Belo Horizonte, 29 de abril a 01 de maio de 2011

Primeiro dia – 29 de abril, sexta-feira

No dia 29 de abril de 2011, no Centro Social Padre Raimundo Gonçalves, em Belo Horizonte-MG,  aconteceu a abertura do Seminário sobre Santas Missões Populares, assessorado pelo Padre Luis Mosconi, italiano que vive há 44 anos no Brasil, dedicado particularmente às Missões Populares. Participaram em média 90 pessoas, de vários ramos da Família Vicentina: Associação Internacional de Caridades (AIC), Congregação da Missão (CM), Filhas da Caridade (FC), Sociedade de São Vicente de Paulo (SSVP), Juventude Marial Vicentina (JMV), Associação da Medalha Milagrosa (AMM), Missionários Leigos Vicentinos (MISEVI) e Associação dos Ex-Alunos dos Lazaristas e Amigos e Amigas do Caraça (AEALAC).

Iniciado com um momento de oração, animado por representantes dos vários ramos da Família Vicentina, o primeiro dia do Seminário foi marcado por uma experiência muito fecunda de partilha das experiências (dos sinais de ressurreição que encontramos em nossas Missões), feita pelos missionários presentes e pelo assessor.

Logo em sua apresentação, Padre Mosconi relatou um pouco de sua formação presbiteral, feita na Itália, em pleno Concílio Vaticano II. Ressaltou que em 1962, no primeiro ano do Concílio, participou, por sugestão de João XXIII, de um encontro com o Papa, os teólogos e alguns Padres Conciliares. O Papa queria, com todo seu entusiasmo, que os seminaristas da Itália bebessem das maravilhas do Vaticano II. Neste encontro, Padre Mosconi escutou do bom Papa João: “Não sejam covardes! Não tenham medo da missão da Igreja!”

Assim, em 1967, pediu para vir para o Brasil, entusiasmado com as notícias da florescente Igreja brasileira, que começava a experimentar as maravilhas da abertura conciliar. Chegou à Bahia, onde trabalhou vários anos em pequenas comunidades. Depois, foi para o Norte do país, onde se encontrou com Dom José Elias Chaves, C.M., bispo prelado de Cametá-PA, que muito o apoiou em seu desejo de trabalhar com as Santas  Missões Populares no Brasil. Daí pra frente, seu trabalho só cresceu e se difundiu por todo o país e pelo exterior.

Ainda no início de sua fala, ressaltou a importância de São Vicente de Paulo e da Família Vicentina no cenário eclesial e social. Mostrou a importância de nosso carisma e a atualidade e urgência do serviço e da evangelização dos Pobres. Falando de São Vicente, salientou sua decisão clara de manter Padres, Irmãs, Leigos e Leigas no serviço missionário juntos dos Pobres. Louvou o incentivo recebido e o testemunho de Dom José Elias Chaves, C.M., e ressaltou a Sociedade de São Vicente de Paulo, que lhe foi apresentada logo que chegou à Bahia, como excelente forma de organização dos leigos.

Depois de escutar as motivações e expectativas de vários participantes, Padre Mosconi traçou o programa para o final de semana: A Missão de Jesus hoje e as Santas Missões Populares Vicentinas, como tema geral, e seus desdobramentos: a missão no Documento de Aparecida, o pós-Aparecida, o que fazer hoje (as motivações e os desafios do mundo atual), as Santas Missões Populares Vicentinas e o perfil do missionário.

Padre Mosconi começou partilhando pérolas do Documento de Aparecida, que merecem ser aqui reproduzidas:

  • “A Igreja necessita de forte comoção que a impeça de se instalar na comodidade” (DA 362)
  • “Esperamos um novo Pentecostes, uma vinda do Espírito que renove nossa alegria e nossa esperança” (DA 362)
  • “A conversão pastoral de nossas comunidades exige que se vá além de uma pastoral de mera conservação para uma pastoral decididamente missionária” (DA 370)
  • “Precisamos de uma evangelização muito mais missionária, em diálogo com todos os cristãos e a serviço de todos os homens” (DA 13)
  • “Missão não é tarefa opcional, mas parte integrante da identidade cristã” (DA 144)
  • “A Igreja peregrina é missionária por natureza, porque tem sua origem na missão do Filho e do Espírito Santo, segundo o desígnio do Pai” (DA 347)
  • “A missão é a razão de ser da Igreja, define sua identidade mais profunda” (DA 373)
  • “A Igreja deve cumprir sua missão seguindo os passos de Jesus e adotando suas atitudes (DA 31)
  • “Todas as nossas paróquias se tornem missionárias” (DA 173)
  • “A renovação missionária das paróquias exige de nós imaginação e criatividade para chegar às multidões” (DA 173)
  • “Os melhores esforços das paróquias devem estar na convocação e na formação de leigos missionários” (DA 174)
  • “A renovação das paróquias exige a reformulação de suas estruturas, para que ela seja uma rede de comunidades e grupos, capazes de se articular conseguindo que seus membros se sintam realmente discípulos e missionários de Jesus Cristo em comunhão” (DA 172)
  • “Que a paróquia chegue a ser comunidade de comunidades” (DA 309)
  • “Uma paróquia, comunidade de discípulos missionários, requer organismos que superem qualquer tipo de burocracia. Os Conselhos Pastorais Paroquiais terão de estar formados por discípulos missionários constantemente preocupados em chegar a todos” (DA 203)
  • “Todo discípulo de Jesus Cristo é missionário” (DA 144)
  • “Os discípulos por essência são também missionários, em virtude do Batismo e da Confirmação” (DA 377)
  • “O povo de Deus sente necessidade de presbíteros-discípulos, de presbíteros-missionários e de presbíteros cheios de misericórdia” (DA 199)
  • “A renovação da paróquia exige atitudes novas dos párocos e dos sacerdotes que estão a serviço dela” (DA 201)
  • “Os párocos sejam promotores e animadores da diversidade missionária, que requer imaginação, exigindo novos serviços e ministérios” (DA 202)
  • “A missão deve impregnar toda a estruturas eclesiais e todos os planos pastorais de dioceses, paróquias, comunidades religiosas, movimentos e qualquer instituição da Igreja; nenhuma comunidade deve isentar-se de entrar decididamente, com todas as forças, nos processos constantes de renovação missionária e de abandonar as estruturas ultrapassadas que já não favoreçam a transmissão da fé” (DA 365)
  •  “A Diocese, em todas as suas comunidades e estruturas, é chamada a ser ‘Comunidade Missionária’” (DA 168)

Seus comentários giraram em torno da urgência eclesial que é fazer opção por uma Igreja Missionária, baseada no trabalho dos leigos, e formadora de uma nova consciência a partir do Evangelho para a transformação do mundo. Falando da conversão pastoral apontou a importância de se abandonar verdadeiramente a pastoral de manutenção, especialmente no que se refere às práticas e métodos que não mais correspondem às exigências do mundo atual. Mas abandonar estruturas arcaicas exige muito: exige ruptura de consciência, ruptura metodológica, ruptura do comodismo para a disposição que envia ao mundo. Exige também confiança e abertura para o trabalho em equipe, valorizando todos os carismas e todos os ministérios presbiterais, religiosos e laicais.

Falando diretamente dos padres, particularmente dos párocos, salientou a necessidade dos padres serem discípulos movidos pela paixão da missão. Que confiem nos leigos e promovam a renovação, não deixando nenhuma pastoral ou atividade paroquial fora do dinamismo missionário. Inclusive, reforçou o que diz o Documento sobre a “missionarização” de todos os projetos e planos paroquiais e diocesanos.

Em Aparecida, a questão missionária foi o grande tema, indiscutivelmente. Em quase a metade dos números do Documento aparece explicitamente a palavra “missão” ou uma de suas variações, como “missionário”, “missionariedade”, etc.

Segundo dia – 30 de abril, sábado

No segundo dia, após a Celebração da Eucaristia, Padre Mosconi retomou e aprofundou o assunto da véspera: Missão no Documento de Aparecida.

Missão exige discernimento, ousadia e urgência. Discernimento para conhecer a realidade e para implementar novos métodos, para se conhecer os desafios do momento presente, do mundo e da Igreja. Discernimento para enxergar e acreditar no apostolado leigo. Missão exige ousadia para ter coragem de proclamar, sem medo e sem titubear. Ousadia de quem é discípulo, de quem é testemunha de um fato transformador e, por isso mesmo, testemunha missionária. Missão exige urgência, porque não se pode perder tempo diante da beleza do Evangelho e de sua força restauradora do mundo segundo a vontade de Deus.

Junto da missão, ganha destaque também a opção pelos Pobres e o protagonismo dos leigos, intimamente ligados à urgência missionária. Uma opção que consagre a Igreja a uma vida em solidariedade com os mais sofridos, com atitudes claras e que impactem a realidade. Não uma opção teórica ou algo que não tem relevância, mais parecendo modismo de algum tempo ou de determinados grupos. No que se refere aos leigos, o destaque foi dado ao protagonismo total, não apenas na linha da execução dos trabalhos, mas primeiramente protagonismo no discernimento e na elaboração dos projetos pastorais. Aparecida descarta a reificação dos leigos, que os torna objetos da ação do clero. Declara-os sujeitos da ação evangelizadora, responsáveis por todo o processo missionário.

Neste contexto, surgiu em Aparecida o desafio da Missão Continental, para que todo o continente pudesse celebrar um tempo kairológico de Missão. No entanto, parece que esta intuição, como outras, não deslanchou. Muitas dioceses não deram a devida atenção ao Documento e, muito menos, se propuseram a realizar suas pistas de ação.

E algumas experiências que estão acontecendo, infelizmente, não estão conseguindo criar nas comunidades um novo estilo de vida pessoal, social e pastoral. Experiências missionárias têm sido feitas sem organização, sem o método adequado, sem a preparação devida, como imposição do clero e sem a necessária e ativa participação dos leigos.

A implementação de Aparecida traz consigo alguns desafios. O primeiro é a tradição rotineira da Igreja, que muitas vezes vai recebendo penduricalhos de toda espécie, engessando a Igreja e sua atividade missionária.

E o clero, que por sua natureza deveria ser o primeiro animador e estimulador da vida paroquial missionária, nem sempre dá mostras de disposição, firme vontade, capacidade, imaginação, ousadia e entusiasmo missionário. A “profissionalização do Sagrado”, em alta nos tempos atuais, mina o vigor apostólico e faz dos ministros ordenados distribuidores de espécies sagradas. A meditação amorosa e contemplativa do Mistério de Deus e a oblação da própria vida como oferenda de amor ao povo, consagrando-se total e integralmente aos irmãos, não têm espaço nem condições de serem vividas no âmbito do “tecnicismo religioso”. Por outro lado, muitos padres, inclusive padres bons, com a melhor intenção, acabam esvaziados pelo ativismo e pelo exaustivo labor missionário. Por causa do muito trabalho, acabam deixando de lado a reflexão, a oração, a meditação e a avaliação do apostolado, como também ficam sem tempo para os estudos e o aprofundamento das questões da fé e da vida humana e social. E, assim, o ministério presbiteral acaba na superficialidade e na consequente esterilidade.

Outro desafio é a passividade do momento presente: padres cansados e indispostos, leigos perdidos e inativos por falta de articulação pastoral. Vivemos um momento de distração, superficialidade, fragmentação e comodismo. Poucas dificuldades derrubam sonhos e projetos. A imagem apropriada para esta realidade é a do chiclete, que estica para lá e para cá, sem rumos, sem sonhos, sem corajosas opções de vida. Faltam motivação e entusiasmo, disposição missionária e vigor do Espírito.

Após breve intervalo, Padre Mosconi aprofundou a dimensão existencial da Missão, apresentando-a como algo fundamental e constitutivo da vida humana. Para ele, como a vida exige sentido, a missão é necessária para a existência e para a realização do ser humano. Comparando o comportamento animal com o comportamento humano, distinguiu as ações instintivas dos animais das atitudes conscientes do ser humano, que não dá conta de viver sem um objetivo e sem metas existenciais. Mesmo reconhecendo que há instintos no homem, salientou a importância do sentido da existência para que até mesmo os instintos ou a realização dos instintos tenha sentido.

A falta de sentido para a vida gera crise. Só que a crise pode ser aceita, e assim impelir o ser humano para um algo a mais em sua vida, ou pode ser rejeitada pelo fechamento no próprio mundo. Os fariseus, criticados por Jesus, que provoca uma crise na religião legalista, são exemplo de fechamento. Por outro lado, Paulo é o grande exemplo de uma crise que transforma. Questionado em suas posturas pelo rosto brilhante do mártir Estevão e pela fraternidade e entusiasmo das primeiras comunidades, Paulo entra numa profunda crise que deu um sentido totalmente diferente para sua vida. Uma crise que salva a pessoa humana, mediante o despertar de sua consciência para a urgente busca de sentido para sua vida.

A vida é caminhada e, por isso, exige objetivos, rumos. Ninguém consegue viver sem quê nem porquê. A vida chama e todos os humanos viventes precisam ser especialistas em escutar os gritos do mundo: seus próprios gemidos, os gritos dos outros, os clamores da sociedade. Por isso se pode afirmar que a vida é uma vocação. Se a vida é caminhada, os rumos dão à vida seu caráter missionário, pois coloca o ser humano em marcha. Escutando-se e escutando o mundo, todo ser humano é vocacionado por natureza, é chamado para algo a mais, para se humanizar e construir o mundo.

Nesta perspectiva, a vida espera resposta. E algumas respostas não podem ser adiadas! A questão do sentido, colocada pela existência, exige uma resposta pronta e atual. Esta resposta, a descoberta do sentido da vida, é a grande atitude missionária dos homens: provocar a descoberta do sentido e vivenciar um novo estilo de vida, orientado para a efetivação do projeto de vida pessoal e social que realiza o ser humano. Missão é a resposta ao chamado de Deus. Ao chamado da vida, se se quer usar uma expressão antropológica, sem lançar mão das expressões da fé.

Consequentemente, não se vive sem missão! A vida é missão! Missão não é luxo, é uma necessidade para todas as pessoas. Anterior às religiões, missão tem fundamento antropológico: é atitude humana de descoberta de sentido, tanto para si como para os demais. Por isso missão é sempre deslocamento. Deslocamento do próprio mundo para o encontro com a humanidade. E, na perspectiva da fé, claro, encontro também com Deus e seu Reino.

Após o almoço, iniciando o diálogo da tarde, Padre Mosconi comentou que a reflexão sobre a missão está em constante desenvolvimento, sempre se renovando. Citou, por exemplo, que hoje não se deve mais usar as expressões “pré-missão”, “missão” e “pós-missão”. Estas expressões, até pouco tempo apresentadas em seus livros, hoje não estão mais sendo usadas, para que se possa compreender de maneira mais ampla a missão, sem colocá-la restrita a períodos e etapas. Missão é vida! Um processo constante de envolvimento, de encontro e de significação da existência. Como a vida é a missão, não há sentido separar em antes, durante e depois. Todo o processo da existência é missionária.

Retomando o raciocínio da manhã, que versava sobre o sentido da vida e a missão como descoberta deste sentido, Padre Mosconi continuou insistindo na dimensão antropológica da missão. Perguntando-se por que a missão, buscou resposta na afirmação de que o amor habita em nós como força centrífuga. O amor leva o ser humano para fora, para o encontro com os demais a fim de ajudá-los a dar sentido à vida.

O amor é da essência do ser humano, por isso não se vive sem amor. Só o amor humaniza, realiza o ser humano. O amor, assim como a vida, é missão. Em outras palavras, o amor faz da vida uma missão, porque é abertura radical ao outro.

Nesta perspectiva, podemos afirmar que a missão é um caso de amor. Todo trabalho propriamente missionário deve estar carregado, pleno de amor. Como manifestação da essência do ser humano, que antes de ser pecador é amado por Deus, a missão exige atitudes de amor, como a valorização da pessoa, o jeito de tratar e se relacionar de maneira personalizada, chamando cada um pelo nome e valorizando a história pessoal e comunitária de todos, em vista de uma vida melhor, com seu sentido preservado e alegremente vivido por todos. Sobre isto, o testemunho de Dom Luciano Mendes de Almeida, S.J., vale a pena ser ouvido: “Onde há povo, há missão. Onde há missão, há razões de ser feliz”.  Especificamente, a Família Vicentina, que, no dizer do Padre Mosconi, tem cheiro de povo, deve ser um testemunho vivo deste espírito missionário na Igreja e no mundo. Vivendo e agindo em comunidade junto dos Pobres, sua missão tem grande abrangência e urgência no momento atual.

Só a força do amor impulsiona a existência para um outro mundo possível. E este impulso não pode ficar abafado. Pois, de um lado, a humanidade dividida grita por missão. Por outro, o planeta Terra está ferido, enfermo, agonizando. O planeta não suporta mais o consumismo da humanidade.

Podemos afirmar também que o mundo precisa de missão porque somos seres transcendentais. O presente e o imanente não bastam para o ser humano. O transcendente faz parte da natureza humana. É uma potência interior que precisa ser vivida plenamente. Ao encontro desta dimensão transcendental do ser humano, Deus irrompe com todo seu amor.

A missão se justifica porque acreditamos num Deus que é, primeiramente, mistério. Não um mistério de invenção, algo fantasmagórico. Deus é mistério que se revela, é mistério porque não pode ser compreendido em sua totalidade, ou melhor, só pode ser compreendido e experienciado à medida que se dá a conhecer. E é por ser amor, que Deus se revela. Deus é amor que se dá a conhecer, amor que se faz peregrinação ao encontro do outro. Por isso, o Deus, que é amor, é missão. Deus em nenhum momento pode ser compreendido sem esta dimensão missionária. Deus não está sentado no trono, não está parado, distante, fechado em si mesmo. Deus é missão!

A missão de Deus é sempre transformadora e libertadora! É criadora de vida! Por isso, quando se fala de missão da Igreja, missão dos cristãos, não se está falando nada novo, ou algo inventado pelos homens. Os cristãos herdam sua missão da própria Trindade, do Deus missionário, do Deus da vida.

No encerramento dos trabalhos do dia, houve uma oração sobre o cuidado, tomado como dimensão constitutiva da missão, e o ser vicentino como compromisso com os preferidos de Jesus Cristo.

Terceiro dia – 01 de maio, domingo

Na Celebração Eucarística de abertura do dia, Padre Mosconi nos motivou, à luz da Ressurreição do Senhor, a assumir, como Família Vicentina, a animação das Santas Missões Populares em toda uma diocese, inclusive sugeriu Araçuaí, no Vale do Jequitinhonha, e em uma grande cidade, como Belo Horizonte. Em resposta à esta provocação, Padre Vinícius Augusto Ribeiro Teixeira, C.M., coordenador do Regional Belo Horizonte da Família Vicentina, anunciou que as Missões em janeiro de 2012 serão em Coronel Murta, na citada diocese de Araçuaí e ainda prometeu pensar seriamente, junto com a equipe de coordenação, nas provocações do assessor.

Iniciando a reflexão do dia, Padre Mosconi propôs a partilha de um texto sobre os desafios do mundo atual, ou seja, sobre o cenário onde se desenvolvem e são celebradas as Santas Missões. A partir destes desafios, continuou a reflexão do dia anterior, sobre o que é Missão e suas finalidades.

Missão não é para reforçar instituições. Missão é para questionar. A missão é para mexer com as estruturas, é para favorecer a libertação de todo tipo de opressão. Neste sentido, questionou-se a prática das visitas às famílias, especificamente no que diz respeito à manutenção da estrutura da Igreja e de práticas rotineiras da vida eclesial. Por exemplo, comentou-se sobre os questionários sobre a vida sacramental das pessoas, sobre a vida matrimonial, sobre participação em dízimo, etc. E, claro, colocou-se a primazia na vivência fraterna junto do povo e na gratuidade das relações evangélicas junto das comunidades, sem cobrar nem exigir nada. Em vez de reforçar instituições, missão é para interpelar, questionar, abrir caminhos novos. Missão é para entrar num processo de conversão permanente, conversão pessoal, social, pastoral, integral. É para transformar o mundo, libertar todos os homens de todo mal.

Abordando a missão como serviço, o assessor salientou que o serviço da Missão não pode ser qualquer serviço. É, com efeito, um serviço libertador às pessoas. E precisa ser feito com os melhores instrumentos e com a maior capacitação possível de seus agentes.

Neste contexto, apresentou as Santas Missões Populares em várias perspectivas. Primeiramente, como um instrumento, não como fim em si mesma, mas como instrumento de Deus para motivar o mundo a ser melhor segundo o Evangelho de Jesus. Depois disse que as Missões são um tempo especial, um tempo que marca a cotidianidade e a insere no tempo de Deus, o tempo kairológico. O tempo especial da Missão deve ser luz para o tempo ordinário. Enquanto o tempo ordinário deve levar e situar o tempo especial. Neste sentido, salientou a importância da preparação e da organização das Missões. Um tempo especial não se faz de improviso.

Também aqui cabe dizer a importância, durante a organização, de prever a continuidade das Missões, para que a “sacudida” dada pelas Missões nas comunidades missionadas não seja apenas passageira, sem fundamentos e sem baixar à realidade concreta. Missão é processo contínuo de anúncio e presença junto do povo.

Após o almoço, em grupos, os participantes do encontro puderam refletir e traçar algumas características próprias do perfil do missionário.

  • Não se esquece de sua condição concreta, histórica;
  • Não se pertence, mas unicamente à Missão de Jesus; por isso, frequenta os ambientes de sofrimento e dor, em espírito de solidariedade;
  • Anda no meio das massas, mas sem massificar; conhece as pessoas pelo nome;
  • Não vive em função de seu grupo religioso, mas coloca-se a serviço do Reino de Deus; não fala de Deus toda hora, mas não se cala na hora oportuna e devida;
  • Fala de Jesus sem agredir, sem impor;
  • Rompe barreiras, não aceita preconceitos;
  • em consciência crítica sobre a realidade;
  • Sonha com a comunidade, deixando de lado as ilusões;
  • Carrega no meio do povo a bandeira da ética;
  • Age com sabedoria; tem convicção sobre o que crê e docilidade para expressar o que crê;
  • É engajado na vida e na caminhada de sua comunidade eclesial; não é avulso;
  • Age de acordo com a inspiração bíblica a respeito das primeiras comunidades cristãs, para realizar este projeto na atualidade;
  • Aposta num projeto missionário comunitário, como testemunho de solidariedade e fraternidade em contraposição a um mundo de individualismo;
  • Acolhe os frutos do Reino espalhados no meio do povo.

E, colocando nas mãos de Deus tudo o que escutamos, partilhamos e vivemos neste final de semana, nosso rico encontro terminou, tendo refletido estas várias dimensões da Missão. Resta-nos, agora, com as motivações cultivadas nestes dias, colocar o pé na estrada, encher o coração de disponibilidade e ardor e fazer valer nosso entusiasmo, transformando-o em atitudes missionárias concretas e em força operosa na Igreja e no mundo. Que o Deus da Missão, Missionário por excelência, nos impulsione e fecunde nossas boas intenções e nossas atitudes!