A Autoridade na Congregação

Dia de Retiro da Assembléia Geral
Paris, 7 de julho de 2010.

Padre Francisco Javier Álvarez, C.M.

Foi-me pedido que ambientasse este dia de Retiro que nos preparará para o dia de amanhã, no qual terá lugar a eleição do Superior Geral. Como este é a autoridade máxima na Congregação, pereceu-me conveniente oferecer-lhes uma reflexão sobre a autoridade na Congregação. Por outro lado, creio que o tema diz respeito a todos nós, mais ou menos diretamente, visto que todos exercemos este ministério de autoridade: os Visitadores são uma autoridade em suas respectivas Províncias, os Superiores Locais em suas comunidades, os Párocos em suas paróquias, os Formadores com aqueles aos quais têm que formar, etc.

Todos sabemos que a palavra “autoridade” originariamente significa “crescimento”. Procede do verbo latino“augere”. Talvez, a imagem de uma mãe que se consome por seu filho pode nos dar o sentido mais profundo do que seja autoridade. É a mãe que faz crescer o filho gerado e que, num dado momento, sabe dar a autonomia e a independência de que o filho necessita para desenvolver-se como pessoa. Certamente, este sentido de autoridade pode ser encontrado em São Vicente. De acordo com ele, toda autoridade se dá para que as pessoas cresçam e alcancem as metas às quais foram chamadas por Deus. Há outro sentido de autoridade, complementar a este, que se relaciona com as instituições: à autoridade corresponde fazer que as instituições sirvam e alcancem os fins para os quais foram criadas.

Começarei minha exposição fazendo uma referência sobre a autoridade de Jesus nos evangelhos. Continuarei, depois, pela experiência e as convicções de São Vicente. Terminarei oferecendo algumas considerações sobre a autoridade na Congregação que quer se orientar para “a fidelidade criativa para a Missão”.

A autoridade de Jesus no grupo dos Doze

A referência a Jesus no que toca à sua autoridade é absolutamente necessária, visto que Ele não só é autoridade, mas a suprema autoridade. Mais ainda, a única autoridade. “Unus Dominus” (cf. 1Cor 8,6). Isso quer dizer que todas as outras são subordinadas à sua autoridade suprema. Para São Vicente, o modelo de toda autoridade é sempre Jesus Cristo. Com um grande sentido pedagógico, convida todo superior a fazer esta pergunta a si mesmo: “Senhor, se estivésseis em meu lugar, o que faríeis?” (XI,429). Convido-os a adentrarmos nesta questão que nos lança São Vicente, mas mudando o tempo do verbo: em vez de perguntar o que faria Jesus Cristo, podemos perguntar o que fez. O passado pode e deve iluminar o presente e o futuro. Assim, pois, perguntemo-nos: como agiu e como viveu Jesus Cristo sua missão de autoridade no grupo dos Doze?

A comunidade dos Doze não devia ser fácil, devido à diversidade de mentalidades e temperamentos, às diferentes idades e aos diferentes níveis culturais. Dentro do grupo, havia, por exemplo, um publicano (Mateus), ou seja, um “colaboracionista” com a dominação estrangeira. Havia também um zelota (Simão), isto é, um “combatente da resistência”. Pedro e João, por idade, pertenciam a duas gerações distintas e, por temperamento, eram bastante diferentes: um, primário e ativo; outro, secundário e contemplativo. Havia, entre eles, homens impulsivos e interesseiros, como os “filhos do trovão” (Mc 3,17; Lc 9,49.54), e até um traidor e ladrão (cf. Jo 6,70). Tiago e seu irmão, seguramente, pertenciam a uma família bem situada, já que tinham entrada na casa de Caifás (cf. Jo 18,15). Pois bem, com este grupo de personalidades tão variadas, quis Jesus formar a comunidade dos Doze. Este dado bíblico pode ajudar a perguntarmo-nos: como animar a comunhão e a missão, respeitando sempre a legítima diversidade e a internacionalidade da Congregação, inculturada em ambientes tão diferentes? A unidade na diversidade será sempre um desafio que manterá alerta a autoridade.

O verdadeiramente interessante é ver como Jesus vai criando a comunidade a partir de uma forma muito particular de exercer sua autoridade, diferente, muito diferente de como atuavam os fariseus e outros dirigentes contemporâneos seus. Deles, nunca se disse o que se afirmou de Jesus, que ninguém jamais havia ensinado com tanta autoridade (cf. Mc 1,27).

1. Para começar, Jesus conhece as pessoas e as aceita como são. Parte do que são seus discípulos, não do que deveriam ser, para levar cada um, paulatinamente, a um crescimento e a uma comunicação cada vez mais profunda. Não os despersonaliza, criando um modelo padrão de homem comunitário. Ajuda cada um a crescer para reuni-los em fraternidade. Pedro, por exemplo, é um primário que, antes, faz as coisas e, só depois, pensa-as. Felipe, lento para captar as coisas do Reino (cf. Jo 14,8-10). A Tomé, em crise de fé, não o abandona em sua incredulidade. Aceita suas exigências. Vai, em seguida, ao seu encontro para tirá-lo de sua dúvida: “Põe teu dedo e aqui tens minhas mãos…” (Jo 20,2-7). Poderia ter dito a ele: “Já tens suficientes argumentos para crer…”. Mas a Jesus interessa muito mais salvar as pessoas do que defender sua autoridade. Aos discípulos de Emaús, que duvidam da Ressurreição de Jesus (cf. Lc 24,19), não os deixa em sua tristeza e desilusão. Deixa-se encontrar e, com uma pedagogia paciente e simples, explica-lhes de novo o kerigma, “começando por Moisés e continuando por todos os profetas” (Lc 24,27), ao mesmo tempo em que lhes aquece os corações (cf. Lc 24,32) para conduzi-los a uma conversão plena. Que condições deve ter a comunidade para que se converta num espaço que regenera a vida dos Missionários? A autoridade, com sua missão de animar a comunidade, tem um papel fundamental em tudo isso.

2. No grupo, Jesus não se restringe a ser o mestre. Ele estabelece uma relação pessoal de amizade com cada um dos Doze. Digamos que vai fazendo deles amigos, “confiando-se” a eles, abrindo-lhes o coração, acreditando-os dignos de sua confiança. “Eu vos chamo amigos, porque vos dei a conhecer tudo o que ouvi de meu Pai” (Jo 15,15). A mesma expressão que utilizou Jesus ocorreu a São Vicente, ao falar da relação entre nós: “Como amigos que se querem bem no Senhor”. É tecendo, pacientemente, uma rede de relações interpessoais que se consegue forjar um grupo, no qual o importante não é a vida em comum, mas a comunidade de vida. Não são as práticas comunitárias que garantem a coesão de um grupo, mas a vida partilhada no horizonte comum da missão. E, evidentemente, só a partir daqui, têm sentido e valor as práticas comunitárias.

3. Jesus governa a comunidade a partir de dentro. Com base numa simples leitura dos evangelhos, logo se percebe que entre Ele e seus discípulos há uma distância infinita. Entretanto, Ele vive no meio deles e como eles. Em nenhum momento, situa-se acima de sua comunidade, procurando ser idealizado. A autoridade para Ele é um serviço de amor. E vai até o extremo nesse serviço (cf. Jo 13,1). Por outro lado, vive a teoria que propõe: “Sabendo que o Pai tinha posto tudo em suas mãos…, pôs-se a lavar os pés dos seus discípulos” (Jo 13,3-5), diz-nos, solenemente, João, indicando, assim, que este gesto simbólico de serviço é uma característica da autoridade de Jesus. Não cansa seus discípulos com normas e mais normas, mas abre horizontes e mostra caminhos novos. Reserva a repreensão para quando falha algo essencial, sobretudo contra a caridade, ou para quando se manifestam muito mundanos sobre o Reino (cf. Mt 16,23). Seu governo é, pois, espiritual, não impositivo.

4. Jesus orienta o grupo dos discípulos para a missão. Ante a reiterada tentação de seus discípulos de fazer três tendas (cf. Mt 17,4) para ficar gozando da presença física de Jesus ali no monte Tabor, o Senhor os prepara para sua ausência: “Convém que eu me vá” (Jo 10,7). O Espírito, que descerá sobre eles na manhã de Pentecostes, lançá-los-á no mundo (cf. At 2) para agir com a mesma liberdade e fidelidade de Jesus Cristo. A comunidade de vida é um caminho de crescente fraternidade, mas não é um fim em si mesmo: ela é para a missão. As Constituições n.19 nos recordam esta característica: “A comunidade vicentina está ordenada a preparar a atividade, fomentá-la e ajuda-la constantemente”.

A partir da missão (a sua e a de seus discípulos), o Senhor os leva a compreender que seu messianismo não é de prestígio, de poderio e de glória, como o Tentador lhe queria fazer ver (cf. Mc 1,12-13), mas de amor até o extremo (cf. Jo 13,1). Sempre a partir da missão que lhe foi confiada pelo Pai, fala com clareza que “deve ir a Jerusalém” e sofrer a paixão (cf. Mt 16,21), anunciando aos discípulos um destino análogo (cf. Jo 15,18-25). Jesus lhes mostra a cruz, mas assumida e vivida na esperança. Assim, os vai preparando para enfrentar o conflito, a dor e a cruz, dimensões essenciais a toda vida cristã.

Experiência e convicções de São Vicente sobre a autoridade

A autoridade de Jesus Cristo será sempre uma referência absolutamente necessária para todos os que fazemos parte da Igreja. Mas nós, como Vicentinos que somos, contamos também com a referência de nosso Fundador, com uma maneira própria de viver e conceber a autoridade. Sabemos que São Vicente exerceu sua autoridade de padre e de conselheiro sobre grupos muito diferentes: Missionários, Padres das Conferências das Terças-feiras, Filhas da Caridade, Visitandinas e Confrarias da Caridade. Foi Superior Local e Geral. Tudo isso lhe deu uma experiencia riquíssima no governo das pessoas, das Comunidades e das instituições. Eis como Padre Pérez Flores resume a experiência de São Vicente sobre a autoridade: “Creio que São Vicente morreu satisfeito por ter sido, ao longo de toda a vida, um bom superior” (PÉREZ FLORES, Miguel. Autoridad. In: VV.AA. Diccionario de Espiritualidad Vicenciana. Salamanca: CEME, 1995. p.43).

Ninguém duvida que São Vicente foi um guia de visão, um carismático. Diz o Pe. O´Donnell que sempre lhe pareceu que o paradigma do alquimista caia bem a São Vicente, tendo ou não tendo sido cativo no norte da África. Justamente porque sabia enfrentar com arte as situações corriqueiras e transformá-las em algo duradouro e de grande valor. Por exemplo, ele não foi o primeiro a pregar uma missão popular. Já existia em seu tempo. Entretanto, foi ele que a fez evoluir até convertê-la numa resposta válida para ajudar o povo a começar uma vida nova – mediante a confissão geral – para promover a reconciliação entre famílias e povoados e para estabelecer uma forma eficaz de ajuda ao necessitado através das Confrarias da Caridade. Com sua autoridade carismática, Vicente foi capaz de transformar os ministérios para que estes respondessem às necessidades do povo mais abandonado.

Evidentemente, ele não fez tudo. Podemos dizer que São Vicente foi um guia com outros, ou seja, que não exerceu sozinho sua autoridade, mas sempre em colaboração. Por exemplo, com Santa Luísa, com o Pe. Portail, com a Senhora de Gondi… Apreciava e buscava a colaboração de pessoas de toda condição: homens e mulheres, ricos e pobres, da cidade e do campo. Confiava nos outros, valorizava sua contribuição e esperava deles mais do que eles mesmos acreditavam ser capazes de dar. Assim é o verdadeiro líder: capaz de inspirar, de mover as pessoas para que tirem o mais valioso deles mesmos em benefício dos outros, neste caso dos mais pobres.

No que se refere à sua doutrina, São Vicente não é muito original quando fala sobre a autoridade. Limita-se a seguir o que dizia a teologia tradicional de seu tempo: que a autoridade vem de Deus, que é prolongamento da autoridade de Jesus Cristo, que é um serviço, que a autoridade é uma mediação e um dinamismo indispensável para a vida, a missão e a boa ordem da Comunidade, que sua missão principal consiste em guiar as almas à perfeição, etc. Eram idéias bem conhecidas naquele contexto e o são também agora. Mas qual é o pensamento de São Vicente sobre a autoridade que mais se sintoniza com nossos tempos e com nossa sensibilidade?

Em primeiro lugar, destacamos uma orientação geral, que vale para todos e ilumina a todos os que têm alguma responsabilidade de governo na Congregação: os superiores têm que ser firmes no fim e flexíveis nos meios. “Seja firme nos fins e manso nos meios, firme na observância das regras e santos costumes da Companhia, mas maleável nos meios para fazê-los observar”, aconselhava São Vicente ao Pe. Jean Guérin (II,252). Em outra ocasião, explica assim esta convicção: porque ser invariável no fim e moderado nos meios é como possuir “a alma de todo bom governo” (II,302). E tanto o fim como os meios devem ser iluminados pelo Evangelho, pelas “máximas evangélicas”, na expressão do próprio Vicente. Nas Regras Comuns, existe todo um capítulo para convidar a seguir as máximas evangélicas e a fugir das máximas do mundo (cf. RC II). O que deve ser norma de conduta para o Missionário deve ser também orientação de governo para os superiores. Em outras palavras, São Vicente sempre evocou as palavras de Jesus Cristo e sua atuação como motivo e fonte de inspiração para acertar no governo.

Talvez, um dos aspectos mais interessantes e mais delicados do serviço da autoridade seja o contato direto com as pessoas. São Vicente não foi um superior de ordem e mando, ainda que sempre tenha sido muito firme. Preocupou-se muito mais em motivar e explicar o que havia mandado, em facilitar a obediência, como recomenda agora a Instrução sobre aAutoridade e a Obediência n.21. Podemos citar, a modo de exemplo, a carta que escreveu ao Pe. Du Coudray. Este Missionário se recusou a deixar Roma, onde trabalhara na versão siríaca da Sagrada Escritura. São Vicente lançou mão de todas as razões possíveis para tornar mais fácil seu novo destino, inclusive fez com que se imaginasse como os pobres chamariam o Pe. Du Coudray para que fosse evangelizá-los. Oferece-lhe outras razões, entre elas a de que sua presença era necessária para dar peso e consistência a uma comunidade concreta. Ao final, São Vicente não ordenou autoritariamente seu regresso, mas preferiu motivá-lo para que ele mesmo tomasse a decisão: “Venha, Padre, por favor”, termina dizendo (I,286-287).

Nesse contato direto com as pessoas, São Vicente sempre se mostrou respeitoso com todos, especialmente com as Irmãs e os Missionários, apesar da ironia que, algumas vezes, se escondia em suas palavras e em suas cartas. Não tolerou que os superiores faltassem com o respeito a seus irmãos. Certa vez, um superior teve o mau gosto de escrever-lhe que preferia guiar animais do que homens. São Vicente respondeu com ironia: “Não empregastes essa frase senão para expressar vosso sofrimento e convencer-me a tirar-vos do cargo. Procuraremos, pois, enviar outro para o vosso lugar”(IV,173). Pouco tempo depois, São Vicente escreveu outra carta ao mesmo para anunciar a nomeação de um novo superior que o substituiria em sua função de dirigir a comunidade. O fundador termina sua carta recordando ao superior deposto a obrigação de ser “o melhor exemplo de submissão e de confiança” para o novo superior (IV,199-200).

Vicente sempre deu grande importância à informação e à comunicação, apesar de viver num tempo muito diferente do nosso. Tudo o que lhe chegava, ele fazia chegar aos outros. Em suas cartas, vê-se como informa às Comunidades dos acontecimentos que as afetavam direta ou indiretamente. Estava convencido de que a comunicação criava sentido de pertença. Escreveu circulares, anunciando não só a morte dos membros da Comunidade, mas notificando à Companhia os êxitos e os fracassos que havia tido em seus empreendimentos. Ele viu ambas as Comunidades como duas grandes famílias e a cada comunidade local como uma pequena família. Quis que tudo interessasse a todos. Favoreceu a comunicação dentro da comunidade: “Quanto a mim, – são palavras do próprio São Vicente – tenho a experiência de que, onde a Missão tem pobres homens, se há um superior que é aberto e comunica-se com os outros, tudo vai bem” (X,773). Neste sentido, São Vicente se queixou amargamente de um superior que vivia isolado, sem comunicar-se com o restante da comunidade e, pior ainda, não tratava seus irmãos com o devido afeto. São Vicente chama muito seriamente sua atenção, propõe-lhe renovar a caridade e crescer em humildade. Não é de se estranhar que São Vicente, com muita frequência, recorde aos superiores que devem ser humildes, tendo em conta que, além de tudo, esta é uma virtude específica da Companhia(cf. PÉREZ FLORES, 1995, p. 35-43).

Como pudemos ver, a experiência e as convicções de São Vicente sobre a autoridade continuam sendo iluminadoras para nosso tempo, apesar de ele ter vivido numa época em que as autoridades eclesial e civil eram indiscutíveis e sagradas. Hoje, a autoridade tem que enfrentar problemas e situações que apenas se insinuavam nos tempos de nosso Fundador. Por exemplo, o individualismo, entendido como a total autonomia da pessoa ou como adesão parcial à Congregação, à Província ou à Comunidade. O individualismo impede de conjugar harmoniosamente o plano pessoal e o comunitário, porque os planos pessoais passam sempre por cima dos comunitários e provinciais. Um pouco de tudo isso aparece no documento Autoridade e Obediência, n.3. Neste mesmo número, afirma-se também que o influxo cultural é um fator que facilitou a aparição desta mentalidade. A busca da realização pessoal e o bem-estar pessoal custe o que custar são outras manifestações que nos remetem à mesma realidade. Ademais, o individualismo, hoje, pode receber nomes muito bonitos, como, por exemplo, carismas particulares, peculiaridades culturais ou processos pessoais, que podem tornar a confusão ainda maior. Compete à autoridade discernir onde estão os limites entre a legítima diversidade e o individualismo que anula a vida comunitária e enfraquece o sentido de pertença. E, certamente, corresponde à autoridade insistir e recordar o sentido da missão comum, como, sem dúvida, faria São Vicente se vivesse em nosso tempo.

3. Autoridade e fidelidade criativa para a Missão

Esta 41ª Assembléia Geral se propôs refletir sobre o futuro de nossa missão, seguindo as orientações das C.2. Assim sendo, é de se esperar que, depois da Assembléia, se empreendam esforços orientados a revisar, renovar, adaptar e recriar nossos ministérios, sem esquecer, é claro, que a fidelidade também nos vincula diretamente a São Vicente, seu carisma, sua herança e seu espírito. É necessário, portanto, que nos façamos, aqui e agora, esta pergunta fundamental: como deverá ser a autoridade na Congregação para poder impulsionar “a fidelidade criativa na Missão”?

Podemos começar dizendo que a missão criativa requer uma autoridade mais carismática do que institucional. Evidentemente, não há oposição entre as duas, somente diferenças de matizes ou de enfoques. A autoridade institucional ou funcional está mais atenta em promover o fim da Congregação, segundo o espírito de São Vicente, numa verdadeira comunhão de vida e apostolado, segundo nos dizem as C.97. O Superior Geral, o Visitador e o Superior Local, cada um em seu nível, têm seu próprio âmbito de atuação, complementares uns dos outros. A autoridade carismática ou de liderança projeta mais facilmente seu olhar para o futuro e, além disso, o faz com confiança, procura ser criativa nos ministérios ou, pelo menos, favorece para que outros o sejam, como o foi São Vicente em seu tempo, conforme vimos anteriormente. A autoridade carismática mostra-se convicta da necessidade prioritária da evangelização e quer apaixonadamente a missão, e a missão entre os pobres, como quis São Vicente. Para um superior, isso é muito mais decisivo do que ser especialista num ou noutro ministério. Os especialistas nunca faltarão, graças a Deus, mas nem sempre eles são os melhores para apontar caminhos novos ou para animar os outros.

Situar-se, lúcida e apaixonadamente, nesta fonte de energia, que é a missão e que resume o núcleo de nossas Constituições, leva, sem dúvida, à criatividade nos ministérios e a abrir novos caminhos. Este foi exatamente o caso de São Vicente: a paixão e a urgência pela missão e pela caridade o levaram a por em marcha mil iniciativas. Mas o motor foi a paixão. Poderíamos trazer aqui aquele velho princípio repleto de sabedoria, segundo o qual “o que o coração quer a mente acaba mostrando”. Curiosamente, São Vicente disse algo parecido a um grupo de Irmãs, quando lhes assegurou que querer fortemente uma coisa corresponde a ter percorrido meio caminho para consegui-la. Talvez, o zelo, uma de nossas virtudes específicas, de que São Vicente tanto falou aos primeiros Missionários, hoje tenha que ser exigido, de forma especial, dos superiores da Congregação.

A fidelidade criativa requer superiores um tanto carismáticos, isto é, pessoas ou líderes capazes de inspirar os outros para que tirem o melhor que há em seu interior, sempre em beneficio da missão. Porque o que de verdade influencia os outros não é o poder que têm, mas sua autoridade moral. O poder está vinculado ao cargo, ao ofício; a autoridade à credibilidade da pessoa. Digamos que a credibilidade é a base da autoridade moral de um superior. Não é esta que lhe dá patente, mas sua credibilidade e sua autenticidade, assegurada por uma vida coerente entre sua palavra e sua atuação. Antes de mais nada, um líder tem que ser uma testemunha que convença com sua palavra, mas, sobretudo, com sua vida.

A fidelidade criativa para a missão requer líderes ou guias decididos que apontem para frente e com certa capacidade de risco. Do contrário, a fidelidade criativa poderia ficar só em belas palavras. Ou, dito em outros termos: todas as orientações que sairão desta Assembléia não se tornarão realidade se os superiores não se empenharem nelas, desde o Geral até os Locais, passando pelos Visitadores.

Falemos agora de algumas bases ou qualidades imprescindíveis hoje para poder exercer este serviço de autoridade que vê mais à frente e quer ser criativo. Por exemplo, o superior deve ser uma pessoa profundamente espiritual. “Na Vida Consagrada, a autoridade é, antes de tudo, autoridade espiritual”, diz a Instrução sobre o serviço da Autoridade e a Obediência, n.13a. O projeto evangélico desenhado pelas Constituições tem que ser dirigido e animado por pessoas espirituais. Exatamente assim o diz São Vicente, nos diferentes Regulamentos do Superior Local. Se os superiores são especialistas em um ou em vários ministérios, se possuem uma cultura extraordinária em um ou outro saber, ou têm boas qualidades na comunicação, tanto melhor. Mas nenhuma dessas qualidades pode suprir a mais fundamental de todas elas, a espiritual. Do contrário, as Comunidades, as Províncias e a Companhia podem se converter facilmente numa equipe de trabalho, quando não em um grupo de interesses e de pressão. Evidentemente, um homem espiritual, capaz de dirigir homens espirituais, deve cultivar a oração e manter um contato direto e freqüente com o Senhor. Freqüentemente, Jesus se retirava para orar, só ou com seus discípulos, dizem os evangelhos. Também orou pelos que lhe tinham sido recomendados:“Eu te rogo, Pai, pelos que me deste…” (cf. Jo 17,9-10). Entre os conselhos que Vicente dá ao Pe. Antônio Durand, encontramos este: “Deveis recorrer à oração para conservar vossa alma no temor e no amor de Deus. Tenho, pois, a obrigação de dizer-vos, e deveis saber, que muitas vezes nos perdemos enquanto contribuímos para a salvação dos outros”(XI,237).

Outra qualidade que se requer hoje da autoridade carismática é sua capacidade para discernir. As Constituições e a fidelidade criativa nos impelem a ser criativos na missão, na vida comunitária, nas relações pessoais e, inclusive, na oração. Com efeito, não se pode avançar de qualquer maneira. A criatividade deve ser projetada sempre a partir da própria identidade e do carisma vicentino. Do contrário, poder-se-ia chegar a iniciativas muito atuais, mas estranhas ao espírito próprio. Partindo desse pressuposto, facilmente se conclui que os superiores (vale também para todos os Missionários) têm que estar dotados da capacidade para discernir e, portanto, bem impregnados do próprio espírito vicentino. Hoje mais do que nunca, requer-se esta capacidade reflexiva porque as situações que afetam as Comunidades, as Províncias e a Congregação não são evidentes, embora muito complexas.

Obviamente, para realizar com seriedade qualquer discernimento se requer escutar os Missionários e saber dialogar com os leigos que trabalham com eles. Este intercâmbio pode ser para o superior uma verdadeira mediação em ordem a ajudar a descobrir o que Deus pede a uma comunidade. O Concílio Vaticano II convida os superiores a “escutar de bom grado os irmãos” (PC 14) e a não “sufocar o Espírito, mas examinar tudo e ficar com o que é bom” (LG 12). Sem o Espírito, não se tem verdadeira garantia de interpretar acertadamente a vontade de Deus. Mais ainda, pode-se confundir a vontade de Deus com a própria. “Quem decide algo, sem contar com a pessoa interessada, ainda que acerte na decisão, equivoca-se”, gostava de repetir o célebre filósofo Sêneca. Esta mesma convicção pode ser encontrada numa carta que São Vicente dirigiu ao Pe. Jean Guérin: “Recebei o parecer dos dois que foram nomeados conselheiros…”. As Constituições mostram que a voz de cada Missionário é importante e digna de respeito. Escutando-os, os superiores poderão captar os movimentos de base que se dão na Congregação e nas Províncias, bem como interpretá-los como um sinal no caminho.

Um aspecto importante da autoridade carismática é a sua proximidade em relação às pessoas ou seu coração de “bom pastor” (cf. Jo 10,1-21). Digamos que o mais importante encargo que o Senhor confia a um superior na Companhia são os Missionários. Assim percebemos em Jesus Cristo e em São Vicente. Logo, esta função da autoridade está acima das preocupações de casas, documentos, regras, projetos… Um superior que não mostre sentimentos de pai, de mãe, e atitudes de bom pastor pode causar feridas em seus irmãos. O mesmo podemos dizer se estes se sentem valorizados unicamente pela eficácia e em função das tarefas que realizam. As palavras do Papa, dirigidas aos Superiores e Superioras Gerais na audiência de 22 de maio de 2006, são bem significativas: “A vós, superiores e superioras maiores – dizia-lhes – peço que transmitais uma palavra de especial solicitude aos que atravessam dificuldades, aos anciãos e aos enfermos, aos que estão passando momentos de crises e de solidão, aos que sofrem e se sentem confusos…”. À lista mencionada pelo Papa, hoje teríamos que acrescentar aqueles que, há anos, se empenham de verdade nos diferentes ministérios. São pessoas que se entregaram totalmente e agora podem sofrer a erosão do cansaço e uma certa decepção nos resultados. O bom pastor conhece suas ovelhas, se consome por seu rebanho, procura-lhe bons pastos e vela por seu crescimento (cf. Jo 10,2s). Esta imagem bíblica, tão apropriada para definir a figura do superior e que aparece nas C.97, tem que se fazer visível e real na vida ordinária, através da presença próxima do superior, da estima, do interesse e da oração por cada um dos Missionários, assim como da confiança em suas possibilidades. Todos estes são sinais que falam por si mesmos do coração do bom pastor do superior.

CONCLUSÃO

Diz a Exortação Vita Consecrata: “Na Vida Consagrada, teve sempre grande importância a função dos superiores e superioras, inclusive os Locais, tanto para a vida espiritual quanto para a missão” (VC 43). Não são necessárias muitas explicações para concluir que todo grupo humano necessita da autoridade, ainda que a forma varie muito de uma sociedade para a outra. Digamos que é um dado antropológico, inscrito na natureza e desenvolvimento de todas as culturas. A revelação cristã não passa por cima disso; antes, o confirma. São Vicente nos diz o mesmo através de uma imagem bem sugestiva: “Os superiores – diz – são como os pilotos que levam o barco ao porto” (IX,859). Pode ser que, em certo sentido, a autoridade, hoje, revista-se de maior importância e também de maior dificuldade do que em épocas passadas, quando as estruturas eram fortes e, por si mesmas, sustentavam e ajudavam a autoridade a levar a bom termo sua missão. Hoje, as coisas mudaram. As estruturas perderam credibilidade e se debilitaram consideravelmente até o ponto de necessitar de pessoas sólidas capazes de sustentar e animar as estruturas. Dito em outras palavras: antes, os superiores eram facilmente aceitos e respeitados por todos, pelo menos externamente. Hoje, isso não é tão evidente de entrada. Além da autoridade institucional, necessita-se da autoridade moral, hoje mais do que nunca. E esta, que não é dada pelo ofício sem mais, conquista-se à base de dedicação à missão, de entrega desinteressada e gratuita e de coerência de vida.

Seguramente, uma das funções mais importantes que, atualmente, se recomenda à autoridade na Congregação é a de animar as comunidades, os ministérios, a vida espiritual. As CC. 101, 102, 123 e 129 apontam para cada um dos três níveis de governo. Pois bem, a animação não se improvisa nem pode se fazer apressadamente, confundindo o essencial com o acessório, ou envidando esforços sem metas precisas. O governo e a animação requerem um roteiro, um plano global, algumas metas desejáveis e algumas estratégias concretas. Evidentemente, esta proposta de animação há de estar em sintonia, não só com nosso carisma vicentino, mas também com a orientação que esta Assembléia Geral vai dar a toda a Companhia para os próximos seis anos. E a orientação terá a ver com a fidelidade criativa. Esta requer superiores que apontem para frente, que tenham uma visão de futuro, que sonhem os sonhos de Deus e de São Vicente e se arrisquem para preparar e adiantar o que pode ser um novo nascimento. Oxalá os superiores na Congregação não se deixem atrapalhar por uma excessiva prudência institucional que os torne ambíguos nas decisões práticas e tímidos para oferecer aos Missionários propostas evangelicamente audaciosas! A nosso favor, contamos com o exemplo de Jesus Cristo e a experiência de São Vicente.