CONGREGAZIONE DELLA MISSIONE

CURIA GENERALIZIA

Via dei Capasso, 30

00164 Roma – Italia

e-mail: cmcuria@cmglobal.org

A todos os membros da Família Vicentina

Queridas Irmãs e Irmãos,

Que a graça e a paz de Nosso Senhor Jesus Cristo permaneçam em seus corações agora e sempre!

Na época em que, eu era diretor do Seminário Interno no Panamá e, ao mesmo tempo, pároco da paróquia onde se encontrava o Seminário interno, um coirmão e eu, tínhamos feito uma programação especial durante o Advento com a intenção de purificar o sentido do Natal. Tratava-se de uma campanha contra o personagem do Papai Noel, em favor do El Niño Dios, o Menino Deus. Conduzimos esta campanha durante todo o tempo do Advento e, então, tínhamos pensado numa ação simbólica para purificar o sentido do Natal durante o rito penitencial da vigília de Natal.

Esta ação pastoral de meu coirmão e minha, foi provocada pela constatação de uma mudança sutil, que se efetuava a nível de nosso meio de engajamento pastoral. Logo no começo, quando eu cheguei ao Panamá, a experiência de Natal se focalizava sempre sobre o nascimento do Menino Jesus, El Niño Dios. A encarnação de Deus em nossa humanidade tinha um aspecto religioso claro. Pouco a pouco, no decorrer dos anos, e com a ajuda de poderosas técnicas de comercialização, (marketing), o conceito de Natal começou a ser substituído, lentamente, por representações comerciais de Natal com o Papai Noel, em todas as lojas e, era até mesmo, oferecido como presente às pessoas a fim de colocá-lo como decoração de Natal em seus lares, na entrada de suas casas. Era triste ver como, de uma maneira tão sutil e astuciosa, o verdadeiro sentido de Natal estava sendo substituído por um estímulo premente às pessoas para fazê-las entrar numa sociedade de consumo.

Gostaria de chamar a atenção sobre esta festa de Natal, mais particularmente durante este Advento, como um tempo de voltar ao seu verdadeiro sentido do Natal e purificar as nossas atitudes em relação à nossa identidade durante este forte tempo litúrgico de nossa fé cristã. Trata-se do nascimento de Deus em nossa vida, através da pessoa do Menino Deus, Jesus, um aspecto tão importante na espiritualidade de São Vicente de Paulo, Deus que se fez carne, que se uniu à nossa humanidade a fim de que nos tornemos como Deus em nossas relações uns com os outros, mais particularmente, com os pobres.

Durante este tempo do Advento, gostaria que nós pensássemos e reflectíssemos sobre um aspecto particular e muito importante da festa do Natal, a fim de compreender o nascimento de Nosso Senhor Jesus como a vinda da paz e da harmonia ao mundo. Ele é o Príncipe da Paz, como nós o contemplamos nas Sagradas Escrituras, ao longo deste tempo do Advento e do Natal. É a situação atual do mundo no qual vivemos que me levou a aprofundar e desejar que nós refletíssemos sobre o tema da paz.

Observamos à nossa volta, em cada canto do globo, situações destrutivas, de guerras entre nações, violência entre povos, violência das gangues nos bairros, e até mesmo nos lares, violência doméstica. Neste clima de violência do mundo no qual vivemos, existe uma busca, um combate, uma angústia em viver em maior segurança. Acontece que sempre, tenta-se conseguir a “segurança”, produzindo mais armas e um maior poder de destruição sobre o inimigo. Desta maneira, a segurança organizada fará apenas gerar mais angústia. Isto não é segurança.

Muitas pessoas afirmam, que depois da experiência de 11 de setembro nos Estados Unidos, nós vivemos num mundo que procura sua própria segurança a tal ponto que nos tornamos inconscientes ou até mesmo indiferentes à garantia de uma paz verdadeira para aqueles que estão fora de nosso círculo. Queremos proteger os nossos, fechando-nos em nós mesmos. Queremos aproximar-nos do que é conhecido e, até mesmo, do que nós consideramos como nossa morada, dando-nos uma ilusão de segurança.

A atitude de consumo que se desliza em todos os níveis de nossa aldeia global é acentuada durante o tempo do Natal. Enfrentamos o desafio de nos voltarmos ao Príncipe da Paz que, pelo anúncio do Reino de seu Pai, nos convida a ter atitudes que conduzem à verdadeira harmonia e às boas relações entre todos os povos.

Gostaria de propor um ponto concreto para a nossa reflexão que se refere à promoção da paz e da harmonia no mundo, que se manifesta, primeiramente, através de uma verdadeira preocupação pelas necessidades dos outros.

Na perspectiva da celebração do 350º aniversário da morte de Santa Luísa e de São Vicente em 2010, os responsáveis internacionais pela Família Vicentina criaram um Comitê de projetos, com o objetivo de promover uma iniciativa específica, em favor dos mais pobres entre os pobres, iniciativa que implicaria todos os ramos da Família. Entre as opções sugeridas, os responsáveis escolheram um projeto piloto no campo do microcrédito em Haiti. Um projeto de microcrédito, combinado com programas educativos e serviços sociais, comprovou ser um instrumento eficaz, para melhorar as condições de vida de numerosas pessoas que vivem na pobreza. Prevê-se que este projeto piloto possa servir de modelo aplicável para outros lugares.

Encorajo cada um de nós durante este período de Natal, particularmente, quando pensarmos em dar algo de nós mesmos aos outros como presente, a fazê-lo de modo a romper com as atitudes de consumidor, que com frequência, estão profundamente enraizadas em nossas vidas, das quais talvez, não estejamos conscientes, que podem conduzir seguidamente a tipos de comportamento diferenciado entre aqueles que possuem e aqueles que não possuem, e que causam divisões ao invés de promover a harmonia entre os povos. São atitudes negativas impulsionadas ao extremo que geram a violência e a destruição, que nós constatamos em nosso mundo de hoje. A maior parte do tempo, a violência é provocada pelo próprio fato de que as pessoas não conseguem satisfazer suas necessidades básicas. Elas caem na armadilha da violência a fim de garantir-se uma vida melhor.

Durante este tempo do Advento, como Família Vicentina, pensemos numa mudança de atitude a fim de passar da submissão à uma sociedade de consumo ao dom de nós mesmos ou à um tipo de dom diferente feito àqueles que estão em necessidade, como maneira concreta de favorecer a harmonia e a paz.

Proponho-lhes um segundo ponto para a nossa reflexão que se refere à promoção da paz. Durante estes dias que precedem o tempo do Advento, o Conselho Internacional de Pax Christi pediu-nos para visitar nossa Cúria em Roma. Cordialmente, criamos o espaço de diálogo e o momento oportuno para acolhê-lo. Nesta reunião, estavam presentes um de meus Assistentes, uma Filha da Caridade que trabalha na Cúria e um Coirmão que está muito engajado no campo das atividades de Justiça e Paz nas quais queremos tomar parte e promover como Família Vicentina Internacional. Penso que nos seria bom, examinar e refletir sobre a possibilidade de estar em contato com um movimento internacional como Pax Christi.

Pax Christi nasceu no final da Segunda Guerra Mundial, quando um grupo de franceses e alemãs se reuniram para rezar juntos, buscar a reconciliação e trabalhar em vista de um novo começo na paz, depois de anos de conflitos dolorosos. Este mesmo espírito continua inspirando o movimento internacional Pax Christi hoje, reunindo pessoas comuns vindas de diferentes classes e culturas, que refletem e agem, a partir de uma visão sagrada da paz, reconciliação e justiça para todos. Num mundo marcado pela violência, o terrorismo, as desigualdades crescentes e uma insegurança em escala mundial, esta visão é mais do que nunca necessária.

Permitam-me partilhar com vocês, um pouco mais sobre Pax Christi em vista de sua reflexão pessoal. Pax Christi é um agrupamento católico, de âmbito mundial pela paz. Alguns organismos, membros da rede Pax Christi, se desenvolveram a partir de origens diversas e sob um nome diferente. Mas, todos partilham a convicção de que a paz é possível e que os ciclos viciosos da violência e da injustiça podem ser quebrados. Como grupo baseado na fé, Pax Christi Internacional procura ter uma influência de transformação, fazendo da religião, uma força sem equívocos pela paz e a justiça. Pax Christi é católico por sua origem e tradição, e está muito engajado na colaboração com outras tradições religiosas e com todos aqueles que partilham seus objetivos.

Trabalhar pela paz implica trabalhar contra a violência e Pax Christi Internacional, busca as causas que geram a violência. Concede a prioridade aos meios não violentos, a fim de resolver os conflitos e isto inclui, reforçar as bases de uma sociedade pacífica: direitos humanos, democracia e o estado de direito. Favorece a educação à paz, o trabalho com a juventude, a formação na área da promoção da paz, a mediação e a ação não violenta. Trabalha para criar uma cultura de paz e ajuda as pessoas em sua caminhada para a reconciliação e aos dias vindouros de esperança.

O que podemos fazer? Sugiro, meus Irmãos e Irmãs, que como Família Vicentina, encontremos em nossa vida diária e em nosso serviço dos pobres, os meios para aprofundar o nosso compromisso pela justiça e a paz. Sei que já o fazemos, mas a celebração do Natal nos oferece a ocasião especial de renovar a nossa resposta. Este deveria ser o primeiro compromisso de toda pessoa que vive o carisma de São Vicente de Paulo, ele que tanto buscou a harmonia e a paz, particularmente para os pobres, frequentemente vítimas da violência, da destruição e da guerra. Podemos apoiar o trabalho de Pax Christi por nossa própria ação e oração, nossas publicações, como estou fazendo nesta carta do tempo do Advento. Esta organização acolhe voluntariamente, ajuda financeira, para na medida de suas possibilidades, erradicar a violência e estimular uma cultura de paz tão necessária em nosso mundo atual.

Meus Irmãos e minhas Irmãs, já que começamos este tempo do Advento, refletindo sobre o verdadeiro sentido do Natal, aí entremos, sendo promotores da paz, especialmente numa sociedade conduzida à violência, sociedade que é sempre desafiada por um mundo egoísta, materialista, submissa ao consumismo, que gera mais a divisão do que a harmonia. Reflitamos sobre o verdadeiro significado do Natal, o nascimento de Nosso Senhor Jesus e deixemos de lado as outras imagens que nosso mundo criou e que têm como objetivo satisfazer nossas próprias necessidades pessoais e materialistas e nos desviam da preocupação de dar aos outros.

Como Família Vicentina, colocamos em contato pessoas de classes e culturas diferentes e agimos a partir de nossa visão comum de paz, de reconciliação e de justiça para todos. Algo que está no centro de nossa espiritualidade.

Como São Vicente de Paulo disse: “Peçam à sua divina bondade que dê à Companhia o espírito de união, pois fomos estabelecidos para reconciliar as almas com Deus, e os homens com os homens” (Coste XI, p. 6).

Seu irmão em São Vicente,

G. Gregory Gay, C.M.

Superior geral