientes: perseguição, cansaço ante as pessoas, sobretudo as mais ignorantes, grosseiras e atrasadas, irritação sistemática e predisposição contra alguns (IV, 121).

COMO ENTENDER E VIVER A MANSIDÃO NOS DIAS DE HOJE?

a) Mansidão é a capacidade de orientar de modo construtivo nossa agressividade natural.

Reagimos instintivamente contra certas coisas, que nos parecem más. O difícil e o delicado é controlar e modular (moderar) essas reações. Há pessoas e grupos agressivos.

São Vicente reagia fortemente à vista das doenças e da fome. Por isso e para isto fundou as Voluntárias da Caridade e as Filhas da Caridade. Foi criativo e vigoroso, não apenas reativo e contestatário.

Se a desencadearmos sem controle, a agressividade pode ser destrutiva, degenerar em violência e injustiça. Reprimida, pode tornar-se ressentimento, sarcasmo, cinismo, amargor e depressão (cf. Maloney, Robert P. Un chemin vers les Pauvres, p. 71). Pode também ser controlada, moderada, suprimida ou sublimada. Mário Quintana dizia que “a gente adoece mesmo é de nome feio recolhido”. São Vicente comentou que Jesus Cristo sabia moderar sua decepção com os apóstolos mas exprimia diretamente sua irritação contra os fariseus.

b) Mansidão supõe afabilidade e bondade. Supõe que mudemos nosso comportamento, como São Vicente dominou seu temperamento colérico e irritável, capaz de deprimir-se por longos períodos de dias, e se tornou modelo de calma, carinho, cordialidade, atenção e paciência com os últimos.

Recomendou calma, bondade e bem-querer sobretudo na hora de fazermos a correção fraterna. As pessoas preferem, naturalmente, ajuda benévola e amiga às palavras de acusação e censura.

c) A mansidão leva a suportar e perdoar as ofensas, de modo corajoso e por amor, e não por medo ou acomodação. Isto decorre do respeito fundamental que devemos às pessoas. Se, de um lado, podemos reagir fortemente contra os erros de uma pessoa, nem por isso, de outro lado, podemos ser injustos em nome da justiça. Um erro não pode justificar o outro. O povo diz, repetindo Santo Agostinho e São Vicente: O que não tem remédio remediado está. Suportar, com um mínimo de paciência, as amolações e os erros dos outros diminui o nível geral de nervosismo e irritabilidade.

O difícil, neste campo, é o equilíbrio. Parece que foi Milton Campos que disse, diante de um grupo exaltado de grevistas, que era necessário sair dali, bater em retirada, “nem tão depressa que parecesse medo, nem tão devagar que parecesse provocação”… Não podemos fazer cara boa, se não estamos contentes. Mas reação positiva e energia não significam necessariamente violência.

d) Na tomada de decisões, temos que evitar a pressa, evitar agir sob pressão, e também não agir tão tarde que perdemos a oportunidade que Deus nos envia. Temos que estabelecer metas e etapas e ir cumprindo-as, para não deixar as coisas irem correndo passivamente.

e)  Temos dois marcos no caminho, entre os quais precisamos agir: ter consciência dos próprios limites, suportá-los e querer superá-los com coragem e esforço e, por outro lado, ter consciência também das expectativas das pessoas, que não podemos frustrar. Isso é importante no momento de tomar decisões difíceis. Se uns vêem tudo negativo e outros vêem tudo positivo, não podemos visar agradar a todos com as decisões que tomamos. Uns querem ir pelo tradicional, outros querem explorar caminhos novos. As decisões atenderão a alguns, devendo os outros ser tratados com paciência e mansidão. Assim, não se perde ninguém: entre mortos e feridos não se perdeu nenhum. E a caridade é esse triunfo em que uns se sentem acolhidos e apoiados e os outros não se sentem rejeitados. Um bom campo para a busca do consenso. (Cf. Maloney, Robert P. Un chemin vers les Pauvres, p. 47-48 e 70-73).

E hoje também quero acrescentar umas observações a esta releitura da mansidão pelo Pe. Maloney.

a) Quando lemos as bem-aventuranças, segundo São Mateus, temos que evitar uma leitura fatalista, moralista, que instiga paciência neste mundo porque Deus vai corrigir tudo no mundo futuro… As bem-aventuranças não são uma pregação de resignação e submissão. São antes um evangelho, o anúncio de uma boa notícia, a provocação para uma vida moldada pela alegria e pelo otimismo, pelo dinamismo e pela esperança. Antigamente se lia: “bem-aventurados os mansos”, como se se referisse aos frouxos, aos bonachões, aos boa-paz, aos pasmados. Hoje se lêem os mansos como os que têm tanto domínio de si mesmos que não precisam avançar nos outros. “Bem-aventurados os pacíficos” significa os que são capazes de perder sua paz para construir a paz no mundo.

b)  Precisamos unir mansidão e firmeza, para termos os dois lados da medalha. São Vicente recomendava agir com mansidão e energia, com suavidade e força, com firmeza quanto aos fins e flexibilidade quanto aos meios. Do mesmo modo, esta distinção nos ajudará a tratar bem tanto os que estão maximamente convencidos do mesmo que nós quanto os que não estão nem aí com nada, os que vão empurrando as coisas com a barriga, com os quais não podemos normalmente contar, os que vão desistir apenas começadas as atividades… Às vezes, não será por má vontade, não nos adiantará acusá-los… Às vezes é simplesmente por falta de motivação, de maior conhecimento das coisas, por falta de jeito…

c) Há uma dificuldade especial em ser mansos quando nos esforçamos e conseguimos vencer-nos. Pelo próprio esforço feito, pelo fato de nos termos vencido em nossos medos e indecisões, em nossas preferências ou resistências, temos tantos mais motivos de nos impacientarmos com os outros, pelos outros, pela falta de esforço ou de resultados dos outros… E aqui entra uma razão muito séria, que explica muitas das dificuldades que temos na vida comunitária e apostólica, e é uma atitude que não reconhecemos com facilidade em nós mesmos. Essa impaciência que nos acomete, quando fizemos muito esforço para conseguir uma determinada atitude ou virtude, se não podemos contar com a mesma disposição nas outras pessoas, na realidade significa que é como se tivéssemos raiva de ter tido que fazer aquele esforço que os outros não precisaram fazer ou não foram capazes de fazer… Essa impaciência nos acusa de termos feito nosso esforço por uma motivação pouco clara, às vezes pouco teologal, um pouco por obrigação, muitas vezes sem um verdadeiro amor.

d) Trabalhar como se dependesse só de nós e confiar como se dependesse só de Deus, como vimos na meditação anterior. Precisamos ter cuidado, neste caso, para não pensar que, se nós mesmos não fizermos pessoalmente, os outros não farão, não vão querer fazer, não vão ser capazes de fazer. A impaciência que  se seguiria a esta conclusão infeliz nos levaria a tratar as pessoas com rudeza, com grosseria, como se se omitissem por má vontade ou por não terem chegado ao nosso nível de consciência. Era muito estranho quando alguns agentes de pastoral falavam na paciência histórica que devemos ter com os grupos, como se eles fossem uns pobres coitados e só nós tivéssemos consciência eclesial, escatológica, do Reino de Deus.

e)  Nesta meditação, nos textos de São Vicente, nos comentários do Pe. Maloney e nestes meus apareceram muitos nomes, além da própria mansidão, como cordialidade, paciência, bondade, calma, carinho. É sinal de que a mansidão cobre, indica, sugere, desperta e promove outras virtudes, outros modos de viver e provar nosso amor aos Pobres e a Deus. Cada um de nós poderá ir descobrindo, na sua oração e nas revisões feitas com sinceridade após as atividades apostólicas, quais são as maneiras como a mansidão se concretizará, se manifestará em nossa vida.

Caraça, 29 de dezembro de 2008

Rio de Janeiro, 3 de fevereiro de 2009

Pe. Lauro Palú, C. M.