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Imaculada Conceição de Nossa Senhora – 08 de Dezembro

30 de abril de 2014
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“Minha alma proclama a grandeza do Senhor , meu espírito se alegra em Deus , meu Salvador , porque olhou para a humildade de sua serva . Doravante todas as gerações me felicitarão , porque o Todo – poderoso realizou grandes obras em meu favor : seu nome é santo ” (Lc 1,46-49). De fato, ao longo dos séculos, a Igreja fez valer essas palavras colocadas nos lábios de Maria. Além disso, muitos dos seus escritores e pensadores, atentos à devoção popular e à experiência de fé das comunidades, escreveram sobre a Mãe de Jesus e suas prerrogativas, reconhecendo-a como“imagem acabada e fidelíssima do seguimento de Cristo” (DA 270).            Dentre os escritos mais antigos do Cristianismo, encontram-se textos ligados ao apóstolo Tiago Menor, que afirma: “Fazemos memória de nossa Santíssima, Imaculada e gloriossíssima Senhora Maria, Mãe de Deus e sempre Virgem”.  Ainda no primeiro século da era cristã, na liturgia dos etíopes, encontra-se a seguinte oração: “Alegrai-vos, Rainha, verdadeiramente Imaculada, alegrai-vos, glória de nossos pais”.  Nos séculos seguintes, vários Padres da Igreja prestaram testemunho sobre Maria, como Santo Hipólito, bispo e mártir, que escreveu por volta do ano 220: “O Cristo foi concebido e tomou o seu crescimento de Maria, a Mãe de Deus toda pura. Como o Salvador do mundo tinha decretado salvar o gênero humano, nasceu da Imaculada Virgem Maria”. Também Orígenes alude à Imaculada Conceição: “Maria, a Virgem Mãe do Filho único de Deus, é proclamada digna Mãe deste digno Filho, a Mãe Imaculada do Santo e Imaculado, sendo ela única, como único é o próprio Filho”.   Na linha dos Padres da Igreja, outros grandes pensadores continuaram a reflexão sobre a Imaculada Conceição de Nossa Senhora, tanto na Idade Média como na Idade Moderna. Disso é testemunha uma oração composta, em 1477, pelo Papa Sisto IV, hoje colocada como oração da coleta na solenidade da Imaculada:

“Ó Deus, que preparastes uma digna habitação para o vosso Filho pela Imaculada Conceição da Virgem Maria, preservando-a de todo pecado em previsão dos méritos de Cristo, concedei-nos chegar até vós purificados também de toda culpa por sua materna intercessão”.

Nem mesmo Martinho Lutero rejeitou essa graça singular de Maria: “Era justo e conveniente que a pessoa de Maria fosse preservada do pecado original, visto o Filho de Deus tomar dela a carne que devia vencer todo pecado”.

E, finalmente, a 08 de dezembro de 1854, o Papa Pio IX, baseado na Tradição viva da Igreja e num esmerado estudo teológico, publicou a Bula Ineffabilis Deus, declarando a santidade de Maria desde sua concepção, ou seja, sua Imaculada Conceição:

“É doutrina revelada por Deus, e, portanto, deve ser firme e constantemente crida por todos os fiéis, que a Virgem Maria, por graça e privilégio de Deus todo-poderoso, em vista dos méritos de Cristo Jesus, Salvador do gênero humano, foi preservada imune de toda mancha da culpa original no primeiro instante de sua concepção”.

Por causa dos méritos de Cristo, e não por seus próprios méritos, Maria foi concebida sem o pecado original. E dessa formulação dogmática, três dimensões marianas emanam, testemunhadas pela Tradição da Igreja e, mais especificamente, pelo Concílio Vaticano II (1962-1965):

1ª) Maternidade divina e eclesial O Concílio Vaticano II, em sua Constituição Dogmática Lumen Gentium, ensina: “A Virgem Maria, que, na anunciação do Anjo, recebeu o Verbo de Deus no seu coração e no seu corpo e deu a vida ao mundo, é reconhecida e honrada como verdadeira Mãe de Deus e do Redentor. Remida de modo mais sublime em atenção aos méritos de seu Filho e unida a ele por vínculo estreito e indissolúvel, foi enriquecida com a sublime prerrogativa e dignidade de Mãe de Deus Filho, e por isso de filha predileta do Pai e sacrário do Espírito Santo” (LG 53). A III Conferência Geral do Episcopado Latino-Americano, realizada em Puebla, em 1979, reafirma sua fé em Maria, Mãe de Deus e da Igreja: “O povo fiel reconhece na Igreja a família que tem por mãe a Mãe de Deus. A Igreja confirma seu instinto evangélico segundo o qual Maria é o modelo perfeito do cristão, a imagem ideal da Igreja. A Igreja, ‘instruída pelo Espírito Santo, venera’ Maria ‘como mãe muito amada, com afeto e piedade filial’ (LG 13). Foi-nos revelada a fecundidade maravilhosa de Maria. Ela torna-se Mãe de Deus, Mãe do Cristo histórico, no Fiat da anunciação, quando o Espírito Santo a cobre com sua sombra. É Mãe da Igreja porque é Mãe de Cristo, Cabeça do Corpo Místico. Além disso, é nossa Mãe ‘por ter cooperado com seu amor’ (LG 53), no momento em que do coração traspassado de Cristo nascia a família dos redimidos; por isso é nossa Mãe na ordem da graça (LG 61). É a vida de Cristo que irrompe vitoriosa em Pentecostes, onde Maria implorou para a Igreja o Espírito Santo vivificador” (DP 285-287).

2ª) Intercessora da humanidade

Em 1943, através da Encíclica Mystici Corporis, o Papa Pio XII falou da co-redenção de Maria. O Vaticano II não fala em co-redentora, mas fala de uma bela e notabilíssima presença de Maria como intercessora da Humanidade: “Por isso a bem-aventurada Virgem Maria é invocada na Igreja sob os títulos de Advogada, Auxiliadora, Amparo e Medianeira. Tudo isso deve-se entender, contudo, de tal maneira que nada suprima nem acrescente à dignidade e eficácia de Cristo como único Mediador” (LG 62). Em outra parte diz o mesmo Concílio: “Um só é o nosso Mediador, segundo as palavras do Apóstolo: ‘Porque um só é Deus, também há um só Mediador entre Deus e os homens, o homem Cristo Jesus, que se entregou para redenção de todos’ (1Tm 2,5-6). A função maternal de Maria para com os homens de modo algum obscurece ou diminui esta mediação única de Cristo; antes, mostra qual é sua eficácia. Na verdade, toda a influência salutar da Bem-Aventurada Virgem em favor dos homens não é imposta por alguma necessidade interna, mas sim pela bondade de Deus; dimana da superabundância dos méritos de Cristo, funda-se na sua mediação, dela depende absolutamente e dela tira toda a sua eficácia. E, longe de impedir, fomenta ainda mais o contato imediato dos fiéis com Cristo (LG 60). 3ª) Imagem da humanidade restaurada Baseando-se em Gn 3,15, a Igreja afirma que Maria é a nova Eva da Humanidade: “Abraçando a vontade salvífica  de Deus com coração pleno, não retida por nenhum pecado, consagrou-se totalmente como serva do Senhor à pessoa e obra de seu Filho, servindo sob ele e com ele, por graça de Deus onipotente, ao mistério da redenção (…). Pois ela, como diz  Santo Irineu, ‘obedecendo, se fez causa de salvação tanto para si como para todo o gênero humano’.  E não poucos Padres antigos, na sua pregação, comprazem-se em repetir: ‘O nó da desobediência de Eva foi desfeito pela obediência de Maria; o que a virgem Eva ligou pela incredulidade, a virgem Maria desligou pela fé’. Comparando Maria com Eva, chamam-na de ‘mãe dos viventes’. E com freqüência afirmam: ‘veio a morte por Eva e a vida, por Maria’” (LG 56). Alguns séculos antes da proclamação deste dogma, a Imaculada Conceição já era tema recorrente nos escritos e na experiência espiritual de São Vicente de Paulo, que, embora pouco afeiçoado à especulação teológica, imprimiu em suas fundações o reconhecimento da Imaculada Conceição da Mãe de Deus. Assim escreveu a um Irmão Coadjutor, que pensava em deixar a Congregação da Missão para tornar-se Cartuxo, a 29 de maio de 1653: “Também vos aconselho que confieis muito em Nosso Senhor e na ajuda de Sua Mãe, a Virgem Imaculada, a quem vos recomendo de todo coração” (SV IV, 593 / ES IV, 551). Na Imaculada Conceição, São Vicente contemplou Maria como aquela que, vazia de si mesma, deixou-se plenificar por Deus. O esvaziamento de si mesmo é um princípio vital da espiritualidade vicentina, que encontra em Maria um protótipo, um modelo a ser seguidoEm um sermão sobre a Comunhão, São Vicente apresenta, com muita propriedade, o conteúdo deste precioso mistério:

[Deus Pai] previu, pois, que como era preciso que Seu Filho tomasse carne humana de uma mulher, era conveniente que a tomasse de uma mulher digna de recebê-lo, mulher que estivesse adornada de graças, vazia de pecado, cheia de piedade e livre de todo mau afeto. E então fez desfilar diante de seus olhos todas as mulheres que existiam, não encontrando nenhuma digna dessa grande obra a não ser a muito pura e muito imaculada Virgem Maria. Então se propôs, desde toda a eternidade, preparar este alojamento, adorná-lo com os mais raros e dignos bens que qualquer criatura haja recebido, para que fosse um palácio digno de Seu Filho” (SV XIII, 35 / ES X, 43).

Na Imaculada Conceição, a Família Vicentina é convidada a contemplar a atuação da Graça que preencherá o ser daquele que gerou em suas entranhas o Filho de Deus. O dom precioso recebido do Senhor potencializou em Maria a liberdade e a capacidade de acolhida ao projeto de Deus na história. A graça salvadora do Verbo, habitando toda a existência de Maria, permite-lhe conquistar uma admirável inteireza, assumir melhor o discipulado de Jesus e, com maior liberdade interior, integrar e desenvolver suas qualidades humanas e espirituais numa crescente abertura ao Mistério divino.

PARA MEDITAÇÃO Trecho da homilia de João Paulo II no sesquicentenário da proclamação do dogma da Imaculada Conceição (08 de dezembro de 2004)

“Salve, ó cheia de graça, o Senhor está contigo” (Lc 1, 28) É com estas palavras do Arcanjo Gabriel que nos dirigimos à Virgem Maria várias vezes por dia. Repetimo-las hoje com alegria fervorosa, na solenidade da Imaculada Conceição, recordando o dia 08 de dezembro de 1854, quando o Beato Pio IX proclamou este admirável dogma da fé católica, precisamente nesta Basílica do Vaticano (…).  Como é grandioso o mistério da Imaculada Conceição, que a liturgia de hoje nos apresenta! Mistério que não cessa de atrair a contemplação dos fiéis e que inspira a reflexão dos teólogos. O tema do Congresso agora recordado, “Maria de Nazaré acolhe o Filho de Deus na história”, favoreceu um aprofundamento da doutrina da concepção imaculada de Maria como pressuposto para o acolhimento, no seio virginal, do Verbo de Deus encarnado, Salvador do gênero humano.  Cheia de graça: é com este apelativo que, segundo o grego original do Evangelho de Lucas, o Anjo se dirige a Maria. Este é o nome com que Deus, através do seu mensageiro, desejou qualificar a Virgem. Foi desta maneira que Ele a considerou e viu desde sempre, ab aeterno No hino da Carta aos Efésios, que acaba de ser proclamado, o Apóstolo louva a Deus Pai, porque “nos abençoou com toda a espécie de bênçãos espirituais em Cristo” (Ef 1, 3). E com que especialíssima bênção Deus se dirigiu a Maria, desde o princípio dos tempos! Verdadeiramente bem-aventurada é Maria, entre todas as mulheres (cf. Lc 1,42)!  O Pai escolheu-a em Cristo, antes da criação do mundo, para que fosse santa e imaculada na sua presença, no amor, predestinando-a como primícias para a adoção filial por obra de Jesus Cristo (cf. Ef 1, 4-5).  A predestinação de Maria, como a de cada um de nós, é relativa à predestinação do Filho. Cristo é aquela estirpe que esmagaria a cabeça da antiga serpente, segundo o livro do Gênesis (cf. Gn 3, 15); é o Cordeiro sem mancha (cf. Êx 12, 5; 1 Pd 1, 19), imolado para redimir a humanidade do pecado.  Na perspectiva da morte salvífica dele, Maria, sua Mãe, foi preservada do pecado original e de todos os outros pecados. A vitória do novo Adão contém inclusive a da nova Eva, mãe dos redimidos. Deste modo, a Imaculada constitui um sinal de esperança para todos os seres vivos, que derrotaram Satanás por meio do sangue do Cordeiro (cf. Ap 12,11).  No dia de hoje, contemplamos a humilde jovem de Nazaré, santa e imaculada na presença do Deus da caridade (cf. Ef 1, 4), aquela caridade que, em sua fonte originária, é o próprio Deus, uno e trino. A Imaculada Conceição da Mãe do Redentor é uma obra sublime da Santíssima Trindade! Na Bula Ineffabilis Deus, Pio IX recorda que o Todo-Poderoso estabeleceu “com um só e único decreto a origem de Maria e a encarnação da Sabedoria divina”.  O sim da Virgem ao anúncio do Anjo insere-se na realidade concreta da nossa condição terrestre, em humilde obséquio à vontade divina, de salvar a humanidade não da história, mas sim na história. Efetivamente, preservada imune de toda a mancha de pecado original, a “nova Eva” beneficiou-se de maneira singular da obra de Cristo como perfeitíssimo Mediador e Salvador. Primeira a ser redimida pelo seu Filho, partícipe na plenitude da sua santidade, ela já é aquilo que toda a Igreja deseja e espera ser. É o ícone escatológico da Igreja.  Por isso, a Imaculada, que assinala “o início da Igreja, esposa de Cristo sem ruga e sem mancha, resplandecente de beleza” (Prefácio da Missa), precede sempre o Povo de Deus na peregrinação da fé rumo ao Reino dos céus (cf. Lumen Gentium 58; Redemptoris Mater 2). Na concepção imaculada de Maria, a Igreja vê projetar-se, antecipada no seu membro mais nobre, a graça salvadora da Páscoa.  No acontecimento da Encarnação, encontram-se indissoluvelmente unidos o Filho e a Mãe: “Aquele que é o seu Senhor e a sua Cabeça e aquela que, ao pronunciar o primeiro fiat da Nova Aliança, prefigura a condição da mesma Igreja, de esposa e de mãe” (Redemptoris Mater 1).  A ti, Virgem Imaculada, por Deus predestinada acima de todas as criaturas como advogada de graça e modelo de santidade para o seu povo, renovo no dia de hoje a confiança de toda a Igreja. Sê tu quem orienta os teus filhos na peregrinação da fé, tornando-os cada vez mais obedientes e fiéis à Palavra de Deus. Sê tu quem acompanha cada cristão ao longo do caminho da conversão e da santidade, na luta contra o pecado e na busca da verdadeira beleza, que é sempre um sinal e um reflexo da Beleza divina. Sê tu, ainda, quem obtém a paz e a salvação para todos os povos. O Pai eterno, que te quis como Mãe Imaculada do Redentor, renove também no nosso tempo, por teu intermédio, os prodígios do seu amor misericordioso. Amém.