1. Do ser humano à máquina. O capitalismo neoliberal nutre desprezo tácito pelo humano, ao preferir a high technology. A sofisticação tecnológica acaba por colocar o ser humano em segundo plano, com a supremacia da máquina. É a forma segura de aumentar os lucros, por se dispensar o pagamento de salários, e de se evitar conflitos desgastantes com os sindicatos. Afinal, as máquinas não exigem direitos, como acontece com os operários e podem ser substituídas sem problemas. Pode-se falar em realidade pós-humana, cujo rosto é a tecnologia. Coloca-se para os cristãos o desafio de nutrir ideais de humanidade e pensar um mundo diferente, onde o ser humano seja devidamente valorizado; onde a máquina esteja a serviço do ser humano e não o contrário.
Que reflexo tem essa realidade na animação vocacional? O jovem parece depender, sempre mais, das maquinas para sobreviver – computadores, celulares, ipods e toda uma parafernália eletrônica da qual não abre mão. Onde encontrar jovens com corações livres para a missão, inclusive em lugares onde não se tem acesso à tecnologia? Como conscientizar os jovens no sentido de colocar a tecnologia a serviço da evangelização e precavê-los contra os atrativos desumanizadores? Como ajudá-los a não se deixarem escravizar pela máquina?

2. Do real ao virtual. A cibernética introduziu a humanidade no mundo maravilhoso das infovias, para além do tempo e do espaço. Os limites temporais e as barreiras geográficas foram praticamente eliminados para dar lugar ao tempo e ao espaço virtuais. A cibernética introduz o ser humano no âmbito da virtualidade, para além do real. O indivíduo constrói um mundo totalmente utópico, no sentido etimológico da palavra utopia. O utópico do mundo virtual prescinde da história, pois, aí, a realidade só existe online. Sem história, a ética fica descartada.
Para os cristãos coloca-se a questão da exigência da misericórdia real. A misericórdia virtual não tem força salvífica. Só a misericórdia real e efetiva gera comunhão com o Pai e como os semelhantes.
Como ajudar um vocacionado à VRC a não se deixar enganar pelo “canto da sereia”, representado pelo mundo encantado da cibernética? Como explorar o potencial evangelizador oferecido pelas novas formas de comunicação, sem se afastar da realidade? Como evitar o perigo de se identificar com o computador e ser engolido por ele ou se tornar escravo dele? Como motivar o jovem a fazer experiências de misericórdia real? Como ajudá-lo a não se contentar com a solidariedade virtual, antes, se dispor para a solidariedade real com os mais pobres e marginalizados?

3. Do socialismo ao capitalismo neoliberal. O desaparecimento do chamado socialismo real, abrindo espaço para o neoliberalismo, tem fortes componentes antropológicos, para além do aspecto socioeconômico. O mercado e o lucro, nas ondas da propaganda e do marketing, transformaram o ser humano em autênticos robôs telecomandados pelas agências de publicidade, encarregadas de criar necessidades e incentivar o consumo. O indivíduo passou a ser identificado pela capacidade de consumir, reduzido à pura materialidade dos desejos miméticos, fruto da manipulação do inconsciente coletivo. O império neoliberal desarticulou o chamado Estado do bem-estar social, com sua preocupação, embora pequena, em partilhar o produto do trabalho humano, também, com os mais pobres. Já se fala em esgotamento do modelo de economia neoliberal.
São muitas as perguntas que se levantam para quem pretende, neste contexto, optar pela VRC. Como abrir os jovens para os ideais cristãos de solidariedade e partilha? Como criar neles ideais sociais e colocar na pauta das preocupações as carências dos pobres? Como ajudá-los a pensar uma sociedade diferente, com formas alternativas de vida, na contramão das correntes neoliberais? Como alertá-los em relação ao consumismo e ao risco de perder a liberdade na sociedade da propaganda?

4. Do humanismo ao “des-umanismo”. É chocante perceber a paulatina desconstrução da humanidade. Os rios de sangue que correram ao longo do século XX crescem em volume nos primeiros anos do século XXI. As guerras continuam a pulular em várias partes do Planeta, para alegria dos fabricantes de armas. O número de refugiados cresce de forma assustadora, com terríveis sequelas de fome, doenças, violências e toda sorte de sofrimento. As migrações em busca de melhores oportunidades de vida amontoam nas periferias das metrópoles ricas número incontável de pessoas, vivendo em condições sub-humanas, em situação de marginalização social. A consciência cristã vê-se questionada ao perceber a desumanidade crescente em países e continentes de tradição cristã e promovida por pessoas autoconsideradas cristãs. Some-se a isto a banalização da vida humana, perceptível no aumento desmesurado do número de homicídios, em sua maioria perpetrados por motivos banais. Se o cristianismo é marcadamente humanista, os cristãos são desafiados a se questionar pela responsabilidade do rumo assumido pela história humana. E, também, pela urgência de encontrar caminhos de saída.

A animação vocacional tem como público alvo jovens com forte dose de humanidade. Porém, onde encontrá-los? Ou, então, como ajudá-los a crescer em humanidade, quando o processo de desumanização começa na própria família? Estamos dispostos a gastar dinheiro para financiar psicoterapias que ajudem os jovens a se desbloquearem em vista da humanização? Como criar neles sentimentos de solidariedade e oblatividade que devem estar na base da opção para a VRC?

5. Do particular ao global. A globalização é fenômeno incontornável. Não há como evitá-lo. A queda de uma Bolsa de Valores na Ásia cria transtornos para uma fábrica no interior do Brasil. As Bolsas de Valores do mundo inteiro influenciam-se mutuamente. O bom ou o mau desempenho de uma reflete-se nas demais. A política econômica de determinado país deve ser pensada em conexão com o sistema financeiro internacional. Uma decisão equivocada provoca a fuga de capital – volátil – em frações de segundo, deixando o país à mercê de incertezas e de falências. Enquanto isso, é possível promover ações globais, mobilizando pessoas dos quatro cantos da Terra em torno de causas humanitárias, eventos esportivos e ações de denúncias e protestos. Infelizmente, nota-se a tendência a privilegiar a globalização do que tem apelo jornalístico: crime, sexo, barbaridades e vulgaridades. Globalização da banalidade!
Para quem pensa na VRC, levantam-se não poucas perguntas. Como ajudar o jovem a pensar globalmente e agir localmente? Como ajudá-lo a se abrir para a globalização sem, contudo, perder o chão da realidade? Como perceber no particular os traços do global e saber que a solução do global passa pelo particular? Como manter a tensão particular-global de forma equilibrada e correta, sem o risco da esquizofrenia? Como fazer o discernimento cristão do que é globalizado, para não se correr o risco de perder tempo com coisas irrelevantes e vulgares, que a media insiste em globalizar?

6. Do grande relato ao pequeno relato. Pode parecer contraditório, em relação ao tópico anterior. Porém, o ser humano torna-se sempre mais incapaz de articular pensamentos globalizantes. O tempo do conhecimento apresentado em forma de “summa”, no estilo de Santo Tomás, e do saber enciclopédico ficou para trás. Fala-se em pós-metafísica e em pensamento débil. Os indivíduos, hoje, sabem cada vez mais sobre menos coisas. O saber é compartimentado. Um claro exemplo ocorre no âmbito da medicina. É cada vez mais difícil encontrar um clínico geral, capaz de conhecer o funcionamento do corpo humano na sua totalidade. Encontram-se, sim, médicos especialistas e, cada vez mais, especializados em pequenos campos do corpo humano. Fora do estreito e preciso limite de sua especialização, um médico pode ser inteiramente ignorante.

Este dado da cultura moderna levanta questões no âmbito da animação vocacional. Como articular um discurso que leve em conta a Tradição, onde se exige recorrer ao grande relato, quando a realidade é sempre mais particularizada e o ser humano só é capaz de falar a respeito de fatos particulares esparsos, às vezes, desconexos? Pensemos em dois âmbitos: a fé e a família. Como pensar a historicidade da fé e verbalizá-la de modo credível, quando só se valoriza o aqui e agora, o episódico e o efêmero? Como falar em História da Salvação para o indivíduo desinteressado de tudo quanto diga respeito à memória, à volta às raízes e à visão retrospectiva, pois lhe interessa apenas o presente e o que se diz no presente e do presente? Por outro lado, em termos de família, como tratar com um jovem sem histórico familiar, que mal conhece a mãe e a avó, que não tem histórias de família para contar? Como motivá-lo a se interessar pela história da congregação ou da obra em que atua? Como lidar com um jovem sem “memória”, que é só presente?
Entretanto, indivíduos submissos, passivos, sem cor, sem posição não servem para a VRC. Esta supõe pessoas maduras, capazes de questionar, sim, mas, também, capazes de se submeter às exigências da VRC e da Igreja, sem entrar em crise, nem, tampouco, sentir-se tolhidas ou subjugadas.

7. Do cristianismo ao pós-cristianismo e ao anti-cristianismo. Para uns a força e o vigor do cristianismo se esgotaram. Para outros, o cristianismo foi incapaz de contribuir para a criação de um mundo mais fraterno; antes, responsabilizam-no pelas mazelas com as quais a humanidade se defronta. Outros pensam que o cristianismo já realizou seu papel na história, sendo agora desnecessário. É como o sal que cumpriu a missão de salgar, no processo de diluir-se e desaparecer. Outros, ainda, reduzem o cristianismo a uma espécie de fenômeno cultural, do qual não tem como se safar, tão profundas foram as marcas deixadas na história do Ocidente. Em muitas famílias burguesas, os elementos religiosos foram banidos. Muitas crianças crescem totalmente à margem das referências religiosas. Quando adultas, não podem ser consideras ateias, agnósticas ou indiferentes. Simplesmente desconhecem a religião! Esta jamais entrou no horizonte de suas preocupações ou interesses. Quiçá tenham algum senso de humanitarismo ou sensibilidade diante do sofrimento e das carências dos semelhantes. Todavia, sem referência alguma a motivação religiosa. São neopagãos! Os valores cristãos são postos em xeque pelo pensamento light de corte epicurista (busca da felicidade, sem dor) e estoicista (a felicidade está em viver segundo os impulsos da natureza). Vivemos os tempos dos novos humanismos, onde os direitos humanos têm seu lugar, porém, com a exclusão de referências religiosas. Essa situação comporta uma antropologia de fundo, evidentemente, sem qualquer alusão à antropologia cristã.
Eis algumas questões que se levantam para quem deve orientar jovens na animação vocacional: como falar de vocação para jovens neopagãos, cuja visão da religião é demasiado fluída e, para quem, Deus é uma energia, uma força cósmica, não um ser pessoal? Como ajudar jovens com base religiosa e cristã precária? Por onde começar, no processo de ajudá-los na busca de sentido consistente para a vida? Que valores humanos poderiam ser-lhes propostos que pudessem incentivá-los a dar um passo firme na direção da fé? Como pensar uma formação cristã nesse contexto de pós-cristianismo?

8. Do dogmatismo à hermenêutica. A irrupção do pensamento hermenêutico gerou verdadeira revolução na concepção do ser humano. Doravante, tudo é passível de ser questionado, relativizado, destrinchado e analisado. E mais, re-dito ou, até mesmo, contra-dito ou des-dito! Já foi o tempo em que os ensinamentos da Igreja eram acatados com reverência e as palavras do sacerdote, inquestionáveis. No momento em que Deus foi colocado em questão, foi permitido ao ser humano questionar tudo mais. Nada escapa ao crivo questionador da razão humana. As verdades dogmáticas, os ensinamentos a serem obedecidos servilmente e as doutrinas veneráveis transmitidas através de gerações só existem nos livros. Na prática, serão ou não acolhidas depois de serem postas sob suspeita e reduzidas às dimensões do gosto ou do interesse do indivíduo.
Na animação vocacional, será preciso estar disposto a lidar com jovens que questionam tudo e não aceitam imposições. Eles questionam a congregação, a Igreja, a fé e até Deus. Quais são os limites para o questionamento? Como ajudá-los a se manterem nos limites da honestidade e da responsabilidade? E a entenderem que, chega um momento, onde será preciso obedecer, embora sem compreender cada detalhe do que é pedido? Como valorizar o indivíduo e a subjetividade sem cair na tentação do individualismo e do subjetivismo?

 9. Do cristianismo como moral ao cristianismo como estilo. Uma virada antropológica importante no âmbito do cristianismo, que tem a ver com o item anterior, diz respeito à nova concepção de cristianismo como estilo. Haverá quem vislumbre o perigo do relativismo nos meandros da nova concepção cristã de ser humano. Afinal, o estilo cristão será sempre de novo criado e re-criado, dependendo da situação concreta em que se encontra o cristão. O problema surge, quando o indivíduo relativiza certas verdades ancestrais, respaldadas pelas instituições ditas cristãs, e se lança na aventura de encontrar a maneira mais conveniente de viver a fé e de testemunhar a adesão a Jesus e ao Reino anunciado por ele. A ética tende a ser substituída pela estética.

Muitas questões podem ser levantadas no âmbito da animação vocacional. Existem critérios objetivos para se falar de estilo cristão de vida? Qual o papel a ser atribuído às Igrejas e às instituições cristãs na determinação do estilo cristão, para além da moral? O estilo cristão geraria cristãos autônomos, avessos a qualquer heteronomia? Que papel desempenha o projeto congregacional com suas determinações e exigências? Como pensar o projeto cristão sem deixá-lo à mercê dos indivíduos e seus gostos, por exemplo, no âmbito da moral sexual?

10. Da unidade ao pluralismo. Na modernidade, o pluralismo se torna uma exigência, desde o nível do consumo até às grandes decisões. Varietas delectat diziam os antigos. Mais que nunca o dito mostra-se verdadeiro. Num shopping, as pessoas têm o prazer de escolher entre as muitas marcas e grifes. No matrimônio, já não se contenta com ter um esposo. Com facilidade se abandona um para viver com outro. A estabilidade no emprego é coisa do passado. Os indivíduos passam de emprego em emprego, de firma em firma, sem se ater em nenhum. Igualmente sob o ponto de vista religioso, multiplicaram-se as igrejas e as propostas religiosas. A existência de uma igreja hegemônica já não satisfaz. Fidelidade, estabilidade, perpetuidade são palavras que não pertencem mais ao vocabulário de muita gente. Tudo deve ser plural e mutável!
Esta mentalidade incide, diretamente, sobre a VRC onde o tema da unidade é importante: uma congregação, uma província, um superior, uma comunidade, uma missão, um compromisso com os votos, um estilo de vida. Como propor o ideal de VRC a um jovem marcado por esta mentalidade do pluralismo? Como exigir fidelidade aos votos, a quem não a valoriza? Como exigir unidade de quem está habituado ao pluralismo cultural, social, religioso, sexual, étnico etc?

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Mais que em qualquer outra quadra da história, o ser humano vive processos múltiplos e simultâneos de mudança cultural. Este fenômeno antropológico inviabiliza a compreensão unitária do ser humano. É preciso fazer sucessivas análises inconclusivas, abertas e provisórias, sem a pretensão de chegar ao consenso. Quando, na animação vocacional, nos defrontamos com um jovem, temos diante de nós um ser carregado de mistérios e interrogações que nem eles mesmos estão em condições de compreender.
Nada disto deve nos bloquear na tarefa de propor o carisma da VRC aos jovens de nosso tempo. É grande o risco de sermos contaminados com o medo e a insegurança, a ponto de ficarmos bloqueados. Se não propomos nosso projeto de vida, não podemos nutrir a esperança de vislumbrar um futuro para nossas congregações.
A animação vocacional para a VRC exige atenção para dois pontos importantes:
– A adesão ao discipulado do Reino como opção por uma proposta objetiva, que não pode ser adaptada ao gosto e aos interesses das pessoas.
– A adesão a um projeto congregacional, com orientações objetivas, que não pode ser recriado ao sabor das mentalidades e dos modismos.
Urge refletir que os pobres a quem somos enviados estão, aí, à nossa espera. Enquanto discípulos do Reino não podemos cruzar os braços e capitular diante das dificuldades. O Pai continua a chamar operários para sua messe. E os chama dentre os jovens de hoje, com suas potencialidades e suas limitações.