Cardeal progressista adverte contra ”mito” do Vaticano II

Concílio segundo Kasper. Com o Vaticano II, do qual se festeja o 50º aniversário, “a Igreja pôs-se novamente a caminho”, destaca o cardeal progressistaWalter Kasper, mas “é preciso entrar no conceito de renovação para uma correta interpretação do Concílio”. Não, portanto, ao “mito” do Concílio: a Igreja é esperada por um futuro de “minoria criativa” e, por isso, precisa de uma nova primavera espiritual.

A reportagem é de Giacomo Galeazzi, publicada no sítio Vaticano Insider, 29-01-2012. A tradução é deMoisés Sbardelotto.

No dia 26 de janeiro, em Roma, no Centro Pro Unione, foi apresentado o livro Chiesa cattolica: essenza-realtà-missione (1), escrito pelo presidente emérito do Conselho Pontifício para a Promoção da Unidade dos Cristãos. O cardeal alemão da CúriaWalter Kasper vê o futuro da Igreja não na manutenção das estruturas da “Igreja do povo”, já anacrônicas, mas compartilha a opinião do grande historiador Arnold J. Toynbee, segundo o qual, em situações particularmente difíceis da história da humanidade, quem encontrou uma saída foram sempre minorias qualificadas e criativas, às quais, depois, a maioria também se uniu.

Ministro do ecumenismo no tempo de João Paulo II e também por alguns anos com Bento XVI, geralmente avesso a se pronunciar sobre os grandes temas da reforma da Igreja de forma diferente da instituição da Cúria RomanaKasper é um dos cardeais de maior peso da Cúria Romana.

Na análise que o purpurado alemão faz da crise da Igreja, a figura da Igreja plenamente enraizada no povo, que teve seu grande peso na história e fez a sua grande contribuição, já chegou ao fim diante da situação pluralista de hoje e não pode ser uma figura da Igreja orientada para o futuro no terceiro milênio. “A experiência do Concílio Vaticano II tornou-se para mim uma experiência muito incisiva da Igreja e um permanente e sólido ponto de referência”, lembra Kasper. “No dia 25 janeiro de 1959, quando João XXIII anunciou o Concílio, a surpresa foi enorme. Seguiu-se um tempo impressionante, fascinante e interessante que os jovens teólogos de hoje nem conseguem imaginar. Nós experimentamos como a venerável velha Igreja mostrava uma nova vitalidade, como escancarava portas e janelas e entrava em um diálogo em seu interior, além de entrar em diálogo com outras Igrejas, outras religiões e com a cultura moderna”.

Era uma Igreja que se punha novamente a caminho, uma Igreja que não repudiava nem renegava a sua antiga tradição, mas permanecia fiel a ela e que, contudo, raspava incrustações e busca assim tornar a tradição nova, viva e fecunda para o caminho rumo ao futuro. Sobre a leitura do Concílio,

Kasper foi intérprete ao longo dos anos da dupla Wojtyla-Ratzinger de um contracanto inteligente e afiado dentro da Cúria Romana. “Sempre estive convencido de que os 16 principais documentos do Concílio são, em seu conjunto, a bússola para o caminho da Igreja no século XXI”, enfatiza Kasper. “O Concílio Vaticano IIjá foi muitas vezes definido como o Concílio da Igreja sobre a Igreja. A Igreja, que estava em caminho pelas estradas da história há dois mil anos, tomou consciência, ao longo desse Concílio, mais profundamente, da sua própria essência, em virtude da qual ela tinha até então vivido e agido”.

Ainda em seu discurso de abertura, proferido no dia 11 de outubro de 1962, João XXIII disse que a tarefa do Concílio seria a de conservar integralmente e sem falsificações o sagrado patrimônio da doutrina cristã e de ensiná-la de modo eficaz.Paulo VI disse a mesma coisa no dia 21 de novembro de 1964, por ocasião da solene promulgação da Constituição sobre a Igreja Lumen Gentium, juntamente com o Decreto sobre o Ecumenismo Unitatis redintegratio. Ele afirmou: “Esta promulgação verdadeiramente não muda coisa alguma na doutrina tradicional. Aquilo que Cristo quis  nós também queremos. O que estava, fica. O que a Igreja por séculos ensinou, ensinamo-lo igualmente. Somente aquilo que era simplesmente vivido é agora expresso; aquilo que era implícito fica esclarecido; o que era meditado, discutido e em parte controverso chega agora a uma serena formulação”.

O fascínio e o entusiasmo do Concílio, enquanto isso, desapareceram. “Começou um tempo feito de sóbria consideração dos fatos, em parte também de avaliação crítica dos eventos conciliares e sobretudo pós-conciliares”, admite o cardeal. “Sucedeu-se uma nova geração, para a qual o Concílio é um evento muito distante e aparentemente de outro tempo, de um tempo em que ela ainda nem havia nascido e, com relação ao qual, ela não tem nenhuma relação pessoal, como, ao contrário, a minha geração tinha. A essa nova geração é necessário explicar com esforço o que aconteceu então e entusiasmá-la com relação a isso. Para isso, é preciso uma sólida hermenêutica do Concílio”.

Sem dúvida, não devemos fazer do Concílio um mito, no qual cada um “projeta e encontra os seus próprios desejos pios”. Segundo Kasper, ao contrário, é preciso interpretar com precisão os textos conciliares segundo as regras universalmente válidas da hermenêutica teológica. Ao fazer isso, não devemos separar “o chamado real ou suposto espírito do Concílio da letra do Concílio”, mas devemos inferir o espírito do Concílio da sua história e dos seus textos. Os textos do Concílio devem ser entendidos à luz da sua história e à luz das discussões muitas vezes controversas que ocorreram em seu curso. Depois, é necessário interpretar cada formulação singular dentro do complexo de todos os textos conciliares e levar em conta, ao fazê-lo, a hierarquia intrínseca dos diversos documentos conciliares.

Finalmente, na opinião de Kasper, é preciso reinterpretar os textos conciliares à luz das fontes, às quais o próprio Concílio estava vinculado e às quais ele recorria copiosamente. Para uma adequada hermenêutica conciliar é importante levar em conta a recepção que as afirmações conciliares encontraram na doutrina e na vida da Igreja depois do Concílio. “Retamente entendida, a recepção não é uma adoção mecânica, mas um processo eclesial vivo guiado pelo Espírito Santo, que desenvolve na doutrina, assim como em toda a vida da Igreja”, indica o purpurado. “No período pós-conciliar, a experiência de toda a história do Concílio encontrou o seu seguimento. À controvérsia em torno da definição, sempre segue a controvérsia em torno da sua recepção”.

Ainda durante o Concílio Vaticano II, haviam se formado duas facções, que foram logo chamadas de “conservadora” e, respectivamente, “progressista”. Esses termos tiveram inicialmente um significado diferente do que assumiriam depois do Concílio. “Aqueles que então foram chamados de progressistas eram, na realidade, conservadores, que queriam reafirmar a tradição maior e mais antiga da Sagrada Escritura e dos Padres da Igreja, enquanto aqueles que eram então foram chamados de conservadores estavam unilateralmente fixados na tradição pós-tridentina dos últimos séculos”, pontualizaKasper.

“Para se levar em conta as instâncias justificadas de ambas as partes e para chegar, em correspondência a uma boa tradição conciliar, ao mais amplo consenso possível, foram necessárias, em muitos casos, fórmulas de compromisso, também esse um fenômeno nada novo para qualquer pessoa que conheça a história dos Concílios”.

A palavra de Kasper tem um grande peso na Cúria. No ano 2000, quando a Congregação para a Doutrina da Fépublicou a declaração dogmática Dominus Iesus para reiterar a absoluta unicidade de Jesus Cristo com relação à salvação de todos os homens, foi o cardeal Walter Kasper – que ainda liderava as relações ecumênicas – que disse que “algumas formulações do texto não são facilmente acessíveis aos nossos parceiros”. Entre estes, os judeus.

Joseph Ratzinger, então prefeito do ex-Santo Ofício, teve que se explicar e dizer que era “evidente que o diálogo entre nós, cristãos, com os judeus está em um plano diferente do que com outras religiões. A fé testemunhada na Bíblia dos judeus, o Antigo Testamento dos cristãos, para nós, não é uma outra religião, mas sim o fundamento da nossa fé”.

Nota da IHU On-Line: O título original, em alemão, é: Walter Kardinal Kasper,  Katholische Kirche. Wesen – Wirklichkeit – Sendung, Herder, Freiburg im Breisgau, 2011.