Hoje, 19 de setembro de 2012, aqui em Paris, recebi a dolorosa notícia do falecimento do Pe. João Carneiro Saraiva, CM. Foi ele que, há doze anos, me recebeu na Congregação, como meu primeiro formador. Para mim, uma nova experiência de orfandade. Passado o impacto da notícia e enxugas as primeiras lágrimas, reúno forças para expressar o que sinto por meio do que posso fazer estando tão longe: deixar o coração transbordar em palavras de gratidão e reconhecimento por tudo o que recebi deste homem de Deus, cuja existência se consumiu como um círio, ao longo de 87 anos, iluminando e aquecendo com a tenacidade de sua fé, a proporção infinita de sua bondade, a autenticidade de sua humildade, a leveza de seu espírito de serviço, a serenidade com que enfrentou o sofrimento dos últimos anos. Dons, virtudes, talentos com que Deus enriqueceu o bom Pe. João e que ele fez frutificar na travessia de uma existência feita oferta, rica em humanidade, incansável em fazer o bem, esquecida de si, simples e alegremente voltada para os outros, numa irrestrita disponibilidade. Podemos, então, repetir com o evangelista: “Houve um homem enviado por Deus. Seu nome é João…” (Jo 1,6). É momento, portanto, de ação de graças, de cantarmos um solene Deo gratias por tudo o que o Senhor realizou na vida do Pe. João e, por meio dele, em nossas vidas, nós que o conhecemos e o amamos, que por ele fomos ajudados, orientados e estimulados, seus coirmãos e amigos, os de ontem e os de hoje. É assim, consternados e agradecidos, que depositamos nas mãos do Pai das misericórdias e Deus de toda consolação o que dele mesmo recebemos: a vida fecunda do querido Pe. João Saraiva.

Mas “somos humanos – como disse, certa vez, Adélia Prado, – precisamos de um tempo para que o luto tenha mudado em claro dia sua cor de crepúsculo”. A saudade começa a doer em nosso peito. Sentiremos muito tua falta, Padre João. Hoje, queremos agradecer a integridade de tua vida, a transparência de tuas palavras, a simplicidade de tua oração, a profundidade de teus conselhos, o vigor de teu zelo apostólico, a dádiva de tua existência consagrada. Não tenho dúvidas de que já escutaste: “Muito bem, servo bom e fiel… Entra agora na alegria do teu Senhor” (Mt 25,21).

Palavras são sempre insuficientes quando são profundas as emoções que nos invadem. Neste dia, muitos de nós nos sentimos órfãos. Foi-se o amigo, o formador, o confessor, o coirmão, o pai. Ficará para sempre a feliz recordação de sua vida exemplar de homem de Deus e servidor incansável de seus irmãos. Doravante, posso dizer que, por imerecida graça, conheci e pude conviver com um santo.

O que não sou capaz de expressar, porém, tomado pela emoção, deixo ecoar nas sentidas palavras com que São Vicente quis noticiar a passagem para a Missão do Céu de um de seus mais valorosos Missionários: “Agora, ele está no céu, enquanto ainda peregrinamos na terra; ele chegou ao porto, nós continuamos em meio à agitação das ondas; ele está em segurança, enquanto estamos apreensivos; ele já goza dos frutos das virtudes das quais nos deixou exemplos. Se imitarmos sua conduta, haveremos de acompanhá-lo na recompensa” (SV VII, 124). Até o Céu, querido Pe. João!

Com afeto filial,

Pe. Vinícius Augusto R. Teixeira, C.M.

Paris, 19 de setembro de 2012.