As Virtudes Vicentinas

Pe.  Lauro Palú, C. M.

Caraça, 16-20 de março de 2009


ÍNDICE

1 . A EXPERIÊNCIA ESPIRITUAL DE SÃO VICENTE DE PAULO

São Vicente de Paulo é um convertido
Carisma e espiritualidade
O que São Vicente dizia dos Pobres?
O que dizer e fazer em nossas obras em relação aos Pobres?

 2 . AS VIRTUDES VICENTINAS

O que é uma virtude? Serve para quê?
Passar do conceito negativo à visão positiva de cada virtude
Dimensão profética das virtudes vicentinas

 3 – FIDELIDADE CRIATIVA

Imitação, seguimento e tradição
Mudanças que houve na vida do próprio São Vicente
Mudanças que houve do século XVII até hoje
Fatores que levam a outras leituras das cinco virtudes
Aplicações aos votos e às cinco virtudes

 4 – A SIMPLICIDADE

O que São Vicente dizia da simplicidade?
O que dizer hoje da simplicidade?

 5 – A HUMILDADE

A humildade na vida e no ensinamento de São Vicente
Como entender e viver hoje a humildade?

 6 – A MANSIDÃO

Como São Vicente falava da mansidão e a vivia?
Como entender e viver a mansidão nos dias de hoje?

7 – A MORTIFICAÇÃO

O que são Vicente ensinava sobre a mortificação?
Como falar da mortificação hoje?

 8 – O ZELO APOSTÓLICO

Como São Vicente falava do zelo apostólico?
Como falar do zelo hoje em dia?

PRIMEIRA MEDITAÇÃO

A EXPERIÊNCIA ESPIRITUAL DE SÃO VICENTE DE PAULO


SÃO VICENTE DE PAULO É UM CONVERTIDO

São Vicente de Paulo não nasceu feito, não nasceu santo. Ele é um convertido. Nascido numa família pobre, sentiu desde pequeno as limitações da classe social a que pertencia. Quando vemos as crianças de hoje, com as diferenças sociais gritantes entre elas, notamos imediatamente como a privação de alguns bens influi negativamente no desenvolvimento delas. Os Alunos do nosso Colégio São Vicente, no Rio, têm computadores em casa, numa proporção de 95 a 97 %. Quando organizamos o Domingão Vicentino, uma manhã que passam conosco as crianças e os adolescentes de algumas comunidades carentes, favelas ou creches que ajudamos, a maior alegria da meninada é ir aos laboratórios de informática e ficar brincando com os computadores, resolvendo problemas, jogando os jogos, pintando o sete. O Pe. Sílvio, vendo um dos nossos cartões de Natal, um menininho sentado com uma bola no pátio do Colégio, me escreveu de sua alegria por ver os mais pobres inseridos, integrados, nos ambientes em que estão as crianças mais favorecidas.

São Vicente nasceu na classe menos favorecida, soube perfeitamente o que era a pobreza, sentiu o desejo de ajudar sua Família, tentou por todos os meios subir na vida e, como ele mesmo dizia, conseguir uma retirada honesta e poder cuidar de sua mãe na necessidade e na velhice dela.

Mas Deus o surpreendeu nos seus projetos de subir na vida. Colocando-se sob a direção do influente Pe. Pierre de Bérulle (1575-1629), esperava, por suas recomendações, conseguir uma boa colocação. Aí apareceu a capelania da Rainha Marguerite de Valois, quando foi encarregado de distribuir as esmolas aos que vinham pedir à porta. Vieram a paróquia de Clichy, a capelania dos Gondi, a paróquia de Châtillon-les-Dombes, a volta aos Gondi e a função de preceptor dos herdeiros da família. E junto a essas idas e vindas, ocorreram a acusação de roubo, a difamação em Paris, a tentação contra a fé e o voto do serviço dos Pobres, especialmente o sermão de Châtillon com a visita à casa dos doentes, a confissão do velho de Gannes e o sermão de Folleville, origem, respectivamente, de suas duas primeiras organizações, as Confrarias da Caridade e nossa Congregação.

Entretanto, mais decisiva que esses fatos, sobretudo porque foi o que lhes deu a luz que iluminou São Vicente naquelas horas, foi a direção espiritual segura de Pierre de Bérulle, que foi o principal mestre da chamada Escola Francesa de Espiritualidade. Sua vida devia ser toda orientada para a adoração do Pai, que gerou o Verbo Encarnado e no-lo mandou como Redentor.

Quando se converteu e mudou de vida, entre os onze e os dezessete anos de Padre, São Vicente começou a trabalhar com os Pobres. Mais tarde, passou a trabalhar também com o Clero, para formar bons Padres que continuassem o trabalho dos Missionários e a assistência dos Pobres.

Foi muito bonito o que aconteceu com São Vicente: Primeiro, descobriu o Verbo Encarnado nos Pobres, que representavam para ele Jesus Cristo, e foi capaz de ver no rosto dos Pobres a face de Cristo, tão desfigurada como nos sofrimentos da Paixão e da Morte. Num segundo momento, descobriu que os Padres também lhe revelavam a face de Cristo, não o Cristo da Paixão, mas o Cristo adorador de Deus Pai, o Cristo posto ao serviço do desígnio de amor de Deus Pai, da sua vontade de salvar todos os homens em Jesus Cristo. Descobriu nos Padres que eles também eram o próprio Jesus Cristo, evangelizador dos Pobres.

Esse modo de ver os Padres como se fossem o próprio Jesus Cristo, na sua condição de adorador do Pai e de revelador do Pai e ao mesmo tempo de evangelizador dos Pobres, foi o que levou São Vicente a insistir tanto nalgumas coisas que pareceriam não ter tanta importância. Insistia, por exemplo, em que os Seminaristas e os Padres aprendessem e cantassem do melhor modo possível o canto gregoriano, aprendessem e celebrassem com o máximo capricho as cerimônias litúrgicas e aprendessem e pregassem a Palavra de Deus do modo mais perfeito, a fim de que os Pobres fossem de fato evangelizados e pudessem salvar-se. Com o canto, a beleza das cerimônias e a pregação da Palavra de Deus, os Padres seriam sem dúvida uma verdadeira presença de Jesus Cristo, Verbo de Deus.

Recomendou vivamente, aos Padres e Irmãos de sua Congregação, o esforço por revestir-nos do espírito de Cristo, para podermos cumprir nossa missão de adoradores de Deus, de servidores do seu desígnio de salvar todos os homens e de evangelizadores dos Pobres. E sobretudo ele mesmo se esforçou, mais que todos e primeiro que todos, por revestir-se dos sentimentos de Jesus, para continuar a missão de Cristo. Era de ver com que fervor São Vicente celebrava a missa, pregava a Palavra de Deus e rezava. Era de ver o zelo com que formou seus Padres e Irmãos na vida de oração e no serviço corporal e espiritual dos Pobres. Um exemplo definitivo para todos nós, seus seguidores, Padres, Religiosos ou Leigos dos vários ramos da Família Vicentina.

Esse descobrimento de Cristo, Verbo de Deus, encarnado nos Pobres e nos Padres é que deu unidade à sua vida.

Portanto, sua vida passou a ser toda teologal, fortemente marcada pela oração (adoração, agradecimento, súplica, intercessão, reparação), pelo Evangelho, pela Igreja (luta contra o jansenismo); totalmente comprometida com os outros, sobretudo os mais pobres (é só lembrar-nos do que dizia da comunhão das Filhas da Caridade, da oração pelos Pobres, das notícias que dava sobre os Pobres); uma vida decididamente orientada pelo Verbo e por seus valores, seus motivos, seus critérios, seus modos de agir.

 São Vicente compreendeu a Missão que Jesus recebeu do Pai, que Jesus deu à Igreja; e quis que nós, seus filhos, realizássemos a mesma Missão. Dizia que continuamos a missão de Jesus Cristo; Cristo quer continuar a fazer o que fazia durante sua vida, por meio de nós. Esse foi o seu carisma.

CARISMA E ESPIRITUALIDADE

O carisma de um santo é a graça específica que Deus lhe dá, é sua missão na Igreja, a obra que é chamado a executar, para a qual Deus o prepara e o dota de graças e bênçãos especiais, por exemplo, quando é fundador de uma Congregação, inspirador de movimentos, líder de  grupos que se empolgam pela mesma missão e querem continuá-la, vivê-la com ele e depois dele.

Já a espiritualidade é o modo como respondemos à graça do carisma, a maneira como nos preparamos para nossa missão, o que rezamos nas dificuldades, para superar o cansaço, o desânimo, as contradições, as decepções; é o modo como avaliamos, diante de Deus, os resultados de nossos trabalhos, visando a realização do Reino de Deus e não nosso sucesso, nossas promoções, nossa carreira. Espiritualidade é nossa vida de oração, o modo como preparamos nossos sermões e nossas homilias, o tempo que dedicamos a ler os textos bíblicos que vamos comentar no círculo bíblico, na reunião dos jovens, nos casamentos, nos batizados. Espiritualidade é nossa maneira de ver o mundo, iluminados pela fé, fortalecidos pelos bons resultados avaliados nas revisões e nas correções fraternas. É o que examinamos quando vamos nos confessar, o que agradecemos na oração depois da missa, as intenções que acrescentamos à oração dos fiéis e às preces do breviário.

Para São Vicente, devemos viver um tipo de vida como a de Cristo, para sermos capazes de cumprir a mesma missão. Por isso, devemos viver uma espiritualidade da encarnação. Deus nos pôs neste mundo, como Jesus Cristo, para a mesma missão: devemos revestir-nos de Jesus Cristo (assumir seus valores e critérios, seus motivos e seus modos de agir), para atuarmos como ele.

Nossa espiritualidade de vicentinos também é por isso uma espiritualidade missionária, que nos leva ao encontro das pessoas: ir aos outros, especialmente aos mais necessitados e aos mais difíceis, e conhecer cada um; desinstalar-nos, sair de nós, de nossos pontos de vista; procurar conhecer o que o outro é e o que o outro diz, na sua alteridade.

É também uma espiritualidade da presença: estima pessoal, presença amiga, confiança. Dar-nos aos outros, sem nos perdermos; acolher os outros sem os querer possuir.

Nossa espiritualidade é igualmente uma espiritualidade do serviço: na riqueza dos pormenores indicados por São Vicente para o serviço dos Pobres, especialmente dos doentes, descobrimos a delicadeza da caridade, a qualidade do serviço (exemplos: a carne que cortamos em pedacinhos se o doente não tem dentes, a toalhinha que pomos sobre a mesinha antes de os servir, o fato de visitar por último os que estão sozinhos, para ficar mais tempo com eles, etc.). Somos servidores, não somos empregados.

Por isso, devemos, todo o tempo, estar atentos ao valor das pessoas, das coisas, das próprias estruturas, se postas a serviço das pessoas e do Reino de Deus.

De tudo isto decorre a importância da inculturação, que deve marcar nossa espiritualidade vicentina. Assumir os valores das culturas e da religiosidade popular, nas quais já estão presentes as “sementes do Verbo”.

Devemos fazer as mesmas coisas que São Vicente fazia: não imitar ou repetir as mesmas coisas, mas seguir na mesma linha:

a) Nós, quem? Toda a Família de São Vicente: Padres, Professores, Funcionários, Famílias e cada pessoa ligada a nós, como missionários leigos, como voluntários de nossas obras, os alunos e as alunas, os jovens dos grupos, os que nos ajudam nas pastorais das paróquias e missões, cada um no seu modo de vida, na sua condição e profissão.

 b) Nós, onde? Sobretudo junto aos mais necessitados, ao coitado que ninguém escolhe para o trabalho de grupo e ninguém convida para nada, aos marginalizados, aos mais tímidos, aos mais distantes ou difíceis, aos que não reagem às nossas provocações nem à nossa ajuda. Em teologia e na pastoral, será no que foi chamado de deserto, de periferia e de fronteira, isto é, onde os outros não vão, onde há gente marginalizada, onde há situações de emergência e se precisam criar novas realidades.

c) Nós, por quê? Porque somos, como São Vicente e no seguimento dele, multiplicadores e formadores de multiplicadores.

d) Nós, como? Pondo-nos em conjunto a estudar os problemas como o das pobrezas e suas causas, engajando-nos na campanha assumida pelos líderes maiores da Família Vicentina de luta pela mudança de estruturas.

O QUE SÃO VICENTE DIZIA DOS POBRES

1 – São Vicente nos ensina como trabalhar com os Pobres. Tinha uma visão nada negativa do Pobre, imagem de Jesus Cristo (contra os pessimismos do jansenismo). Falava dos Pobres com um extraordinário espírito de fé:

– Os Pobres são os preferidos de Deus.
– Os Pobres são nossos amos e senhores.
– Vivemos do patrimônio dos Pobres.
– São eles que nos sustentam com seu suor e seu trabalho.
– Os Pobres são os membros sofridos de Jesus Cristo.
– É entre os Pobres que se encontra a verdadeira religião.
– São os Pobres que nos abrirão as portas do céu.
– É preciso servir os Pobres com um amor novo, com devoção, respeito, cordialidade, paciência, espírito de fé, inventividade.
– Devemos ir de preferência aos mais pobres e abandonados.
– Servindo os Pobres, estamos fazendo justiça e não misericórdia.
– Servindo os Pobres, estamos fazendo a mesma obra de Jesus, aquilo que ele veio fazer na terra, servir os Pobres e formar os apóstolos para servirem e evangelizarem os Pobres. Como párocos, vigários paroquiais, diretores das Irmãs, diretor e administrador do Colégio, catequistas e pregadores, participamos da dupla missão de Cristo, que veio servir e evangelizar os Pobres e formar os Apóstolos para continuarem sua missão junto aos Pobres.
– Para servir os Pobres devemos revestir-nos do espírito de Cristo.
– Devemos servir os Pobres e fazer que sejam servidos por outros, que associaremos a nosso trabalho evangelizador.
– Para servir um Pobre que necessite de nós com urgência, devemos deixar até a missa, mesmo em domingo e dia de preceito. O exemplo de urgência que São Vicente cita é este: um Doente que precisa dos sacramentos ou de algum remédio. O que permite comparar a hóstia consagrada com o emplastro ou a aspirina é que os dois são levados ao Doente. É por ser levado ao Doente que, no caso, o remédio tem tanta importância como o sacramento.
– Devemos ver no Pobre, no Doente, no Excluído, uma imagem de Cristo, tão desfigurada como ele estava na Paixão.
– Pela fé, devemos dar a volta na medalha e ver que Cristo está na pessoa do Pobre e considera como feito a ele o que fazemos ao Menor dos seus.

2 – Ao mesmo tempo em que São Vicente vivia esse extraordinário espírito de fé, tinha também um admirável realismo que o punha com os pés na terra e que hoje nos ajuda a ter o mesmo bom senso, para não idealizar o Pobre. Escrevendo ao Irmão Jean Parre, para que procurasse os nomes dos Pobres que precisariam de roupas e cobertores no inverno, dizia-lhe que deveria ir visitá-los em suas casas para ver se eram realmente necessitados, de modo que não recebessem o que poderia fazer falta a outros mais precisados. E acrescentava: mas é necessário que essas visitas se façam sem que os Pobres saibam para que são, pois, em caso contrário, os que já têm alguma coberta as esconderão para fazerem ver que estão sem nada. Isto é, os Pobres também nos enganam…

3 – São Vicente, que estava todo consagrado a Deus e aos Pobres, acreditava que poderia modificar as mentalidades das pessoas, para que outros também quisessem dedicar-se ao serviço dos Pobres. Por isso, fez tantas reuniões com os Leigos e as Leigas que se dispunham a ajudá-lo ou os que ele ia procurando interessar para que o ajudassem. E o fez com seu exemplo e suas palavras. Sabendo como trabalhou com a nobreza da França e a fez pensar nos Pobres (doentes e desvalidos), concluímos que sua convicção pessoal era grande e que foi igualmente grande sua força de convencimento. São Vicente quis organizar as boas vontades e formar multiplicadores de sua ação.

4 – São Vicente procurou fazer ações transformadoras. 

a) Devemos aprender dos Pobres, que são os nossos Mestres, em vez de só querer ensinar-lhes.

b) Devemos “subir” para chegar aonde estão os Pobres, que são nossos Senhores, em vez de “abaixar-nos” para “pôr-nos no nível dos Pobres”.

c) São Vicente dava mais valor às pessoas que às estruturas e soube substituir as estruturas materiais por atitudes fraternas de serviço e ajuda. Precisamos aprender a pôr todas as estruturas a serviço das pessoas, sobretudo dos Pobres.

d) Na ajuda aos Pobres, sempre trabalhou para passar do simples assistencialismo à promoção. Não dava só de comer, mas também sementes, pás e enxadas, para que pudessem valer-se por si mesmos. Hoje já falamos deautopromoção.

e) No modo de tratar os Pobres, São Vicente quis que fossem sujeitos de sua própria libertação, e não simples objetos de nossa ajuda e nossa evangelização.

De tudo o que São Vicente ensinou e praticou, o que devemos apreciar e guardar? E como vamos aplicá-lo em nossa vida e em nosso trabalho? Em relação ao que São Vicente dizia e fazia, podemos questionar alguma coisa? Há alguma coisa que devemos recusar, de tudo isso?

O QUE DIZER E FAZER EM NOSSAS OBRAS EM RELAÇÃO AOS POBRES?

1 – Contacto com os Pobres. Para São Vicente, o contacto pessoal com os Pobres foi uma experiência transformadora, que o converteu. Contacto, para nós, párocos ou vigários paroquiais, missionários populares, formadores dos nossos, catequistas, professores, capelães e administradores, supõe muito mais do que simples presença junto às pessoas. Exige interesse pela pessoa de cada um, conhecimento dele, estima por ele, desejo de ajudá-lo individualmente, paciência com cada um, respeitando-o na sua diferença ou divergência em relação a nós e aos outros. Precisamos, realmente, pensar nas pessoas como em irmãos nossos, que são necessitados e a quem temos a chance de ajudar, que precisam de ajuda, que merecem ajuda justamente por serem pobres e necessitados, injustiçados ou discriminados, a quem a Igreja e a Congregação tentam fazer recuperar o tempo e os direitos antes negados.

2 – Estudar as causas da pobreza e buscar soluções. O Santo Padre João Paulo II disse a todos nós da Família Vicentina, em 1986, que devemos investigar as causas da pobreza, da violência e da desigual distribuição dos bens no mundo, e buscar soluções a curto e longo prazo, soluções concretas, flexíveis e eficazes. E não só nós mesmos: também as pessoas com quem trabalhamos devem procurar as causas da pobreza, da violência, da discriminação e das exclusões. Naturalmente, um aluno de nosso Colégio estudará essas causas e as soluções que se impõem, por meio do estudo das diversas disciplinas, como geografia, história, formação religiosa, português, matemática, etc. Quem participa de nossas paróquias deverá receber essa ajuda de nossa pregação diária, de nossos movimentos, de nossos informativos paroquiais, etc.

3 – Doutrina social da Igreja: Devemos estudar e possuir muito claros os ensinamentos da doutrina social da Igreja, dos princípios morais que regem as atividades econômicas, políticas, sociais, culturais e mesmo religiosas. Devemos conhecer igualmente bem as experiências de concretização desses princípios. Na Família Vicentina, há esforços gigantescos e bem organizados do Voluntariado da Caridade e também das Conferências de São Vicente, em relação à pressão sobre as estruturas e outras ações transformadoras a empreender na sociedade.

4 – Formar multiplicadores: São Vicente trabalhou para organizar as boas vontades e assegurar a continuidade de seus esforços e empreendimentos. Estamos comprometidos numa atividade social, a educação e formação de leigos no espírito de São Vicente, que é essencialmente formadora de outros agentes de transformação social, numa atividade que consiste basicamente em formar multiplicadores de nossa ação. Há processos massificadores, outros são conscientizadores. Uns processos levam as pessoas a uma visão fatalista ou derrotista da vida; outros são dinamizadores da própria existência. Devemos criar com as pessoas condições de terem idéias próprias, de lutarem por elas e de realizá-las com sentido prático; isso assegura o amadurecimento, contra o infantilismo incentivado e mantido pelos meios de comunicação social, pela escola verticalista, pela política alienante e desanimadora, pela religião transmitida de forma ideológica e manipuladora.

5 – Trabalhar com ações, palavras e relações pessoaisAs ações em favor dos Pobres serão as “obras de justiça e de misericórdia, que são um sinal de que o Reino de Deus está verdadeiramente vivo entre nós: dando de comer a quem tem fome, de beber a quem tem sede, ajudando-os a encontrarem as causas de sua fome e de sua sede e a maneira de acalmar a ambas”. Diremos também as palavras em favor dos Pobres “anunciando com profunda convicção a presença do Senhor, seu amor, seu oferecimento de perdão, sua disponibilidade para aceitar a todos”. Enfim, teremos também relações pessoais com os Pobres, “estando com os Pobres, trabalhando com eles, formando uma comunidade que testemunha o amor de Deus pelos homens” (Robert P. Maloney, C. M. O Caminho de Vicente de Paulo. Uma espiritualidade para nossos tempos a serviço dos Pobres. Trad. de Irmã Maria Amélia Ferreira Ribeiro. Curitiba, Gráfica Vicentina, 1998; Col. Vicentina, 10; p. 202-203).

6 – Animar a ajuda mútua entre os necessitados: Para que os Pobres não fiquem sempre esperando dos outros e, sobretudo, para que não comecem a exigir, com azedume e quase sempre com amargura, que todos estejam fazendo tudo para eles, é muito educativo quando um Pobre começa a ajudar outro Pobre, quando um Aluno ajuda outro Aluno, seja no que for, com sentimento de companheirismo e fraternidade. No Colégio São Vicente, a presença de alguns monitores do Ensino Médio em classes da Educação de Jovens e Adultos (antigo Supletivo) pode servir de inspiração e modelo para outras atividades desse tipo. Uma coisa importante, nessa pedagogia, é chegar a conseguir das pessoas que aprendam a admirar os trabalhos dos outros, a reconhecer e valorizar as qualidades dos outros.

7 – Dimensão missionária de nosso trabalho de Professores, Educadores e Formadores: Um trabalho verdadeiramente “missionário” de educação, como o que desejamos fazer na Educação de Jovens e Adultos (e não só de doutrinação, de domesticação ou de colonização cultural e política, religiosa, etc.), supõe no “agente” da educação várias atitudes que são apresentadas comumente como características dos anunciadores do plano de Deus, dos que realizam a promoção humana como preparação e parte integrante da evangelização: visão global do mundo, uma visão unitária (sem dicotomias) do homem e do seu estar no mundo; a proclamação da boa nova, isto é, da dignidade das pessoas e de sua vocação à vida e à felicidade, da sua plena realização no reino de justiça e de paz que Cristo veio instaurar entre nós; o pluralismo de idéias, a flexibilidade, a atenção aos outros e às diferenças, o respeito à diversidade; o esforço de aprender a língua dos outros, isto é, de entender suas mentalidades, de comunicar-se numa linguagem que os outros entendam, de estabelecer verdadeira comunicação, de entrar no coração das mentalidades e das culturas, sem julgar-se superior ou inferior aos outros; ligada a isso, a inculturação, o esforço para encarnar na realidade dos Pobres a boa nova que anunciamos, a dignidade das pessoas, sua vocação humana e divina, seus direitos inalienáveis, sua força transformadora (quando procuram agir como classe social, quando organizada e consciente); a formação contínua dos Professores, dos Formadores dos nossos, dos agentes de pastoral, especialmente quando feita na própria atividade que exercem, pela preparação constante de suas atividades, pela atualização de seus conteúdos e métodos, pela renovação de seu material didático, pela incorporação das novas tecnologias e das novas propostas,  e por fim, como outro nome desta formação permanente, pela criatividade,  inventiva e imaginação, pela ousadia de penetrar novos territórios e ensaiar novos passos, de abrir novos horizontes, de tentar novas abordagens e chegar a novas conclusões.

8 – Uma conseqüência (e uma concretização) humilde dessa dimensão missionária nas nossas atividades: Não ficar esperando que venham a nós, mas ir aos mais afastados (aos mais calados), procurar interessar os desatentos, incentivar os cansados, ativar os mais lentos, respeitar os diferentes, não ter medo dos mais inteligentes, dedicar nossa atenção a todos, em especial aos mais mal dotados, aos mais limitados. E não vamos ter paciência apenas porque temos dó do Pobre, mas porque ele é pobre e necessitado, porque fomos escolhidos por Deus para ajudar esses Pobres concretos, na tarefa nobilíssima de ser mestres, formadores, missionários e pastores do Povo de Deus.

Vamos fazer o quê, para seguir São Vicente?  

Rio de Janeiro, 27 de outubro de 2008

Pe. Lauro Palú, C. M.

 

SEGUNDA MEDITAÇÃO

AS VIRTUDES VICENTINAS

O QUE É UMA VIRTUDE? SERVE PARA QUÊ?

Virtude quer dizer força, habilidade, capacidade, jeito especial, maneira correta e eficaz de agir. Podem ser virtudes infusas, como a fé, a esperança e a caridade e as virtudes cardeais que recebemos no batismo, ou virtudes adquiridas, através da prática, da repetição, do hábito, da necessidade, da força de vontade. Normalmente, se entende que as virtudes aperfeiçoam nossa natureza, acrescentam ao nosso modo normal de agir uma qualidade específica, dão a nossos atos uma orientação particular, nos habilitam para certas atividades ou nos preparam para certos embates da vida. Por isso, pode-se fazer um esforço para adquirir algumas dessas qualidades, que nos melhoram em nosso comportamento, nos tornam melhores para tratar as pessoas, nos tornam mais fácil o exercício de nossas obrigações, mais proveitosa a prática de nossos deveres.

São Vicente nos propôs de modo particular a prática de cinco virtudes que nos devem caracterizar em nosso modo de ser e de agir. Se atentarmos para o tipo de Congregação que São Vicente fundou e que a Igreja aprovou e que tentamos realizar ainda hoje, devemos notar que não somos religiosos, fomos organizados como um grupo de ação, como se diz hoje, uma sociedade de vida apostólica. Temos uma finalidade clara na Igreja e um estado de vida definido. Se um rapaz se apresenta querendo ser da Congregação, temos que verificar duas coisas: se quer servir os Pobres, em comunidade fraterna. Se é capaz de servir os Pobres, em comunidade conosco.

Isto para nós é muito sério. A vida comunitária, para nós, é um meio, mas um meio essencial, com o qual nos capacitamos para alcançar realizar o fim que a Congregação se propõe. Não somos feitos para trabalhar sozinhos. Mesmo se trabalhamos melhor sozinhos, temos que esforçar-nos para trabalhar em comunidade.

E as cinco virtudes têm como finalidade exatamente isso: tornar-nos capazes de servir os Pobres em comunidade fraterna. Não visam nossa própria santificação, como aliás nada em nossa vida na Congregação da Missão. Reparem na fórmula dos Votos que fazemos na Congregação: Senhor, meu Deus, eu, Lauro Palú, diante da Bem-Aventurada Virgem Maria, faço o voto de me dedicar fielmente à evangelização dos Pobres, na Congregação da Missão, durante todo o tempo da minha vida, no seguimento de Cristo evangelizador. E, por isto, faço voto de castidade, pobreza e obediência, segundo as Constituições e Estatutos do nosso Instituto, com o auxílio de vossa graça (Constituições e Estatutos, art. 58). Os votos são feitos para nos tornar capazes de nos dedicar, durante toda a vida, ao seguimento de Cristo evangelizador dos Pobres, na Congregação.

O Estatuto 38 diz claramente: É necessário que os candidatos que desejam entrar na Congregação já tenham feito sua opção de vida cristã, o propósito de trabalhar no apostolado e a escolha de trabalhar na comunidade vicentina. Caso contrário, devem ser ajudados a fazer progressivamente estas escolhas, quer por meio da pastoral de juventude, quer nas escolas apostólicas, onde as houver. Já tenham feito ou sejam ajudados a fazer estas três opções progressivas, de vida cristã, de trabalhar apostolicamente e de ser vicentinos.

O art. 6 das Constituições diz assim: Portanto, o espírito da Congregação contém aquelas íntimas disposições de alma do Cristo que o Fundador desde o início já recomendava aos Coirmãos: amor e reverência para com o Pai, caridade efetiva e compassiva para com os Pobres e docilidade para com a divina Providência. E o art. 7 continua: A Congregação procura exprimir seu espírito por meio de cinco virtudes, colhidas também de uma visão muito própria do Cristo: simplicidade, humildade, mansidão, mortificação e zelo das almas. Delas disse São Vicente: ‘A Congregação se aplicará com a maior diligência a cultivá-las e exercitá-las, de modo que estas cinco virtudes sejam como que as faculdades da alma de toda a Congregação e todas as nossas ações sejam sempre animadas por elas’ (Regras Comuns, II, 14). São Vicente também diz: Sobretudo nos lembraremos que, se bem é necessário estarmos sempre aparelhados com aquelas virtudes que compõem o espírito da Missão, todavia então principalmente convém estarmos munidos delas, quando chega o tempo de exercitar os nossos ministérios com os camponeses. E então as devemos considerar como as cinco limpidíssimas pedras de Davi, com as quais em nome do Senhor dos Exércitos venceremos o infernal Golias, ferido logo ao primeiro tiro, e sujeitaremos ao serviço de Deus os filisteus, isto é, os pecadores, se antes depusermos as armas de Saul e usarmos a funda do mesmo Davi, isto é, se com o Apóstolo sairmos a evangelizar não com as persuasivas e doutas palavras da humana sabedoria, mas com a doutrina e demonstração do espírito e da virtude (bem que o nosso estilo seja desprezível), lembrando-nos de que, se, como diz o Apóstolo, Deus escolheu as coisas fracas, loucas e desprezíveis do mundo, para confundir e destruir por elas os sábios deste século e tudo quanto há de mais forte, pode esperar-se que ele mesmo, por sua infinita bondade nos dê, posto que indigníssimos operários, a graça de cooperar com ele, segundo nossa fraqueza, na salvação das almas, principalmente dos pobres camponeses (Regras Comuns, XII, 12). 

PASSAR DO CONCEITO NEGATIVO À VISÃO POSITIVA DE CADA VIRTUDE

            Para serem assim ativas e funcionais, é preciso que cada virtude seja entendida de modo positivo. Assim, a simplicidade não é ser simplório, um bobo-alegre, um ingênuo. Simplicidade não é ingenuidade ou ignorância dos fatos e das suas repercussões. Humildade não é ser um joão-ninguém, um zero à esquerda, um inútil. Mansidão não é ser um frouxo, um fraco, um invertebrado. Mansidão não é medo de denunciar o que vai mal; mansidão é também coragem de tomar posições, de muita firmeza e, ao mesmo tempo, de flexibilidade. Mortificação não é dureza consigo e mais ainda com os outros, não é comer uma coisa de que não gosto, só para mortificar minha natureza, e depois ser um tormento para os outros na vida comunitária. Zelo não é matar-se de trabalho, o tal zelo indiscreto de que falava São Vicente, matar-se de trabalho e ter que parar de trabalhar. Zelo é ficar junto aos necessitados ou aos responsáveis, como quem faz boca de urna, insistindo, cabalando votos, interessando as pessoas, mostrando quanto se pode conseguir com esforço e organização.

As cinco virtudes, na concepção e na prática de São Vicente, são virtudes apostólicas, missionárias, como se viu nesse texto que acabo de citar, em relação aos camponeses. Por isso, devem ser vistas como atitudes ou disposições de nossa pessoa que nos aproximem dos outros, façam-nos vencer nossa timidez e nosso acanhamento, nos disponham a não ser aceitos, se for o caso, mas sem nos decepcionarmos ou nos ferirmos por isso. Não adianta eu dizer que sou o menor de todos, se fico irritado quando não se lembram de mim, não me põem em evidência, não fazem festa em meu aniversário. Se sou de fato o menor de todos, chego sem ameaçar ninguém, sem agredir ninguém, sem querer fazer sombra ou ocupar um lugar demasiado.

Ainda mais, é preciso passar progressivamente da dimensão individual à pessoal de cada virtude, da dimensão grupal ao valor comunitário de todas elas e enfim passar da dimensão coletiva ou social das cinco à dimensão de Reino de Deus presente em cada uma das cinco virtudes.

De indivíduos fechados em nós mesmos ou preocupados apenas com nosso mundinho, chegamos a pessoas quando nos abrimos às infinitas relações que é possível travar com os outros. Pessoa é um nó de relações. A pessoa é atenta, é generosa, é fiel, é aberta às idéias dos outros, é colaboradora, alegra-se com os que se alegram, chora com os que choram, não morre de inveja mas se sente feliz por os outros terem qualidades diversas das nossas, melhores que as nossas, maiores que as nossas. A pessoa é otimista, acredita nos outros e na vida e no futuro, semeia esperança, alimenta os motivos de ser esperançosa, de recomeçar, de continuar no esforço, de perdoar e voltar a começar, com as mesmas pessoas, porque sabe que o perdão introduz uma força nova nas relações entre nós e que o futuro pertence a Deus e o Reino está crescendo como o grão de mostarda, como a massa fermentada, como o trigal junto com o joio mas destinado à boa colheita e não ao fogo.

Há igualmente um abismo entre o grupo, como conjunto de indivíduos, e a comunidade, que somos nós, porque chamados por Deus, são as Irmãs, como dadas a Deus para o serviço dos Pobres, como os leigos, reunidos em nome de Jesus e colocados sob a proteção de sua Santíssima Mãe, como São Vicente escrevia nos regulamentos das primeiras Confrarias da Caridade. Se somos mais que grupo, não vamos decidir as coisas por maioria de indivíduos votando cada um por seu interesse, mas tentaremos chegar a um consenso de irmãos em busca de um objetivo maior, do bem efetivo de nossos irmãos, do progresso real das obras onde trabalhamos. Porque não somos apenas um grupo de indivíduos, mas uma comunidade de fé, temos oração em comum, concelebramos, fazemos revisão de vida, fazemos confissão comunitária, fazemos correção fraterna, temos cargos temporários de superiores e de conselheiros e de Visitador e de membros das comissões. Porque somos comunidade e não apenas grupo de indivíduos, temos planejamento, execução em comum e avaliação final, com mudanças de rumos quando necessário.

Enfim, as cinco virtudes têm uma dimensão que é mais do que coletiva ou social, pois se abre para a amplidão do Reino de Deus, latente na história, palpitante no esforço dos agentes de pastoral, ativo nos processos sociais como a democratização, a ecologia, a libertação social e a ascensão da mulher e dos negros e das minorias discriminadas. As cinco virtudes servem para o anúncio libertador que o Evangelho nos traz, servem para unir pessoas em prol das mesmas bandeiras, como os missionários leigos que nos ajudam nas missões de férias, nos projetos sociais da Província e do Colégio São Vicente, como os voluntários que nos apóiam em todas as nossas obras. As cinco virtudes têm como objetivo nos ajudar a viver nossa vocação de serviço junto com esses outros agentes de pastoral que se oferecem como voluntários e preciosos colaboradores. Se deixarmos de lado nosso clericalismo, nossos centralismos, nossa mania de mandarmos, nossa dificuldade de acolher e aceitar contestação ou crítica ou simples questionamentos…

DIMENSÃO PROFÉTICA DAS VIRTUDES VICENTINAS

Nossa missão de servos dos Pobres e evangelizadores é profética, dimensão presente nos documentos das últimas Assembléias Gerais e que foi ressaltada nas Constituições pela Assembléia Geral de 1980, que as revisou, nas linhas inspiradas por Deus à Igreja, no Concílio Vaticano II.

As três tarefas da missão profética são denunciar, anunciar fazer ações transformadoras. Alguns exemplos:

1 – Denunciar: Denunciar o que o que ocorre de mau no mundo, unindo nossas vozes à dos Pobres e dos organismos que lutam pelos direitos humanos, pela justiça e pela paz; denunciar o que está mal, nunca por ódio do mal, mas por querer bem aos que estão errados, a quem queremos ajudar a corrigir. Denunciar tudo o que está contra o plano de Deus. No Colégio São Vicente, devemos denunciar através dos conteúdos das disciplinas, na literatura, na história, na geografia, na leitura crítica dos jornais, das revistas e da televisão. Mandamos ler quais jornais, indicamos quais revistas, comentamos quais programas de televisão, projetamos qual filme ou qual vídeo? Na literatura, usamos quais livros, de quais autores? Levamos os Alunos a passear em quais lugares? Que uso fazemos das estatísticas que nos impingem? Em nossas pregações e em nossos trabalhos pastorais, denunciamos ao desvelar os esquemas de opressão das mulheres e das crianças, dos empregados, dos desempregados ou dos subempregados, das minorias, dos diferentes? Assinamos quais revistas em nossas casas? Pomos quais livros ao dispor dos nossos grupos de jovens? Que folhetos assinamos para as missas dominicais? Que cânticos escolhemos para nossas celebrações? O que levamos na procissão de ofertas em nossas missas? O que rifamos em nossas campanhas por fundos para construções em nossas paróquias? Em nossas paróquias, construímos o quê? Alugamos nossos imóveis para quem? Votamos em quem nas eleições, contra quem e porquê? Que programas, além do futebol, temos visto em nossas televisões?

2 – Anunciar: Devemos anunciar o plano de Deus, isto é, a dignidade humana, feita de direitos e deveres, a liberdade de que somos dotados como gente, a igualdade fundamental que existe entre todos nós, o chamado de todos à vida, ao crescimento e à plena realização. Anunciar os projetos de Deus, o que ele quer de nós na sociedade, e trabalhar efetivamente para realizá-lo. Isso, tanto nos conteúdos com que trabalhamos, nas leituras que damos ou pedimos, no Colégio, na catequese, nos grupos de jovens, como igualmente (ou sobretudo) nos métodos que utilizamos, porque os métodos são mais eficazes, como práticas, do que os discursos ou muitas narrações. Uma prática de monitoria diz mais claramente se acreditamos ou não no potencial dos Alunos do que muito discurso de formatura. A autonomia das comissões numa paróquia ou numa missão diz mais claramente se acreditamos nos leigos e na sua vocação apostólica e vicentina do que muitas páginas de planejamentos comunitários e projetos pastorais.

Como conhecemos esses planos de Deus, para denunciar o que está errado e anunciar o que Deus quer? Temos alguns meios muito práticos: rezar para que Deus nos guie, nos ilumine e ajude a fazer bem as coisas e a ver e seguir o modo como Jesus Cristo agia e tratava as pessoas, sabendo que os dois motivos que moviam Jesus Cristo eram a glória de Deus e a libertação das pessoas. Mas também, seguramente, podemos conhecer qual é o plano de Deus vendo o modo como trabalham nossos companheiros que acreditam na sua missão e se consagram à educação ou à pastoral com dedicação e carinho. Não podemos conhecer a realidade se não lemos livros e revistas especializadas. Conhecemos melhor a realidade e os planos de Deus sobre nós, se participamos de congressos e encontros, como os da Conferência dos Religiosos e dos Bispos, se participamos de passeatas e movimentos, de gritos do oprimido, de gritos pela terra, pela água, por moradia, etc. Tendo participado desses encontros e atividades, é importante fazer uma resenha e publicá-la em nosso Informativo ou mandá-la individualmente para os Coirmãos, pelo correio ou por e-mail.

3 – Devemos fazer ações transformadoras, aqui e fora daqui, para transformar a sociedade segundo o projeto de Cristo. Podemos pensar nalguns exemplos:

a) Além de ser Professores ou Catequistas, devemos ser Educadores; além de Educadores devemos ser Formadores. Simplificando as coisas e concentrando um tanto o olhar, podemos dizer que o Professor e o Catequista transmitem conteúdos, o Educador estimula atitudes, o Formador trabalha com os valores. O que significa isto, em matéria de programas e conteúdos, de métodos didáticos, de processos e medidas de avaliação dos Alunos? Como passar de catequista a educador e a formador, na catequese e nos grupos de jovens, nas Equipes de Nossa Senhora, nos Encontros de Casais com Cristo, nas pastorais de cada missão ou diocese?

b) Em vez de fazer comunicados ou dar avisos, devemos buscar comunicação. Em vez de proibições, devemos descobrir critérios e normas e colocá-las em prática. Toda a pregação em relação ao pecado acaba não chegando aos corações, porque hoje a televisão e os espetáculos mostram que nada é pecado, que tudo é lícito, que tudo é bonito, que todo mundo faz isso, que não precisamos ter vergonha de nada disso, que a virgindade está fora de moda, que menino de quinze anos já pode beber e fazer o que quiser e com quem quiser.

c) Devemos trabalhar por uma educação libertadora (diferente da educação bancária): colaborar para que os Alunos do Colégio e os jovens de nossos grupos aprendam o diálogo, consigam formar uma consciência crítica, criem autoconfiança e tenham o senso da própria responsabilidade pessoal e social. Aqui entram a missão dos Grêmios, as motivações com que animamos os que se preparam para as provas e os testes. Embora seja aparentemente mais tranqüilo, um Colégio não ganha com os Grêmios estarem desmobilizados ou desativados, pensando em shows e não em revoluções. Com isso não ganham nada a sociedade e os próprios jovens. Por isto, devemos atender criticamente ao conteúdo em geral negativista e moralista de nossa pregação.

d) As pessoas não serão objeto de nosso ensino, mas sujeitos de seu próprio aprendizado. O Papa disse aos seus médicos: “Quero ser sujeito de minha doença e não objeto da medicina de vocês”. Não quero ser objeto da autoridade do meu Superior Provincial: quero ser sujeito de minha obediência. Se centralizamos ou clericalizamos excessivamente nossos grupos, nossas pastorais, as pessoas nunca serão sujeito, serão sempre objetos… Ora, Deus nos amou primeiro, isto é, nos fez sujeitos de amor, que também amamos, não somos apenas amados, mesmo que por ele…

e) Procuraremos ir aos que vivem às margens ou na periferia de nossos ambientes ou de nossas obras: os apáticos, os que não participam, os que não falam, os que falam demais (e que por isso não escutam os outros), os diferentes, os contestadores, os rápidos demais, os impacientes, os atrasados, os carentes, os discriminados e excluídos. O missionário não espera que as pessoas venham a ele, vai a elas, as procura, as descobre, as encontra,

f) Procuraremos não decidir aos coisas por maioria, mas por consenso: tratar de somar as opiniões, entender-nos, pôr-nos de acordo, sem querer dominar, sem achar que os outros são uns incompetentes que têm que ser manobrados. É o campo de nossa ajuda especialmente aos Representantes de Turmas, de Grupos, de Movimentos.

g) Passar do espírito de crítica ao espírito crítico, do espírito de contradição à colaboração construtiva; ser imaginoso e criativo para superar os problemas; ver as dificuldades como forças de resistência, cuja direção tentaremos mudar para que nos ajudem. Ver as coisas com esperança, otimismo, idealismo e fé.

h) Não educamos os jovens para passarem nos exames e no vestibular da faculdade, mas (em todas as nossas obras), para que possam ser mais e servir melhor a humanidade.

i) Trabalhar com grupos, não só com pessoas isoladas; trabalhar sobre as estruturas, não apenas sobre as conjunturas; trabalhar nas situações e não apenas nos episódios. É este o lugar (o contexto) para refletir sobre as reuniões das pastorais ou dos movimentos, os grupos de jovens, os casais, as equipes de serviço, e sobre suas exigências ou dinâmicas e sobre suas conseqüências. Numa palavra, pensar o processo educativo, em vez de ficar apagando fogo…

Como as cinco virtudes nos ajudam a viver essas três tarefas do profetismo: denunciar o mal, anunciar o plano de Deus e fazer ações transformadoras?

Rio de Janeiro, 28 de outubro de 2008

Pe. Lauro Palú, C. M.