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Encontro de Missionários da CLAPVI – Relatório e Vídeo – 2011

29 de abril de 2014
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Encontro de Missionários da Congregação da Missão na América Latina e Caribe

A Conferência Latino-Americana das Províncias Vicentinas da Congregação da Missão (CLAPVI) realizou, conforme programação para o Plano Trienal 2009-2011, o Encontro para coirmãos missiólogos e para os demais coirmãos envolvidos diretamente em trabalhos missionários. Este encontro, o sexto, promovido pela CLAPVI tendo como temática “A MISSÃO” aconteceu nos dias de 19 a 23 de setembro, na cidade de Fortaleza, Brasil. O tema, diga-se de passagem, muito ambicioso para ser tratado em apenas cinco dias, foi “A essência missionária da Congregação da Missão frente às experiências, desafios e perspectivas da missão na América Latina e no Caribe” e o lema “O Senhor enviou-me para evangelizar os pobres” (Lc 4,16). Estiveram presentes ao encontro 23 coirmãos das seguintes Províncias: Argentina (1), Colômbia (4), Fortaleza (7), Rio de Janeiro (2), Curitiba (2), Perú (2), América Central (3), Panamá (1) e Venezuela (1). Pela importância da temática para uma Congregação que carrega na própria identificação o nome “DA MISSÃO” acredito que poderíamos ter contato com um número maior de participantes.

Fiéis a São Vicente de Paulo e ao espírito da Congregação da Missão os objetivos propostos para o encontro, alguns deles muito audaciosos para um encontro de apenas uma semana, foram: 1) Partilhar nossas experiências missionárias, procurando abrir novos caminhos e buscando novos métodos para responder às exigências da missão e do mundo atual; 2) Fortalecer nossa vocação missionária através do encontro, do estudo e da reflexão para maior comprometimento, uma vez que o ministério das Missões é para nós o primeiro e o principal dentre os trabalhos; 3) Aprofundar-nos na essência missionária da Igreja e da Congregação da Missão, mediante uma autêntica formação permanente que nos permita ter as missões em grande estima, de tal maneira que “estejamos preparados para ir a elas quando nos chamar a isto a obediência”; 4) Dar novo impulso a nossa preparação e formação missionária através dos documentos da Igreja e da Congregação da Missão para oferecer um melhor serviço missionário e entregarmo-nos a Deus agradavelmente exercendo bem e com convicção o trabalho que realizamos; 5) Renovar nosso espírito missionário atendendo ao evangelho e aos sinais dos tempos para que o fim da Congregação da Missão permaneça em estado de renovação contínua.
Pessoalmente avalio que apenas pequena parte dos objetivos foi atingida, existindo um longo caminho a ser percorrido. Entre as propostas conclusivas, apenas três, podemos encontrar caminhos para que os mesmos objetivos propostos para este encontro continuem sendo meta a ser percorrida e luz a iluminar nossos ideais, nossas Missões e nossas Vidas, passando-se da mera aspiração para realidade concreta.
Pe. Daniel Arturo Vasquez Ordoñes, presidente da CLAPVI, lembrou que “o tema das Missões está presente no coração da CLAPVI”. Mesmo assim o tema já foi tratado de maneira específica em cinco encontros: 1) Chile (1984); 2) Colômbia (1987) como tema “Projeto de manual para as Missões Populares Vicentinas”; 3) Panamá (1990), com o tema “A nova evangelização e as Missões Populares Vicentinas”; 4) México (1994) com o tema “A Missão Popular Vicentina na América Latina” e 5) Honduras (2003) com o tema “Ratio Missionum”.

Apresento a seguir algumas anotações das reflexões apresentadas pelos assessores e pelos encontristas. O material produzido pelos assessores Pe. Paulo Suess, Pe. Andrés Román María Motto, C. M. (Província da Argentina) e o Pe. Alexandre Fonseca de Faula, C. M. (Província de Fortaleza) será publicado para a informação e formação de todos no próximo número da Revista CLAPVI.
As primeiras sessões de trabalho foram dedicadas aos coirmãos participantes que apresentaram um pouco de suas experiências e/ou do trabalho realizado por suas Províncias, especialmente na área das missões.

Pe. Paulo Suess em sua assessoria abordou de maneira bastante livre e com a competência que lhe própria o tema “A missão da Igreja na América Latina e no Caribe (cenário)”. Iniciou sua reflexão apresentando alguns dos muitos e complexos desafios apresentados à Missão nos dias atuais, destacando: a migração que afeta a vivência dos valores; a “concorrência religiosa”; a abertura para o trabalho de descolonização; a ausência de sujeitos sociais que no momento atual aspire e seja capaz de assumir transformação mais profunda das estruturas; o mundo plural onde o mercado é o que se apresenta como a mais sagrada das realidades e os desafios para se pensar a possibilidade de outra realidade, outra estrutura, cujo horizonte para o missionário é o Reino de Deus. Diante desta realidade que se impõe o assessor apresentou como ponto de partida para a missão o Projeto de Vida, centrado no testemunho/anúncio do “Núcleo do Kerigma” por ele entendido como sendo: 1) A Filiação Divina que estabelece o alicerce sobre o qual se entende e se constrói a Igualdade e a Dignidade fundamental de todos os seres humanos, chamados a viver a Fraternidade num profundo e sincero reconhecimento do outro (alteridade) e na distribuição dos bens; 2) A Ressurreição apresentada como fundamento da prática da Justiça associada a prática da Verdade.

Paulo Suess afirmou que são três as posturas diante da realidade: 1) Inculturação como ingênua assimilação, adaptação (“ser como o mundo”); 2) Proteger-se do mundo através da construção dos muros, da proteção da identidade e do legalismo; 3) Ir ao Mundo sem ser do mundo. Esta é a tarefa mais difícil, pois exige proximidade e ao mesmo tempo distância. É preciso recordar que não possuímos o evangelho (a Boa Notícia) em “estado puro”, mas codificado em elementos de determinada cultura, por sua vez condicionada pelos elementos históricos do tempo e do espaço. Todas as culturas estão repletas de elementos que constituem positivamente a vida do povo, mas também estão atravessadas por estruturas de pecado. Inseridos no mundo atual onde as informações e as imagens são superadas numa velocidade surpreendente torna-se necessário relativizar as imagens bíblicas e históricas de Deus (códigos disponíveis) e devemos enfocar mais a imagem do mistério divino. É importante lembrar que Jesus de Nazaré quando fala do Reino de Deus o faz em parábolas. Quando falamos de Deus o fazemos por analogia e não como se fosse uma equação. É preciso priorizar novas relações. Como anunciar com a vida, a vida toda e em todo lugar o querigma se não o conseguimos viver no reduzido espaço de nossa casa? É preciso deixar de agir como funcionários que tratam os outros como clientes.

Finalizando a assessoria Paulo Suess apresentou dez imperativos do Concílio Vaticano II que contribuíram e continuam atuais para a Missão: 1) Natureza missionária de todas as instâncias e atividades eclesiais; 2) Centralidade da Palavra de Deus; 3) Centralidade do Reino de Deus; 4) Compreensão da Igreja como Povo de Deus; 5) Opção pelos pobres e os outros; 6) Inculturação e libertação; 7) Compreensão da Salvação como realidade Universal, no sentido de que quem não recebeu o evangelho também pertence ao Povo de Deus e da Salvação sem a necessidade do conhecimento do evangelho (LG 16); 8) Sinais de Justiça/Imagens de Esperança, convite a evitar o ativismo e a estabelecer prioridades no trabalho missionário; 9) Liberdade Religiosa; 10) Ecumenismo e Diálogo Religioso.
Pe. Andrés Motto, Província da Argentina, abordou o tema “A missão da Congregação da Missão na América Latina e no Caribe”, desenvolvendo sua reflexão em três momentos: 1) O Pensamento missionário de São Vicente; 2) A Missão Vicentina na América Latina; 3) A contribuição de Aparecida no que se refere à Vocação Missionária.

Partindo das experiências de Vicente de Paulo nas Paróquias de Clicy e Chatillon Les Dombes e capelão da Família dos Gondi o assessor assinalou como as mesmas ajudaram a formar o estilo missionário do fundador da Congregação da Missão. “Com base em suas experiências pastorais, São Vicente constata que o povo pobre ignora as verdades fundamentais do dogma e da ética católica, e se encontra carente dos bens materiais e de dignidade. Descobre com todo o peso da palavra que os pobres estão abandonados.” Entre outros elementos Pe. Andrés destacou três fundamentos da Missão em Vicente de Paulo: 1) Bíblica: a evangelização dos pobres é sinal de que o Reino de Deus chegou à terra, sendo tarefa congregacional o seguimento de Jesus Cristo missionário e a continuação da sua missão. 2) Eclesial: toda a Igreja deve estar com os pobres, em especial os sacerdotes e particularmente os padres e irmãos da CM. 3) Pedagógica: não se pode evangelizar sem que antes o missionário entregue ao pobre o seu coração, para tanto, nas missões se deverão exercer as 5 virtudes missionária e uma singular caridade; a correta aprendizagem da língua, procurando evitar os equívocos e a capacidade de deixar-se evangelizar pelos pobres. Vicente de Paulo devedor à teologia do seu tempo investe na formação para o conhecimento das verdades fundamentais da fé e no “fazer bem a confissão”. Entretanto a isto não se limita orientando-se para o compromisso claro com os mais pobres e no atendimento integral dos mesmos, em suas palavras: espiritual e corporalmente. A missão entre os pobres assume duas grandes frentes: as Missões Populares e as Missões ad gentes. Em relação às paróquias sempre houve grandes restrições e reservas.

Pe. Andrés Motto disse que é preciso reconhecer que a Missão Vicentina na América Latina surge pelo impulso missionário de João Batista Etienne superior geral da Congregação da Missão de 1843 a 1874. Além de reorganizar as missões no Brasil e Estados Unidos, servindo-se de missionários em sua grande maioria de origem francesa e espanhola abre missões em vários países: México (1844), Chile (1853), Perú (1858), Argentina (1859), Guatemala (1862), Cuba (1853), Equador e Colômbia (1870), Porto Rico (1873). Sobressai nos missionários vicentinos uma sólida formação clássica e um estilo de vida comunitário baseado na uniformidade, levada ao estremo por Etienne. Pe. Andrés destacou dois importantes elementos para o incremento da formação e o fortalecimento do espírito missionário: em nível de toda a Congregação o empenho dos últimos superiores gerais, em especial os padres Robert Maloney e Gregorio Gay, e na América Latina a criação da Conferência Latino Americana de Províncias Vicentinas (CLAPVI).
Segundo o Pe. Andrés Motto “quando um vicentino lê o Documento de Aparecida sempre o lerá unido ao tema da opção pelos pobres. Tarefa não tão difícil já que o mesmo Documento tem mui presente estes dois aspectos: vocação missionária e opção pelos pobres”. A eclesiologia de Aparecida é missionária, um convite a ir às periferias e aos afastados, a acompanhar e fazer-se solidária com a vida e as lutas do povo pobre, oprimido e excluído, um apelo à transformação das atuais estruturas sedentárias e estáticas em instrumentos itinerantes, leves e dinâmicos. “A missão põe à prova a sinceridade da opção pelos pobres. A missão é uma forma eminente de expressar a proximidade maternal da Igreja para com seus filhos afastados e abandonados”. Aparecida propõe: o testemunho de gente apaixonada por Cristo crucificado e ressuscitado; aproximar-se dos batizados para que redescubram a Igreja como sua casa; o diálogo e a cooperação ecumênica, a conversão pastoral; a trabalhar por comunidades mais adultas e fraternas; voltar à pastoral kergmática que anuncie prolonga o encontro com Cristo vivo; ir ao encontro dos novos migrantes, promovendo a cidadania universal na sociedade e a hospitalidade afetiva e efetiva de uma igreja sem fronteiras; renovar, recriar as missões populares em colaboração com as congregações, os leigos e os jovens em sintonia e comunhão com a pastoral de conjunto da Igreja Local.
Muitos são os desafios, maiores são os motivos de esperança: 1) A congregação vem reforçando sua vocação missionária em torno das missões populares e ad gentes; 2) As associações jovens vicentinas têm assumido com grande entusiasmo a tarefa missionária; 3) As províncias vicentinas na América Latina assumem estilos mais evangélicos de missão; 4) Ainda que com diversos tempos e intensidades vem crescendo uma evangelização inculturada.

Finalizando sua reflexão Pe. Andrés Motto disse que a vida missionária cristã se sustenta a partir de Cristo pobre, evangelizador dos pobres. Afirmou, também, que a vida vicentina continua sendo uma vida para os pobres e apresentou os seguintes acentos que uma missão vicentina deve apresentar: 1) Menos sacramentalista, mais evangelizadora e construtora de comunidades cristãs renovadas; 2) Missões profundamente cristológica onde os pobres se encontrem cada vez mais com Jesus Cristo; 3) Missões com forte base bíblica, que leve o povo ao encontro direto com a Palavra de Deus; 4) Espaço para a proclamação dos valores do Reino de Deus, tais como a paz, a democracia, os direitos humanos, a ecologia etc. Espaço para a reconquista do humano; 5) Missões criativas, com particular atenção ao aspecto da linguagem (simples e profundo); 6) Missionário(a)s que sejam verdadeiras pessoas de oração.

A terceira parte do Encontro foi dedicada ao tema “Missão e carisma vicentino em nossa formação, em nossa vida e obra: nosso agir vicentino na América Latina e Caribe”. Pe. Alexandre Fonseca iniciou sua exposição apresentando o relato de três experiências (quedas) que foram sinais fortes em sua vida e que muito lhe auxiliaram no processo de conversão à verdadeira prática e vida missionário-vicentina. Em seguida,tomando por base a perícope de Êxodo 3,7-10, apresentou o que chamou de “passos eternos da missão”. 1) Olhar: “Eu vi, eu vi a miséria do meu povo que está no Egito”. Para ver é necessário aproximação em todos os aspectos e não apenas geográfico. Para o missionário vicentino ir ao encontro do pobre e do outro é aproximar-se de Cristo. 2) Ouvir: “Eu ouvi o seu clamor por causa de seus opressores”. Tarefa que exige calar, mas não apenas a boca, mas também os conceitos e preconceitos. Exige a experiência de kenose, esvaziamento (cf. Flp 2,6-8). Ouvir o Outro, o Pobre, ao Espírito e aos Sinais dos Tempos e do Reino é deixar-me moldar, mudar, converter, acolher, modificar-se. Nunca uma atitude passiva. Ouvir é serviço que se presta ao outro na resignificação e reinterpretação da sua situação, contribuindo assim para que possa recobrar sua dignidade, forças e esperança. 3) Conhecer: “Eu conheço as suas angústias”. Para conhecer é preciso experimentar. Deus conhece porque participa dos sofrimentos, das angústias, das humilhações, das alegrias e das esperanças do seu povo. Conhecer é “nascer com”. No caso do missionário vicentino conhecer é nascer com o pobre e o outro, deixar-se co-formar pelo sofrimento do pobre e do outro. Aproximar-se do pobre e do outro é uma atitude exigente e dura. Sofrimento que se assemelha ao de Jesus de Nazaré que faz do sofrimento na cruz o caminho da glória.

Pe. Alexandre Fonseca apresentou três dentre os muitos e urgentes desafios que na América Latina se apresentam às Províncias da Congregação da Missão: os povos indígenas, a urbanização acelerada e o pluralismo religioso. Frisou que “Somos uma só Congregação da Missão (…). As Províncias não dividem a Congregação da Missão. Porque tanta dificuldade em agirmos, em desafios continentais, como uma única Congregação?” Apresentou três propostas que foram assumidas pelos presentes e que deverão ser encaminhadas à Assembleia da CLAPVI, em outubro deste ano, na Guatemala. Eis as propostas: 1) Organizar uma Escola de Formação para Missionários Vicentinos em nível continental nos moldes das Escolas já existentes de Espiritualidade Vicentina e Formação de Formadores; 2) Continuar estimulando a criação de Equipes Missionárias Interprovinciais na América Latina e Caribe; 3) Iniciar um sério processo de reflexão sobre a Reconfiguração da Congregação da Missão em toda a América Latina e Caribe,começando pela reconfiguração de nossas Províncias, tendo-se sempre em mente, como objetivo central a maior fidelidade à Vocação, ao Carisma e Missão Vicentina.