Seminário Interno Interprovincial e Teologia PBCM – 2011

 Élio da Silva, CM.
“O que é escrito, ordenado, factual, nunca é suficiente para abarcar toda a verdade: a vida sempre transborda de qualquer cálice” (Boris Pasternak).

O mês de julho foi um mês privilegiado para nós da comunidade do Seminário Interno Interprovincial São Vicente de Paulo. Tivemos a oportunidade de, juntamente com os Padres da Missão-Paróquia do Vale do Jequitinhonha, Padre Paulo José, Padre Marcus Alexandre e Padre Raimundo, e também com mais dois estudantes da Teologia da PBCM, José Valdo e Erik, realizar forte experiência missionária. Chegamos à região do Vale do Jequitinhonha no dia 1° de julho e permanecemos até o dia 31, quando encerramos as atividades com a Assembleia Diocesana em Araçuaí, sede da Diocese. Durante esses dias, a missão se desenvolveu mediante visita às comunidades, visitas domiciliares, reuniões com dirigentes, celebrações eucarísticas, visitas aos doentes, festas comemorativas etc.

Com isso pudemos trocar experiência, conhecer um pouco da realidade do povo, da cultura, da religiosidade, do “modo de vivência”. É com muita alegria que queremos partilhar essa nossa experiência com todos os coirmãos e membros da Família Vicentina e demais leitores.

O POVO E OS ASPECTOS ECONÔMICOS E SOCIOCULTURAIS

O Vale do Jequitinhonha é uma região bastante afetada pela falta de chuva, bem como pela questão geográfica que é bastante acidentada. As cidades de Francisco Badaró e Jenipapo de Minas estão imersas nessa realidade. A chuva praticamente só vem uma vez por ano, normalmente a partir do mês de outubro. Nas duas cidades, a maioria da população encontra-se no campo (roça) onde, com muita dificuldade, executa plantios de feijão, mandioca, milho, hortaliças e cana-de-açúcar nos chamados “tabuleiros”. Há também na região pequenos rebanhos de gado de corte e leiteiro, com sérios riscos devido à escassez de água e às dificuldades de fazer as pastagens, ou “mangas” como são conhecidas pelo pessoal. O gado na maioria das vezes é conduzido por longa distância até as represas (cisternas) para beber água. Muitos rios e córregos secaram. O Rio Bolas é um desses casos: passava em várias comunidades, irrigava muitos plantios, matava a sede de muitos animais. Hoje em algumas partes do rio virou até campo de futebol. Há outros animais como o cavalo e o jumento para auxiliar no trabalho, bem como no transporte. Criam-se porcos e galinhas que são utilizados para alimentação doméstica. Vale destacar que a questão do artesanato também tem influencia na região.

Os plantios se dão duas vezes ao ano, o plantio da seca, que acontece geralmente em lugares mais baixos, com auxílio de represas, ou à beira de pequenos córregos, que ainda resistem apesar da seca. E o plantio das águas, que aproveita o período das chuvas que às vezes dura até quatro meses. Para o povo das comunidades rurais os desafios não estão só nos plantios; há a poeira das estradas (rodagens) que afeta as casas mais próximas causando sujeira e até mesmo problemas de saúde. No período chuvoso, a poeira se transforma em lama não permitindo o tráfego.

Para amenizar a falta de chuva, muitas localidades contam com o apoio de poços artesianos e caixas de água alternativas que captam no período chuvoso a água que seria desperdiçada dos telhados das casas. Essas obras são custeadas por alguns programas sociais, como a Cáritas Diocesana (Fundo de Solidariedade) e a Asa (Articulação no Semiárido Brasileiro). Há um acordo com os proprietários das pequenas propriedades que oferecem a mão-de-obra.

Outra obra que foi desenvolvida na região é a Barragem do Rio Setúbal. Localizada na parte sul do município de Jenipapo de Minas, próximo às comunidades rurais de Barragem, Bolas e Monte Alegre. A construção desta Barragem é de suma importância, uma vez que a região vem enfrentando longos períodos de estiagem. Desde o seu início em 1989, houve várias paralisações, mas foi concretizada em 2010.
De acordo com o Governo de Minas, a Barragem do Setúbal aumentará a oferta de água do Rio Jequitinhonha, do qual é afluente, e com isso viabilizará o abastecimento humano e animal, além de projetos sociais de irrigação e trabalhos voltados à piscicultura.

A falta de transportes adequados e a má conservação das rodagens dificultam o acesso das pessoas ao meio urbano, aonde necessitam ir para resolver problemas pessoais, de saúde ou fazer compras. A educação é um desafio, a maioria das comunidades não conta com escola que ofereça o ensino fundamental e médio. É preciso se deslocar para outras localidades. O transporte é inseguro, sendo utilizadas caminhonetes sem a devida segurança, ou ônibus sem manutenção mecânica rotineira.

A produção é praticamente de subsistência, ou seja, o povo da roça consegue equilibrar bem suas despesas, graças ao que consegue colher como fruto da terra e de seu próprio trabalho. Mesmo a questão agrícola sendo fraca, ainda assim a economia do município é dependente da zona rural. Uma vez por semana, tanto em Jenipapo quanto em Badaró, acontecem as feiras livres, onde cada agricultor pode vender os seus produtos, verduras, grãos, derivados do leite, frutas, artesanatos e até animais de pequeno porte. As feiras são bem movimentadas, tanto com vendedores como com o povo da cidade que vem para comprar os produtos de boa procedência e sempre fresquinhos. Mesmo produzindo em pequena quantidade, pode-se dizer que a região é privilegiada no que diz respeito à qualidade dos alimentos produzidos. Não se usam agrotóxico nos plantios como em outras regiões do Brasil que são muito atacadas por pragas como o Sul e Sudeste. O clima seco favorece o desaparecimento das pragas, bem como as doenças nocivas às plantas.

Nas cidades, os comércios são poucos e se mantêm com dificuldade. Geralmente o maior número de emprego está na rede pública (educação e saúde), já que na região não existem indústrias. O comércio das cidades também tem um reforço especial com o dinheiro que é trazido de fora devido à grande migração de pessoas para trabalhar principalmente em São Paulo. Os homens, na maioria da zona rural, passam praticamente todo o ano no corte da cana, nas usinas paulistas. Aliás, essa é uma questão que traz pontos positivos e negativos para toda a região.
Pontos positivos: os rendimentos no corte da cana superam em muito o trabalho executado na própria região. Com isso muitos jovens ficam iludidos e abandonam estudos para se submeter a um trabalho explorado e quase escravo. Com esse dinheiro, o comércio local é beneficiado, principalmente nos finais de ano, porque aumenta o poder de compra das pessoas. Muitos proprietários de pequenas chácaras investem em benfeitorias nas suas propriedades e até mesmo na compra de mais terra.

Pontos negativos: com a saída dos homens acabam ficando somente mulheres, mães e esposas que, na solidão, precisam assumir a tarefa de educar os filhos e cuidar das pequenas propriedades. Praticamente em todas as comunidades visitadas encontramos mulheres recém-casadas ainda muito jovens e outras com grande número de filhos, que assumem com fé e coragem os desafios do dia-a-dia, lutam e sonham por uma vida melhor. Essas saídas afetam de maneira direta a vivência familiar, trazendo a fragmentação de muitos valores, sem contar que a ausência do pai prejudica no crescimento e no desenvolvimento dos filhos.

A questão do êxodo populacional se completa com a saída da juventude que busca em outras cidades formação acadêmica, qualificação profissional para melhorar as condições de vida. Vale destacar que encontramos pessoas que estudaram fora e hoje retornaram para a região e prestam serviços importantes em diversas áreas. Mas a maioria acaba encontrando trabalho nas capitais e só retornam para ver a família nas férias. Os jovens que por algum motivo permanecem na região sofrem de baixa autoestima, ou seja, parece que não encontram um sentido de vida.

A região também conta com sérios problemas de saúde. Primeiro, pela dificuldade do deslocamento das comunidades até a cidade (falta de transporte), uma vez que a maioria das localidades não conta com uma unidade e nem com um agente de saúde. Segundo, que as cidades não têm estrutura necessária para atender as necessidades do povo. Geralmente, os casos mais graves são encaminhados para cidades mais capacitadas, mais isso causa algum transtorno. A doença que mais assola a região é a doença de chagas, transmitida pelo “barbeiro”. Encontramos muitas pessoas contaminadas, geralmente pessoas mais idosas, porque tempos atrás o sistema de moradia e falta de higiene favoreceu a proliferação do transmissor. Hoje casas novas e banheiros foram construídos com auxílio de programas sociais. Foi realizada a dizimação do “barbeiro” pela secretaria municipal de saúde; hoje se encontra praticamente extinto. As pessoas afetadas pela doença estão em fase de tratamento e há muitas ainda que nem sabem que possuem.

A cultura é bem valorizada na região, as festas procuram retratar a tradição histórica do povo. Em Francisco Badaró, a festa de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos do Sucuriú já está se encaminhando para o seu segundo século. Tanto a parte religiosa é valorizada com a celebração das novenas em louvor a Nossa Senhora do Rosário, quanto a parte social com diversas atrações. Sempre com um ano de antecedência é feita a escolha dos festeiros, o rei e a rainha, que são responsáveis pela festa, juntamente com toda a Irmandade do Rosário. Existem também os “Tamborzeiros” que animam a festa, tanto na subida quanto na descida do reinado, caminhada com cantos e danças tradicionais e com a presença do rei e da rainha desde a Praça da Igreja Matriz até a Igreja do Rosário.

Após a festa do Rosário, a localidade de Machados também celebra grande festa em honra a seu padroeiro Senhor Bom Jesus. A festa já conta com vários anos de história e valoriza os “machadenses presentes” e os “ausentes”, que vem especialmente de outas cidades para participar. Celebram-se as novenas e muitas danças culturais, bem como queima de fogos e hasteamento do mastro com a imagem do Senhor Bom Jesus. A cada ano há os festeiros que tomam frente para que a festa aconteça. Em Jenipapo de Minas, em setembro acontece a festa de Nossa Senhora da Conceição e no mês de janeiro a do padroeiro São Sebastião. As comunidades rurais, cada qual comemora com muita euforia e tradição seus padroeiros locais.

A PRESENÇA DOS PADRES LAZARISTAS NA REGIÃO 

A Missão Paróquia de Badaró e Jenipapo já está se encaminhando para o seu quinto ano. Atualmente temos somente dois padres na região, Padre Paulo José e Padre Raimundo, já o Padre Marcus Alexandre foi recentemente transferido para assumir outra obra da Congregação. Mesmo com o desafio da região, más estradas e longas distâncias, os Padres Lazaristas têm dado uma presença marcante junto à população. Segundo o relato do povo, antes quase não se tinha missas, principalmente nas roças, não se faziam as visitas domiciliares, quase não se realizavam os sacramentos. Assim se expressa Dona Maria Geralda, dirigente da comunidade da Estiva: “Com os Padres Lazaristas a nossa comunidade ficou mais unida nas missas e em outros compromissos comunitários. Eles sempre nos visitam”.

O trabalho dos Padres Lazaristas vai além da parte religiosa, há preocupações com as questões sociais e a luta do povo por melhorias na saúde, educação e nas propriedades. Padre Paulo José lutou para conseguir junto ao INCRA e alguns Antropólogos o reconhecimento de uma comunidade Quilombola na localidade da Lagoa Grande, município de Jenipapo.

Para isso precisava fazer um mapeamento da área para desapropriação de uma fazenda. Com o mapeamento, cada família receberá uma parte da terra para cultivar e construir suas casas, dando continuidade aos seus traços culturais. Os Padres também têm lutado junto ao povo por melhorias nas propriedades buscando apoio nos projetos sociais como a Caritas, da qual Padre Paulo José é coordenador diocesano. Nas missas sempre se tem espaço para falar da criação de cooperativas, associações, sindicatos, bem como problemas de saúde e educação. Para as pessoas do meio rural, o sindicato é um grande parceiro, principalmente na hora de solicitar auxílio saúde, pensões e aposentadorias. Os Padres sempre destacam conscientemente a importância das contribuições sindicais. Em comunhão com os Padres, vale destacar o trabalho das irmãs Filhas da Caridade que estão inseridas na região, tanto nas visitas às comunidades, quanto no compromisso com as pastorais, como por exemplo, a Pastoral da Criança.

O papa Paulo VI em sua exortação apostólica Evangelii Nuntiandi diz: “Entre evangelização e promoção humana, desenvolvimento e libertação, há laços profundos; laços de ordem antropológica, porque o homem a evangelizar não é um ser abstrato, mas está condicionado pelas questões sociais e econômicas. Laços de ordem teológica, porque não se pode dissociar o plano da criação do da redenção, que chega até às situações muito concretas da injustiça a combater e da justiça a restaurar. Laços da ordem eminentemente evangélica, como o da caridade: como, na verdade, proclamar o mandamento novo sem promover a justiça e a paz, o verdadeiro, o autêntico crescimento do homem? É impossível que na evangelização se possa ou se deva transcurar a importância dos problemas, hoje tão debatidos, que se referem à justiça, à libertação, ao desenvolvimento e à paz no mundo” (Cf. Ev. Nunt. 31). A realidade do Vale do Jequitinhonha requer Padres missionários que colaborem na formação, orientação, ou seja, uma evangelização que priorize a libertação de forma integral.

A PERSEVERANÇA DO POVO NA FÉ E NA ESPERANÇA 

A coragem, a perseverança e a alegria com que o povo encara a vida é um sinal visível da presença do Reino de Deus. Povo acolhedor, de espiritualidade e religiosidade profunda, como menciona o saudoso teólogo chileno Segundo Galilea: “A religiosidade popular nos faz descobrir que os pobres e pecadores como todos são sujeitos de espiritualidade. Tem uma mística a nos oferecer. Evangelizar os pobres, construir uma Igreja popular significa receber e reconhecer desta espiritualidade para desenvolvê-la em uma educação da fé que explicite o que há aí de experiência de Cristo e seu seguimento” (cf. Galilea, Os pobres nos Evangelizam?, 1977).

Pudemos experienciar, juntamente com o povo da região, através da solidariedade, hospitalidade, fortes atitudes cristãs. Povo que semeia e tem esperança da colheita em meio aos desafios da seca, do terreno pedregoso. Em cidades menores o nível de vida é melhor do que em cidades grandes. Valorizam-se mais as relações primárias, há mais proximidade das pessoas. Celebra-se a vida nas práticas cotidianas iluminadas pela Palavra de Deus.

É um povo que tem alegria desde a participação na celebração de uma missa até na recepção e atenção para com aqueles que os vão visitar, na organização de uma festa, numa visita ao vizinho, etc. Percebe-se um grande amor pela terra natal, tanto dos que moram quanto dos ausentes que sempre retornam. O que de fato atrapalha a região é justamente a falta de oportunidades, de empregos, de educação adequada. Essa é a percepção de alguns dirigentes da comunidade de Mocó, município de Badaró: “A comunidade não tem emprego, dificuldade em produzir. Era preciso usar alguma forma de criatividade para criar alguma forma de emprego para assegurar melhor a população”.

A missão aconteceu espontaneamente, mediante um diálogo de escuta atenta de ambas as partes. Povo desejoso de partilhar, tanto da cultura quanto da mesa da fraternidade. Uns falaram da saudade de alguém que está distante, outros falaram do trabalho do dia-a-dia nos “tabuleiros” e das idas e vindas para trabalhar em outras cidades. Sem dúvida, a região do Vale do Jequitinhonha é uma região de missão, de presença de Padres e de missionários, de formação, de prioridades. É lugar de evangelizar caminhando junto com o povo.