Texto 3 – Pré Assembléia Doméstica

A Formaçaõ, um processo de Vida

“Ele crescia em graça, em idade e em sabedoria diante de Deus e de todos os que o conheciam.”
Pe. Hugh Francisco O’Donnell,C.M

I – AVANÇANDO RUMO AO FUNDAMENTAL

Obrigado pelo seu convite para falar sobre a educação ao longo da vida e sobre a formação permanente na Congregação da Missão. Considero-o como um convite a refletir sobre nossa vocação pessoal e comum a crescermos em nossas próprias vidas como seres humanos, discípulos de Jesus, seguidores de Vicente, missionários, irmãos uns dos outros, amigos dos Pobres e amigos dos Sacerdotes. Não pretendo nenhuma especialidade nesse campo, embora a formação tenha ocupado parte muito importante de minha vida na comunidade. Imagino que tenha sido convidado pela minha responsabilidade atual como Diretor do programa do CIF. Conhecer missionários de toda a Congregação tem sido uma grande bênção para mim e espero que aquilo que tenho a dizer de alguma maneira expresse o que aprendi deles, de suas aspirações e esperanças, sem esquecer sua satisfação pela oportunidade de ir ao CIF. Não falo, hoje, concretamente sobre o CIF, mas precisamente sobre o chamado que recebemos para crescer até o fim de nossa vida. Como não estou aqui como especialista, escolhi falar de minha experiência e partilhar com vocês minhas convicções. Espero ser concreto e específico, não para que concordem com tudo, mas para que tenham algo específico que estimule sua própria reflexão e evoque sua própria experiência e suas convicções.

Uma nova geração de líderes para o século XXI 

Vocês são uma geração nova de líderes para o século XXI. Estive presente na última Assembléia Geral de 2004, não como delegado, mas para informar à Assembléia sobre o CIF. Tive uma surpresa enorme ao chegar à Assembléia. Tendo assistido às cinco Assembléias anteriores, esperava conhecer muitos ou a maioria dos delegados da Assembléia de 2004. Descobri, porém, ao chegar, que muitos dos provinciais e a maioria dos delegados participavam de sua primeira Assembléia. Para mim foi uma Assembléia de nomes e caras novas. Depois de superar a surpresa, dei-me conta de que a liderança da Congregação havia passado para mãos novas, mais jovens, o que me fez feliz. A Assembléia de 2004, sendo a primeira Assembléia Geral do século XXI, fez-me compreender que tínhamos uma geração nova de líderes – vocês próprios – para um novo século na vida da Companhia.

A oportunidade de participar de cinco Assembléias Gerais me deu uma perspectiva sobre a evolução da comunidade nos últimos quarenta anos, que desejaria partilhar com vocês, porque penso que dá um contexto para o trabalho deste encontro. A trajetória da Companhia desde o Concílio Vaticano II foi uma graça. Conhecer de onde viemos e “para onde vamos” ajudará a centrar o tema do Aprendizado de toda a Vida e da Formação Permanente em perspectiva, e pode ajudar a contextualizar o caminho daqui por diante.

Uma trajetória agraciada

As duas primeiras Assembléias Gerais depois do Concílio, 1968-1969 e 1974, foram tempos de esforços, conflitos, choques de visões cósmicas e esperanças para o futuro. Foi um tempo em que os Coirmão se esforçavam por se conhecer mutuamente e conhecer suas situações, os diversos modos de pensar de uns e de outros, saber quais palavras valorizadas por um grupo tinham significado distinto e às vezes negativo para outro grupo. Finalmente, foi um tempo de superar falsas impressões, estereótipos, preconceitos e projeções. Também houve uma mudança nos centros de influência. O predomínio da língua inglesa em 1968-1969 deu lugar às convicções espanholas, francesas e italianas sobre Jesus evangelizador (e libertador) dos Pobres – a agenda preparada pelas Províncias para a Assembléia de 1974 foi rechaçada e a Assembléia se dedicou ela própria a exortações pastorais para os Coirmãos. Foi  minha primeira Assembléia e para mim foi marcada por mútuos mal entendidos assim como por sérios esforços de superar esses mal entendidos. Retrospectivamente, creio que foi primeiro passo para se chegar a uma comunidade internacional e global, não só geograficamente, como já éramos, mas nas relações como corporação e como missionários.

A fase seguinte em nossa evolução como comunidade internacional com uma missão global ocorreu nas Assembléias de 1980 e 1986. Durante nove semanas no verão de 1980, a Assembléia Geral trabalhou para escrever as novas Constituições e os Estatutos. Parecia existir um novo nível de entendimento e diálogo, novos esforços para se comunicar e se compreender uns aos outros. A Assembléia esteve paralisada durante semanas discutindo se a Congregação tinha um ou três fins, mas finalmente resolvemos o problema de forma aceitável para toda a Assembléia. A imagem de Cristo Evangelizador dos Pobres foi assumida como expressão própria do fim da Comunidade; com a compreensão clara de que se realizava numa tríplice forma. O documento final pertencia a uma Assembléia unida e a uma Congregação unida. Seis anos mais tarde, a Assembléia Geral de 1986 aprofundou este vínculo, através do tema “Um Corpo, um Espírito em Cristo”.

A terceira fase em nossa evolução pós-conciliar nos impulsionou a partir da unidade interna para a missão internacional e para o serviço especial vicentino. A Assembléia de 1992, na qual o Pe. Maloney foi eleito Superior Geral, organizou a colaboração interprovincial e uma nova iniciativa missionária. A Assembléia de 1998 encaminhou a Congregação a se estender também, dessa vez em colaboração ativa com os membros incrivelmente numerosos e incessantemente ativos da Família Vicentina.

Essa passagem do conflito e da incompreensão mútuos (1968-1969 e 1974) para a unidade e o entendimento, através do esforço e do diálogo (1980 e 1986) e, desde então, para o serviço missionário ampliado das missões internacionais e para os compromissos com a Família Vicentina (1992 e 1998), foi algo que ninguém programou. Compreende-se só com um olhar retrospectivo e desse modo, creio, deve ser atribuído ao Espírito Santo. Naturalmente, leva-nos à pergunta: para onde vamos a partir daqui? Qualquer que seja o tema escolhido para a próxima Assembléia Geral, não sei, mas presumo que o Aprendizado ao longo da Vida e a Formação Permanente serão um componente-chave de qualquer direção estratégica que elejam.

O que é a formação ao longo de toda a vida? 

Eis aqui alguns fatores que devem ser considerados sobre a Formação Permanente. Podem acrescentar outros.

Crescimento. A formação permanente tem a ver com um marco mental e um compromisso com o crescimento durante toda a nossa vida. A formação inicial é somente uma introdução ao nosso estilo de vida e um fundamento para o que virá. Anos atrás, a formação inicial era só formação final, exceto para alguns que continuavam para especializar-se em alguma área acadêmica. Mas, hoje, a formação permanente é parte integral de nossa caminhada de toda a vida.

Transformação. A formação aspira à transformação. Essa é a idéia de Rosemary Haughton já algum tempo. A meta real é a transformação, que compromete a liberdade da pessoa individualmente a dar uma resposta ao Espírito Santo. A formação proporciona o contexto e o material para a transformação. Podemos formar as pessoas no sentido limitado de socializá-las nas práticas, nos costumes e estilo de vida da comunidade. Mas o processo de uma autêntica formação aponta para além dela própria, para onde de fato não se pode ir, isto é, para dentro do mundo da liberdade do indivíduo e da ação do Espírito Santo. Parece-me que a grandeza e as limitações da formação se encontram em colocar a formação como algo que significativa mais que socialização e menos que transformação.

Passagem. A Formação permanente dá uma grande contribuição à passagem do falso eu para o verdadeiro eu, partindo da generosidade para amar, do conhecer quem nos deu a vida pelos irmãos, passando da pobreza na terceira pessoa do plural (os outros são pobres) para a pobreza na primeira pessoa do singular (eu sou o pobre, como Vicente). Ela estimula a passagem da oração à contemplação, da conformidade social à auto-autoridade e do discurso indireto (repetindo o que outros disseram) ao discurso direto (falando a Palavra de Deus como própria).

Alguns, comparando os discípulos dos rabinos com os discípulos de Jesus, notaram certas diferenças chaves, entre as quais está que os discípulos dos rabinos esperam finalmente tornar-se rabinos eles próprios, enquanto os discípulos de Jesus nunca se diplomam. Nós somos discípulos a vida toda, aprendizes. Nossa caminhada está dentro do inefável mistério do amor de Deus mediado pelos anawim que Deus constituiu como nosso lote.

Santidade. Chegou-se a falar habitualmente de conversão, não como acontecimento isolado que muda a vida, mas como uma realidade permanente, uma conversão permanente. Não nos convertemos somente uma vez, quando respondemos afirmativamente com todo o nosso coração e a nossa alma ao convite de Jesus para vir e segui-lo. Depois de nossa resposta inicial à proclamação do Evangelho e ao convite de seguir a Cristo evangelizando os anawim, está o convite diário à conversão e à transformação em Cristo. Se falamos de conversão ou metanoia no mundo cristão, o Oriente fala de Iluminação como meta dessa caminhada.

Competência. A formação inicial nos introduz na vida e na missão da comunidade e nos coloca ou nos faz avançar no caminho para a santidade. Os Votos confirmam nosso compromisso de evangelizar os Pobres durante toda a nossa vida, e o sacerdócio ou a consagração como irmão concretiza nosso papel na evangelização. Mas isso é um ponto de partida. Teremos certamente que crescer na competência ministerial e talvez também desenvolver competências e técnicas profissionais. A imagem nova de sacerdote que está emergindo gradualmente desde o Concílio Vaticano II requer uma multidão de novas competências, especialmente competências para proclamar a Palavra de Deus e evangelizar os anawim. A primazia do batismo, a emergência do laicado e o desenvolvimento de todos os ministérios leigos exigem técnicas para a construção da comunidade, da escuta, da colaboração e da liderança dinâmica. Os líderes, diz-se, não nascem, mas se fazem, incluindo os líderes clericais e religiosos.

Em sintonia com os tempos. O Papa João XXIII disse que o Concílio Vaticano II era sobre o aggiornamento, porque percebia que a Igreja não caminhava com os tempos atuais. Não sei se nos temos colocado em dia ou não, mas precisamos relacionar-nos com nossos contemporâneos e estar em contato com o que acontece hoje. Não tem valor estar atrás dos tempos. São Vicente esteve a par do seu tempo. Voltarei a isso mais adiante.

Uma meta com visão orientadora. Quando João XXIII abriu o Concílio Vaticano II em 1962, disse: “A Divina Providência nos dirige rumo a uma nova ordem de relações humanas…” Ele explicou mais tarde que se trata de uma ordem na qual as pessoas resolverão suas dificuldades e diferenças sem violência. Paulo VI e João Paulo II falaram de criar uma civilização do amor. Aqui temos um Evangelho e uma visão eclesial que anima nossa formação permanente. Quando esta ordem nova de relações humanas e esta civilização do amor se centram nos menores de nossa sociedade e nos servidores sacerdotais, tem um rosto vicentino.

Creio que a meta da formação permanente merece atenção especial. Thomas Merton disse que vivemos num mundo de meios perfeitos e fins confusos. Podemos saber muito sobre os processos só se sabemos para onde vamos.

Quais são os dinamismos básicos da Formação Permanente?

1. O dinamismo básico da formação permanente é o mesmo do desafio dinâmico do Concílio Vaticano II, quer dizer, 1) “Recursos” e 2) responder “aos sinais dos tempos”. Somos chamados a voltar às fontes, ao carisma do Fundador a projetá-lo no marco contemporâneo através do discernimento dos sinais dos tempos.

2. ”Recursos”. Creio que a comunidade pode felicitar-se por nossa volta às fontes a partir do Concílio Vaticano II. Coste está disponível em italiano, espanhol, inglês e polonês. Estudos, revistas, semanas de estudo, oficinas, seminários, páginas web, SIEV e CIF, todos têm contribuído para nosso conhecimento de São Vicente. As dimensões históricas e humanas da vocação de São Vicente e o itinerário para a santidade recolocou um Vicente historicamente distante. Todos estamos satisfeitos com os resultados. São Vicente tem chegado vivo para nós dentro da comunidade e da grande Família Vicentina por caminhos não sonhados. Claro, há muito por fazer e parece que estamos preparados para fazê-lo. Entre parênteses, SIEV procura fomentar uma nova geração de especialistas vicentinos.

3. ”Os sinais dos tempos”. As Constituições e os Estatutos de 1980 foram nosso melhor esforço para expressar o significado e o caminho de São Vicente para os nossos tempos à luz do Vaticano II e do que estávamos aprendendo de São Vicente. Mas estávamos conscientes ao mesmo tempo de que era o começo e não o final do redescobrimento de nossas raízes. O segundo artigo das Constituições, que ficou na sombra por toda a atenção dada ao primeiro atigo sobre “o seguimento de Cristo Evangelizador dos Pobres”, aponta para os desafios futuros e para a dinâmica da conversão e para o discernimento permanentes. Diz assim:

2º Em razão de seu fim, tendo em vista o Evangelho e sempre atenta aos sinais dos tempos e aos apelos mais urgentes da Igreja, a Congregação da Missão procurará abrir caminhos novos e empregar meios adequados às circunstâncias dos tempos e dos lugares. Além disso, terá o cuidado de avaliar e organizar suas obras e ministérios, de modo a permanecer em estado de renovação contínua.


Mais que qualquer outro artigo das Constituições, esse é o nosso mandato para um discernimento de toda a vida e uma renovação permanente. Os dois primeiros artigos estabelecem a dinâmica fundamental de nossa vocação: seguimento de Cristo evangelizando os Pobres nas circunstâncias atuais. Está no coração de nossa vocação que estejamos em contato com o nosso tempo, em contato com o que está acontecendo, o que segue adiante. Mas isso não decorre só de informações e notícias; devemos fazê-lo a partir da fé. Discernir os sinais dos tempos significa vê-los com a mente e o coração de Cristo. “Tanto amou Deus o mundo…” Somente o amor de Deus que está no coração de nossa vocação nos impedirá de afastar-nos para cantos seguros do mundo contemporâneo e nos dará o gosto de apreciar o bem que está acontecendo e o desafio que temos à frente.

Para frente rumo ao fundamental

Faz mais de vinte anos, um de vocês foi convidado pela Província de Saint Louis para orientar-nos num dia de oração e reflexão como preparação para uma Assembléia Provincial. Ainda lembro a palestra. Nossa Província estava dividida entre Coirmãos que insistiam em retornar ao básico e entre Coirmãos que queriam ir em frente com novas obras. O conferencista disse que cada grupo tinha razão, mas não no todo, talvez cada grupo tivesse meia verdade. Isso teve um efeito unificador em nós. Depois, pensei que o título dessa palestra poderia ter sido: “Para frente rumo ao básico”. O básico da fé, a oração, o amor, a comunhão e o sacrifício são necessários, mas não queremos encontrá-los voltando aos anos cinqüenta ou a um mundo que já passou. Somente os encontraremos se avançarmos comprometidos com os desafios de hoje, de amanhã e do mundo novo que está nascendo.

Esses comentários foram uma orientação geral sobre a formação permanente. Gostaria, agora, de refletir sobre a formação permanente de cada Coirmão individualmente, e depois sobre a formação permanente da comunidade.

II – O ITINERÁRIO DE VICENTE E O NOSSO

Voltar às fontes revela-nos o lado humano da santidade de São Vicente, mostra-nos a riqueza e o calor de suas relações, pondo-o em relação com sua sociedade e com os acontecimentos de seu tempo, e em geral, sensibiliza nosso coração para valorizar mais a pessoa real que foi Vicente. Gostaria de ressaltar três dimensões da vida de São Vicente que são significativas para a nossa formação permanente.

O caminho de São Vicente

O itinerário de São Vicente à santidade foi gradual. Uma das coisas que os participantes no CIF mais apreciam é o fato de descobrir o lado humano de Vicente. Experimenta-se muita alegria ao conhecer o caminho dele, isto é, conhecer as dimensões humanas e históricas de seu itinerário desde as ambições financeiras até chegar a ser o Apóstolo da Caridade. São Vicente descobriu a bondade do povo de Clichy; sua própria pobreza em sua prova de fé; a pobreza espiritual das pessoas nas propriedades dos Gondi, em Folleville; as necessidades dos pobres doentes em Châtillon; a bondade humana de São Francisco de Sales; o peso de sua missão mal sucedida em relação à sua família e sua libertação dela; a sinergia de trabalhar com companheiros na missão (Santa Luisa, etc.). O itinerário de Vicente rumo aos Pobres foi ao mesmo tempo um itinerário rumo à liberdade, rumo à verdadeira liberdade evangélica.

São Vicente encontrou Deus na história, nos acontecimentos, nas circunstâncias e nas pessoas. Creio que isso foi o que o separou definitivamente de Bérulle. Bérulle se concentrava na liturgia celeste e via o sacerdote como um reflexo dessa santidade pertencente a outro mundo. São Vicente, por outro lado, encontrou Deus presente neste mundo: nos acontecimentos, nas circunstâncias, nas experiências, nas pessoas, no Pobre. O Jesus de Bérulle era o Senhor Ressuscitado; o Jesus de São Vicente era o Jesus terreno de Nazaré, conhecido nos mistérios de sua existência histórica. Para São Vicente “Deus está aqui”.

André Dodin costumava dizer que São Vicente não tinha uma espiritualidade, mas antes um Caminho, um Caminho que estava baseado na experiência. Ele encontrou Deus na experiência e nos acontecimentos; por exemplo, em seu encontro com São Francisco de Sales ou na doação de Margarida Nasseau para ajudar às Senhoras da Caridade, ou no desafio do huguenote em Montmirail sobre o abandono dos pobres camponeses, ou na perda da granja de Orsigny. Dodin definiu o Caminho de São Vicente em três passos: primeiro, a experiência; segundo, a reflexão à luz do Evangelho e, terceiro, a ação dirigida pela fé e por critérios claros. São Vicente não foi um ideólogo, não começou pelas idéias, por conceitos, sonhos e planos. Ele lidou com os acontecimentos e discerniu a presença de Deus neles. Isso nos leva a ver que o nosso mundo hoje é diferente do mundo de São Vicente, de tal modo que os acontecimentos a que respondeu não são os acontecimentos que experimentamos. Deus nos fala nos acontecimentos de hoje. Somos chamados a responder com seu carisma. Isso faz com que o carisma de Vicente seja permanentemente atual.

São Vicente foi um homem de seu tempo. Agrada-nos citar as palavras de São Vicente sobre ser infinitamente criativos. Mas a primeira coisa que temos que imitar nele é estar em contato com o nosso tempo. Ele esteve em contato com o seu tempo. Poucas coisas aconteciam na França das quais Vicente não tivesse conhecimento (ou às quais não respondesse).

Porque São Vicente foi um homem de seu tempo, somos convidados a ser homens do nosso tempo. Porque encontrou Deus na história, nos acontecimentos, nas pessoas (mais que nas ideologias e nas teorias) o Caminho de São Vicente é sempre relevante. O seu tempo não é o nosso tempo, mas a fidelidade aos seus caminhos significa para nós pertença ao nosso tempo – ser homens de nosso tempo. E foi isto o que experimentamos ao escrever as Constituições e os Estatutos de 1980.

Sabemos que João XXIII cria que a Igreja caminhava defasada de seu tempo e precisava atualizar-se. Esse é o significado do “aggiornamento”. Alguns dizem que a etapa do “aggiornamento” terminou e que estamos numa etapa nova chamada “re-fundação” ou “re-invenção”. Talvez, sem sabê-lo, isso tenha sido o que fizemos ao escrever as Constituições em 1980. Nós nos redefinimos a nós mesmos e definimos o que significa ser vicentino atualmente e no futuro.

As Constituições supõem um impulso para o futuro. Antes citei o segundo artigo importante das Constituições. Esse é norma jurídica para a formação permanente com relação às realidades de nossa sociedade e da cultura e dos acontecimentos de nosso tempo. É um dos dois pilares das Constituições. Isto exige: 

– Atenção aos sinais dos tempos

– Atenção aos apelos mais urgentes da Igreja

– Abrir novos caminhos

– Utilizar novos meios

– Adaptar-se às circunstâncias do tempo e do lugar

– Avaliar e planejar trabalhos e ministérios

– Permanecer desta forma em estado de renovação permanente

Esse artigo nos vincula ao que está em andamento e estabelece um marco de crescimento, de desenvolvimento e de conversão para a comunidade e para o indivíduo. Está em continuidade com o artigo 77, que diz:

1. Nossa formação, feita como um processo contínuo, tem o objetivo de tornar os Coirmãos, animados do espírito de São Vicente, idôneos para realizar a missão da Congregação.

2. Portanto, aprendam, cada dia mais profundamente, que Jesus Cristo é o centro de nossa vida e a regra da Congregação.


No mesmo artigo 81, afirma-se:

A formação dos nossos deve prolongar-se e renovar-se por toda a vida.

Essa insistência na formação de toda a vida e no crescimento permanente com relação às necessidades e aos acontecimentos atuais é nova.

Em 1980, nós nos reinventamos. Passou muito tempo antes que eu entendesse as Constituições e os Estatutos como uma re-invenção de nós mesmos, mas o que elas são é isso. A diferença entre os 326 anos (1658-1984), quando seguíamos as Regras Comuns e as Constituições atuais, é que foi São Vicente que escreveu as Regras Comuns e fomos nós que escrevemos as Constituições e os Estatutos. Há também uma segunda diferença. As Regras Comuns se baseavam na experiência e refletiam a vida da Congregação de então. As Constituições e os Estatutos expressam nossas aspirações para o futuro que cremos ser chamados a ser. A conseqüência disso, que é a terceira diferença, é que não somos chamados somente à fidelidade ao que já existe, mas à fidelidade no futuro, que alguns chamaram de “fidelidade criativa”.

Fomos nós que redigimos as Constituições e os Estatutos. Isso implica em responsabilidades. Implicitamente aceitamos a responsabilidade de definir o perfil e o impulso da vida vicentina nesta nova era. O Concílio Vaticano II nos conduziu a fazê-lo e a Santa Sede aprovou e confirmou nossas Constituições, é verdade. Entretanto, a responsabilidade de viver o carisma de Vicente em nossos tempos é nossa. E, na medida em que o fazemos, descobrimos uma riqueza e profundidade nas Constituições mais além do que pensáramos colocar ali. Essa é certamente a experiência dos Coirmãos que vão ao CIF, assim como suas expectativas.

Elas se relacionam com o presente e com o futuro. Ainda que São Vicente tenha dito que as Regras Comuns não continham nada que a Comunidade não estivesse já vivendo, não podemos dizer o mesmo com relação às Constituições e Estatutos. Elas não expressam necessariamente nosso estilo de vida atual, mas valores, metas e normas que, cremos, encarnam o carisma de São Vicente e que procuramos que estejam à altura das novas circunstâncias.

Elas requerem “fidelidade criativa”. Nossa fidelidade não é só algo que já se deu no passado, mas que também é para o futuro, quer dizer, para abrir novos caminhos e novos meios adaptados às circunstâncias do tempo e do lugar (CC 2). Nosso desafio é a “fidelidade criativa”.

É muito freqüente citar as palavras de São Vicente, “Deus é criativo até o infinito” (sic). As Constituições e os Estatutos são nossos meios para imitar a face criativa do carisma de São Vicente.

III – OPTANDO PELA VIDA: RECURSOS PARA AVANÇAR

A – Apreço pelo que fomos e pelo bem que está acontecendo. 

1. Aceitação de nossa missão de “seguimento de Cristo Evangelizador dos Pobres”

2. O sentimento e a experiência de pertencer a uma comunidade internacional

3. Um sentido palpável da unidade da Congregação em todo o mundo

4. A boa vontade e bondade dos Coirmãos

5. A inculturação do Evangelho em todos os continentes

6. Liderança própria em toda a Congregação


B – O reconhecimento de que os Coirmãos são o grande bem da Congregação

1. Jesus disse de seus discípulos: “Eu te dou graças pelos que me deste… São um presente para mim”

2. Cada Coirmão, assim como cada Pobre, é um presente de Deus


C – Apreço pelo bem potencial da formação permanente

1. A confiança de que estamos em contato com o nosso tempo

2. O sentido de ser importante para a nossa sociedade e o nosso povo

3. A alegria de ser aprendizes toda a vida – “permanecei na minha verdade”

4. Um aprofundamento na identidade vicentina e o desejo de compartilhá-la

5. A realidade de sermos homens de oração que estão em casa com interioridade

6. Confiança em que o Senhor nos dirige nas circunstâncias atuais

7. Produzir – gastar energia pessoal e corporativa no serviço dos Pobres e do Clero


D – Uma atitude positiva rumo à mudança e à conversão (humildade)

1. Chamados a uma conversão permanente, autêntica

2. A conversão é espiritual, moral, intelectual, afetiva, social e política

3. A conversão vai do falso eu ao eu verdadeiro, do próprio interesse ao sacrifício, do ego à autêntica liberdade

E – A cooperação e a boa vontade dos Coirmãos 

1. Reconhecimento dos Coirmãos e de suas capacidades

2. Um programa positivo de crescimento e desenvolvimento

3. Cultura comunitária de afirmação e animação

4. Em definitivo, o próprio dom dos Coirmãos

F – O grande número de pessoas de boa vontade com as quais podemos colaborar

1.  Na Família Vicentina e em nossos trabalhos vicentinos

2. No mundo – trabalho em rede e em colaboração

IV – CHAVES PARA O FUTURO

A – Avançando rumo ao fundamental 

1. Continuar estudando São Vicente e apropriar-nos de seu carisma

2. Ser homens de oração e de interioridade

*    Relação entre oração e pobreza

*    Giuseppe Toscani, A Mística dos Pobres, O Caminho da Caridade (São Paulo, 1998).

3. Auto-sacrifício e compromisso incondicional

*    Escutar com um coração aberto

*    Pobreza de tempo

4. Comunhão fraterna nas condições atuais]

5. Alegrar-se de ser “a Pequena Companhia”


B – Opções básicas

1. Começar da própria experiência

2. Valorizar a boa vontade e a experiência dos Coirmãos

3. Escolher, dirigir (estabelecer uma agenda e expectativas reais)

4. Desafiar os Coirmãos, Comunidades e as Províncias para que cresçam

5. Educar para os desafios de nosso tempo

6. Utilizar recursos disponíveis dentro e fora da comunidade

7. Criar experiências de aprendizagem que levem à mudança de comportamento

8. Evangelizar a cultura da Congregação – começando com a formação permanente

*    a formação permanente é um meio para nos evangelizar e evangelizar a comunidade

*    individualmente e como comunidade


C – Identificar estratégias, desafios à comunidade no mundo
 

1.  A pobre gente às nossas portas; o abismo crescente entre ricos e pobres

2.  A persistência de guerras e violências e o anseio pela paz e a reconciliação; São Vicente um homem de paz em tempos de guerra

3.  A fome de sentido, de valores, de fé e oração

4. A necessidade de sacerdotes para apoiar, acolher e servir (imaginar novas formas de ser irmãos e sacerdotes – casas de acolhidas?)

5.  O desejo do leigo de oferecer-se voluntariamente para servir