CONGREGAZIONE DELLA MISSIONE

CURIA GENERALIZIA

Roma, 13 de dezembro de 2007

A todos os membros da Congregação da Missão

Reflexão sobre minha viagem à China (31 de outubro a 15 de novembro de 2007)

Em minhas viagens por todo o mundo, uma das perguntas que mais freqüentemente me fazem se refere à situação da Igreja na China e à situação em que lá se encontram nossos Coirmãos e as Filhas da Caridade. Alegro-me muito por ter podido visitá-los pessoalmente e agora, em minhas visitas à Família Vicentina, alegro-me por poder falar da situação deles e delas, a partir desta experiência de primeira mão. É claro que não poderei contar aqui tudo o que vivi, por causa da delicada situação da Igreja na China. Há grandes sinais de progresso e de abertura e também esperanças de mais oportunidades no futuro para ajudar a Igreja na China.

Visitei a Província da China, de 31 de outubro a 15 de novembro, passando parte desse tempo em Taiwan e o resto no continente. Pude visitar os Coirmãos e diversas de suas obras e também as Filhas da Caridade e outros membros da Família Vicentina. Tive a sorte de ser o celebrante principal na Eucaristia em que um nosso Coirmão chinês emitiu os santos votos e se incorporou à Congregação da Missão. Na China continental também visitei os Coirmãos e as Filhas da Caridades, jovens e idosos.

A Província da China é provavelmente a mais internacional da Congregação da Missão. Entre seus membros há Coirmãos taiwaneses e chineses, mas também coreanos, filipinos, indianos, indonésios, estadunidenses, vietnamitas, poloneses e alemães. Atualmente, há dois seminaristas, um da Califórnia e outro da Coréia. Estão em processo de discernimento e estudando a língua.

Temos quatro Coirmãos missionários na China continental. Um é o Pe. Thomas Sendlein que exerce um  ministério muito ativo e meritório entre as pessoas de fala inglesa em Beijing, ajudando-as a tomar consciência da realidade dos Pobres na China e do dever de ajudá-los. Outro é o Pe. Pawel que ajuda os de fala inglesa e é também muito ativo noutros trabalhos. O terceiro é o Pe. Joseph Loftus,  que trabalha com um grupo de caridade em ShiJia Zhuang e passa parte de seu tempo em Beijing. Parte deste trabajo inclui a formação do clero. O quarto é o Pe. Henk, que ensina francês na Universidade de Wuhan, na província de HuBei.

Como sabemos pela carta do Papa Bento XVI à China, o que a Igreja quer é promover a realidade de uma Igreja Universal. A situação na China é muito complicada. Ainda há duas partes, embora se animem os membros da Igreja clandestina a saírem à luz e a fazerem parte da Igreja oficial. Será necessário dar passos para que isto chegue a ser uma realidade, porque, numa situação delicada e tão prolongada como esta, há obviamente necessidade de compreensão e de cura.

Talvez uma das maiores necessidades da Igreja seja melhorar a formação do Clero. Visitei, com o Visitador, Pe. John Wang, e com o Pe. Tom Sendlein, o Bispo de Beijing e seu quadro de formadores. Perguntei-lhe expressamente como poderíamos, nós, missionários vicentinos, ajudar a Igreja em Beijing. Disse-lhe como a China é importante para a Congregação da Missão, levando em conta nossa longa tradição de presença nesse país e a quantidade de Coirmãos que têm no coração o desejo de ajudar a Igreja em sua tarefa evangelizadora.

Entre outras coisas, o Bispo nos convidou a dar cursos intensivos de uma a quatro semanas, sobre distintos temas, no programa de formação do seminário. Também pediu que a continuação da formação para os formadores se pudesse realizar mediante bolsas de estudos nas Províncias que pudessem oferecer tal serviço.

Até hoje, só os sacerdotes diocesanos servem os chineses através do ministério sacerdotal direto. De algum modo estamos continuando nosso programa de formação para a Congregação da Missão.

Pude encontrar-me com uns tantos Coirmãos chineses jovens e com um considerável número de Coirmãos idosos. Os Coirmãos de mais idade vivem, na maioria dos casos, em casas de seus familiares, com orespaldo econômico da Província da China. Quero falar-lhes particularmente de quatro visitas a Coirmãos idosos.

Visitei o único Irmão da Província da China. Tem 87 anos e vive numa enfermaria dirigida pela Diocese de Bejiing. O quarto é suficiente para duas camas, uma mesa, um armário para a roupa, uma pequena geladeira e um banheiro, que também parecia que pode ser usado como cozinha. O Irmão é atendido por um leigo que já está a serviço dele uns bons anos. Conhece a vida do Irmão muito bem e conta seus casos livremente. O Irmãos já esqueceu tudo e não consegue lembrar-se das coisas, nem mesmo de quando era moço.

Outro Coirmão que visitei havia passado 23 anos na cadeia, tendo sido preso quando era estudante de filosofia. Logo que foi posto em liberdade, foi ordenado imediatamente, pela escassez de sacerdotes, já que tinha recebido sua formação teológica dos jesuítas que estavam na prisão com ele. O comportamento desse Padre me impressionou tremendamente. É um autêntico cavalheiro, não apresentando nenhum sinal de amargura nem de angústia. Com absoluta simplicidade, continua sua vida como membro da Congregação de maneira tranqüila.

Também estive com um Coirmão de 90 anos, que tinha sido pároco por 64 anos. Hoje vive na mesma paróquia, com um jovem padre diocesano que agora é o pároco. Passei um tempo muito gostoso com ele e com a equipe de coordenação da paróquia, enquanto almoçava com eles. Depois nos levou à igreja, que tinha sido reconstruída diversas vezes, por vários motivos.

A última visita foi a um Coirmão de 92 anos. Ao sair da prisão, voltou à sua aldeia natal e começou a celebrar a Eucaristia na casa de sua família. Assim o fez por muitíssimos anos, sem maiores dificuldades por parte do governo. Chegamos ao povoado, no meio de roças, bem longe da cidade. Na frente da casa havia uns bancos preparados e o altar ficava na parte de trás, num pátio descoberto. Tivemos alguma dificuldade, porque, embora o Coirmão estivesse em casa, estava fechado à chave. Seu sobrinho, que o atende, trabalha durante o dia e por isso o deixa fechado em casa, para a própria segurança dele. O Coirmão já não pode andar. Olhando pela janela, pudemos vê-lo deitado e rezando o terço na cama. Eu insisti que tínhamos que entrar. Por isso, um Coirmão chinês moço pegou uma chave de fenda e tirou o gancho do qual pendia a corrente. Abrimos a porta e entramos. Quando o Visitador disse ao Coirmão quem que eu era, ele exclamou: “Quem sou eu para ter o Superior Geral na minha presença?” E o repetiu várias vezes. Eu pensava comigo: Quem sou eu para estar na presença deste homem que deu tantos anos de sua vida no sacerdócio, em situações tão difíceis? Foi certamente uma honra estar na presença dele, como também tinha sido estar com aquele Coirmão de 90 anos que trabalhara 64 anos naquela paróquia. Pedi aos dois a sua bênção e lhes falei do grande dom que são para a Congregação da Missão e para toda a Família Vicentina a perseverança deles e seu empenho em seguir Jesus Cristo na evangelização e no serviço dos Pobres.

Também visitei as Filhas da Caridade. Três delas já estão muito idosas e são atendidas numa enfermaria por outras Irmãs, uma Irmã Seminarista e umas tantas postulantes e aspirantes. Sua animação e seu prazer em servir os Pobres são surpreendentes, embora não possam fazê-lo abertamente como Filhas da Caridade. Estão numa paróquia cujo pároco é membro da Igreja oficial. É um vicentino, embora muitos não o saibam. Um das Irmãs idosas me deu terços para mim e os Coirmãos da direção da Congregação, na Cúria. Guardarei carinhosamente este presente por toda a vida.

Depois das Irmãs, visitei outro grupo de mulheres que vivem as Regras das Filhas da Caridade. Foram fundadas por um Bispo vicentino que até à morte pertenceu à Igreja oficial da China. Vestem o hábito completo das Filhas da Caridade, inclusive o distintivo SV. O sacerdote administrador da diocese, que tem muito trato com as Irmãs, espera que um dia possam ter um maior reconhecimento internacional para poderem manter o carisma vicentino que trazem enraizado no coração. As Irmãs recebem apoio, de muitas maneiras, da Província Chinesa das Filhas da Caridade, pelo qual estão muito agradecidas.

Ao terminar este relatório, quero falar-lhes da oportunidade que tive de celebrar uma Eucaristia, numa cerimônia privada, em que um dos Coirmãos sacerdotes pronunciava os Propósitos. Há um certo número de Padres diocesanos que manifestaram interesse em unir-se à nossa Congregação. Mostramo-nos abertos em relação a eles, ao mesmo tempo em que encarecemos com eles que sejam fiéis à orientação dada pelo Papa Bento XVI.

Peço as orações de vocês por esses homens e essas mulheres que formam parte da única, santa, católica e apostólica Igreja, para que cresçam em seus esforços de fidelidade a Jesus Cristo, seguindo a inspiração de nossos Fundadores e os exemplos de nossos Missionários e das Filhas da Caridade mártires na China. Nossa história na China foi longa, com mais de 1.000 membros na Congregação da Missão, dos quais pelo menos 400 foram de origem chinesa. As Filhas da Caridade foram igualmente numerosas, chinesas e estrangeiras. Embora isso se haja interrompido, algumas vezes pela situação política, ainda continua sendo desejada a presença vicentina na Igreja. Espero e peço que muitos da Congregação e de toda a Família Vicentina cresçam no desejo de tomar parte neste novo e excitante trabalho de evangelização, de um modo mais pleno, quando a Divina Providência nos permita fazê-lo.

Seu irmão em São Vicente,

Gregory Gay, C. M.,

Superior Geral