A cooperação missionária é parte das experiências imediatas de nossa vida eclesial. Podemos compará-la com uma árvore com muitos ramos e com um rio com uma grande quantidade de afluentes, através dos quais muitas pessoas participam ativamente nas iniciativas eclesiais ou se sentem em contato com ela. Esta onipresença que a torna próxima e acessível a quase todos, é precisamente o que requer uma reflexão sobre seu sentido, seu valor e seu alcance. O caráter imediato e evidente desta onipresença pode fazer com que não penetremos em seu autêntico dinamismo ou que ela se prolongue de modo rotineiro, estereotipado e inconsciente. É necessário, portanto, que a vivamos e a desenvolvamos como desdobramento do sonho da missão. Assim poderemos abrir ainda mais o leque de possibilidades. Do contrário, podemos cair numa espontaneidade anárquica ou numa organização burocrática.

DA EXPERIÊNCIA AO SONHO DA MISSÃO

A cooperação se torna realidade na vida de muitos cristãos de modo espontâneo e de múltiplas formas: através da ajuda econômica que se presta a um missionário conhecido, da contribuição em um projeto apresentado por uma congregação religiosa ou por uma paróquia, da oração comunitária durante a eucaristia dominical ou na oração privada, da aquisição de produtos artesanais distribuídos por uma ONG ou por um grupo missionário, da participação em uma celebração de envio de missionários, do recolhimento de selos para as missões, do dia de jejum voluntário. Todas essas expressões da cooperação mostram a simpatia que despertam os missionários e a sensibilidade presente no coração dos cristãos diante da obra missionária da Igreja. Todavia, essa espontaneidade nem sempre nos deixa ver toda a profundidade do que fazemos, e por isso não se cultiva suficientemente a inventividade que a missão deve despertar rumo à busca de formas mais adequadas de cooperação.

Por outro lado, a organização oficial e articulada da cooperação missionária está muito presente especialmente através das campanhas programadas durante o ano litúrgico. Estas campanhas pretendem introduzir na celebração eucarística a obrigação missionária de todos os batizados, ao reservar algumas datas especiais para destacar um aspecto ou uma dimensão da cooperação missionária. Além do mais, o povo cristão é habitualmente compreensivo e generoso, particularmente quando se celebra o DOMUND2 ou a Campanha contra a fome. Tudo isto porém, pode ficar na contribuição econômica a uma obra ou a um projeto que se encontra enormemente distante de cada um de nós, uma vez que funciona como um canal de ajuda, fiável certamente, mas autônomo e independente.

Do fato de falarmos de um fenômeno tão evidente e espontâneo, conduzido por organizações de reconhecida eficácia e credibilidade, pareceria nos dispensar de uma reflexão de um mais amplo alcance. Não obstante, este é um caminho que devemos percorrer a fim de captar toda a inventividade que a missão da Igreja está em condições de promover na vida eclesial, especialmente se levarmos em conta toda a amplitude da missão e suas modalidades ao longo do tempo. Não se trata, pois, de buscar raízes teológicas de caráter teórico ou especulativo: o que nos interessa é captar o dinamismo da ação missionária.

Uma reflexão serena e coerente acerca da cooperação missionária facilita o reconhecimento da atividade dos outros, tornando-se possível, desse modo, a inserção em um projeto de comunhão e de corresponsabilidade. Ademais, podemos descobrir com maior abertura e perspectiva o sentido genuíno da missão. Caso contrário, ela pode ser reduzida a uma perspectiva unidirecional e geográfica, a saber: a cooperação missionaria diria respeito só aos membros de algumas comunidades, aquelas que ajudam outras que se encontram em situação de necessidade e que se situam geograficamente distantes. À partir desta visão, quem coopera se situa até certo ponto à distância da missão em sentido estrito, de modo que ação missionária e cooperação missionaria funcionariam como duas grandezas que se podem não só distinguir, mas também separar. Uma vez superados estes estreitamentos e riscos, um maior espaço seria deixado à criatividade e ao comprometimento, pois o vigor da missão suscita um sonho ao qual nós temos de dar corpo e espaço.

DESDE SUA ORIGEM A MISSÃO SUSCITA A COOPERAÇÃO

Pode parecer anacrônico nos remontarmos aos momentos iniciais do anúncio do evangelho para encontrar modos de cooperação missionária. Parece um intento anacrônico porque rompe com os esquemas aos quais estamos habituados. Todavia, é exatamente por isto que seu resultado se torna enriquecedor: ele restitui aos nossos esquemas atuais mais ousadia e mais flexibilidade. Esse dinamismo originário nos permitirá descobrir, por um lado, a estreita implicação entre ambas, e por outro, a diversidade de modalidades que a missão gera à partir das necessidades e circunstâncias concretas.

Jesus anunciou o evangelho do Reino de modo itinerante, percorrendo os caminhos e povoados da Galileia. Desde o princípio contou com apoios e ajudas de tipo diverso: com ele iam não só os discípulos mais próximos, mas também um grupo de mulheres que inclusive colocavam seus próprios bens à disposição (Lc8,1-3); em diversos lugares se lhe ofereciam alojamento e hospitalidade, como na casa de Pedro em Cafarnaum (Lc 4,38-39) ou na residência de Lázaro e suas irmãs (Jn 12,1; 11,1-6); aceitava convites para ir às casas onde mantinha sem dúvida uma relação duradoura; o envio dos discípulos foi criando uma rede de contatos capazes de estabelecer vínculos de amizade (Lc 9,1-6)…

A biografia de São Paulo revela, especialmente em suas cartas, a vida mesma da missão da Igreja nascente cuja raiz são a Páscoa e Pentecostes. O relato do apóstolo nos deixa ver que ele se sente acompanhado por suas Igrejas de diversas formas. A cooperação econômica não aparece em primeiro plano: ele recorda com orgulho que pretende não ser dispendioso a ninguém, de modo que procura trabalhar manualmente (2Cor 11,9). Aceita apenas a ajuda financeira dos filipenses devido às especiais relações com esta comunidade (Fl 4,15-17). O mais importante é o apoio pessoal: Timóteo e Apolo se encontram em movimento permanente para apoiar o desenvolvimento da obra evangelizadora (1Cor 16,10-12); Tito é designado como cooperador de Paulo entre os Coríntios (2Cor 8,23); Epafrodito é enviado pelos filipenses para socorrer a Paulo em suas necessidades (Fl 2,23). Mais além das pessoas concretas, são as mesmas Igrejas que colaboram com a obra de Paulo não só por suas orações (Fl 1,19), mas também pelo testemunho de vida cristã dos batizados, que se propaga e se irradia por todas as partes (1Tes1,8). Cheio de gratidão, Paulo se dirige aos filipenses mostrando que esse gozo que ele experimenta é o melhor dos presentes e, como diríamos hoje, a melhor cooperação missionária: “Vocês são minha alegria” (cf. Fl 4,1).

Tanto 1Cor 16 e sobretudo Rm 16 contêm varias alusões a pessoas concretas, homens e mulheres, designados como cooperadores ou colaboradores devido à função que desempenham no serviço comunitário e nas relações de comunhão entre as diversas Igrejas. Trata-se de um dos exemplos mais claros em que, através de rostos e de nomes pessoais, constatamos até que ponto missão e comunhão se fundem e se potenciam. Esse princípio se expressa com toda clareza em um dos compromissos que Paulo assumiu com maior convicção: a coleta em favor dos cristãos de Jerusalém. Repetidamente solicita a generosidade das diversas comunidades, pedindo que designem alguém dentre seus membros para levá-la a seu destino (1Cor 16,1-3; 2Cor 8,18-20). Inclusive, compromete as Igrejas que ele mesmo não havia fundado para que colaborem nesta dupla direção: solicita aos romanos que intercedam junto aos cristãos de Jerusalém para que aceitem de bom grado a coleta, e, às vezes, pede-lhes “de cara” seu apoio ao projeto que espera realizar na Espanha (Rm 15,25-33).
Estas breves alusões mostram de modo patente a lógica que deve ser descoberta para entendermos profundamente a cooperação missionária: não se trata de um apoio que se dá “aos que estão em missões”; é, antes de tudo, expressão da participação de todos no dinamismo missionário da Igreja; ela foi realizada de um modo prototípico pelo apóstolo, porém em seu exercício, ele se vê acompanhado pelas Igrejas. Missão e cooperação, portanto, não devem ser concebidas como grandezas distintas que se relacionam à partir do exterior. Trata-se de uma tarefa comum que se manifesta sob modalidades diversas, segundo o carisma, as circunstâncias e as possibilidades de cada um. São as situações, cambiantes e às vezes imprevisíveis, que oferecem espaço e itinerários ao sonho que nasce da missão: contribuição econômica, coletas especiais, testemunho no próprio local, comunicação frequente, eleição e envio de pessoas, acolhida dos enviados do apóstolo…

NO DINAMISMO CARISMÁTICO DO POVO DE DEUS

As origens da missão cristã nos oferecem importantes elementos para uma compreensão da cooperação missionária. É igualmente ilustrativo o momento em que começa o que chamamos de origens da cooperação missionária dos tempos modernos. Atualmente conhecemos sobretudo as Obras Missionárias Pontifícias que coordenam e articulam as iniciativas de cooperação. É particularmente instrutivo remontarmos a sua origem e nascimento, à vida que subjaz à atual organização pastoral e burocrática. Nos fixaremos nas duas primeiras, a Obra da Propagação da Fé e a Obra de São Pedro Apóstolo, porque ambas foram começadas por duas leigas, Paulina Jaricot e Joana de Bigard.

Nenhuma delas pôde prever o destino da iniciativa que suscitaram: tanto uma quanto a outra experimentarão os dissabores e sofrimentos relacionados aos projetos que abrirão caminho entre as complexidades da história e as fraquezas humanas. É exatamente por isto que deixam transparecer o sentido genuíno dos carismas na Igreja: o dom recebido deve ser desenvolvido como serviço para a edificação eclesial a fim de que esta possa ser fiel à missão recebida. A inventividade da missão suscita respostas sinceras e autênticas que são recolhidas pela Igreja, porém que devem, ao mesmo tempo, torná-la sensível às necessidades de cada momento histórico. A origem destas duas iniciativas mostra a criatividade carismática enquanto tal se a situarmos adequadamente em seu momento histórico: a França do século XIX. A grande empresa missionária desencadeada no século XVI com as explorações da navegação portuguesa e espanhola e com a descoberta de novas terras, experimentara uma profunda crise. O panorama da Europa tinha mudado substancialmente. Os conflitos suscitados por controvérsias religiosas, a sucessão das potências imperialistas, o avanço do colonialismo e dos conflitos comerciais, a comoção da revolução francesa, a promoção das novas ideias ilustradas e racionalistas, a atitude antieclesial de amplos e influentes setores da sociedade… alteraram substancialmente os pressupostos missionários que foram promovidos nos inícios da época moderna. A França, em particular, passou por uma reviravolta em suas estruturas, o que conduzira a Igreja a uma situação difícil, na qual se via obrigada a ressituar-se em um novo regime político, cultural, econômico e religioso.

Conforme nosso ponto de vista, interessa-nos destacar um aspecto fundamental: a ação missionária não podia contar mais com os apoios institucionais que lhe haviam fornecido suporte até então. Os novos poderes não se sentiam vinculados a tal projeto evangelizador. A partir deste momento, será a Igreja mesma, a partir de sua pobreza e de suas limitações, que deverá responder à missão universal. Neste contexto é a inventividade do Espírito que suscita iniciativas inovadoras e alentadoras. Por um lado, ao longo do século XIX surgem numerosas congregações religiosas, especialmente voltadas para o campo da educação e da missão. Por outro lado, será o conjunto do Povo de Deus através de figuras carismáticas que se sentirá interpelado a assumir sua responsabilidade, conforme suas possibilidades, para responder aos desafios do momento. Se falou, e com razão, do movimento missionário que atravessa toda a Europa no difícil século XIX: neste período, foram enumeradas mais de 200 organizações e associações que tinham como objetivo o envio de missionários ou o apoio as suas atividades.

Paulina Jericot (1799-1862) nasceu em Lion numa família burguesa, recebeu entre diversas qualidades e disposições, o carisma de doar-se pela Igreja e pela França. Isto se tornou realidade – estimulada por seu irmão que se preparava para ser missionário – através do seu empenho em atender as enormes necessidades das missões da Ásia oriental. Para tal, concebeu uma estrutura peculiar: uma associação formada por grupos de dez pessoas que contribuiriam com uma quota mensal. Começou com as funcionárias da fábrica de seu pai. Era 1819. Na primeira semana arrecadou 18 francos, 300, na segunda, e, 1800, na terceira. Esse projeto iniciado por uma jovem leiga não teve, sem dúvida, o rápido reconhecimento das autoridades eclesiais. Simultaneamente outras iniciativas haviam surgido. Viu-se, então, a conveniência de uma fusão entre elas. Na reunião decisiva Paulina não esteve presente. Sua própria obra foi integrada em uma outra mais ampla, e ela mesma ficou relegada. Não obstante, a reflexão comum impusera uma maior consciência universal: não se tratava de ajudar um empreendimento específico, mas de criar algo verdadeiramente católico e universal. Paulina continuaria a colaborar fielmente, mesmo que posteriormente seu destino pessoal a tenha obrigado a deparar-se com a ruína e com a mendicidade até morrer na mais absoluta pobreza.

Joana de Bigard (1859-1934) escreve também com seu sofrimento uma das mais belas páginas do serviço de difusão do evangelho. A colaboração com uma instituição que enviava ornamentos aos missionários lhe permitiu uma relação epistolar com o Pe. Villion. Ela doa seu dote para a construção de um templo em Kyoto, dedicado a São Francisco Xavier. Em seguida, chega a seu conhecimento a solicitação de ajuda por parte do bispo de Nagasaki para abrir um seminário. Consciente da urgência e da gravidade da formação do clero nativo, ela se consagrará inteiramente a esse objetivo através da oração e da ajuda econômica. Teve de superar dificuldades enormes tanto públicas quanto particulares. No âmbito civil, ela encontra um grande número de obstáculos para registrar e organizar sua obra. No âmbito eclesial ouviu acusações de escapismo ao eludir os problemas da Igreja em França. Em nível pessoal, foi atingida por problemas psicológicos e acabou perdendo a razão, até ser internada em um manicômio. Em 1927, antes de sua morte, Pio XI havia sagrado o primeiro bispo japonês, D. Hayasaka, que pôde estudar graças a uma bolsa oferecida pela mãe da mesma Joana.

Estes projetos, juntos com outros dois, foram sendo reconhecidos oficialmente até constituírem as Obras Missionárias Pontifícias. Eles constituem um exemplo claro de cooperação missionária: brotam do comprometimento pessoal no destino da missão; depois, pretendem incorporar o conjunto dos cristãos, de modo que o protagonismo individual se integre no protagonismo eclesial e, por fim, se oferece uma resposta de acordo com as circunstâncias atuais e à partir das necessidades da Igreja… À  partir destes exemplos concretos podemos captar o sentido teológico da cooperação missionária: ela não surge simplesmente de uma dedução racional ou de uma planificação burocrática, mas da força do carisma que, como intuição profética, reflete a inventividade do Espirito.

A COOPERAÇÃO MISSIONÁRIA EM UMA IGREJA QUE É MISSIONÁRIA POR NATUREZA

A vida real da Igreja, isto é, a promoção dos carismas dos cristãos, oferece o ponto de partida para uma releitura teológica. Para não nos estendermos sobre um campo muito vasto, nos fixaremos na lógica e coerência que subjaz ao decreto Ad Gentes (AG). Mais que às afirmações concretas, devemos voltar nossa atenção sobre a lógica da reflexão dos bispos no Vaticano II. O decreto conciliar dedica o sexto capítulo à cooperação missionária. Esse capítulo figura, desse modo, como conclusão (ou melhor, o fruto graúdo) dos capítulos precedentes: depois de expôr os princípios doutrinais (cap. I) e o processo que vai desde o anúncio até à consolidação das Igrejas (cap. I-III), apresenta-se a identidade e a função dos missionários (cap. IV), como protagonistas da ação missionária da Igreja. Estes, portanto, não devem ser considerados isolada ou individualmente mas sim como cristãos cujo carisma os leva a se consagrarem ao dinamismo que brota do mistério do Deus Trindade. O carisma dos missionários deve ser situado no conjunto do “programa da atividade missionária” da Igreja (cap. V). Finalmente, o cap. VI versa sobre a cooperação missionária, pois todos devem assumir sua responsabilidade em uma tarefa que é comum e compartilhada. E cada uma das afirmações deste último capítulo adquire toda a sua força quando inserida no conjunto da exposição do decreto.

O ponto de partida em AG 35, para ratificar esta profunda interligação, repete o já dito em AG 2, que resume a convicção que vasa o decreto de ponta a ponta: a Igreja toda é missionária, e por esta razão a obra da evangelização é dever fundamental de todo o Povo de Deus. Este princípio, que hoje pode parecer óbvio para muitos, fora estabelecido como um avanço ou um desenvolvimento realizado pelo Vaticano II. Durante muito tempo se pensou que a atividade missionária competia a poucos, pois só alguns eram considerados missionários em sentido estrito (clérigos, devido à concepção hierarcológica da Igreja, e os religiosos, porque historicamente dedicaram grandes esforços à atividade missionária). O Vaticano II refocaliza a perspectiva: a obrigação missionária não brota do sacramento da ordem ou do voto de consagração, mas do batismo e da pertença à Igreja. Esta mudança vai repercutir na concepção da cooperação missionária: se a ação missionária era algo reservado a alguns “especialistas” ou a alguns “enviados oficiais”, logo a ajuda ou colaboração devia realizar-se de certo modo “a partir de fora” ou “à distância”. A mudança de perspectiva recoloca a questão: como cada um pode oferecer sua contribuição particular a uma obra que é de todos e que, por isto, não é alheia a ninguém. Vemos assim superada toda “distância” ou toda “exterioridade” e a cooperação passa a ser responsabilidade missionária de todo o Povo de Deus.

Consequentemente, AG 35 convida todos os batizados a “uma profunda renovação interior” para descobrir a responsabilidade própria na difusão do evangelho e, de igual modo, a assumir a tarefa que lhe corresponde “na obra missionária entre os gentios”. Dito de outro modo: esta responsabilidade situa todo batizado no seio da obra missionária: por isto, seu horizonte não deve ser tanto o de ajudar os outros quanto o da fidelidade ao próprio chamado e ao próprio carisma, isto é, a responsabilidade na missão universal. Na sequência, AG 36 explicita “o dever de cooperar”. E com isto, não faz mais que formular com outras palavras o que já se disse à partir dos níveis conceitual e teológico. Dentro dessa lógica, o testemunho  de vida cristã surge como a primeira obrigação em prol da difusão da fé e da aquisição de um espírito verdadeiramente católico. A autenticidade da vida cristã será o critério da autêntica cooperação eclesial.

De acordo com esse pressuposto, o passo ulterior seria o de tornar o próprio testemunho real e válido através de algo concreto: oferecer orações e obras de penitência, preocupar-se com a questão das vocações missionárias, disponibilizar os recursos necessários… A fé cristã genuína, movida pela caridade, aguça a sensibilidade para captar a solicitude ou o clamor dos que clamam “ajuda-nos!” A vida cristã não pode ser testemunhada e promovida a partir de uma dimensão puramente individual. A fé cristã e eclesial é sempre um “nós”. Por isto, AG 37 dá um passo a mais: a fé e o testemunho se vivem em comunidades, o Povo de Deus existe em dioceses e em paróquias; daí que, a renovação e o compromisso missionário devem ser algo realizado por toda a comunidade eclesial. Ao mesmo tempo, AG especifica ou precisa o modo de cooperação dos distintos membros do Povo de Deus: bispos, presbíteros, congregações e ordens religiosas, institutos consagrados ao serviço missionário, leigos… Redemptoris Missio 78 (RMi), vinte e cinco anos depois, formula-o com maior clareza: todos os cristãos são corresponsáveis da atividade missionária; desse modo, a participação na missão universal não se reduz a algumas atividades particulares, porém é sinal da maturidade da fé e de uma vida cristã que produz frutos.

A doutrina conciliar é clara e profunda, inclusive inaudita naquele momento. Todavia, há um passo a mais a ser dado na direção já aberta por RMi. É preciso evitar ou superar a concepção da missão em sentido unidirecional: como a atividade que se dirige de algumas Igrejas (antigas ou sólidas) rumo à outras (mais jovens ou mais fracas e necessitadas). Enquanto se mantiver esta visão a vivência e a promoção da cooperação padecerá desta “distância” ou “exterioridade” a que aludimos. A cooperação missionária situa-se no interior da própria atividade missionária pelo fato de que a missão é um projeto corresponsável.

Apenas a partir desta ótica se recolherá toda a força interpeladora da transformação de situações experimentadas pela missão, como reconhece RMi. Dado que essa transformação foi provocada pela evolução das circunstâncias e que não podemos fazer frente a isto de outro modo a não ser a partir da comunhão entre as Igrejas, o resultado é que se abrem formas novas de cooperação missionária (RMi 82). Essa é a novidade que deve ser particularmente atendida em nossos dias, pois é a partir dela que o Espírito continua a suscitar o sonho da missão. Como nas origens e como no século XIX, o século XXI é chamado a promover seu próprio modelo de cooperação missionária visto que o contexto da missão universal mudou.

AS FORMAS TRADICIONAIS DA COOPERAÇÃO MISSIONÁRIA

A animação missionária, a pastoral da Igreja e as recomendações dos Papas circunscreveram-se em torno de três modalidades de cooperação missionária: cooperação espiritual, pessoal e econômica. Constituíam os três pilares sobre os quais se apoiava a participação de todo o povo cristão segundo o modelo de missão que reclamavam as condições da época.

Ao qualificá-las como “tradicionais” não pretendemos dar a entender que elas tenham sentido apenas dentro de um marco temporal. Seu caráter tradicional é mais profundo: são modalidades necessárias e irrenunciáveis e, como tal, conservam permanentemente sua validez. Contudo, estas formas tradicionais devem ser acompanhadas de outras modalidades que respondam às novas situações e que reflitam de modo evidente os pressupostos que traçamos até então. Além disso, convém enumerar as formas tradicionais para percebermos com maior clareza a novidade das formas que atualmente se fazem também necessárias.

A cooperação espiritual

João Paulo II em RMi 78 recorda que entre as formas de cooperação missionária “ocupa o primeiro lugar a cooperação espiritual: oração, sacrifícios e testemunho de vida”. Mediante a oração, o cristão acompanha os passos dos missionários para que o anúncio da Palavra se torne eficaz pela graça divina. Isto é possível porque, a partir de sua raiz, a oração permite ao cristão se inserir na dinâmica do olhar de Deus sobre o mundo e, assim, situar-se como protagonista na história da salvação. O missionário em sua oração, e cada cristão com a sua, se confluem no mesmo desígnio salvífico de Deus em favor da humanidade. Os contemplativos também participam ativamente no projeto de Deus visibilizado pelos missionários. Prova disso é que Teresa do Menino Jesus, a partir do Carmelo, mereceu ser declarada patrona das missões (pois sua colaboração não é menor que a de uma vida itinerante como a de Francisco Xavier). Como expressão e estímulo da oração missionária assinalam-se periodicamente as intenções que devem alimentar a oração de toda a Igreja.

A oferta do sofrimento e dos sacrifícios pelos missionários situam-se na mesma lógica: a experiência da dor não só ajuda a descobrir a própria fragilidade e a infância espiritual, como permite também adquirir os mesmos sentimentos do Cristo que gastou e desgastou sua vida a favor de todos, ao assumir sem rancor os efeitos da crueldade humana. Não se trata de sacralizar o sofrimento ou de legitimar a violência: trata-se de reconhecer a condição humana à partir da comunhão com Deus e com as necessidades de toda a humanidade.

O valor salvífico da dor está no reconhecimento de um Amor que envolve a todo ser humano com suas fragilidades e angústias, resgatando a quem padece da tentação à desesperança ou à incomunicação. Em consonância com esta visão, a  união dos enfermos missionários deve ser considerada como uma riqueza e um tesouro da Igreja. Eles, além de oferecerem um testemunho de vida autêntico, se convertem em altar existencial de modo que toda a comunidade eclesial possa doar sua vida e agradecer sua esperança ao Deus que não abandona suas criaturas.

A cooperação pessoal

É a oração pessoal que nos leva a descobrir que a participação no projeto de Deus não pode reduzir-se à doação de coisas ou de recursos materiais. Em toda relação pessoal o central e decisivo é a doação da própria vida, o fazer da própria existência um gesto de doação. Cada cristão deve rezar pelas vocações missionárias e deve contribuir economicamente para que se formem e se desenvolvam, sem contudo obscurecer a dimensão do seu próprio compromisso pessoal. As vocações missionárias nativas são imprescindíveis para o desenvolvimento das novas Igrejas. Mesmo assim todo crente deve descobrir que dimensões de sua pessoa devem ser desenvolvidas em prol da cooperação missionária: tempo dedicado à animação missionária, períodos de presença em contextos missionários, o testemunho pessoal que fortalece a própria fé ao comunicá-la aos outros, a prática missionária a partir da própria profissão… De acordo com esta perspectiva, podemos entender e confrontar algumas das modalidades novas de cooperação missionária às quais nos referiremos posteriormente.

A mesma perspectiva deve ser assumida pelas comunidades eclesiais: sem dúvida devem se preocupar com as vocações, porém, com maior força ainda devem se perguntar até que ponto se sentem comprometidas, colocando à disposição alguns de seus membros para o serviço missionário universal. O questionamento se torna bem mais forte no caso em que se aumente efetivamente a contribuição econômica e, em contrapartida, se diminua o cultivo das próprias vocações missionárias. A interpelação se torna mais crítica se levarmos em conta que a elevação do nível de vida facilita a doação de recursos econômicos, enquanto não se utilizam as possibilidades de mobilidade que facilitariam o envio de pessoas, mesmo que por um tempo limitado.

A cooperação econômica

Em geral pode-se dizer que se trata de uma das formas de cooperação mais propagada e valorizada, especialmente porque é quantificável e se traduz em projetos e iniciativas concretas facilmente perceptíveis. Efetivamente é uma contribuição imprescindível devido às clamorosas situações de necessidade em tantos lugares onde os missionários trabalham. É uma das maneiras de suscitar com maior intensidade a sensibilidade dos cristãos.

Todavia, a contribuição econômica deve ser situada no seu devido lugar e ser submetida a critérios rigorosos. RMi adverte que o prioritário não é o conteúdo do que se dá, mas o espírito com que se o faz. Por isto, o decisivo não é o dinheiro enquanto tal e sim a disposição para compartilhar com os pobres o próprio bem-estar. Ademais, a contribuição econômica deveria ser vivenciada e promovida como expressão e expansão da comunhão que se celebra sacramentalmente na eucaristia. Finalmente, não se pode deixar de lado ou dissimular a profunda ambiguidade da contribuição econômica: ela pode servir como uma estratégia para dissimular a má consciência e pode chegar a ocultar formas mais sutis de colonialismo e de dependência. Portanto, uma animação missionária adequada (especialmente se está voltada para o futuro) deve privilegiar a cooperação pessoal (no sentido em que indicamos) sobre a econômica (que pode ocultar a demissão do compromisso pessoal).

AS NOVAS FORMAS DE COOPERAÇÃO MISSIONÁRIA

As iniciativas missionárias surgidas no século XX foram significativas naquele contexto. Exatamente por isto, elas se situavam dentro dos pressupostos teológicos da época. Evidentemente durante o último século tanto o contexto quanto os pressupostos teológicos se transformaram. Como nos relembrou e reconheceu João Paulo II em RMi: os velhos conceitos e esquemas não estão em condições de expressar adequadamente as novas situações e necessidades. Requer-se um repensamento e uma reconsideração que não ofusque, mas que revigore a especificidade da missão ad gentes. Toda mudança é exigente. A inércia das práticas costumeiras persiste e tende a conformar-se ao rotineiro, mesmo quando se assume a atitude de melhorá-las e de ampliá-las. Assim falta-se lucidez ou coragem para afrontar a nova situação desvelando todas as suas possibilidades. Mas, eis a perspectiva a adotar: as novas circunstâncias oferecem um maior espaço para a cooperação missionária colocando-a no coração do dinamismo da missão, e ao mesmo tempo, conferindo-lhe um novo impulso rumo à criatividade e à inventividade. Desse modo superam-se também as insuficiências – distância e exterioridade – que anteriormente mencionávamos.

RMi 82 nos deixa entrever o aspecto que deve ser promovido com maior vigor: as novas condições da civilização planetária tornam mais fácil e imediata a inserção direta da cooperação missionária na missão universal. Doravante, apresentaremos brevemente a diversidade mais significativa de caminhos e itinerários na convicção de que esse leque continuará a se ampliar à medida em que deixarmos o Espírito agir com liberdade. A mobilidade que caracteriza a civilização atual facilita e multiplica os encontros entre pessoas de diferentes lugares e de diferentes crenças religiosas. Isto suscita encontros pessoais nos quais o testemunho (do comportamento ao estilo de vida ou os valores que se defendem) pode apresentar-se em toda a sua dimensão evangelizadora. Esta possibilidade pressupõe a consciência, por parte do crente, de estar comprometido em uma missão que não corresponde exclusivamente aos missionários, mas que a atividade destes pode ser acompanhada pela dos cristãos que se encontram por motivos diferentes nos mesmos lugares e contextos.

O turismo oferece ocasiões múltiplas e variadas. Por um lado, permite uma aproximação de realidades eclesiais distintas, com as quais se pode entrar em contato de modo direto e pessoal: participando de celebrações litúrgicas, falando aos cristãos que ali se encontram, entrando em contato com instituições cristãs… Em muitos países, sobretudo quando não existe o obstáculo da língua, tais iniciativas são muito bem acolhidas e são enriquecedoras para ambas as partes. Por outro lado, há o contrapeso do contratestemunho que turistas ocidentais – presumidamente cristãos ou de tradição cristã – dão em virtude de suas práticas abusivas e imorais. A integração do turismo em uma perspectiva cristã e evangelizadora não desnaturaliza sua autêntica natureza, antes a potencia conferindo-lhe uma dimensão pessoal e cultural que deve estar presente na formação cristã e catequética dos batizados.

O crescente processo de globalização e de internacionalização da economia e da cultura confere novas dimensões à vida profissional. Se o profissional for cristão, ele entrará em contato com situações em que precisará testemunhar sua fé: países onde o cristianismo é minoritário ou em que a Igreja é marginalizada ou perseguida, em que a dinâmica empresarial se move só pelo interesse do ganho… Nossa civilização apresenta cenários nos quais o anúncio do evangelho pode ser feito por vias normais e cotidianas que, já no passado, resultavam extraordinárias. Seria paradoxal e incoerente que o profissional cristão ofereça sua ajuda econômica aos missionários e não se dê conta de que ele se encontra em um país onde seu modo de vida pode ser missionário.

Pode-se dizer o mesmo e de forma mais incisiva de quem está comprometido em associações ou em organizações internacionais, atualmente tão frequentes tanto no campo político quanto cultural. O compromisso missionário se realiza, em primeiro lugar, com os companheiros de trabalho, muitos dos quais pertencem a outras religiões ou concepções de mundo. Ademais, os critérios aplicados ao próprio trabalho e aos projetos que são encomendados podem ser impregnados dos valores evangélicos. Tanto a política quanto a cultura contribuem para modelar as mentes de milhões de pessoas. É necessário, pois, que intelectuais cristãos depositem o germe da novidade cristã na cultura que atualmente se propaga automaticamente e gera a civilização da próxima geração.

A perspectiva internacional não pode reduzir-se ao campo dos especialistas ou dos profissionais altamente qualificados. A sensibilização e a participação política oferecem possibilidades sugestivas e prometedoras. De modo especial nos sistemas democráticos, os cristãos podem expressar sua cooperação missionária reclamando dos governos posições justas em questões de comércio, das quais depende a manutenção das populações de países pobres. A própria contribuição em uma campanha missionária anual deveria servir para que todos nos déssemos conta da repercussão de uma tomada de consciência acerca dos acordos internacionais (taxas aplicadas a produtos importados, projetos internacionais de desenvolvimento, repercussões do desequilíbrio ecológico e da mudança climática…).

Os movimentos sociais são uma das expressões mais fecundas da vitalidade social, os quais normalmente podem atingir alcance e conexões internacionais: defesa dos direitos humanos, salvaguarda da criação, reivindicações por parte das  mulheres… Tais modalidades de iniciativas devem ser fomentadas e apoiadas pelos cristãos, especialmente quando estão em jogo exigências fundamentais da revelação cristã. Merecem menção especial as iniciativas de mediação em situações de conflito bélico ou de apoio imediato por ocasião de catástrofes naturais.

Os movimentos migratórios têm criado novos cenários nos quais a dimensão especificamente missionária se manifesta com nitidez. A acolhida é fundamental, sobretudo se se trata de cristãos. João Crisóstomo disse que nenhum cristão pode se sentir estrangeiro em nenhuma eucaristia no mundo. Isto tem uma tradução simultânea em nosso contexto: o imigrante deve ser ajudado, não só  enviando-o à Caritas, mas ele dever ser, antes de tudo, acolhido no lar eucarístico, pois aí é sua verdadeira casa; e como expressão dessa comunhão radical, ele deve encontrar apoio econômico e social por parte da comunidade cristã. Desse modo, a raiz mesma da vida cristã se apresenta como testemunho missionário de alcance internacional, pois mostra um exemplo prototípico de superação de barreiras raciais, políticas ou econômicas. Esta mesma postura deve ampliar-se aos estudantes ou profissionais estáveis e legais de outros continentes, pois sua acolhida e atenção pastoral podem se constituir em um exemplo de comunhão entre Igrejas.

A multiplicação de imigrantes de outras religiões tem de ser vista com espírito missionário. Também aqui a cooperação missionária se traduz em ação missionária própria e específica. A ajuda social e caritativa tem de ser vivida em consonância com a atitude humanista que brota da fé. Além disso, em tais circunstâncias pode-se colaborar com compatriotas dos imigrantes que são cristãos e que se sentem chamados a uma colaboração eclesial. Os jovens, de modo especial, encontram um campo privilegiado para a cooperação missionária que pode ser vivida como compromisso missionário. Eles são os que, mais fácil e espontaneamente, se sentem protagonistas do novo tipo de civilização internacional, multicultural, móvel, dinâmica e interconectada graças às novas tecnologias. Estas possibilidades devem ser abertas aos jovens visto que estão em condições de fazer deslanchar uma grande criatividade: os contatos via internet que permitem o intercâmbio com pessoas de crenças muito diversas; as viagens de estudos ou os períodos de formação no estrangeiro; períodos de colaboração em países do Terceiro Mundo ou em iniciativas missionárias; a dedicação de alguns anos da vida profissional como uma forma de ajudar aos mais pobres…

O voluntariado e o vasto mundo das organizações não governamentais constituem uma das características mais marcantes e belas das sociedades modernas. Em grande parte estas iniciativas coincidem com os objetivos da ação missionária da Igreja. Inclusive, por causa disto, muitas organizações eclesiais adotam uma forma associativa parecida. O mundo do voluntariado recebe modelos e estímulos da cooperação missionária. Como podemos ver, se trata de um horizonte em que se produz o encontro entre o dinamismo eclesial e o dinamismo social. Isso é algo muito promissor no âmbito da criatividade da cooperação missionária. Por isso mesmo, precisamos contar com dois critérios fundamentais: a) que a busca da eficácia ou de subvenções não oculte intenções espúrias de controle ou de dependência; b) que a motivação evangélica e cristã não seja ofuscada: a dimensão confessional sem prejudicar a ação social, a estimulará acima de tudo à uma maior generosidade e honestidade.

A ANIMAÇÃO MISSIONÁRIA NECESSÁRIA AOS NOVOS MODOS DE COOPERAÇÃO MISSIONÁRIA

Este leque de possibilidades não é mais que um feixe de amostras que pode ser ampliado, matizado, aprofundado ou readaptado por quem respira e protagoniza a civilização globalizada e planetária. É precisamente disto que tratamos aqui: que aqueles que vivem de forma apaixonada a solidariedade com o destino do mundo, o façam com espírito missionário e que, para isto, dêem asas à sua imaginação e criem itinerários novos para o testemunho e para o anúncio. À semelhança do que víamos através dos exemplos do século XIX, as iniciativas devem se multiplicar cada vez mais para que se decantem, entre elas, as mais convenientes. O que nos interessava nestas páginas era recordar o que já se vem de longa data: a cooperação deve responder aos desafios em constante mudança da missão. A missão deve ser vivida, pensada e confrontada com as realidades do século XXI. Para isto deve ser superada a visão unilateral de igrejas que dão e de igrejas que recebem. Se a evangelização quer chegar a ser global e a ser realizada pelas Igrejas em comunhão, torna-se evidente também que a cooperação missionária adquire maior relevância e comprometimento. Requer-se assim um esforço amplo e urgente de animação missionária. Muitos de seus responsáveis e agentes vão compartilhando e assumindo as novas perspectivas. Vêem-se diante da dificuldade de fazer com que o novo horizonte penetre em amplos setores das comunidades eclesiais. Portanto, hão de revigorar o próprio empenho conscientes do que está em jogo para não cair nas malhas do rotineiro e repetitivo. Como pudemos ver e compreender, as formas tradicionais de cooperação missionária conservam toda sua importância, pois não podemos renunciar a elas. Contudo, devem ser integradas no horizonte das novas necessidades. O campo da animação missionária deve passar, desta forma, ao primeiro plano das atividades pastorais. Nos círculos mais sensibilizados com o compromisso missionário, existe uma clara disponibilidade para construir as novas possibilidades da cooperação missionária. Deve-se continuar o árduo trabalho que possibilita a todos enxergar que a pastoral em geral, da Igreja, (sobretudo entre os jovens) sairá fortalecida, rejuvenescida e mais dinâmica, se todos os batizados se virem como corresponsáveis na evangelização do mundo inteiro, a partir das plataformas em que as novas gerações nascem, se educam e trabalham.

VIVER A LIBERDADE EM COMUNHÃO

A missão universal, quando contemplada na perspectiva dos novos contextos, nos permite falar de criatividade como realização de projetos que nascem diante dos novos desafios e diante dos caminhos a explorar. Por isto, é lógico – e desejável – que se multipliquem as iniciativas e projetos que as pessoas ou grupos vão gerando livremente. A experiência atual já oferece amostras, algumas incipientes e outras planificadas, nesta direção. Porém, o sentido de Igreja exige que a liberdade não aja como capricho, de forma anárquica ou como entretenimento inconsistente.  O que está em jogo é extremamente importante para que se brinque com isto de maneira inconsciente. Todas as iniciativas particulares devem ser vivenciadas em comunhão e integradas no tecido real da Igreja e das igrejas. Do contrário, poderiam ser produzidos muitos desajustes e até injustiças (poderiam ficar desassistidas dimensões ou lugares que também são necessários ou que se encontram em necessidade).

Na Igreja estão se constituindo organismos de coordenação que pretendem tanto expressar a comunhão quanto obter uma melhor planificação. Neste sentido, não podemos esquecer que Propaganda Fide foi criada para defender a iniciativa e a liberdade da Igreja frente aos interesses das potências colonizadoras. No século XX serão estabelecidas as Obras Missionárias Pontifícias como reconhecimento das iniciativas particulares e com o intuito de dar-lhes um valor e alcance universais. Também no âmbito nacional e diocesano existem conselhos e comissões que aspiram a objetivos semelhantes (Conselho Nacional de Missões e Conselho Diocesano de Missões). Por parte da Sagrada Congregação para a Propagação da Fé são emanadas normas para tornarem viáveis tais organismos a partir de alguns pressupostos teológicos adequados (“Cooperado Missionalis”). Não faz parte de nosso objetivo analisar seus estatutos ou seu funcionamento.

Finalizamos nossa exposição assinalando dois critérios fundamentais. Por um lado, os membros destes organismos devem estar em sintonia com as novas necessidades e iniciativas, modulando o sentido da cooperação missionária e orientando nesta mesma direção a animação missionária. Por outro lado, os responsáveis das distintas iniciativas devem valorizar sinceramente a comunhão eclesial, e, consequentemente, devem estar dispostos a se integrarem em uma visão de conjunto com vistas ao equilíbrio e à harmonia da cooperação missionária.

1 O autor Eloy Bueno de la Fuente é presbítero diocesano, professor de Teologia (Burgos) e Diretor do Instituto de Missiologia e Animação Missionária. O artigo foi escrito na Revista Missiones extranjera, n. 222, Enero-Febrero 2008, pp. 5-20.

2 DOMUND é um acrônimo criado em 1943 pelas Obras Missionárias Pontifícias cujo significado é: Domingo Mundial da Propagação da Fé. Nota da tradução.