Free songs

Padre Geraldo Barbosa: fé, gratidão e saudade

30 de abril de 2014
VOLTAR

Estávamos reunidos na Fazenda do Engenho (Serra do Caraça), em pleno encontro provincial de formação permanente. Nas primeiras horas do dia 3 de abril, enquanto nos preparávamos para a oração, recebemos a dilacerante notícia do falecimento do Padre Geraldo Ferreira Barbosa, depois de prolongada e penosa enfermidade, no Hospital de Câncer de Barretos (SP), onde se encontrava internado.

Não há quem esteja acostumado com a morte, mesmo quando precedida de intenso sofrimento e crescente debilidade. Trata-se, seguramente, do mais abissal e desconcertante mistério que envolve a existência. Diante da morte, a natureza humana se rebela, a razão se confunde, os sentimentos afloram, as palavras se recolhem e dão lugar ao silêncio. Tudo se torna ainda mais inquietante, quando se trata de pessoa querida e admirada, de transbordante riqueza interior, que deixa após si rastros de comprovadas virtudes e de raras qualidades humanas. Silêncio habitado pela fé. Foi o que muitos de nós, familiares, Coirmãos, Filhas da Caridade e amigos, pudemos experimentar e exprimir, reverentes e consternados, diante da partida do Padre Geraldo Barbosa, fazendo eco às palavras do autor sagrado: “A vida dos justos está nas mãos de Deus, e nenhum tormento os atingirá. Aos olhos dos insensatos parecem ter morrido; sua saída do mundo foi considerada uma desgraça, e sua partida do meio de nós, uma destruição; mas eles estão em paz. Aos olhos dos homens, parecem ter sido castigados, mas sua esperança é cheia de imortalidade; tendo sofrido leves correções, serão cumulados de grandes bens, porque Deus os pôs à prova e os achou dignos de si. Provou-os como se prova o ouro no fogo e aceitou-os como ofertas de holocausto (…). O Senhor reinará sobre eles para sempre. Os que nele confiam compreenderão a verdade, e os que perseveram no amor ficarão junto dele, porque graça e misericórdia são para seus eleitos” (Sb 3,1-6.8b-9).

Enviado pelo Padre Visitador para participar dos funerais do Padre Geraldo em sua terra natal, Campina Verde (MG), juntamente com outros dois Coirmãos, pude deter-me por longas horas diante de seu corpo, contemplando a placidez de seu semblante e deixando passar pela memória do coração o grande legado que Padre Geraldo nos deixou, como homem de Deus, missionário vicentino e sacerdote exemplar. Tantos foram os sentimentos, lembranças e ideias que se sucederam que desisti de resumi-los. Parecia até mesmo impossível traduzir em palavras a originalidade daquele perfil humano talhado nos moldes das virtudes que São Vicente quis imprimir em seus filhos: simplicidade, humildade, mansidão, mortificação e zelo. A hora já estava avançada, quando chegou o pedido para proferir a homilia da última Missa de Exéquias, marcada para a manhã seguinte e primorosamente preparada por nossos seminaristas. Um convite a voltar ao local do velório para contemplar uma vez mais a figura do Padre Geraldo e recolher as inspirações que se irradiam de sua vida agora plenificada pelo Senhor. Três palavras ecoaram do silêncio, desanuviando a densidade do mistério: fé, gratidão e saudade.

1. FÉ, sem a qual a realidade da morte nada mais seria que o trágico fim da existência, desolador absurdo a lançar-nos em pavorosa escuridão. Fé que, solidamente firmada na ressurreição do Senhor, possibilita-nos divisar, ainda que banhados em lágrimas, o luminoso horizonte da vida eternizada pelo amor, a plenitude que o Pai de misericórdia e Deus de toda consolação nos prepara junto de si em seu Reino, “onde não haverá mais noite, nem se precisará mais da luz da lâmpada, nem da luz do sol, porque o Senhor Deus vai brilhar sobre eles e eles reinarão por toda a eternidade” (Ap 22,4-5). Fé que nos leva a crer e esperar que, do outro lado da dor e da saudade, todos aqueles que, como Jesus, passaram pelo mundo fazendo o bem (cf. At 10,38), viverão para sempre com ele (cf. 1Ts 4,17), reconciliados, pacificados e transfigurados, refletindo em seus rostos o esplendor da beleza de Deus, por quem anseia o inquieto coração humano (cf. Sl 63,2). Fé que, hoje, nos permite reconhecer o eterno amor do Senhor triunfando sobre o sofrimento, a fragilidade e a morte de nosso Padre Geraldo, enchendo de sentido seus esforços, vivências e lutas, coroando seus méritos e virtudes, introduzindo-o feliz na “habitação do Céu, feita por Deus mesmo, não por mãos humanas”. Lá, onde também nós esperamos chegar, quando, “desfeita nossa tenda terrena”, pudermos “habitar junto do Senhor” (2Cor 5,1.8).

2. GRATIDÃO ao Deus da vida e do amor que nos deu Padre Geraldo como uma nítida transparência de sua bondade e sabedoria, enriquecendo-o de dons e virtudes que ele soube cultivar e fazer florescer com admirável largueza de coração. Gratidão ao Padre Geraldo por sua integridade humana, manifestada em sua capacidade de fazer-se tudo para todos e estar por inteiro em tudo o que fazia, jamais buscando a si mesmo e a seus próprios interesses. Aliás, difícil encontrar pessoa tão verdadeiramente livre, tão desprovida de ambições e tão despretensiosa quanto Padre Geraldo. Gratidão pela profundidade e fineza de sua percepção do mistério de Deus e do ser humano, tantas e tantas vezes comunicada no sacramento da Reconciliação, na orientação espiritual, no exercício paciente da autoridade, na missão de animar, acompanhar e formar, como diretor das Irmãs, formador dos nossos, animador vocacional, visitador, etc. Gratidão pela humildade e simplicidade que definiam e iluminavam sua personalidade, suas relações e seu agir, sempre veraz, discreto, cordial e suave em todos os seus procedimentos. Gratidão por sua disposição, cotidianamente renovada, de nunca pagar o mal com o mal, mesmo quando incompreendido e desconsiderado, sempre incansável em fazer o bem, leal para com Deus, consigo mesmo e com os outros. Gratidão por sua indescritível serenidade, fortaleza interior e alegria de viver, sobretudo quando provado no crisol da dor que lhe dilacerava o corpo, nestes últimos meses de seu calvário. Àqueles que o acompanhavam mais de perto, impressionava sobremaneira como, nele, à medida que o “homem exterior” se fragilizava e desvanecia, o “homem interior” ia se tornando cada vez mais robusto e vigoroso na fé, na esperança e no amor (cf. 2Cor 4,16). Gratidão, enfim, porque as virtudes que poderíamos enumerar ultrapassariam, certamente, as contas do singelo rosário que lhe puseram nas mãos naquela hora do desenlace final e que agora conservamos como relíquia.

3. SAUDADE, como não senti-la? Como não “sofrer” a “presença da ausência” de uma pessoa tão rica em humanidade, tão laboriosa em sua correspondência aos dons recebidos do alto, tão coerente e feliz em sua opção de vida? Em tempos como o nosso, nesta hora de nossa história, carente de autenticidade, em que nos faltam referenciais verdadeiros, como não sentir falta de alguém tão vigorosamente humano, tão radicalmente evangélico, tão simplesmente doado a Deus e aos outros? Nossa é também a experiência de São Vicente, ao dizer da partida para o Céu de alguns de seus Missionários: “Quanto mais o tempo passa, mais saudade sentimos…” (SV IV, 567). Não se trata de simples nostalgia, desprovida de memória, alento e vigor. Mas de uma saudade revestida de fé e prenhe de gratidão, uma saudade mobilizadora, que nos leva a perguntar o que temos a aprender da vida do Pe. Geraldo, de suas atitudes e valores, de sua conduta e exemplo, de suas lágrimas escondidas e de sua oferta generosa. Ouvimos no evangelho escolhido para a Eucaristia em que dele nos despedimos: “Se o grão de trigo que cai na terra não morre, fica só. Mas, se morre, produz muito fruto” (Lc 12,24). A semente foi lançada, germinou em uma vida feita dom e frutificou para o bem de muitos. Recolhamos, pois, os apelos e inspirações de tudo o que pudemos viver e contemplar ao lado do Padre Geraldo Barbosa, durante seus 68 anos de vida, 42 de vocação vicentina e 38 de ministério presbiteral. Assim, a saudade será para nós lugar de reencontro e impulso de revitalização, porque podemos contá-lo entre aqueles “cristãos que dão a vida por amor” e cujo testemunho deve impelir-nos a “superar o egoísmo para uma dedicação sempre maior”, como indica o Papa Francisco na Evangelii gaudium (n. 76), uma das últimas leituras feitas pelo Padre Geraldo em seu leito e que tanto o encheu de entusiasmo. Ainda no velório, pela madrugada, em momento de maior silêncio e quietude, dei asas à imaginação e pus-me a pensar como teria sido a chegada de Padre Geraldo ao Céu. Pude vê- lo caminhando a passos ligeiros, como era seu costume, com o rosto sorridente de sempre. O Senhor, então, depois de abraçá-lo, perguntou: Que fizeste de tua vida, Geraldo? Ele, com sua habitual humildade, respondeu: Não consegui fazer grande coisa, Senhor, e o que fiz foi por tua graça. E o Senhor lhe disse: Olha para teu coração, Geraldo, e vê a quantos amaste, serviste, ajudaste, aconselhaste, perdoaste. São eles que agora – com fé, gratidão e saudade – estão dizendo o que fizeste de tua vida. Fizeste de tua vida o que aprendeste de mim e ensinaste a muitos, fizeste de tua vida um apelo ao amor! Muito bem, Geraldo, servo bom e fiel, entre depressa e venha participar da alegria do teu Senhor!

Pe. Vinícius Augusto Ribeiro Teixeira,
C.M. Campina Verde, 4 de abril de 2014