RETIRO PROVINCIAL

HOMILIA E SAUDAÇÃO LAUDATÓRIA AOS JUBILANDOS DE 2011

09 de Setembro de 2011

Padre Marcus Alexandre Mendes de Andrade, C.M.

Frederico Ozanam nasceu em 1813 e faleceu em 1853. Foram apenas 40 anos. Menos do que qualquer um dos jubilandos deste ano. No entanto, sua vida foi plena de Deus; seu testemunho eloquente de serviço aos Pobres e de luta por um mundo novo deixaram marcas indeléveis na história da Igreja e da humanidade. Como ouvimos na primeira leitura de nossa Missa, tirada do livro do Eclesiástico, Ozanam em nenhum momento “recusou o dom de sua vida ao necessitado”, ao irmão que lhe estendia a mão. E, neste sentido, falando em dom que não se recusa, ao contrário, que é vida ofertada, precisamos prestar nossa homenagem aos jubilandos de idade: com 50 anos, P. Juarez e P. Neider; com 60 anos, P. Calixto, P. Onésio e P. Paulo Venuto; com 80 anos, P. Célio e P. Luiz de Oliveira Campos.

Obrigado porque vocês também, como Frederico Ozanam, não nos recusaram o dom de suas vidas. Seus pais, em seu amor, geraram vida para o mundo. E vocês… vocês tomaram esta vida e a ofereceram. E como é bom para nós, seus Coirmãos, fazer parte da vida de vocês e tê-los como parte de nossas vidas!

Nesta tentativa de não recusar a oferta de sua própria existência como dom, alguns de vocês foram ainda crianças para o Caraça. Outros entraram no seminário com um pouco mais de idade. Alguns entraram na Comunidade muito; outros, por sua vez, entraram crescidos e já chegando à maturidade.
No entanto, o como entraram não nos importa. Para nós o que vale, e é este o motivo de nosso louvor, é por que ficaram e como ficaram. E a resposta que nos vem ao coração não poderia ser outra a não ser: para fazer de suas vidas um dom de amor para o mundo. Vocês receberam esta dádiva preciosa de Deus e não a guardaram para si. Fizeram dela dom de amor. E ao longo da vida, foram renovando esta entrega, esta oferta de amor a Deus e aos irmãos, especialmente os mais pobres.

Vocês passaram por muitos lugares. Foram missionários nos campos, no sertão e nas praias, nas cidades do interior e nas capitais. Alguns de vocês prestaram à Comunidade e à Família Vicentina serviços importantes que serão sempre e historicamente reconhecidos: foram Visitadores, Conselheiros da Província, Diretores das Filhas da Caridade…

Muitos foram formadores do clero diocesano, nos mais célebres seminários que o Brasil conheceu, ou formadores dos nossos. Inclusive, muitos de vocês olham hoje para nossa Província, tão jovial e renovada em idade, e devem recordar os momentos que passaram em nossas casas de formação, juntos com esta nova geração de lazaristas, formada pelo árduo labor de quase todos vocês. Neste tempo de formação, que podemos tranquilamente e com orgulho chamar “nosso”, foram muitos os momentos alegres que celebramos: noites culturais, confraternizações, passeios, formatura, votos, ordenações, vitórias na vida, na pastoral, no vestibular, na faculdade. Muitas também, e calorosas!, foram as discussões que travamos, as disputas por este ou por aquele motivo. De fato, neste tempo que chamamos “nosso”, não havia discussões desnecessárias. Os temas eram palpitantes e o interesse e a vivacidade brilhavam em nossos olhos ainda juvenis. Como não lembrar também as muitas risadas que demos em torno da mesa, como também as partilhas – às vezes longas e cansativas – na oração comunitária… Momentos felizes e às vezes tensos, mas momentos intensos, que não deixamos passar despercebidos.

Para prestar-lhes nossa mais sincera homenagem, faço uso de uma expressão de Exupéry, o mestre do “Pequeno Príncipe”: “Minha vida é monótona. Mas, se tu me cativas, minha vida será como que cheia de sol. Conhecerei um barulho de passos que será diferente dos outros…” Tenham certeza: nossa vida e a vida de nossa Província perderam sua monotonia quando topamos com vocês nos caminhos da Missão. Suas vidas, hoje celebradas solenemente, nos encheram de luz, nos encheram de sol. E isso porque não nos recusaram o dom de seu amor. Assim como na primeira leitura desta Missa, que nos recomendou: “Faze com que a comunidade te ame”, podemos assegurar-lhes: nós os amamos! E reconhecemos que, muito além das diferenças, conflitos e crises que existem entre nós, nós reconhecemos e valorizamos, publicamente, o dom de suas vidas.

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SÓ COM AMOR SE MOVE A VIDA/ Ô… Ô… COM MUITO AMOR/ NÃO DEIXEM A LUZ ESCONDIDA!/ Ô… Ô… DIZ O SENHOR.

Vem! Vamo-nos vestir de Vicente/ Porque lá fora nossa gente/ Vive a incerteza do amanhã./ Vem! Vamo-nos fazer de menino/ Porque lá fora os pequeninos/ Querem um lugar ao sol./ Sonhar! Como é bom poder sonhar!/ É divino ensinar como o Mestre ensinou./ Plantar, plantar! Como é bom poder plantar/ Mil sementes de emoção, explodindo no coração.
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Vestir-se de Vicente! A vida, nascida do amor e feita dom de amor para o mundo, foi plenificada de graça pela doação livre, alegre e generosa, feita a Deus para o serviço dos mais pobres. Isso é vestir-se de Vicente. Porque lá fora a nossa gente, o nosso povo sofrido e desamparado, quer um lugar ao sol, quer uma luz para se iluminar, quer um baluarte para manter firme sua vida, quer uma esperança para dar sentido e horizonte para sua existência. E como é bom poder contemplar e celebrar o jubileu de tantos Coirmãos que fizeram de sua vida, naturalmente um dom divino, um dom especialíssimo, pois doada livremente e consagrada a Deus e aos Pobres na sinceridade e na alegria da vocação vicentina!

Neste ano de 2011, celebramos, além do jubileu de idade, o jubileu de 25 anos de vocação do P. Juarez e do P. Neider, e o jubileu de 60 anos do P. Célio. Os outros jubilandos de vocação são: P. Paulo Faria, P. Gomes e P. Wilson Belloni, completando 60 anos, e o Ir. Thomaz, que completa 70 anos de consagração. Faz tempo que vocês se vestiram de Vicente. A maioria de vocês entrou para a Comunidade no grande Seminário de Petrópolis, espaço mais que célebre da formação da Congregação no Brasil. Lá, sob o silêncio quase monástico do Petit-Saint-Lazare e a batuta firme e humanística do saudoso P. José Luís Saraiva, que nós da nova geração conhecemos já idoso, mas sem nunca perder a serenidade que toda a vida o caracterizou, e com o mesmo pigarro do tempo em que era Diretor de vocês, vocês e seus contemporâneos puderam experienciar a riqueza da vocação e da missão vicentina. Entre exercícios espirituais, estudos e conferências, foram sendo moldados como lazaristas para o serviço da Igreja.

Tanto vocês que passaram por Petrópolis como os outros dois Coirmãos que, há 25 anos, num outro tempo e ad experimentum fizeram seu Seminário Interno em outra modalidade, todos puderam fazer a experiência de vestir-se de Vicente. Ou melhor, para sermos mais fiéis à teologia da graça, puderam fazer a experiência do ser vestido de Vicente por força e graça do Senhor de toda vocação. Para situar este momento tão rico e fecundo da vida de vocês, pelo qual todos nós outros já passamos, nos mais variados tempos, lugares e modalidades, cabe aqui retomar um versículo da primeira leitura da Missa de hoje, da memória de Frederico Ozanam: “Inclina teu ouvido ao pobre e responde-lhe a saudação com afabilidade”. Foi para isso que vocês se fizeram lazaristas. Foi para isso que há 25, 60 ou 70 anos vocês foram admitidos à nossa Comunidade, em vista da consagração total de suas vidas a Deus no serviço dos Pobres.

O beato Ozanam, em uma de suas cartas, afirma que, diante do Pobre, nós devemos nos inclinar, reconhecendo a presença de Jesus sofredor nele. E que este ato – diz ele – equivale à prostração feita diante do Santíssimo Sacramento, não só pela presença real e palpável de Deus nos Pobres, tanto quanto na Eucaristia, mas principalmente por sua dignidade e seu valor, destruídos pelas situações de dor, miséria e exclusão. Parece até uma homilia sobre o Evangelho de nossa Missa, que nos mostra aquele viajante samaritano, apesar de toda a ocupação de sua viagem, prostrado diante do homem ferido pelos bandidos. Assim como ensina o livro do Eclesiástico, que diz: “Não rejeites o pedinte oprimido, não desvies teu rosto do pobre. Do que pede, não desvies teu olhar”, também o samaritano faz sua a compaixão do próprio Deus e, abandonando todo tipo de distância geográfica e de consciência em relação ao Pobre, inclina-se para ouvir o seu clamor, o seu pedido por misericórdia.

Hoje podemos recordar: quantas foram as pessoas para as quais vocês inclinaram seu ouvido e responderam com afabilidade! A lista seria imensa, devido à intensidade e a vitalidade com que assumiram sua vocação. Só temos que lhes agradecer. Em nome dos Pobres, nossos mestres e senhores, só podemos render a vocês nosso ato de gratidão e de reconhecimento. Saibam que não foi em vão a consagração que fizeram de suas vidas! Vestiram-se mesmo do samaritano Vicente e, abandonando as velhas montarias e os projetos pessoais, não titubearam diante do grito dos sofredores.
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SÓ COM AMOR SE MOVE A VIDA/ Ô… Ô… COM MUITO AMOR/ NÃO DEIXEM A LUZ ESCONDIDA!/ Ô… Ô… DIZ O SENHOR.

Vem! Vamos levar fé e calor/ Muita esperança, paz e amor:/ Somos caminho e a fonte./ Vem! Vamos formar um batalhão/ E em toda nossa inspiração/ Adicionar este ideal:/ Somar, para poder dividir;/Não partir sem repartir,/ Deixando alguém feliz, feliz./ Ninguém tem tanto que nada falte;/ Nem tão pouco, que não tenha/ Um pouquinho pra doar.
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Por fim, cabe-nos prestar homenagem aos jubilandos de votos e ordenação. Celebrando jubileu de prata de ordenação presbiteral, temos o nosso Excelentíssimo Senhor Prefeito, sempre tão amigo de todos e, apesar da distância amazônica e das muitas ocupações ora assumidas, sempre tão presente no seio provincial, P. Edimir. Com 25 anos de votos, temos o P. Hélio e o P. Agnaldo, que também é jubilando de idade. Com 50 anos, celebrando o jubileu áureo de seus votos, temos o P. Sebastião Carvalho e com 70 anos o P. Guido.

Quando vocês emitiram seus votos e foram ordenados, como diz a música que entoamos há pouco, vocês decidiram adicionar à sua vida um ideal: “Somar, para poder dividir; não partir sem repartir, deixando alguém feliz”. De fato, os santos votos e a ordenação presbiteral são uma manifestação da bondade de Deus para conosco, do Deus que nos convida a somar forças na obra do seu Reino. Nada merecido de nossa parte, o dom da vocação é para nós um presente que nos faz missionários. Um dom que se faz missão!

Adentrando a Pequena Companhia de São Vicente, vocês decidiram somar com gerações e gerações que os antecederam. Receberam de graça um patrimônio imenso: espiritualidade, carisma, história congregacional, tradição, bens e Coirmãos. Mantendo-se firmes e fiéis, renovaram sua decisão de somar com as gerações contemporâneas e futuras. Viveram e conviveram com uma infinidade de Coirmãos, dos mais velhos aos mais jovens; partilharam e ainda partilham a vida e a riqueza da vocação; sonharam e ainda sonham com uma Comunidade cada vez mais fiel ao Evangelho, lido, interpretado e vivido por São Vicente de Paulo.

Há grandeza em cada gesto de vocês. Há grandeza na consagração perpétua e no acolhimento do dom de sua vocação presbiteral. O mesmo Exupéry, citado há pouco, em sua obra “Terra dos Homens”, afirma: “A grandeza de uma profissão é, talvez, antes de tudo, unir os homens. Só há um luxo verdadeiro: o das relações humanas. A experiência mostra que amar não é olhar um para o outro, mas olhar juntos na mesma direção”. Isso podemos perceber na vida de cada um de vocês, hoje aqui solenemente celebrada. A grandeza da existência e da vocação de cada um está exatamente no dom de se ofertarem livremente a Deus e aos irmãos. Obrigado porque não perderam tempo olhando um para o outro, se adulando ou se provocando; não perderam tempo, especialmente, olhando para si mesmos. Obrigado por olharem, juntos, na mesma direção: o Reino de Deus, que começa no meio dos Pobres e, a partir deles, alcançará todo o mundo.

Olhando juntos na mesma direção, conosco, a querida Província Brasileira da Congregação da Missão, não tenham medo de prosseguir. Façam de suas vidas uma casa de acolhida para todos, especialmente para aqueles que estão jogados pelas estradas e abandonados pelo sistema excludente. Derramem sobre o mundo, tão carente e frágil, apesar de sua roupagem de força e de poder, derramem sobre as feridas do mundo o óleo da bondade, qual bálsamos santificador, e o vinho eucarístico da redenção, buscando a salvação de todos pela graça de Deus. E quando vocês voltarem a esta evangélica pensão do cuidado, onde deixaram, em liberdade, os Pobres e o mundo sofredor, saibam que não será o dono da hospedaria, mas os próprios Pobres, socorridos e libertos de sua dor pela sua solidariedade e compaixão, serão eles, juntos de Jesus, o Pobre e, ao mesmo tempo, o Samaritano da humanidade, serão eles que abrirão a vocês as portas, brindando com todos nós o dom de suas vidas! Felicidades! Ad multos annos!