Texto 2 – Pré Assembléia Doméstica

Síntese do Tema da Formação Permanente[1]

Manuel Ginete Furtalan, C.M.
Giuseppe Turati, C.M
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Premissas

De 4 a 15 de junho de 2007 aconteceu na Cidade do México o encontro internacional de todos os Visitadores da Congregação da Missão. A primeira semana teve como tema central a formação permanente. O Pe. Hugo O’Donnell orientou a reflexão dos quatro primeiros dias oferecendo um material precioso sobre o tema, a partir de seu profundo conhecimento da caminhada da Congregação nas últimas décadas. O Pe. Patrick McDevitt, C.M., ajudado por sua assistente, María José Pacheco, facilitou a reflexão e o intercâmbio, tanto na assembléia plenária como no trabalho dos grupos. O Pe. Daniel Vazquez, Visitador da Província da Colômbia, concluiu a semana com meio dia de retiro espiritual, oferecendo aos Visitadores uma meditação sobre o tema da formação permanente, centrando-o em dois pólos fundamentais da vocação vicentina, Jesus Cristo e os Pobres.

ASPECTOS FUNDAMENTAIS DA FORMAÇÃO VICENTINA

O caminho percorrido levou os participantes a aprofundar aspectos da formação permanente, especificando as perspectivas fundamentais, os princípios dinâmicos básicos, os objetivos a alcançar, os níveis operativos, os recursos e estratégias e finalmente os obstáculos.

Perspectivas fundamentais da formação vicentina

seguimento de Cristo Evangelizador dos Pobres é o eixo que sustenta toda a formação vicentina. Cristo e os Pobres são os pólos essenciais e indispensáveis e a fonte da formação permanente: faz falta amar cada vez mais a Jesus Cristo para amar cada vez mais os Pobres e faz falta amar cada vez mais os Pobres para amar cada vez mais a Jesus Cristo.

identidade do missionário vicentino não se dá de uma vez por todas, mas é o resultado de sua relação cotidiana com Jesus Cristo, com a comunidade a que pertence, com o mundo, com os Pobres.

Surgiu com clareza a convicção de que a formação não é um estado adquirido mas um caminho: a formação inicial é uma introdução a este caminho que dura por toda a vida. Esse caminho atualiza-se diariamente em um processo que leva a uma profunda transformação da identidade da pessoa do missionário, para configurar-se sempre mais com Jesus Cristo Evangelizador dos Pobres. A vida fraterna em comunidade é o âmbito dinâmico em que se alimentam, se sustentam e se realizam as relações com Cristo e com os Pobres.

Princípios dinâmicos básicos da formação vicentina

princípio cristológico; não basta imitar a Jesus Cristo, temos que entrar em seu mistério para conformar-nos com Cristo Evangelizador dos Pobres e participar na vida trinitária.

princípio da experiência vicentina que leva a discernir os acontecimentos cotidianos para descobrir neles a vontade de Deus e a responder-lhes com a ação.

princípio místico: a abertura à ação do Espírito Santo, que modela nossa pessoa de maneira aberta, disponível e feliz.

princípio do humanismo vicentino: a formação consiste em tornar-se cada vez mais pessoa em todas as dimensões (humana, espiritual, comunitária, apostólica, intelectual), marcadas pela dimensão vicentina que impregna e dinamiza todas as outras.

princípio comunitário: a comunidade é o agente formativo por excelência, uma escola de formação permanente.

princípio relacional: seja no encontro com o Pobre, seja na maneira de relacionar-se com os outros, de maneira flexível, cordial e madura.

princípio do realismo cristão: reside na capacidade de relacionar-se com a realidade a reconhecendo como portadora do desígnio providencial de Deus para nossa vida.

princípio da unidade na diversidade.

princípio evolutivo nas diversas etapas da maturidade da pessoa.

Objetivos a alcançar

O primeiro objetivo da formação permanente é a santidade correspondente à vida do missionário: uma santidade adquirida através da conversão e transformação interior diária, que o leva a “revestir-se do espírito de Cristo” (RC I, 3, C 1).

Junto a este objetivo fundamental está o de um crescimento contínuo no nível humano e profissional, que leva o missionário a adquirir uma capacidade cada vez mais profunda para relacionar-se com os outros, além de uma competência na proclamação da Palavra e no exercício da Caridade.

O missionário vicentino é chamado, por conseguinte, a estar sempre afinado com os tempos e a deixar-se afetar intimamente pelo que ocorre em torno dele, sabendo discernir nos acontecimentos cotidianos a missão para a qual Deus o chama. Isso o leva, em fidelidade ao evangelho, a adaptar seu próprio ministério às exigências reais do povo, aprendendo a ser flexível e criativo no trabalho apostólico. Esta criatividade apostólica será madura e tanto mais eficaz quanto mais for vivida em uma atmosfera de fraternidade que liberte a pessoa tanto do individualismo como da solidão em seu ministério.

Níveis operativos (devem ser lidos não como uma sucessão cronológica, mas como uma relação circular)

Em nível pessoal, é necessário que o coirmão se responsabilize, que não podendo delegar ou fazer-se substituir por outra pessoa ou estratégia.

Em nível local, a comunidade aparece como âmbito prioritário da formação, em que se pede a cada missionário que cresça constantemente.

Em nível provincial, o Visitador é chamado a reforçar a comissão provincial para a formação permanente ou a criá-la onde não exista, a fim de despertar em todos os coirmãos as motivações pessoais e a convicção da importância da formação permanente em sua vida.

Em nível de Conferência de Visitadores e Províncias, hoje parece indispensável a existência de momentos de encontros formativos, de intercâmbios e de avaliações.

Em nível de Congregação, elaborar algumas linhas de formação permanente especificamente vicentinas (uma Ratio Formationis ou Linhas de Ação), que estabeleçam o marco geral dentro do qual agir em outros níveis.

Atitudes e recursos

A responsabilidade na formação, em todos os níveis, se nutre de uma disposição profunda e contínua para ler os sinais dos tempos, que constituem um estímulo permanente para o crescimento pessoal e comunitário. O discernimento de tais sinais necessita do retorno contínuo às fontes de nossa espiritualidade (escritos de São Vicente, Constituições e Estatutos, tradição vicentina, etc.). O contexto atual oferece recursos importantes, entre os quais, o desejo de muitos leigos de participarem na missão vicentina e de se comprometerem com ela: a Família Vicentina pode ser hoje um recurso importante para o enriquecimento de nossa espiritualidade vicentina e uma colaboração fecunda para o serviço dos Pobres. Também o contexto social mais amplo no qual vivemos é como uma resposta importante: podemos considerar a necessidade difusa de sentido e de valores no mundo atual e contribuir para criar nele uma cultura da solidariedade e uma “civilização do amor” (Paulo VI).

Obstáculos

O caminho da formação, que acompanha o missionário vicentino ao longo da vida, encontra múltiplos obstáculos, a começar por aqueles que se manifestam no plano pessoal. Com o enfraquecimento da dimensão espiritual, o pragmatismo apostólico não deixa espaço para uma reflexão constante e atenta aos sinais dos tempos; o individualismo nos ministérios compactua com o desejo de realização pessoal.

Em nível comunitário os maiores obstáculos apresentam a forma do “aburguesamento” da vida, da falta de projetos formativos e de planos operativos concretos, da dificuldade para nos relacionarmos mutuamente e do distanciamento dos Pobres que torna proporcionalmente difícil o conhecimento de sua realidade.

Finalmente, no nível cultural, os maiores obstáculos para a formação permanente se apresentam com cara de fundamentalismo, de relativismo, de enfraquecimento da verdade, enquanto que viver, buscar e testemunhar a verdade com simplicidade e humildade é o primeiro passo no seguimento de Cristo.

PROCESSO PARA A ELABORAÇÃO DE UM POSSÍVEL PLANO DE FORMAÇÃO

O processo de elaboração de um possível plano de formação deve proceder da base para o alto, ao contrário ou modo paralelo?

Deve proceder de modo paralelo, porque do alto recebemos a luz que nos unifica e inspira no mesmo espírito e na natureza da Congregação, por meio de sua espiritualidade, de suas Constituições e Estatutos. De baixo, porque a base encarna a essência do espírito vicentino em um contexto concreto que por sua vez enriquece e renova o ser da Congregação, no tempo.

O problema do equilíbrio entre as linhas gerais da formação e as exigências em nível regional e provincial

Deve centrar-se na essência da Congregação: “Seguir a Cristo Evangelizador dos Pobres” permitindo tanto a unidade da Congregação, por meio de linhas gerais e não-uniformes, como a criatividade e a riqueza da pluralidade no respeito à diversidade que nos enriquece e nos fortalece.

O problema do equilíbrio entre a responsabilidade pessoal e a do Visitador e a responsabilidade da comunidade

O Coirmão é o sujeito da formação. Por isso, para manter o equilíbrio entre o indivíduo e a comunidade, o Visitador deve favorecer as qualidades e habilidades do Coirmão, estimulando e promovendo os meios que permitam o desenvolvimento de suas capacidades para colocá-las a serviço da missão de sua comunidade local e provincial.

O problema do equilíbrio entre a formação inicial e a formação permanente (continuidade e diferenças)

Os princípios fundamentais e as orientações da vocação são os mesmos; existe uma continuidade entre a formação inicial e a formação permanente; com a formação inicial se intenta oferecer ao candidato algumas ferramentas que lhe permitam responder ao desafio de seu tempo e encarnar o carisma em um determinado lugar. A formação permanente, voltando às fontes que a alimentam, mantém vivo o carisma vicentino, o aprofunda, o aperfeiçoa, o reinterpreta frente aos novos desafios revisando e atualizando as ferramentas recebidas na formação inicial.

De que modelos devemos partir e onde queremos chegar?

Do Cristo de São Vicente, para chegar à perfeição e maturidade humana no serviço aos Pobres.

Quais são os critérios nos quais devemos inspirar-nos, levando em consideração o já contido nas Constituições?

Os sinais dos tempos, a Sagrada Escritura, a tradição da Igreja e da Congregação, as Constituições, os Estatutos e outros documentos da Congregação.

Como motivar os Coirmãos para a formação contínua, tanto em nível pessoal, quanto em nível provincial?

Buscando modos criativos para motivar: partindo das experiências difíceis para a formação contínua; organizando encontros sobretudo em lugares novos; pedindo às comunidades locais que discutam temas e entreguem ao Visitador ou ao encarregado da formação permanente os resultados das discussões. Usando modos criativos: Internet, e-mails, meios interativos (por exemplo, estudo online das Constituições), grupos de discussão, testemunho de pessoas experientes.

PROPOSTA DE PROCEDIMENTO

Para muitos seria desejável que o Superior Geral escrevesse uma carta em que sintetizasse tudo o que surgiu no Encontro de Visitadores sobre o tema da formação permanente e animasse os Coirmãos a alcançar este objetivo, valorizando tudo o que já se está fazendo nas diversas províncias. Esta carta poderia conter:

– Uma introdução sobre o encontro do México.

– Um apoio ao que já se está fazendo (dimensão humano-espiritual).

– Conseqüências da falta de uma formação permanente (dimensão espiritual-vicentina).

– Benefícios da formação permanente para melhorar a missão (dimensão apostólica).

– Os pontos de vista ou os critérios do próprio Superior Geral.

A muitos lhes parece útil a constituição de uma comissão para aprofundar este tema e elaborar um documento. Tal comissão deveria utilizar em sua reflexão o método indutivo, partindo da realidade concreta. Seu trabalho deverá ter também aplicações práticas, concretas.

A eventual Ratio Formationis Vicentina poderia ser fruto deste processo que poderia também levar em conta o resultado do questionário elaborado pela Comissão Preparatória do Encontro dos Visitadores no México e as Ratio que já existem para a formação inicial (seminário maior e seminário interno). O caráter do documento final poderá ser decidido na próxima Assembléia Geral (2010). De todo modo, se propõe que o documento seja do gênero literário narrativo e que abarque uma dupla visão: por um lado, a formação permanente e por outro, a missão.

Existem aqueles que em vez de uma Ratio ou além dela, consideram desejável a elaboração de um Guia Prático, também este elaborado por uma comissão. Seria um documento simples e prático, claro e conciso, uma espécie de esquema a que cada província dá sua própria forma e que vá tomando consistência graças à retroalimentação e a avaliação que vem das Províncias e das Conferências de Visitadores. Tal Guia poderia oferecer às comunidades locais e às províncias uma ferramenta para o planejamento e para a realização de sua própria formação permanente, estreitamente unida à vida cotidiana e, portanto, com um eficaz impulso motivador. Poderia além disso oferecer a cada Coirmão em particular razões teóricas sobre sua própria responsabilidade no que se refere à formação permanente, assim como métodos práticos e concretos, argumentos, linhas de ação. Este esquema de Guia prático deveria levar em consideração os aspectos fundamentais da formação vicentina, tal como foram apresentados e discutidos no Encontro de Visitadores e os modos concretos de realização da formação permanente nas diversas províncias.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Ao final do encontro se destacou que falta que muitas Províncias partilhem as experiências que seguramente têm. De toda forma, o encontro ajudou os participantes a esclarecerem que a formação permanente é muito mais do que a formação profissional ou intelectual que, mesmo que necessárias, não são o mais importante. Convencemo-nos da necessidade de auto-reflexão e de animar a auto-formação a partir das Ratio já existentes para nossa própria formação. Cada um dos objetivos deve ser flexível e adaptado ao povo, mas ao mesmo tempo deve estar enraizado no Evangelho e ser-lhe fiel.

[1] Vicentiana, Ano 51, Nº 3 (maio-junho de 2007). p. 204-210.