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Circular da Quaresma – 2009 (Português)

1 de maio de 2014
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CONGREGAZIONE DELLA MISSIONE

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Roma, 25 de fevereiro de 2009

Quarta-feira de Cinzas

Caríssimos Coirmãos,

A graça e a paz de Nosso Senhor Jesus Cristo encham seus corações agora e sempre!
Vem ficar em minha pousada.

Abre meu coração.

O Senhor vem,

nessa pessoa sozinha,

em quem foi esquecido,

nesse preso sem esperança,

nessa criança não desejada,

nesse desprezado,

nessa pessoa que sofre de AIDS,

nesse pária que ninguém ama.

Senhor, vem vê-lo.

Bem vindo sejas, Senhor; entra,

teu quarto está arrumado.

Ir. Catherine Madigan, F. C.

Desde que escrevi minha carta do Advento e prometi que ia continuar tratando, em minha carta da Quaresma, de alguns pontos que havia mencionado, tenho recebido numerosas reflexões sobre o tema das pessoas para as quais não existe lugar. Muitas destas reflexões têm enumerado diferentes exemplos, como os desempregados, os emigrantes, aqueles e aquelas cuja cultura, língua e cor da pele são diferentes. Vivemos em um mundo cheio de preconceitos. Cada um de nós, talvez, todos, temos nossos próprios preconceitos que devemos analisar e existem os que temos de enfrentar para nos curarmos deles.

De um modo ou de outro, todos temos excluído pessoas, talvez até as com quem vivemos em nossas comunidades e associações. Pode ser que ao olhar para os outros os achemos estranhos só porque pensam de forma diferente. Às vezes são descuidados, bebem em demasia, fazem muito barulho ou são calados demais. Temos muitas desculpas para ignorar os outros.

Nesta recente crise econômica que afeta todo o mundo, um egoísmo exacerbado que, do ponto de vista da moral, está na origem da mesma crise, pode suscitar, inclusive entre pessoas de boa vontade, posturas que levam a resguardar aquilo que me pertence e a privar os outros da minha ou da nossa generosidade. Agimos assim como pessoas, como família, associação ou comunidade. O resultado é que são os mais pobres entre os Pobres que sofrem mais. Sofrem um abandono maior quando os demais se afastam e se fecham mais neles mesmos.

Às vezes chegamos a dizer que não existe bastante para todo o mundo. E respondemos dizendo “sinto muito” ou “sentimos muito”. E digo a mesma coisa ante numerosos e legítimos pedidos de ajuda para aqueles e aquelas que vivem na pobreza.

Durante este tempo da Quaresma, perguntemo-nos se reagimos rápido demais para proteger-nos e proteger nossos próprios interesses. Necessitamos refletir ainda mais, sobretudo neste tempo de arrependimento, sobre o que nos ajuda a tomar consciência de nossas necessidades e de nossa pobreza. Em outras palavras, necessitamos refletir sobre nosso desejo de sacrifício, ou sobre o que conhecemos em nossa tradição vicentina como virtude da mortificação. A etimologia desta palavra significa morrer para si mesmo, sacrificar-se, colocar o outro em primeiro lugar. Exige levar em consideração as necessidades e as preocupações dos outros. O contrário da mortificação é o egoísmo, a preocupação pelo próprio bem-estar, a busca dos próprios interesses. Estas atitudes dominam o mundo em que vivemos hoje.

Praticar a arte da mortificação é uma ocasião, como se costuma dizer, para apertarmos o cinto, viver com mais simplicidade, de modo que aqueles que habitualmente têm um nível de vida mais baixo sintam menos os efeitos da crise do que de costume. Somos convidados a inverter o cenário afim de sermos nós que sintamos o sofrimento e não eles. São Vicente praticava constantemente isso quando chamava os Pobres de nossos Mestres e Senhores. Não falava de uma relação de igualdade, mas ia ao outro extremo a fim de criar uma relação mais equilibrada.

Às vezes somos lentos para compreender o que São Vicente quer nos ensinar ao colocar os Pobres à nossa frente. Em vez de nos fecharmos em nós mesmos nestes tempos de crise, de nos encerrarmos em nossas próprias atitudes egoístas, vivamos de tal modo que este tempo da Quaresma seja um tempo de solidariedade.

Como vemos nos evangelhos da Quaresma, Jesus pouco a pouco é rejeitado e finalmente abandonado, tal e como o foram ele e seus pais no dia em que nasceu. Viveu um total abandono no alto da cruz. Somente alguns permaneceram fiéis: “Junto à cruz de Jesus estavam sua mãe e a irmã de sua mãe, Maria, esposa de Cleófas e Maria Madalena” (Jo 19, 25) e João. Cada um deles, Maria, Maria Madalena e João, tinha em comum um amor incondicional a Jesus. Maria, como só uma mãe pode amar; Maria Madalena, uma pecadora arrependida que havia sido tocada profundamente e a quem um amor verdadeiro tinha recuperado, pois o amor incondicional de Jesus transformou sua vida; e João, o amor de um amigo verdadeiro e de um discípulo fiel.

De um jeito ou de outro Jesus, em sua experiência de abandono: “Por que me abandonaste?” (Mt 27, 46), como o expressa seu grito na cruz, experimentou mais tarde a presença íntima de seu Pai que o encheu de uma vida nova na  ressurreição e por meio dela. Está repleto do poder curativo de seu Pai, recebe a vida nova para que outros tenham a vida. Jesus concede a seus discípulos a mesma capacidade de dar uma vida nova.

Amiúde pensamos na cura como uma coisa extraordinária. Às vezes esperamos milagres para sermos renovados. Certamente existem formas extraordinárias pelas quais Deus entra na história humana e permite que o impossível se realize, com uma vida nova e uma nova maneira de viver. E, entretanto, volta e meia, quando esperamos que algo extraordinário aconteça, deixamos escapar as oportunidades de mudança.

O poder curativo de Deus pode não ser extraordinário. É o amor de Deus que cura. No evangelho de Marcos, o leproso disse, “Se queres, podes curar-me”. E Jesus, cheio de compaixão, entendeu sua mão, tocou nele e lhe disse: “Eu quero. Fica limpo!”. No mesmo instante o leproso foi curado (Mc 1, 40-42). Estes gestos humanos muito simples e estas ações que provêm do coração de Jesus transformam a vida do leproso.

Foi o poder do amor de Deus na vida de Jesus que o curou. A compaixão de Jesus por ele não é extraordinária, mas ordinária. O amor de Deus nos une a Jesus ao restaurar nossa humanidade, nos faz capazes de sermos doadores de vida nova.

As Nações Unidas declararam este ano de 2009 como o ano da Reconciliação, considerando particularmente a reconciliação nos países do mundo que estão destruídos pela guerra e divididos por causa de numerosas formas de violência, conflitos e pobreza. A reconciliação é tanto civil como espiritual. Uma das conseqüências dessa reconciliação ativa, que nos reúne e nos levanta de novo, é a eliminação de toda idéia de que possamos abandonar ou marginalizar ou outros. Todos nós fazemos parte de um conjunto e somos convidados a viver em harmonia uns com os outros. A harmonia ou a renovação de nosso ser é conseqüência da graça do Sacramento da Reconciliação, assim como a conseqüência do diálogo entre as nações que se esforçam para obter a paz com um espírito de boa vontade.

Trabalhar pela harmonia e pela reconciliação não é um ato isolado. Isso exige um esforço de colaboração por parte de todos os povos. Atrevo-me a esperar que todos os membros da Família Vicentina vão trabalhar para ser construtores da reconciliação, da paz e da justiça no mundo onde vivemos.

Como destacou a Irmã Marie Poole em “Collaboration of St. Vincent and St. Louise”, 2008[1], podemos aprender muito de nossos fundadores, Vicente e Luísa, destinados a comunicar e a trabalhar juntos em uma extraordinária harmonia. Vicente e Luísa desenvolveram um espírito de igualdade que abarca a complementaridade e a comunhão, uma mutualidade que vai além da simples colaboração. O fogo que se incendiou na relação que criaram entre eles, seu amor e seu serviço aos que vivem na pobreza continuam vivos ainda hoje na Família Vicentina internacional. Como família, somos animados a viver de sua sabedoria, a tomar como modelo sua capacidade de construir pontes entre as classes sociais e a incluir, tanto na tomada de decisão como no exercício da responsabilidade, as pessoas com as quais e pelas quais trabalhamos.  Isso resume o que esperamos cumprir ao aprofundar nosso próprio conhecimento da mudança de estruturas, uma maneira contemporânea de viver hoje nossa espiritualidade vicentina, caminhando cheios de esperança ao lado daqueles e daquelas que vivem na pobreza.

Como família, somos chamados, como o foram Vicente e Luísa, a reconhecer e aceitar nossos talentos, assim como nossas limitações e nossa capacidade de trabalhar de maneira independente e ao mesmo tempo conjunta. Assim como nunca houve nenhuma competição entre Vicente e Luísa, queira Deus que não haja nunca nenhuma competição entre os ramos da Família Vicentina. Apesar de nossas diferenças, – Vicente e Luísa também tiveram as suas, – deixemo-nos consumir pelo amor de Deus e por nosso amor para com os mais desfavorecidos. Eles são nossa prioridade. Deus é o autor de tudo o que fazemos, do que fazemos juntos, do que fazemos em solidariedade com os Pobres. Vicente e Luísa puderam contar um com o outro em todas as circunstâncias, especialmente nos momentos difíceis. Imitemo-los, sobretudo nestes tempos de instabilidade social, política, econômica e religiosa que vivemos.

Posto que caminhamos juntos durante este tempo da Quaresma, façamo-lo à luz de nossos Fundadores que são verdadeiros faróis, modelo de autêntica colaboração, de uma verdadeira cooperação no serviço, um modelo para todos nós em cada um de nossos caminhos.

Caros Coirmãos, a Quaresma é um tempo de abandono, de mortificação, de reconciliação, um tempo de colaboração e de solidariedade. A Quaresma é um tempo de harmonia e de paz. É um tempo para a vida nova. É um tempo para passar da morte para a vida, que nos faz sair de nós mesmos para ir em direção aos outros e em direção ao Outro.

Que o exemplo e a intercessão de Maria, a Mãe de Jesus, Maria Madalena e João, nos permitam permanecer firmes e fiéis ao pé da cruz, unidos em nosso amor incondicional àquele que nos amou primeiro. Que o amor de Cristo Crucificado seja o que nos impulsione.

Seu irmão em São Vicente,

G. Gregory Gay, C. M.,

Superior Geral

1  Colaboração entre São Vicente e Santa Luísa, 2008.