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Entrevista com o Cardeal Albert Vanhoye, SJ

29 de abril de 2014
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“’Não existe contraposição dialética entre “pro multis” e “por todos”’’

“Lento pede”, com tempos mais longos do que o previsto, vai sendo realizada em toda a Igreja Católica de rito latino uma mudança leve, mas não irrelevante, na fórmula de consagração do vinho que os católicos de tantos países do mundo ouvem todas as vezes em que participam da missa, desde que – depois do Concílio Ecumênico Vaticano II – se passou a celebrar o rito nas línguas dos diversos países.

Desde aquele tempo, durante a missa, no momento da consagração do vinho, os fiéis de grande parte do mundo ouviram o sacerdote celebrante repetir as palavras de Jesus segundo as quais o seu sangue é derramado “por vós e por todos” para a remissão dos pecados. Agora, nas diversas línguas, essa fórmula vai sendo corrigida, segundo as indicações dispostas pela Santa Sé em outubro de 2006: de nação em nação, ao longo da oração eucarística, a expressão “derramado por vós e por todos” é substituída por “derramado por vós e por muitos”.

A reportagem é da revista 30giorni, de abril de 2010. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

A mudança se refere a uma só palavra: o “todos” se torna “muitos”. Mas a substituição, ainda quando foi disposta pela Santa Sé, alimentou debates e equívocos, destinados talvez a florescer novamente enquanto as indicações vaticanas vão sendo recebidas e realizadas pelos episcopados nacionais: se Cristo morreu “por muitos” quer dizer que não morreu por todos? E a fórmula usada depois do Concílio em boa parte das paróquias de todo o mundo, pela qual o sangue de Jesus foi derramado “por todos”, era portanto uma versão errônea e enganosa?

Apresentamos aqui o importante ponto de vista sobre toda a questão do cardeal jesuíta Albert Vanhoye, reitor emérito do Pontifício Instituto Bíblico, que o próprio Bento XVI reconheceu publicamente como “um grande exegeta”.

Eis a entrevista.

Eminência, a partir da indicação da Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos, vai sendo introduzida uma mudança na fórmula de consagração do vinho em diversas versões linguísticas. “Derramado por vós e por todos” irá se tornar “derramado por vós e por muitos”. Qual referência o Novo Testamento oferece a respeito disso?

Com relação às fórmulas usadas para a consagração eucarística, encontram-se diversas coisas no Novo Testamento. Na fórmula de consagração do pão, reportada na Primeira Carta aos Coríntios, Jesus diz: “Este é o meu corpo, que é por vós”. Não por muitos, nem por todos, mas por vós. Em Lucas, encontra-se a mesma fórmula, com um acréscimo: “Este é o meu corpo, que é dado por vós”. Com relação à fórmula de consagração do vinho, na Primeira Carta aos Coríntios, Paulo não reporta nenhuma referência aos destinatários: “Este cálice”, diz Jesus, “é a nova aliança no meu sangue”. Só isso. Enquanto no Evangelho de Lucas, Jesus repete a fórmula usada para a consagração do pão: “Este cálice é a nova aliança no meu sangue, que é derramado por vós”. Ao contrário, ainda com relação à fórmula de consagração do vinho, Marcos e Mateus, nos respectivos Evangelhos, usam uma expressão que, na versão grega, contém a palavra polloi, muitos. Em Marcos, encontramos a frase: “Este é o meu sangue, o sangue da aliança, que é derramado por muitos”. No Evangelho de Mateus, Jesus, ao invés, diz: “Este é o meu sangue, o sangue da aliança, que é derramado por muitos, para a remissão dos pecados”.

Então, o problema é sobre como deve ser interpretada a palavra “muitos”.

Em italiano, “muitos” se contrapõe implicitamente a “todos”. Se dissermos que muitos alunos foram aprovados no exame, isso quer dizer que nem todos foram aprovados. Pelo contrário, em hebraico, não há essa conotação dialética. A palavra rabim significa apenas que há um grande número. Sem especificar se esse grande número corresponde ou não a todos.

Que orientações a exegese oferece para esclarecer esse ponto?

Muitos textos do Novo Testamento repetem que Cristo morreu por tofos. Paulo, na Segunda Carta ao Coríntios, escreve que “o amor de Cristo é que nos impulsiona, quando consideramos que um só morreu por todos” (2Cor 5, 14). E, na Carta aos Romanos, ele repete que, “se todos morreram devido à falta de um só, muito mais abundantemente se derramou sobre todos a graça de Deus e o dom gratuito de um só homem, Jesus Cristo” (Rm 5, 15). Justamente a respeito da Eucaristia, no sexto capítulo do Evangelho de João, encontramos o discurso de Jesus sobre o pão da vida: “Quem come deste pão viverá para sempre. E o pão que Eu vou dar é a minha própria carne, para a vida do mundo”. Por isso, trata-se de uma oferta universal, não reservada em princípio a um certo número de destinatários. Tudo isso coloca em evidência uma questão teológica.

A que o senhor se refere?

É claro que a intenção de Jesus na última ceia não foi dirigida a um certo grupo determinado, embora numeroso, de indivíduos. A sua intenção foi universal. Jesus quis a salvação de todos. Ele é o salvador do mundo. O Novo Testamento repete isso mais de uma vez, a partir do quarto capítulo do Evangelho de João, quando os samaritanos declaram ter reconhecido que Jesus é “verdadeiramente o salvador do mundo”. Não apenas o salvador dos judeus, mas também dos samaritanos e de todas as nações. Uma expressão – salvador do mundo – que se encontra também na Primeira Carta de João.

O que tudo isso sugere para o senhor?

Jesus não excluiu ninguém, e no final do Evangelho de Mateus, ele diz que se leve o anúncio a todas as nações. Portanto, a intenção de Jesus é dirigida a todos os homens. “A toda criatura”, até escreve Marcos no final do seu Evangelho, usando uma expressão um pouco imprópria, porque o Evangelho certamente não deve ser pregado aos cachorros ou aos cavalos, que também são criaturas. Mas isso também é para manifestar a intenção de Jesus, que é universal e oferece a salvação a todos.

Porém, no Novo Testamento, também se encontram expressões que soam um pouco ” exclusivas”.

São Paulo diz que a fé não é de todos. E Jesus também usa fórmulas muito limitativas, como quando diz que muitos são os convidados, e poucos, os salvos. Essas passagens têm uma intenção exortativa. Jesus nos coloca em guarda diante do perigo de sermos excluídos. Não se configura aqui uma definição de predestinação. Nunca se encontra no Novo Testamento a ideia de que qualquer um é, a priori, destinado a um destino negativo. Por outro lado, pode-se ver nos Evangelhos que Jesus se dava conta de que nem todos aceitariam a sua oferta de salvação. Mas isso não significa uma limitação excludente já inerente na intenção de Jesus. Remete, pelo contrário, à efetiva recepção do anúncio evangélico, condicionada pelo fato de que a liberdade humana pode acolher ou não a generosísima oferta do Senhor.

Retornemos ao “pro multis”. De que modo as considerações recém feitas ajudam a interpretar corretamente a mudança de tradução pedido pela Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos?

Do ponto de vista exegético, na fórmula latina da consagração do cálice (“… qui pro multis effundetur…”), a expressão“pro multis” deve ser entendida no sentido que ela tinha na língua aramaica em que foi pronunciada. Isto é, sem colocar em contraposição “muitos” e “todos”. A tradução litúrgica francesa evitou essa dificuldade traduzindo o “pro multis” latino pela expressão “pour la multitude”. A multidão também pode ser todos. Parece-me ser uma escolha a ser apreciada, porque respeita a original da versão latina e, ao mesmo tempo, evita cair em contraposições – nesse caso enganosas – entre “muitos” e “todos”, mantendo o sentido da abertura universal da oferta do cálice.

A mudança pedida pela Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos pode ser interpretada como uma desaprovação das traduções em algumas línguas vulgares, nas quais o “pro multis” foi traduzido como “por todos”?

Do ponto de vista teológico, traduzir “pro multis” como “por todos” pode ser adequadamente motivado, se levarmos em conta os dois fatos que já expus, isto é, que em hebraico “muitos” não se contrapõe a “todos”, e que todo o Novo Testamento repete que Jesus não pretendeu excluir ninguém a priori da Redenção.

Entre as motivações expostas na carta do cardeal Arinze para uma “tradução mais precisa da fórmula tradicional`pro multis`“, a primeira se refere à necessidade de se ater ao texto dos Evagelhos sinóticos, que, em grego, reportam a fórmula “hyper pollon”. O senhor concorda com esse argumento?


Não saberia dizer. No século passado, o grande exegeta alemão Joachim Jeremias, no vocábulo polloi escrito para oTheologisches Wörterbuch zum Neuen Testament, o dicionário teológico do Novo Testamento, partindo do fato de que em hebraico rabim podia designar todos, chegou até a mostrar que, no texto grego do Novo testamente, o vocábulo polloi (muitos) também é repetido às vezes com um significado equivalente ao de pantes (todos). Vê-se isso, por exemplo, na Carta aos Romanos, em que Paulo usa de maneira indiferenciada a expressão “pantes anthropoi”, todos os homens, e a outra expressão “hoi polloi”, que, em si mesma, significaria a maioria. Tanto que as versões em latim e nas línguas vulgares em todas essas passagens traduziram “hoi polloi” por “omnes”, todos.

Na carta da Congregação, indica-se também que “o Rito romano em latim sempre disse `pro multis` e nunca `pro omnibus` na consagração do cálice”. Manfred Hauke, no seu estudo sobre a tradução do “pro multis”, escreve: “Encontramo-nos diante de palavras de Jesus Cristo, citado com a expressão `e disse`. Uma consciente modificação das palavras do Senhor seria, por isso, uma monstruosidade”.

Indico que, nas palavras escolhidas para as fórmulas de consagração, a Igreja usou uma certa liberdade. Quando, na oração de consagração do vinho, repetem-se as palavras de Jesus dizendo: “Este é o cálice do meu sangue, o sangue da nova e eterna aliança”, deve-se notar que essa formulação não se encontra em nenhum dos Evangelhos. Nenhum diz “o cálice do meu sangue”, em nenhum a palavra “eterna” aparece entre aquelas usadas por Jesus na instituição da Eucaristia. Ela se encontra, pelo contrário, na Carta aos Hebreus, lá onde se diz que Cristo foi o mediador de uma “aliança eterna”. Por isso, a Igreja tomou a liberdade de colocar essa palavra na fórmula da consagração do vinho. E me parece que essa escolha também vai no sentido de reconhecer a intenção universal da salvação oferecida por Cristo mediante o seu sacrifício: “eterna” quer dizer por todos os tempos.

E o que isso indica para o senhor?

Quer dizer que não se pode reduzir tudo à preocupação de uma rigidez literal. É o próprio Novo Testamento que nos conduz a uma certa flexibilidade, a evitar absolutizações e rigidezes que acabam sendo enganosas. Justamente para a fórmula de consagração, vimos como as fórmulas de Paulo na Primeira Carta aos Coríntios e de Lucas no Evangelho são verdadeiramente muito diferentes das de Mateus e de Marcos. Também encontramos duas versões diferentes para o Pai Nosso nos Evangelhos.

O verdadeiro nó teológico é exposto em uma outra razão da mudança proposta na carta da Congregação de 2006: “A expressão `pro multis`, escreve o cardeal Arinze, “ao permanecer aberta para incluir toda pessoa humana, espelha também o fato de que essa salvação não é realizada de maneira mecânica, sem o próprio querer e participação”.

Mas nem a fórmula da consagração que se decidiu corrigir implica, por si só, a ideia de uma salvação mecânica. Se dissermos que Jesus morreu por todos, isso não significa que todos aceitarão a salvação oferecida mediante o seu sacrifício. No fundo, todo o problema se resolve tendo presente essa distinção. A coisa principal é dizer a todos que a salvação é oferecida a todos, que Jesus não fez nenhuma restrição prévia, não excluiu ninguém dessa oferta. Mas ela deve ser acolhida, e aqui entra em jogo a liberdade humana. Por isso, pode-se pensar que nem todos serão salvos. Os textos de caráter limitante que eu citei vão nesse sentido. Como disse, indicam simplesmente a possibilidade, o perigo real da condenação.

No entanto, não se pode negar que um certo mecanicismo salvífico se tornou opinião comum, considerando a salvação como garantida a priori a todos.


Não me parece que uma opinião dessas possa ser imputada a uma suposta ambiguidade das versões em língua vulgar que traduziram “pro multis” como “por todos”. Basta ficar nas palavras de Jesus e na intenção evidente com a qual ele as pronunciou para excluir todo automatismo da salvação por ele oferecida a todos. Se, ao invés disso, fazem-se especulações ou raciocínios artificiosos, existem também outros textos isolados que podem ser manipulados para chegar a conclusões enganosas. Por exemplo, Paulo escreve na Primeira Carta a Timóteo que Deus quer todos sejam salvos e cheguem ao pleno conhecimento da verdade: pode-se partir dessa afirmação para deduzir arbitrariamente que todos são salvos “ab origine” por vontade divina onipotente. A meu ver, é preciso ter o senso daquilo a que eu me referia antes, flexibilidade. É preciso evitar que se tome do Novo Testamento um texto isolado para tirar conclusões que não correspondem ao conjunto da Revelação.

Mas ao traduzir “pro multis” como “por todos” não se correu o risco, de algum modo, de favorecer a difusão de doutrinas ambíguas entre os fiéis?

Não me parece que o povo cristão tenha essa propensão de analisar as palavras individuais com pretensões de literalismo. O povo aceita que Jesus usou a expressão “por muitos”, e, nesse sentido, a escolha de traduzir “pro multis” como “por todos” certamente não era uma escolha obrigatória. Por isso, a correção dessa tradução também será acolhida pelos fiéis sem problemas.

Porém, de um lado ou do outro, há quem não parece compartilhar essa sua abordagem não dramatizante. Para alguns, a mudança de tradução acabará favorecendo que Cristo não morreu por todos. Outros, pelo contrário, consideram a mudança absolutamente necessária para combater um mal entendido e “temerário otimismo da salvação”…

Repito: a mudança de tradução é legítima e tem as suas razões, mas não deve ser interpretada como uma restrição da promessa de salvação oferecida a todos, e portanto como um repúdio às traduções utilizadas nas línguas vulgares de 1969 até hoje. Enfim, é preciso evitar que se coloque em contraposição dialética o “pro multis” e o “por todos”.