As Virtudes Vicentinas

Pe.  Lauro Palú, C. M.

FIDELIDADE CRIATIVA

IMITAÇÃO, SEGUIMENTO E TRADIÇÃO

São Vicente vai à nossa frente, como nosso orientador e guia, modelo na missão e modelo na vida. Por mais que desejássemos, não poderíamos repeti-lo em sua existência, em suas ações. Mais que imitar, devemos seguir São Vicente.

Nos anos recentes, a Vida Consagrada, sob as várias formas de vida contemplativa, de vida ativa ou de vida apostólica, passou por um esforço sincero de renovação. Entre os vários nomes sugeridos para o esforço gigantesco que se fez, às vezes sobre estruturas milenares, falou-se em atualização, renovação, mas sobretudo em fidelidade criativa. Trata-se de continuar o Fundador, de conservar o que ele iniciou e de manter fortes e vivos o carisma e a espiritualidade correspondente. Os tempos amadurecem, o Espírito de Deus suscita constantemente na Igreja e no mundo novas formas de vida, novas respostas às necessidades de cada momento. Tradicionalmente se diz que, quando um Missionário chega a um lugar, o Espírito de Deus já está lá, trabalhando nos corações, na religiosidade popular e nas culturas locais. Neste nosso assunto, podemos igualmente dizer que Deus nos espera em nossa caminhada, e sempre à frente, não no passado, mas abrindo portas e estimulando o futuro.

Fidelidade criativa significa isto: queremos permanecer na identidade original, atentos ao que Deus suscitou na Igreja, num determinado tempo, por um dos seus santos, e também sentimos a responsabilidade de atualizar essa identidade para as situações mudadas do mundo de hoje, sempre tão diverso do que foi o tempo passado. Sentimos, naturalmente, que ficaremos fiéis à identidade original, se evoluirmos com o mundo, com a Igreja, com as culturas. Mas não se trata de uma evolução qualquer, de mudar por mudar, de sair inventando adoidadamente novidades. Temos duas linhas de força: a estrutura dorsal do que Deus suscitou e continua suscitando na Igreja e a evolução rumo ao futuro.

A criatividade, a imaginação, a inventiva, tudo são manifestações do Espírito sempre criador de Deus. Criaremos em que direção? Já mencionei que é em relação ao futuro, ao que Deus espera de nós, onde Deus espera por nós. Mas é também em relação ao passado, porque é na continuidade com as origens que asseguramos a fidelidade ao que Deus suscitou e quer ver continuado e frutificando na Igreja.

Aqui entra o conceito sadio de tradição. Tradição não são as velharias correntes nas instituições que já duraram muito. Traditio é um ato de entregar alguma coisa a alguém. Tradição é o que recebo vivo dos que me precederam e o que entrego vivo aos que me seguirão.

Então, a fidelidade criativa é esse respiro de Deus, essa renovação periódica e seguida do corpo da Igreja, de suas instituições, ao longo dos séculos, por obra e graça dos espíritos atentos e apegados às suas origens, corajosos, abertos aos desafios, esperançosos, esforçados em relação ao que Deus continua suscitando e esperando de nós.

Não repetiremos São Vicente, não imitaremos São Vicente, mas o seguiremos fielmente e com criatividade.

MUDANÇAS QUE HOUVE NA VIDA DO PRÓPRIO SÃO VICENTE

São Vicente mesmo comentou algumas delas, que conhecemos bem. No início, por exemplo, estava muito preocupado com um bela carreira e com dinheiro. Chegou a sentir vergonha do pai dele, quando foi visitá-lo onde estudava, porque o pai era manco. São Vicente era impulsivo, como se vê na história de seu cativeiro na África. Era inclinado à melancolia e teve que trabalhar muito suas susceptibilidades, para poder ser um bom missionário, aberto aos Pobres e respeitoso deles. Levou muitos anos sem rezar nenhuma vez para que Deus mandasse mais Coirmãos para a pequena Companhia, até que um dia se convenceu da insistência de Cristo, no Evangelho: peçam operários para a messe. Mudou em relação aos votos, em relação ao trabalho nas grandes cidades, em relação à direção das mulheres, religiosas ou leigas. Mudou muito, graças a Deus.

A Congregação também mudou muito, graças a Deus, e com as bênçãos do Espírito Santo, por exemplo depois do Concílio Vaticano II, quando a Igreja estimulou um período de experiências e fixou datas para a revisão e modificação das Constituições e Estatutos das Ordens e Congregações,  das Sociedades de Vida Apostólica e dos Movimentos aprovados para a vida e a santificação dos cristãos. Os dois exemplos do art. 1º das Constituições são muito claros: Onde São Vicente (nas Regras Comuns I, 1) dizia evangelizar os Pobres, mormente os camponeses, a Congregação definiu evangelizar os Pobres sobretudo os mais abandonados, onde quer que se encontrem, nos campos ou na periferia das cidades, nas favelas, nos cortiços dos centros históricos abandonados, nas ruas, debaixo das pontes, onde se escondam, como, aliás, São Vicente fazia com o que chamava de nobreza envergonhada. Onde São Vicente escreveu ajudar os eclesiásticos a adquirir as ciências e virtudes necessárias ao seu estado, a Congregação escreveu:ajudam os clérigos e os leigos na sua própria formação e os levam a participar mais plenamente na evangelização dos Pobres.

MUDANÇAS QUE HOUVE DO SÉCULO XVII ATÉ HOJE

Nos seus livros e numa quantidade de artigos, o Pe. Robert P. Maloney, ainda antes de ser nosso Superior Geral, usou um mesmo método para falar das coisas de nossa vida vicentina. No seu primeiro livro, que foi traduzido como O caminho de Vicente de Paulo, ele escreveu dois capítulos sobre as virtudes vicentinas e sobre os votos. Sempre em três partes: O que São Vicente falou ou escreveu sobre tal ponto; as mudanças que houve do século XVII até hoje e o modo como devemos falar hoje sobre tal virtude ou tal voto.

Não se trata de escolher o que desejamos conservar, do pensamento de São Vicente, mas sim de sermos coerentes e exigentes, em relação ao que ele disse, e de ser corajosos para aplicar em nossa prática o que ele ensinou. Lembro-me de um exemplo: São Vicente falou muitas vezes em ver Jesus Cristo na pessoa do Pobre. O texto mais conhecido é aquele do “Virai a medalha e vereis que o Filho de Deus nos é representado por esses Pobres”. Uma vez, pregando um retiro às nossas Irmãs, em Portugal, quando eu disse que devemos ver o Pobre enquanto pobre e servi-lo com o amor de Deus (e não por amor de Deus mas por amor a ele mesmo, por ser pobre e necessitado), uma Irmã me disse: “Que pena, Padre. Era tão bom quando eu podia ver Jesus Cristo no Pobre”. Outra Irmã ajuntou que jamais entendera isso e nunca havia conseguido ver Jesus Cristo no Pobre…

São Vicente tem as duas expressões. Na leitura que ele faz do juízo final, comenta que Jesus Cristo considerará feito a ele mesmo o que nós tivermos feito ao Pobre. E ponto final.

Com o respeito às pessoas que a antropologia e a teologia de hoje nos ensinam, não posso mesmo, não devo de modo algum, usar o Pobre como meio para chegar a Deus, servir-me do Pobre para me encontrar com Jesus Cristo.

Agora, sabemos concretamente que é muito mais difícil, muito mais duro, muito mais exigente, servir o Pobre por ele mesmo, apesar de sujo, grosseiro, etc., todos aqueles adjetivos que São Vicente usou, do que servi-lo porque ele é Jesus Cristo. Não uso o Pobre para ganhar o céu, como também não fujo dele por medo de ir para o inferno. Se temos mesmo fé no que São Vicente fazia e nos ensinou, teremos a coragem de usar meios pobres para servir os Pobres, a coragem e a honradez de jamais nos servirmos dos Pobres para nos afirmarmos.

Sabemos que São Vicente falava de olho no auditório a que se dirigia. Adaptava a argumentação, conforme as disposições das pessoas a quem falava. Ou conforme o que desejava confiar a um determinado Coirmão ou a uma Comunidade. Assim, argumentava em favor dos seminários ou em favor das missões, para levar o Coirmão a aceitar tal ou tal colocação.

Seu pensamento, por isso, é variado, cheio de matizes, prático e estimulante. São Vicente estava seguro do que desejava, em geral, mas ele mesmo comentou muitas vezes a freqüência com que pedia conselhos e orientações às pessoas que julgava capazes de o iluminar, desde os Bispos aos Irmãos encarregados  de tal ou tal ofício.

Do tempo dele para cá, mudaram muito as coisas. O Pe. Maloney citou as seguintes mudanças, do século XVII até hoje:

– Passamos, em todos os continentes, das economias nacionais para uma economia mundial.

– Estamos passando rapidamente de uma sociedade industrial a uma sociedade de informação.

– No mundo inteiro, simbolizado pelas redes de informação (Internet), há uma crescente consciência de interligação e interdependência.

– Deslocamento (do mundo e da Igreja) do Norte para o Sul.

– Seja na filosofia, seja na sociologia ou na política, hoje a pessoa deixa de ser vista primariamente como um indivíduo; os próprios sistemas culturais, políticos e econômicos passam a vê-la como essencialmente social.

– Do mesmo modo, no jeito de ver o mundo e seus processos, ocorre uma mudança de um modo essencialista ou estático a outro modo, histórico ou dialético, que procura descobrir e levar em consideração os fenômenos que ocorrem no mundo inteiro em seu processo ou desenvolvimento.

– Visão global do mundo.

– Nas escolas, nos meios de comunicação, na vida diária, por toda a parte, se discute o que interessa à vida das pessoas (guerra, movimentos pacifistas, aborto, eutanásia, pena de morte) e à vida do próprio mundo (ecologia).

– De uma época em que se consideravam as coisas na linha das causalidades diretas, passamos a outra em que se levam em conta as causas secundárias e a independência pessoal.

– No aspecto religioso, a teologia não se constrói mais a partir do alto, mas das bases: fala-se, por exemplo, na leitura que os Pobres fazem da Bíblia. Há preferência por uma cristologia e uma eclesiologia a partir das bases. Mudou a metodologia na filosofia e na teologia.

– Uma mudança da “era da cristandade” para a “era secular”.

– Há um modo novo no exercício da autoridade: já não se acredita num esquema vertical de autoridade e obediência, mas se entende e se estimula a obediência como uma busca em comum, sob a coordenação da autoridade (é o seu serviço específico), da vontade de Deus, que devemos realizar com nossa ação responsável e autônoma no mundo.

– Uma crescente consciência de interdependência.

– Uma atitude mais positiva em relação à criação e uma ênfase menor sobre o pecado.

– Erosão das estruturas familiares e da moralidade sexual.

– Liberação integral.

– Uma maior esperança de vida. Tendência a fugir da realidade da morte. Progressos na medicina para aliviar a dor. A cultura da juventude. (Op. cit., p. 59-66, 110-119).

Na pastoral e no modo de trabalhar com os Pobres na promoção e na evangelização deles, nossa reflexão incorporou umas verdades, uns princípios teológicos e uns métodos catequéticos que marcam e identificam especificamente para o momento atual o modo de agir de um vicentino:

a)   Seguimos Cristo, evangelizador dos Pobres.

b)  Fazemos, com a Igreja, uma opção pelos Pobres; só, que esta opção, para nós, não é apenas preferencial, mas fundamental.

c)   Acreditamos na união entre evangelização e ação social, como partes constitutivas do plano de salvação integral que Deus tem para cada homem.

d)  O Papa nos pediu que trabalhássemos com ousadia, humildade e competência na busca das causas da pobreza e na busca de soluções concretas.

e)   Isto supõe e exige um profundo conhecimento da doutrina social da Igreja e uma verdadeira especialização nela.

f)    Devemos estudar muito especialmente os efeitos do pecado sobre as estruturas sociais.

g)   Estudaremos com muita atenção os aspectos sistemáticos da justiça e da injustiça, não as vendo como fatalidades mas como frutos de nossas opções políticas, econômicas, culturais, sociais e mesmo religiosas.

h)   O descobrimento das novas formas de pobreza deve levar-nos a combatê-las e a buscar novos meios e novos agentes de serviço dos Pobres.

i)    Os Pobres não serão só objetos do nosso zelo mas sujeitos da evangelização.

j)    Para isso, trabalharemos de modo que formemos comunidades cristãs de base, onde cada pessoa possa ser ajudada a realizar-se, onde seja ajudada em sua evangelização e de onde parta para trabalhar na evangelização dos outros.

FATORES QUE LEVAM A OUTRAS LEITURAS DAS CINCO VIRTUDES

Além desses fatores já apresentados, há outros que influem necessariamente em nosso modo de entender e viver as cinco virtudes vicentinas. Fazem parte de nossa história pessoal, de nossas vivências comunitárias, das vicissitudes de nossas Casas e do destino histórico de nossa Província.

Reparem, por exemplo, no que ocorreu, em nossa Província, com a formação dos nossos. Tivemos uma escola apostólica no Caraça, outra em Irati, uma terceira em Fortaleza, de onde vinham nossos candidatos ao Seminário Interno. Também nos vieram muitos dos Seminários de Diamantina, Mariana, Assis, Aparecida, etc. Os professores eram nossos próprios Coirmãos, ajudados, muitas vezes, por padres, cônegos e monsenhores e mesmo por alguns professores leigos. No Caraça estudávamos cinco línguas, embora nem todos aprendessem todas: português, latim, grego, francês e inglês. Em Petrópolis, mais o hebraico. Não tínhamos quase nada de pastoral, fora do seminário, quase só algum catecismo no seminário e alguma aula em colégios municipais. Tínhamos exames escritos e orais. Se nos exames escritos caíam os pontos mais importantes, nos orais poderiam perguntar-nos até as notas de pé de página; tínhamos que estudar e estudávamos tudo. E isso nos dava uma base cultural muito vasta, bastante diversificada, com a certeza de que não saltávamos nada… Quando cursei Pedagogia e Administração Escolar na Universidade Santa Úrsula, no Rio de Janeiro, se eu tivesse nota 8 nos trabalhos feitos e nas avaliações que houvesse, se já estivesse com 75% da presença na matéria, não precisava fazer exames finais nem continuar freqüentando as aulas… Quer dizer que acumulei muitas lacunas, não li tudo, não ouvi tudo, não aprendi tudo. Posso ter aprendido muito pouco, embora me dedicasse a fazer bem meus trabalhos, com que me safava do resto…

A formação que recebíamos antigamente era muito funcional, pois se destinava a preparar-nos para as funções que desempenharíamos em seguida, logo depois de ordenados: íamos ser Professores em Diamantina, maior e menor, em Mariana, maior e menor, em Fortaleza, maior e menor, no Barro Vermelho ou no Caraça, em Curitiba, em Brasília, em Assis, em Aparecida, menor, etc. Alguns iriam para as Missões, em Diamantina; uns iam para o Colégio de Irati, alguns passaram a ir para o Colégio São Vicente no Rio; um que outro foi para estudos no estrangeiro; alguns já entravam de ecônomos nas Casas. Íamos lecionar as matérias cujos professores faltassem, por transferência ou morte, algum por aposentadoria e doença.

Tal preparação nos condicionava de modo diferente, em relação aos que chegam hoje para a Província. Como vivíamos internos, sem quase nada de pastoral, tínhamos tempo de ouvir ler no refeitório e cada dia nas meditações e muito fortemente nos oito dias de retiro anual, quase todas as conferências de São Vicente, e suas biografias, e estudos sobre os santos e beatos da Congregação, etc. O que se dizia das cinco virtudes ouvíamos o tempo todo, era objeto de nossas revisões, das acusações pessoais e dos atos de correção fraterna nos capítulos e na amizade sincera.

E nem por tudo isso aprendíamos tudo e praticávamos tudo que São Vicente nos deixou como exercícios e meios de nos formarmos.

Ter estudado no Caraça distinguia alguns, que levavam um cabedal às vezes mais diversificado ou mais completo. Inclusive isso nos dava certa sensação de superioridade em relação a quem não tivesse tido por mestre um Padre Cruz, a quem tivesse tido como professor de grego ou de hebraico o Coirmão recém-chegado que pegou as matérias que estavam vagas: teologia dogmática, geografia, aritmética e caligrafia…

Hoje, com a diversificação dos lugares onde estudam os nossos, abriu-se um campo grande para começarmos a aceitar correção em português, dúvidas na liturgia, dificuldade no canto, pouca prática nos economatos e problemas na administração das Casas.

Do mesmo modo, nossa formação, muito completa pelos livros, se ressentia da falta de mais prática pastoral. Assim, ocorreu, quando a Província foi tendo que deixar pouco a pouco seus vários seminários, que alguns Coirmãos foram arranjando serviços em dioceses e paróquias, ministérios para os quais não estávamos habilitados ou preparados. Aí se vê como a formação inicial condiciona a prática pastoral e também condiciona a prática das cinco virtudes vicentinas que são o nosso assunto.

Enfim, quero citar dois exemplos de preconceitos claros de que tomei conhecimento recentemente e que elaborarei na linha da reflexão desta meditação, sobre as mudanças que há no mundo e que influem no modo de praticarmos nossa identidade e nossas virtudes vicentinas… Já antigamente se dizia que brasileiro não tinha vocação, porque nossos calores tropicais seguramente dificultariam a vivência da castidade consagrada… O primeiro exemplo é este: Agora alguns começaram a notar que “nossa Província está ficando meio morena”… O segundo exemplo é este: “O Conselho Provincial virou uma creche, uma criançada”… Como se todos devêssemos ser muito branquelos, como se só os mais idosos tivessem juízo. Quem já sofreu no coração o preconceito por sua cor sabe como a mansidão às vezes dói… Quem se sentiu desprezado por ser baiano ou “baiano” sabe que a humildade não tem nada a ver com a humilhação. Quem amargou a pobreza na infância precisa ser ajudado a fazer uma opção pela pobreza, não só pelos Pobres. Posso ser revoltado contra a pobreza, querer mal aos ricos, mas nem por isso amar minimamente os Pobres.


APLICAÇÕES AOS VOTOS E ÀS CINCO VIRTUDES

Uma visão mais positiva da pessoa, da sua sexualidade, uma ênfase menor em nossa pregação sobre o pecado influem no nosso modo de considerar o voto de castidade e sua prática. Ser menos temerosos das amizades, valorizar o companheirismo, não viver preocupados em ver em tudo amizades particulares ou excessos de afetividade, isso ajudará a termos amizades abertas e sadias, sem preferências, sem exclusivismos, sem ciúmes e possessividades…

Uma visão mais respeitadora das pessoas como sujeitos levará nossos superiores e todos nós a nos tratarmos com mais adultez, a confiar mais nas pessoas, a ter mais simplicidade nas nossas motivações, a ser mais autênticos em nossas palavras e mais coerentes em nossas ações.

O valor de cada pessoa aumentará o valor da Comunidade. Dará outro gosto à nossa participação nas reuniões da Comunidade, da Província, às reuniões com os leigos nas paróquias, etc. E como gostamos de ser valorizados e acolhidos quando damos nossa opinião, também passaremos a dar maior valor à contribuição de cada um dos que nos ajudam nas obras a que nos dedicamos.

Não mais aceitando o esquema vertical da obediência, entenderemos a força que há em buscarmos em comum descobrir o que Deus quer de nós na Comunidade e em nossas obras, entenderemos o que é o esforço de ouvir cada um, para discernir, no conjunto dos pontos de vista, o que Deus está falando à comunidade e pedindo a cada um de nós. Para não deixarmos de dar nossa contribuição, faremos mais esforços para preparar bem nossas reuniões, para dar sempre nossa contribuição, para estar abertos e acolhedores em relação às opiniões dos outros, para ter o gosto de empreender as coisas em comum, como companheiros que se dão as mãos, que dão mãos à obra, que se dão a Deus para o serviço, crendo na força da comunidade, nessa dimensão renovada do zelo, nesse caminho de humildade, nesse campo em que a mortificação fica sendo um modo de trabalhar em conjunto, de sentar-nos a planejar detidamente, para executar com rigor e técnica, para avaliar com lealdade, etc.

No seu primeiro livro, o Pe. Robert P. Maloney escreveu: “O objetivo desta primeira parte (em que fazia a releitura das cinco virtudes para os dias de hoje) consiste em descobrir a substância das cinco virtudes, em eliminar as formas que já não são apropriadas ao mundo moderno e em sugerir as formas modernas que essas virtudes poderiam tomar. Bem entendido, nem todas as formas de que essas virtudes se revestiam no século XVII têm que ser rejeitadas; um bom número delas ainda pode ser aplicado, mesmo hoje. Por outro lado, certas formas, assim como a linguagem que se usava já não têm lugar hoje, por causa das mudanças que houve nestes séculos e pelas circunstâncias. Apareceram novas formas para exprimir a substância dessas cinco virtudes” (Un chemin vers les Pauvres. Spiritualité de Vincent de Paul. Trad. par Raymonde Dubois. Paris, Desclée de Brouwer, 1994; p. 60).

Vamos continuar este esforço com cada uma das cinco virtudes, nas próximas meditações.

Rio de Janeiro, 29 de outubro de 2008

Pe. Lauro Palú, C. M.

QUARTA MEDITAÇÃO

A SIMPLICIDADE

O QUE SÃO VICENTE DIZIA DA SIMPLICIDADE?

Na conferência de 22 de agosto de 1659, São Vicente falou das cinco virtudes fundamentais, comentando o art. 14 do capítulo II das Regras Comuns. Sobre a simplicidade falou assim:

“A simplicidade consiste em fazer todas as coisas pelo amor de Deus e não ter outro objetivo, em todas as suas ações, a não ser sua glória. Eis propriamente o que é a simplicidade. Todos os atos desta virtude consistem em dizer as coisas simplesmente, sem duplicidade, nem sutilezas; ir em frente retamente, sem dar voltas e usar de subterfúgios. A simplicidade, pois, é fazer todas as coisas pelo amor de Deus, rejeitar toda combinação, porque a simplicidade diz negação de toda composição. É por isso, já que em Deus não há nenhuma composição, que dizemos que ele é um ato muito puro e um ser muito simples. É preciso, pois, banir todo tipo de arranjo, para não ter em vista senão Deus. Ora, meus irmãos, se há pessoas no mundo que devem ter esta virtude, são os missionários, porque toda a nossa vida está dedicada a exercer atos de caridade, seja em relação a Deus, seja em relação ao próximo. E para Deus e para os outros é preciso ir simplesmente, de sorte que, se há coisas que temos de fazer, que se refiram a Deus e que dependam de nós, é preciso evitar as sutilezas porque Deus só se compraz com as almas simples e só comunica suas graças a elas. Se consideramos nosso próximo, como devemos assisti-los corporal e espiritualmente, bom Deus! É preciso cuidar para não parecer cautelosos, espertos, astuciosos, e jamais dizer uma palavra de duplo sentido. Ah! Como isto deve ser estranho a um missionário!

Parece que Deus, no tempo de hoje, quis que uma Companhia tivesse esta virtude, porque o mundo está mergulhado na duplicidade. Dificilmente se encontra hoje em dia uma pessoa que fala como pensa; o mundo está tão corrompido que só se vê por toda parte artifício e dissimulação. (…)  Ora, se há uma comunidade que deva fazer profissão de simplicidade, é a nossa, porque, vejam bem, meus irmãos, a duplicidade é a peste do missionário; a duplicidade é a peste do missionário, a duplicidade lhe tira seu espírito; é o veneno e a peçonha da Missão não ser sincero e simples aos olhos de Deus e das pessoas. A virtude da simplicidade, pois, meus irmãos, a simplicidade, meus irmãos, como isso é bonito!  (…) A simplicidade! Ah! como é admirável esta virtude! Ó Deus, dai-nos esta virtude!” (SVP XII, 302-304).

Numa quantidade de outras ocasiões, antes e depois dessa conferência de 1659, São Vicente falou da simplicidade, multiplicando os exemplos para a compreensão e assimilação dos Coirmãos.

Segundo São Vicente, simplicidade significa, antes de tudo, dizer a verdade, dizer as coisas como são, sem dissimular nem ocultar nada (Regras Comuns, II, 4; I, 144, 284; V, 464; XII, 172). O coração não deve pensar uma coisa e os lábios dizerem outra. Devemos evitar as frases de duplo sentido, a duplicidade, a dissimulação, as espertezas (II, 340; IX, 81, 605; XII, 172). Devemos referir-nos sempre a Deus (RC II, 4), com pureza de intenção (XII, 172), fazer tudo por amor de Deus, sem respeito humano, sem outra intenção (II, 315, 340; XII, 174). Jamais devemos fazer uma coisa para ser promovidos ou para mudarmos de missão (II, 314).

Na pregação, a simplicidade levará a explicar as coisas de modo compreensível, por comparações do dia-a-dia, usando, sempre que possível, o pequeno método: falar da natureza de tal virtude ou tal pecado, dos motivos para praticar a virtude ou evitar o pecado e dos meios para conseguir isso (XI, 260).

São Vicente escreveu: “É a virtude que mais amo e a que presto mais atenção em minhas ações; e, se posso dizê-lo, posso afirmar que nisto consegui algum progresso, pela misericórdia de Deus” (I, 284). “Pelo que se refere a mim, não sei, mas me parece que Deus me dá uma tão grande estima da simplicidade que a chamo meu Evangelho. Sinto uma especial devoção e consolação em dizer as coisas como elas são” (IX, 606).

Como conseqüência da simplicidade, devemos levar um estilo de vida despojado: Usar com simplicidade o que nos dão (IX, 607) e não ter os quartos cheios de móveis supérfluos, de imagens, de muitos livros e objetos fúteis e inúteis” (XII, 175).

A simplicidade anda junto com a humildade (I, 144) e a prudência (RC II, 5). Precisamos basear nossos juízos nas máximas do Evangelho e no modo como Jesus Cristo julgava as coisas e as pessoas (XII, 169, 176).

Os motivos de ser simples, segundo São Vicente:

– É o próprio espírito de Jesus Cristo (IV, 486).

– Deus é simples, comunica-se com as pessoas simples (RC II, 4: II 341; XII, 170). A duplicidade não agrada a Deus (IV, 486). Onde há simplicidade, aí está Deus (XI, 50).

– Todo mundo gosta de uma pessoa simples (XII, 171); é entre os simples que se conserva a verdadeira religião (XII, 171).

– Deus deseja que a Congregação viva esta virtude (XII, 303), porque trabalhamos no meio de um mundo cheio de duplicidade. Pela simplicidade, agradamos a Deus e ficamos próximos das pessoas (acessíveis).

Como meios para sermos simples, São Vicente apresenta os seguintes:

– Obedecer às regras para agradar a Deus, não aos superiores (IX, 444); obedecer sem ficar questionando tudo (IX, 605).

– Falar aos Superiores sempre abertamente, sem procurar esconder o que é embaraçoso e incômodo (IX, 606; X, 64, 96, 146, 355).

– E fazer freqüentemente atos de simplicidade (XII, 181).


O QUE DIZER HOJE DA SIMPLICIDADE?

Se atentamos para a substância do que São Vicente queria, podemos seguramente deixar de lado alguns dos exemplos e das práticas que sugeriu, vistas as mudanças que houve do tempo dele até hoje.

Com o método indutivo tomando o lugar do método dedutivo, originou-se um crescente pluralismo de pensamentos e culturas. Hoje nos interessa e motiva mais a busca da verdade que a posse da verdade. O grande desafio hoje é criar ou encontrar formas novas de viver a simplicidade.

Pe. Maloney relê a simplicidade como: dizer a verdade, testemunhar a verdade, procurar a verdade, estar na verdade, praticar a verdade no amor; ainda fala da simplicidade como integração de nossa personalidade e como simplicidade de vida. Usarei estas sugestões e partirei delas para comentar a simplicidade.

a) A verdade é o objetivo final de nossa inteligência, de nossa vontade e da capacidade criativa que temos. É também o fundamento de toda convivência humana, baseada na confiança, na lealdade das relações entre nós. Cristo se definiu como a verdade (Jo 4, 6), prometeu-nos o Espírito Santo que nos levaria à verdade plena (Jo 16, 13). A verdade nos torna livres (Jo 8, 32). Cristo veio testemunhar a verdade e quem é da verdade escuta a sua voz (Jo 18, 37).

Para sermos simples, devemos agir sempre sem esconder nada. Simples, pela etimologia, é algo sem pregas, sem dobras. É a pessoa que não tem dissimulação, que não esconde nada, não tem nada a esconder. A verdade de nossos votos, por exemplo, é a fidelidade na prática do que prometemos por nossa castidade, pela pobreza e pela obediência, para estarmos, até o fim de nossas vidas, no serviço dos Pobres, aos quais somos enviados e a quem servimos nas obras que a obediência nos confia.

A verdade é fundamental nestes pontos: na prática dos votos, nas nossas amizades, no nosso comprometimento no serviço dos Pobres, na direção espiritual e nas nossas confissões. Na direção e nas confissões, descobrimos os “cantos” de nossa alma que precisamos evangelizar, aos quais devemos levar a luz e a liberdade que nos vêm do Evangelho.

b) Para testemunhar a verdade, precisamos ser os primeiros ouvintes do que nós pregamos. Há dois perigos na nossa pregação: repetir sempre o mesmo, meio século depois de o ter aprendido… ou então só ter coragem de pregar o que já demos conta de viver ou o que vivemos habitualmente. Hoje as pessoas são levadas a crer muito pouco no que dizem os políticos, os líderes, os partidos, os meios de comunicação de que eles se servem… O povo se dissocia dos políticos mentirosos e tem certo instinto para se prevenir contra os que nos enganam sistematicamente.

Mas temos, neste campo, muitos problemas, com a rejeição de muitas posições da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), do Vaticano, da Conferência dos Religiosos do Brasil (CRB). Talvez não notamos que os meios de comunicação apresentam sempre negativamente o que o Papa e os Bispos dizem, por exemplo, em material social, sobre a sexualidade, etc. E nos pomos na oposição, já não pregamos sobre esses pontos, deixamos o povo de Deus desamparado, desnorteado, à mercê dos lobos que se introduziram no meio do rebanho…

E entretanto alguns continuam a crer até cegamente no partido que os empolgou na juventude; nem todos foram capazes de se dissociar, como Frei Betto ou Dom Mauro Morelli, quando viram os rumos que foram tomando as coisas no Brasil…

Para testemunhar a verdade, vamos precisar da coragem de ler atrás dos fatos as intenções que os deturparam. Muitos dos analistas políticos se perguntam pelas causas da popularidade do presidente. Precisamos estar atentos aos mecanismos postos em ação para nos levar na conversa: quando o presidente e alguns de seus ministros falavam no espetáculo do crescimento, estavam se esquecendo de que não somos público, somos povo. Espetaculo é para um público a quem se mostram coisas. Povo quer é cidadania e não espetáculo.

c) Buscar a verdade tem sido um dos fatores de renovação da obediência religiosa. De fato, obedecer, oboedire, não é só e sempre fazer o que os Superiores nos mandaram. “Ob audire” significa inclinar-se para ouvir melhor o que nos dizem as pessoas com quem convivemos, as pessoas com quem trabalhamos. Num dos seus artigos, o Pe Maloney escreveu que a última palavra que se dizia tradicionalmente que cabe ao Superior, não é a dele contra a de todos os membros da comunidade, mas é a palavra de conclusão, de síntese, de fechamento do que se discutiu e discerniu, se avaliou e se decidiu, se quis e se planejou.

Em todos os nossos campos de atuação, há verdades complementares. Não há só uma maneira única de ver as coisas. Quanto mais abertos estivermos na procura da verdade, mais atentamente ouviremos as pessoas, mais as procuraremos para trocar idéias e discutir, mais leremos e nos instruiremos. Com isso, se tivermos um pensamento mais orgânico e organizado, teremos uma participação mais atenta, mais acolhedora, mais generosa em nossas reuniões, nas avaliações do que fizemos ou os outros fizeram, nos planejamentos do que Deus parece estar pedindo de nós.

d) Estar na verdade é a pureza de intenção, a doação total nas mãos de Deus. Agimos sem pensar em aprovações, em promoções, em carreirismos, em conforto e dominação sobre os outros, em popularidade ou segurança financeira. Mesmo que não posamos ter sempre só uma intenção nos esforçamos para que o amor a Deus e o bem do próximo sejam os motivos dominantes de nossas ações. Isto exige que nos apliquemos, pessoal e comunitariamente, ao discernimento, para sermos donos de nossas ações e nossas motivações. É importante a oração como momento e como processo de busca da vontade de Deus. Quando as coisas vão bem e as pessoas nos admiram e louvam, é hora de ainda maior atenção às nossas motivações e ao modo como agimos. Para São Vicente, era sempre muito forte aquilo de São Paulo: “Se eu ainda procurasse agradar às pessoas, não seria servo de Jesus Cristo” (Gl 1, 10).

e) Praticar a verdade no amor: é tornar efetivo o amor afetivo, realizar obras de justiça e caridade, com criatividade e esforço. O Evangelho vai ser a prática do amor. Se pregamos a justiça, precisamos vivê-la, o mesmo com a solidariedade com os Pobres, o estilo de vida simples, a beleza da castidade e do celibato.

f) Integração de todo o nosso ser, numa personalidade realizada, aberta, feliz, capaz de trabalho, oração, comunicação e vida em comunidade, solidão madura e lazer recuperador. O processo de formação inicial e permanente deve levar-nos a essa integração de todo o nosso potencial, numa pessoa harmoniosa e feliz.

g) Por fim, a simplicidade como estilo de vida. É como alguns definem o conteúdo do voto de pobreza. De fato, como vicentinos, somos chamados a usar meios pobres para servir os Pobres, a partilhar o que temos e somos, nosso tempo, nosso próprio descanso, evitando o comodismo, a preguiça, a dureza de coração. Cada um de nossos votos pode ser um modo de sermos solidários com os que sofrem, por exemplo, na solidão das cadeias ou dos leitos de hospitais, na paciência na fila do INSS, de hospitais ou de repartições, na dureza das cadeiras das reuniões intermináveis em que tentamos ouvir o que Deus pede de nossas comunidades, na prontidão para acolher, aceitar e assumir as transferências que o Visitador nos pede e nos comunica.  Faz parte de nossa simplicidade sermos donos de nossas motivações, saber por que agimos, para que agimos, mas de fato não somos donos de nossas vidas, de nosso futuro, que pomos corajosamente nas mãos de Deus, mais ainda, no coração de Deus. [Até aqui, as sugestões do Pe. Maloney, op. cit., p. 42-44 e 61-66].

Acrescentarei umas observações pessoais, depois desta releitura da simplicidade, feita pelo Pe. Maloney.

a) A primeira coisa a notar é nossa necessidade de afirmação pessoal. O mundo das comunicações imediatas não nos vê como pessoas, mas como consumidores. Para ouvirmos, põe a propaganda tão alto que a escutamos mesmo no intervalo do noticiário ou da novela, quando vamos ao sanitário ou à cozinha pegar mais uma cerveja. Fabrica-se o mesmo fósforo com dez rótulos diferentes, porque, quando um não parecer bom, compraremos do outro. Cria-se o mito do carro do ano, do computador mais veloz, do tênis de marca, associado ao triunfo, à velocidade, ao sucesso. Impõe-se um gosto musical pela repetição das mesmas músicas, que não angustiam, que não dão fossa, que se vendem em qualquer lugar, que se usam nas novelas, cheias de produtos vendidos durante a trama, claramente ou subliminarmente.

Mas esse mundo da comunicação imediata e total não nos conhece como pessoa, não nos respeita como pessoa. O máximo que faz é investigar, nas pesquisas qualitativas, o de que gostamos ou não gostamos, para ver como conseguirão impingir o que querem vender ou difundir, do dentifrício à sandália, passando pelo candidato ou pela aprovação do divórcio, das diretas já, do “fora, Collor”, do 3º mandato.

b) Um dos meios de conseguir poder, força, domínio sobre os grupos ou as pessoas, que às vezes usamos até conscientemente, é a agenda oculta, o rumo que queremos dar às conclusões de uma reunião. Podemos manobrar aberta ou escondidamente, mas sabemos onde vamos levar o grupo. É por isso que São Vicente falava em não termos segundas intenções.

c) Noto outro ponto lá no Colégio São Vicente: Nos Conselhos de Classe, alguns Professores ou Professoras fazem questão de se mostrar como os confidentes, aos quais os Alunos e Alunas contam seus segredos. Isso os torna conhecedores de mais dados, faz com que sejam vistos como os mais influentes, como os mais populares. Nem sempre é verdade, nem sempre souberam das coisas por os Alunos terem confiança neles; às vezes, foi por xeretarem a vida dos outros. Mas é uma das formas de se afirmarem ante os colegas.

d) Nem sempre somos corajosos para reconhecer nossas carências, nossa insegurança, o medo e a inveja das qualidades dos outros, que comprometem nossa autoestima. Mas, se não o fazemos, honestamente, às vezes de modo muito doloroso mas libertador, acabamos projetando sobre os outros nossos problemas, emperrando os processos pastorais, as decisões comunitárias, os avanços no trabalho. Por isso São Vicente insistia em falarmos tudo muito abertamente com os Superiores, mesmo o que seja mais embaraçoso. Nós precisamos e os outros precisam dessa libertação.

e) Ainda na linha da observação de São Vicente, de não termos segundas intenções, de ir a Deus por Deus, precisamos amar os Pobres por eles mesmos, não por Deus. Não se trata de amar os Pobres por amor de Deus, mas com o amor de Deus, de servi-los sem pensarmos em recompensas e céus… Não faremos nenhum comércio com Deus. Essa é de fato a pureza de intenção, o amor teologal, que tentaremos desenvolver em nós e nas pessoas com quem trabalhamos.

Caraça, 27 de dezembro de 2008

Rio de Janeiro, 3 de fevereiro de 2009

Pe. Lauro Palú, C. M.