Festa Nacional da França – Missa com representantes da Família Vicentina
Capela São Vicente de Paulo – 17 horas

HOMILIA¹

Pe. Jean-Yves LEBOEUF, C. M.

Cada país do mundo tem o cuidado de guardar e assinalar no calendário alguns dias especiais para festejar o aniversário da Constituição, da Independência, a chegada de um sistema político. Cada país tem a necessidade de celebrar estes acontecimentos que vão marcando e construindo sua história. Isto permite a um povo ter consciência do corpo que ele constitui.

 É um momento de festa e de alegria, é um momento de coesão social. Hoje França celebra sua festa nacional, “o 14 de julho”. Em Paris, os Campos Elíseos vivem a tradição do desfile militar. Em todas as partes se respira um agradável ambiente. As danças populares são a nota antes dos fogos de artifício.

O dia 14 de julho de 1789 marca para nosso país o início de uma nova história. Aquele dia, o povo enfurecido toma a prisão da Bastilha para destruí-la! Esta fortaleza estava ocupada por alguns prisioneiros, mas, sobretudo simbolizava o poder real absolutista. O antigo regime dá lugar a um novo.

Sem dúvida este novo período da história não foi vivido sem violência. No que diz respeito à Congregação da Missão, ela não escapa à brutalidade: a casa de São Lázaro foi pilhada e saqueada. As pessoas chegam para roubar armas e só encontram alimentos.

Durante muitos anos, os massacres se multiplicam. Alguns falam de genocídio. Por que tantos mortos para fazer chegar o sonho de um mundo melhor?

A Igreja sofrerá de uma maneira particular, ela se vê muito afetada pelas primeiras bases da democracia que começava a constituir-se.

Os mártires católicos são numerosos. Em breve falaremos de novo de nossos feitos, pois a diocese de Air e Dax se prepara para a beatificação de Margarita Rutan, Filha da Caridade, guilhotinada em 1794.

O dia 24 de setembro de 1792 se proclama a abolição da realeza e se anuncia a primeira República Francesa. O lema da nação é instituído e imediatamente será visto nas fachadas das prefeituras e dos edifícios públicos as palavras: Liberdade, Igualdade e Fraternidade. Três palavras que têm um grande sentido. Três palavras que vão ter muita importância e logo será encontrada na declaração dos direitos humanos e na Declaração Universal dos Direitos Humanos, proclamada em 1948. Eu me permito citar o texto:

“A liberdade consiste em poder fazer tudo aquilo que não causa problemas aos outros”. Se este sonho se realizasse nós faríamos parte de uma sociedade mais humana.

“A mesma lei para todo o mundo, define a igualdade… ao nascer todos somos iguais, ninguém tem mais poder que outro”. Se este sonho se realizasse, a exclusão e o favoritismo não teriam lugar.

Enquanto a fraternidade: “Não faças aos outros, o que não desejes que te façam, faz sempre o bem, que tu desejas receber”. Se esse sonho fundado na atenção ao outro se realizasse, seríamos testemunhas de uma sociedade que conhece a felicidade e a unidade entre todos.

Estas formulações expressam sentimentos, pensamentos e resumem uma regra de conduta ou a maneira de projetar-se rumo a um ideal.

Na sociedade francesa muitos homens e mulheres puseram e continuam pondo todas suas energias para fazer valer estes direitos através da política, da economia, do social, das associações, direitos das crianças, direitos das mulheres.

Sonhos que muitos homens e mulheres procuram concretizar em cada rincão do mundo: recordemos a Martín Luther King nos Estados Unidos. Um dia uma costureira negra de cinquenta anos, a senhora Rosa Parks, não cede seu assento no ônibus a um branco, como estava estabelecido na lei de Alabama. Por causa disto é interpelada pela polícia e se não fosse por uma testemunha que pagou imediatamente a multa ela seria levada para a prisão. Este foi o começo da luta de Martín Luther King.

Recordemos a Gandhi na Índia: seu sonho era libertar aos habitantes do seu país de todos os jugos, os prejuízos, de todas as desigualdades sociais, das discriminações e de toda forma de dominação. Sonho que teve igualmente Nelson Mandela na África do Sul, ele desejava ver uma política justa em seu país e por ele lutou por muitos anos contra o apartheid.

Cada um pode citar um exemplo…

O certo é que é necessária muita força para tornar realidade estas noções de liberdade, de igualdade e de fraternidade. Para pô-las em prática necessitamos muitas vezes de ir ao sentido contrário daquilo que a sociedade nos impõe. Muitas tiranias novas aparecem.

João Paulo II no discurso que pronunciou em Bourget, em uma de suas viagens a França, disse que o lema republicano é uma idéia cristã. Segundo ele, para nós cristãos, este lema não é estranho ao Evangelho.

Visto que falamos de fidelidade criativa na Missão, convém dizer que devemos unir-nos a todos os homens de boa vontade, todos os que trabalham por uma sociedade ou um mundo mais justo. O sonho de construir um novo Reino não é necessariamente com um rei terrestre, mas sim com todos aqueles que sonham com um Reino onde a dignidade do ser humano ocupa o primeiro lugar.

Para nós cristãos, Jesus é uma referência. Nos evangelhos, seu comportamento foi o mesmo com cada uma das pessoas que encontrava. Cada pessoa mereceu o respeito de sua dignidade. Ele buscou o contato com os marginalizados da sociedade de sua época.

A passagem do Evangelho de hoje nos recorda sob a forma de uma oração que o Reino se constrói com os mais pobres: “Te dou graças, Pai, Senhor do céu e da terra, porque escondestes estas coisas aos sábios e entendidos e as revelastes aos pequenos”.

Se nossas sociedades procurassem colocar os pobres no centro de suas preocupações isto seria uma grande revolução. Foi isto o que fez Jesus.

À sua maneira, o senhor Vicente, seguindo a Cristo Evangelizador dos Pobres, teve a sua participação nas grandes mudanças: as pessoas e as instituições mudaram. Nós temos sorte: nossa missão é bonita porque está sustentada pelo senhor Vicente. E, Jesus é mais que uma simples referência, Ele deseja habitar em nossas vidas. Ele é mais que um ideal, Ele nos dá aquilo de que necessitamos para construir, à nossa medida, o Reino de Amor e Justiça.

Sim, Jesus é a força inesgotável que nos orienta para transformar nossos lugares de missão e desta forma mudar a humanidade. Amém.

Texto original em francês. Esta tradução foi feita a partir da tradução do espanhol.