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Encontro de Formação Permanente – Fazenda do Engenho – 2011

29 de abril de 2014
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Nos dias 12, 13, 14 e 15 de abril, na Fazenda do Engenho, vários Padres e Irmãos da PBCM se reuniram para um encontro de formação permanente, cujo tema foi “Gestão de pessoas e facilitação da vida fraterna em comunidade”, assessorado pelo Padre Eugênio Barbosa e pelo Diácono Marcelo Silva, ambos Sacramentinos (SSS).

Estavam presentes 35 Coirmãos, vindos de todas as casas da Província, num clima de fraternidade e partilha. A interação entre gerações e a troca de experiências marcaram o encontro, como tem acontecido há um bom tempo, todas as vezes que temos encontros provinciais.

Reunindo numa mesma comunidade, mesmo que temporária, os mais idosos e os mais jovens, com as muitas gerações intermediárias, pudemos nestes dias experimentar o que os nossos assessores tanto nos disseram: que vale a pena viver em comunidade fraterna, como irmãos que partilham tanto a missão quanto a vida, vida esta que não pode ser desperdiçada por causa das querelas humanas e dos vícios de convivência que todos precisamos superar e abandonar, para nossa própria felicidade e para a felicidade da comunidade.

É importante que fique clara a expressão “formação permanente”.  Mais do que “entrar em forma” é “estar em forma”. Trata-se de “se preparar para estar em marcha, a caminho”. É o que faz um atleta ao se submeter a um contínuo treinamento para alcançar seu objetivo: um recorde ou uma medalha. Por isso, a formação permanente (ou contínua) é uma tarefa árdua, constante e, por vezes, cansativa. Exige de todos nós disposição, assiduidade, empenho, perseverança.

Como a nossa vida se dá em comunidade, a formação permanente acontece na própria convivência e nas diversas atividades promovidas em comunidade. Cada membro da comunidade é responsável pela sua formação e, ao mesmo tempo, pela formação dos seus companheiros.
Ao falar de “Gestão de pessoas e facilitação da vida fraterna em comunidade”, cinco pontos podem ser considerados:

1.     A cultura atual apresenta desafios que interferem na Vida Consagrada

Hoje, a vida fraterna é o que mais atrai aqueles que querem abraçar a Vida Consagrada e, ao mesmo tempo, é o principal motivo daqueles que a deixam. O limite maior tem sido a comunicação que, através da informatização, foi democratizada, constituindo um novo elemento nas relações comunitárias com sérias interferências na construção da comunidade.

A relação com o sagrado e as formas de lidar com ele mudaram. A concepção de Deus não é mais unitária, pois a sua imagem, hoje, está muito diversificada, interferindo nas posturas e compreensão de consagração. Isso se deve muito às influências das religiões orientais. Hoje, é também marcante o narcisismo como cultura, o que tem trazido novas posturas dentro da Vida Consagrada e levantando a questão da contraposição entre a pessoa e a instituição. Quem é mais importante, a pessoa ou a instituição? Outra questão é a nova concepção de desejo presente na cultura, principalmente o desejo de consumo. Como lidar com essa realidade? O desejo, em nossa cultura, não tem alguma referência que o confronte. Uma vez instalado, porque não realizá-lo? O que o impede de ser realizado? O que interessa é realizá-lo. Também, na Vida Consagrada, essa concepção está presente, trazendo um grande desafio para as relações comunitárias. A interiorização de certos valores ligados à maturidade humana e que direcionam as atitudes comunitárias e as posturas pastorais foi a marca de uma geração. Em contraposição, constata-se outra geração que não consegue interiorizar esses valores, manifestando decisões diferentes e marcantes em suas atitudes. A cultura também precisa ser questionada e evangelizada.

2.    A vida fraterna é identidade cristã e é específico da Vida Consagrada

Três elementos são fundamentais:

a) a vivência comunitária é própria da realidade humana, pois é um dado da existência humana;

b) a vivência em comunidade é específica da identidade cristã, pois Jesus expressou o Reino em comunidade ao reunir o grupo dos seus colaboradores – os Apóstolos;

c) a radicalidade do seguimento de Jesus, como modelo institucional da Vida Consagrada é comunitária na vivência dos votos e na missão.

Como dialogar com uma cultura que não é cristã, que não considera esses elementos e na qual somos minoria? Nisso, a Vida Consagrada adquire a sua dimensão profética. Para que esse profetismo seja consistente é necessária a “renúncia” baseada no testemunho.

3.    Os conflitos na vida fraterna estão na base da maturidade humana

Em geral, os conflitos que surgem na vivência comunitária estão mais na dimensão humana do que na da fé. Geralmente, a maturidade humana não está tão aberta para a ação da graça, para a atuação de Deus na vida da pessoa. A graça supõe a natureza. Por isso, a dimensão da maturidade humana tem que ser trabalhada constantemente para se construir uma vida fraterna comunitária mais saudável. Nesse sentido, são necessários instrumentos que ajudem a superar deficiências individuais e coletivas. A Vida Consagrada perdeu alguns instrumentos que, no passado, ajudavam-na a “resolver”, a equilibrar os conflitos ou as deficiências. Havia os famosos “capítulos” que, bem ou mal, tentavam harmonizar os conflitos e suprir as deficiências. Hoje, há um ganho bastante grande com a utilização freqüente dos instrumentais da ciência, nomeando as dificuldades e levando as pessoas a assumirem-nas. Se elas não forem assumidas não poderão ser redimidas. Só assim, pode-se abrir espaço para a atuação da graça de Deus.

4.    Modelos que são inspiradores para a construção da vida comunitária

1º) O modelo de relacionamento que aparece na construção da torre de Babel, descrita em Gn 11,1-9. Aí, vê-se uma aparente unidade sem comunicação. Nesse modelo, pode-se analisar a estrutura de poder, a falta de diálogo sem abertura para a escuta e o perfeccionismo que impediram o entendimento.

2º) O evento de Pentecostes narrado em At 2,1-13. A comunidade dos Apóstolos estava em crise, mas aberta para a novidade e para o crescimento. Apesar da diferença de linguagem, há a possibilidade de compreensão. Cada pessoa é manifestação da diferença e o acolhimento da diferença dá a possibilidade de crescimento. No evento de Pentecostes, vê-se uma comunidade saudável que abre as portas e sai para anunciar: a comunidade existe para a missão.

3º) O modelo da Trindade que aparece em Jo 14,15-21. Nessa narrativa, vemos as diferenças que se respeitam, se unem e estão em função da missão. Há unidade na diversidade. Há a comunicação entre as pessoas divinas, revelando-se para amar e doando-se para a outra ser pessoa.

4º) Mesmo sem uma referência bíblica explícita, a família também é modelo, pois é constituída por laços de sangue que são extremamente sagrados. Esses, às vezes, ultrapassam até mesmo a racionalidade e não são marcados por uma escolha. O que nos une na construção da vida fraterna é o laço da fé que implica uma escolha. Esse laço se torna superior ao laço de sangue na medida em que há uma tomada de consciência do seu valor.

Ao analisar esses modelos, pode-se avaliar o sentimento de pertença muito importante para a vida em comunidade.

5.    A concepção atual do voto de obediência interfere na vida comunitária. 

Está presente na sociedade atual o processo de ruptura das estruturas autoritárias, através do qual o poder não é mais legitimado pelo sagrado. Há a primazia do sentimento em detrimento da razão. A busca de uma síntese entre um e outro será benéfica para a vida comunitária.

A contribuição das ciências modernas é valiosa para construção da vida comunitária. Muitas atitudes que, no passado, eram reconhecidas como virtude, hoje, muitas vezes, são tidas como patologia pelas análises que as ciências apresentam. É necessário que a Vida Consagrada leve em conta tudo isso, pois esses elementos ajudam na compreensão da obediência, hoje. Diante dessa realidade, é importante considerar a unicidade da pessoa (o que Deus espera dela), a recuperação da figura do superior como serviço á comunidade e o exercício do discernimento comunitário para a tomada das decisões.

Se a concepção de poder não for evangelizada, isto é, se não tiver o Evangelho como referência, a consciência e a estrutura de obediência não terão sustentação: “Vocês dizem que eu sou o Mestre e o Senhor. E vocês têm razão;  eu  sou mesmo. Pois bem: eu, que sou o Mestre e o Senhor, lavei os seus pés; por isso vocês devem lavar os pés uns dos outros” (Jo 13,13-14). “Entre vocês não seja assim; pelo contrário, o maior seja o menor, e o que governa como aquele que serve” (Lc 22,26).