“O Papa é o pai comum de todos os cristãos, a cabeça visível da Igreja, o vigário de Jesus Cristo, o sucessor de São Pedro. A ele, devemos obediência todos os que estamos no mundo para instruir os povos na obediência que também devem ter para com esse pastor universal de nossas almas” (SV XI,692).

 

36ª Assembleia

Discurso do Papa João Paulo II aos membros da nova Cúria Geral da Congregação da Missão

Castel Gandolfo, 27 de julho de 1980.

Filhos diletíssimos,

Tenho o prazer de encontrar-me, hoje, convosco, que formais a nova Cúria Geral da Congregação da Missão ou Lazaristas, como foi eleita pela XXXVI Assembleia Geral do mesmo Instituto. Por isso, apraz-me saudar o novo Superior Geral, Padre Richard McCullen, atual sucessor de São Vicente, e, com ele, o Vigário Geral, Padre Miguel Pérez Flores, e os três Assistentes Gerais.

Ao mesmo tempo em que expresso a minha estima por vós e a minha satisfação por terdes sido eleitos para cargos tão importantes, não posso deixar de apresentar-vos os meus paternais bons votos de um cuidadoso e profícuo desempenho nas missões para que fostes escolhidos. A vida religiosa, hoje e sempre, agora mais do que nunca, é chamada a dar luminoso testemunho evangélico à Igreja e ao mundo, mediante um incondicional e total seguimento de Cristo. Este seguimento deve, além disso, configurar-se e ser vivido de tal modo que os homens possam verificar, frutuosamente, quão dinâmica e orientada para o bem de todos é uma autêntica consagração ao Senhor. Oxalá saibais também unir harmoniosamente em vós a necessária ação e a insubstituível contemplação e, sobretudo, possais infundir eficazmente a síntese de ambas em todos os membros da vossa Congregação.

Sei que os vossos campos de apostolado são múltiplos: as missões, primeiramente, na mais vasta acepção do termo, conforme as entendia o vosso grande Vicente de Paulo; depois, a direção e o ensino nos Seminários; a direção das Irmãs e das Damas da Caridade; e os retiros espirituais ao Clero e ao Laicato. Trata-se de atividades muito significativas, que abrangem setores diversos e importantes da vida da Igreja e requerem todo esforço inteligente e zeloso dos Lazaristas, em nome da grande e urgente caridade de Cristo. E vós, dos vossos novos postos de responsabilidade, sabereis, certamente, imprimir em toda a vossa ilustre família religiosa aqueles impulsos que dela pedem os tempos e as condições tanto da Igreja como do mundo em que hoje vivemos.

Tende a certeza de que me recordarei de vós na oração, para que não falte a inspiradora e corroborante graça divina às vossas decisões e ao vosso delicado ministério. Destes favores celestiais, que desejo sejam abundantes, é penhor a minha Bênção Apostólica, que, de todo o coração, vos concedo e torno extensiva a todos os vossos beneméritos Irmãos dispersos pelo mundo, como prova do meu afeto e do meu incentivo.

 

 37ª Assembleia

Discurso do Papa João Paulo II aos participantes da Assembleia Geral da Congregação da Missão

Roma, 30 de junho de 1986.

1. Bendito seja o Senhor! É ele que concede a graça deste encontro para um melhor serviço na Igreja. Voltemos também nossas mentes e nossos corações para São Vicente de Paulo, homem de ação e de oração, de organização e de imaginação, de comando e humildade, homem de ontem e de hoje. Que esse camponês das Landes, que se tornou, pela graça de Deus, um gênio da caridade, ajude-nos a todos a por as nossas mãos no arado, sem olhar para trás, tendo em vista a única tarefa que importa: o anúncio da Boa Nova aos pobres!

Esta oração não me permite esquecer de agradecer ao Padre Richard McCullen pelo bom trabalho de seu generalato e oferecer minhas orações pelo Padre que será eleito Superior Geral, para que cumpra a missão que a Divina Providência lhe reserva neste período exigente para as Sociedades de Vida Apostólica. E a todos vós que fostes delegados das vossas 48 Províncias, exprimo um voto ardente: fazei o impossível para comunicar aos 4 mil membros da Congregação o sopro renovador desta XXXVII Assembleia Geral!

2. Tomando conhecimento da síntese das respostas ao questionário destinado a preparar este encontro romano, notei o fortíssimo percentual de participação das Províncias. Da mesma forma, impressionou-me a vontade unânime de avançardes juntos em três direções principais: o empenho mais decisivo no serviço dos pobres, a revitalização da vida comunitária e a necessidade de revisar a formação para a missão. Sem interferir no desenvolvimento dos vossos trabalhos, compete-me encorajar-vos em nome de Cristo e da Igreja. A propósito do primeiro objetivo, estais completamente no espírito do vosso fundador que escreveu: “Somos os Padres dos pobres. Deus nos escolheu para eles. Ali está o nosso principal, tudo o mais é acessório”. Cito, então, esta frase impactante, dentro de seu próprio estilo: “É preciso ir ao pobre, como se vai ao fogo”.

A vossa vontade de trazer novamente para o centro vosso serviço prioritário aos pobres está também em consonância com a Constituição Gaudium et Spes. Em suas primeiras linhas, lemos que a Igreja quer estar presente no meio dos homens que padecem e sofrem. Esta é, em suma, a espiritualidade que São Vicente não cessou de aprofundar e comunicar aos seus discípulos: a adoração e a imitação do Verbo Encarnado, “o missionário do Pai, enviado aos pobres”. Do século XVII para cá, as formas de pobreza mudaram. Mas podemos dizer que não regrediram. O advento da ciência, suas aplicações, o desenvolvimento industrial, o próprio crescimento incoerente do mundo urbano geraram novos pobres, que sofrem como e sem dúvida mais do que as populações rurais e citadinas dos séculos passados. Sem monopolizar a caridade e a ação social, Vicente moveria céus e terra para sair em socorro dos pobres de hoje e para evangelizá-los. Caros Padres e Irmãos da Missão, procurai, cada vez mais, com audácia e competência, as causas da pobreza e envidai soluções a curto e longo prazo, soluções concretas, adaptadas e eficazes. Fazendo assim, cooperareis para a credibilidade do Evangelho e da Igreja. Sem esperar mais, vivei próximo dos pobres e fazei-o de tal modo que jamais fiquem privados da Boa Nova de Jesus Cristo.

3. Chamou a minha atenção a vontade de revitalizar a vida comunitária, surgida de todos os horizontes da Congregação. Sabeis como São Vicente escrevia e falava com veemência a respeito do esfacelamento e do egoísmo de algumas comunidades. Procurava, sobretudo, fazer arder o coração de seus Coirmãos da Missão, pedindo que fossem à própria fonte da vida comunitária, a saber, à profundidade do mistério da Trindade. Que diria ele, hoje, quando as novas comunidades que surgem em toda parte são o sinal do caloroso anseio comunitário, numa sociedade frequentemente anônima e fria? As vossas Constituições (cap. II) esclarecem perfeitamente o espírito e os caminhos da vida comum tão recomendada por vosso pai.

Espera-se de toda comunidade estabelecer bem o seu projeto. E é tarefa de todos os seus membros levá-lo a efeito. Eu vos encorajo vivamente a reservar um tempo forte toda semana ou a cada quinze dias para aprofundar o mistério da oração, para assimilar os escritos ainda vivos do vosso fundador, para avaliar seriamente as vossas atividades apostólicas, para revisar particularmente o caminho da vossa vida fraterna. E se falais de corresponsabilidade comunitária, que seja bem entendida! Os membros de uma comunidade não podem reduzir o responsável a subscrever todas as suas propostas. Devem ajudá-lo a manter a caminhada sobre o itinerário das exigências vicentinas, com paciência. Que os vossos hóspedes e os vizinhos de vossas Casas sejam testemunhas, ouso acrescentar admiradores, da vossa pobreza e da vossa alegria, da vossa compreensão dos problemas deste tempo e do vosso ardor apostólico! Que os intercâmbios entre comunidades e províncias, talvez melhor organizados, vivifiquem toda a Congregação da Missão!

4. Por fim, formulo os meus melhores votos de encorajamento na ênfase e na renovação da formação para a Missão. Sem dúvida alguma, se São Vicente vivesse, hoje, manteria, contra ventos e marés, a intimidade com Deus, o sentido de Deus; daria um grande eco aos textos conciliares, convidando os Padres a enraizar a unidade de sua vida e de sua ação na caridade pastoral de Cristo, o único pastor; e, sobre o plano específico da formação, teria sabido emanar o Decreto sobre a formação dos Padres.

Não insistirei sobre uma evidência, a saber, as mutações atuais e futuras da sociedade. Pensemos apenas nas Missões Populares, das quais São Vicente, como São João Eudes, foi dos mais notáveis promotores. Que linguagem e que método empregariam hoje? As tentativas empreendidas no curso dos últimos vinte anos, no Ocidente, se confrontam frequentemente com as consideráveis mudanças sócio-culturais. Eis porque apoio, sem reservas, os projetos que estudais para dar aos futuros Padres e Irmãos da Congregação da Missão uma formação espiritual, doutrinal e pastoral profunda, sólida e adequada às necessidades do nosso tempo. Vossa preocupação de formar os futuros formadores é também fundamental. Espera-se que vejais se a inserção ocasional dos vossos jovens candidatos ao sacerdócio em uma equipe sacerdotal e pastoral não contribuirá para amadurecê-los e fortificá-los. Por fim, compete-vos decidir sobre o funcionamento dos centros regionais ou de um centro internacional de estudos vicentinos. Este projeto pode evidentemente contribuir para a renovação na unidade. Por outro lado, não é verdade que o lema dado a esta XXXVII Assembleia sintetiza toda a vossa fadiga presente e os vossos esforços futuros: “Unum corpus et unus spiritus in Christo”?

Caros filhos de São Vicente, a Igreja deste tempo conta muito convosco! Ela não ficará desiludida! É com essa esperança que invoco sobre a Congregação da Missão, sobre os responsáveis e sobre todos os seus membros as mais abundantes bênçãos divinas e a proteção de Maria Imaculada, Nossa Senhora da Medalha Milagrosa.

 

 39ª Assembleia

Carta da Secretaria de Estado do Vaticano ao Superior Geral da Congregação da Missão, por ocasião da Assembleia Geral

Ao Revmo.
Pe. Robert Maloney, C.M.
Superior Geral da Congregação da Missão

Vaticano, 15 de julho de 1998.

Alegrou ao Santo Padre saber que, nestes dias, está acontecendo em Roma a Assembleia Geral da Congregação da Missão. Sua Santidade agradece profundamente por vossa oração e expressão de adesão ao seu ministério. Pede-vos transmitir a todos os presentes suas boas vindas em nome do Senhor e vos assegura suas orações.

Evocando a figura de vosso fundador, Sua Santidade agradece ao Senhor pelas inúmeras graças concedidas à Igreja e ao mundo por meio da missão dos filhos de São Vicente de Paulo. Em seu tempo – o grande século – São Vicente compreendeu que a verdadeira grandeza está no serviço daqueles que parecem ser os menores, “desprezados pelos homens, mas escolhidos e amados aos olhos de Deus” (1Pe 2,4). Sua visão da dignidade de cada ser humano e sua coragem para agir diante do que via fizeram dele um brilhante testemunho da glória do amor de Deus em Cristo. Num tempo em que a dignidade humana está ameaçada de novas formas, Sua Santidade ora para que a Congregação da Missão viva, cada vez com mais ardor, o carisma de seu fundador e seja um significativo agente da nova evangelização a que a Igreja é chamada. Isso garantirá à Congregação da Missão um futuro tão ilustre como foi o seu passado e fará com que os filhos de São Vicente desempenhem com acerto sua tarefa no anúncio da nova primavera que o Espírito Santo prepara para a Igreja (Tertio Millenio Adveniente, n.18).

Recomendando a Assembleia Geral ao amoroso cuidado de Maria, Mãe do Redentor, Sua Santidade envia cordialmente a todos sua Bênção Apostólica.

Com meus melhores desejos para as deliberações da Assembleia, saúda-vos cordialmente em Cristo,

+ Angelo Cardeal Sodano
Secretário de Estado

 

40ª Assembleia

Mensagem do Papa João Paulo II ao Superior Geral da Congregação da Missão,
por ocasião da Assembleia Geral

Castel Gandolfo, 18 de julho de 2004.

Revmo. Sr.
Pe. Gregory Gay, C.M.
Superior Geral da Congregação da Missão

É com grande afeto no Senhor que formulo os meus bons votos pela vossa recente eleição e peço-vos que transmitais minhas saudações a todos os membros da Congregação da Missão, reunidos em Roma, entre os dias 5 e 29 de julho, para a realização de sua XL Assembleia Geral. Fiéis à inspiração do vosso fundador, escolhestes como tema: “Nossa identidade vicentina, hoje, tendo vivido durante 20 anos as novas Constituições: avaliação e três desafios para o futuro”. No momento em que revisais vossa atividade apostólica e vossa vida comunitária, à luz do vosso carisma vicentino, invoco sobre todos vós uma renovada efusão dos dons do Espírito Santo, a fim de poderdes discernir corretamente o caminho pelo qual Deus vos chama.

Correspondendo generosamente às necessidades da Igreja na sua época, São Vicente de Paulo inseriu a evangelização dos pobres e a formação do clero no âmago da sua visão para a vossa Congregação. Na medida em que crescíeis em número e vos espalháveis pelo mundo inteiro, era natural que o vosso apostolado adquirisse outras numerosas formas, mas esses dois aspectos permanecem fulcrais. Vosso fundador estava profundamente convencido acerca da fecundidade da caridade divina (cf. Vita consecrata, 75) e animava todos os seus filhos espirituais a ver, amar e servir a Cristo presente nos pobres. Estou também convencido de que, permanecendo fiéis à visão de São Vicente, sereis melhor preparados para formar os outros, tanto leigos como clérigos, na tarefa de anunciar o Evangelho nos dias de hoje.

“Contemplar o rosto de Cristo, recomeçar a partir dele e dar testemunho do seu amor” (Instrução da Congregação para os Institutos de Vida Consagrada e as Sociedades de Vida Apostólica. Partir de Cristo: um renovado compromisso da Vida Consagrada no terceiro milênio, n.19). Meus irmãos, eu vos encorajo a acolher de coração estas palavras, ao fazerdes projetos para o futuro. Recordai-vos de que todas as atividades apostólicas haurem a sua eficácia de um relacionamento de intimidade pessoal com Cristo. Quanto mais beberdes das fontes da vida cristã e da santidade, mediante um empenho cada vez mais profundo na oração pessoal e também litúrgica, tanto mais estreitamente vos conformareis com Aquele a quem servis. Com os vossos corações abertos ao amor de Cristo, sereis capazes de dar um testemunho efetivo num mundo que brada, sedento da salvação que somente Deus pode oferecer.

Quatro séculos depois da vossa fundação, a tarefa de “anunciar a Boa Notícia aos pobres” (Lc 4,18) permanece mais urgente do que nunca. Não só milhões de pessoas no mundo inteiro passam as necessidades básicas da vida, mas o mundo moderno é afligido por numerosas formas de pobreza (cf. Sollicitudo rei socialis,15). Vossa Congregação é chamada a abrir novos caminhos para anunciar a mensagem libertadora do Evangelho aos nossos irmãos e irmãs que sofrem. Tende a certeza do apoio das minhas orações, enquanto procurais enfrentar com generosidade estes desafios.

Muitas gerações de sacerdotes têm motivos para agradecer à vossa Congregação a formação que receberam das vossas mãos. A importância deste apostolado não pode ser subestimada. Por conseguinte, é essencial designar presbíteros exemplares para esta tarefa: sacerdotes que sejam humana e espiritualmente maduros, dotados de experiência pastoral e de competência profissional, capazes de trabalhar com os outros (cf. Pastores dabo vobis, 66). Muitos vicentinos, dotados dessas mesmas qualidades, se dedicaram com abnegação à tarefa de formação sacerdotal no passado. Encorajo-vos a dar continuidade a esta missão vital, inclusive nos anos vindouros.

Queridos Irmãos, vós não apenas oferecestes uma contribuição notável para a obra da Igreja ao longo dos últimos quatro séculos, mas tendes também “uma grande história a construir!” (Vita consecrata, 110). Enquanto procurais considerar como se pode viver melhor o carisma vicentino, minha mensagem para vós é a seguinte: “Duc in altum! Avancem para águas mais profundas!” (Lc 5,4). Não tenhais medo de ir mais além, de lançar as redes para a pesca. O próprio Senhor será o vosso guia!

Confiando vossas deliberações à intercessão de São Vicente de Paulo e à solicitude maternal de Nossa Senhora da Medalha Milagrosa, rezo para que a vossa Assembleia seja iluminada pelo Espírito da sabedoria e, do íntimo do meu coração, concedo-vos a Bênção Apostólica, tanto a vós como a todos os demais membros da vossa Congregação.