Um cálice derramado por ”muitos”: muda a fórmula da Eucaristia

A carta de cinco páginas é dirigida à Conferência dos Bispos da Alemanha, mas diz respeito a todos os bispos, começando pelos italianos, que irão discuti-la na sua assembleia de maio. Bento XVI explica as razões pelas quais se deverá mudar a fórmula da Eucaristia na missa. Na última ceia, Jesus partiu o pão (“isto é o meu corpo”) e depois tomou o cálice de vinho, e aqui, durante a missa, o sacerdote repete palavras que os fiéis sabem de cor: “Este é o meu sangue … derramado por vós e por todos para a remissão dos pecados”. Só que, nos Evangelhos, não se lê “por todos”. E o pontífice quer que se retorne às palavras de Jesus: “Derramado por muitos”.

A reportagem é de Gian Guido Vecchi, publicada no jornal Corriere della Sera, 25-04-2012. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

O próprio papa lembra as referências textuais. No evangelho mais antigo,Marcos (14, 24), se lê upér pollôn. No de Mateus (26, 28), está escrito um análogo peri pollôn. Enfim, o “por muitos” é a tradução literal do texto original grego. Ausente em João, em Lucas (22, 19), há “por vós” (upér umôn).

A indicação já estava contida em um documento da Santa Sé assinado em 2006 pelo cardeal Francis Arinze. Mas ele encontrou resistências, daAlemanha aos EUA passando pela Itália. A expressão “por todos” foi introduzida depois do Concílio, com a reforma de Paulo VI, em 1969. O missal latino tinha pro multis.

O temor de muitos bispos era que se interpretasse a mudança como a exclusão de alguns da salvação, uma reação pré-conciliar. Assim, o papa escreveu aos bispos alemães, esclarecendo que as coisas não são de fato assim: a “universalidade” da salvação não se discute, mesmo que São Paulo escreva que Jesus “morreu por todos”. O sentido não muda: nos anos 1960, lembra, os exegetas justificavam a passagem para “por todos” citando Isaías 53 (“o justo, meu servo, justificará a muitos”) e dizendo que “muitos” é “uma expressão para judaica para dizer a totalidade”.

Só que Jesus usa “muitos”. É preciso se proteger de traduções “interpretativas” que levaram a “banalizações” e a “autênticas perdas”, escreve: “Percebo que, entre as diversas traduções, às vezes é difícil encontrar o que as une, e que o texto original é muitas vezes reconhecível apenas de longe”. Uma questão de “fidelidade” à “palavra de Jesus” e às Escrituras.

O papa convida, portanto, a preparar padres e fiéis: “Fazer antes a catequese é a condição fundamental para a entrada em vigor da nova tradução”. A sua própria carta, como uma catequese, dá voz às dúvidas (“Cristo não morreu por todos?”, “Trata-se de uma reação que quer destruir a herança do Concílio?”) para desfazê-las.

Na Itália, se continua dizendo “por todos”. mas logo a CEI [Conferência Episcopal Italiana] irá concluir a discussão sobre o novo missal. Os temores não faltam, mas um grande teólogo como o bispo Bruno Forte explica: “O problema não é teológico, mas sim pastoral. O papa lança luz sobre o fato de que a redenção objetiva, por todos, passa através da adesão livre de cada um. Dizer ‘por muitos’ não exclui, mas, ao invés, exalta a dignidade e o consentimento humano. No entanto, as pessoas estão acostumadas a ‘por todos’: por isso, diz o papa, a mudança deve ser feita depois de uma longa catequese que leve a entender o seu valor”.