1. A PRIMAZIA DA FORMAÇÃO ESPIRITUAL

A formação espiritual era a mais querida por São Vicente, de modo que os seminaristas deveriam orientar-se decididamente à vida interior, à oração, ao recolhimento e à união com Deus.

Em particular os estudantes deviam completar a formação recebida durante o Seminário Interno, conservando e amadurecendo o espírito ali praticado, cuidando de conciliar, com a aplicação ao estudo, fé e cultura, ciência e piedade. Em duas cartas dirigidas ao Padre Fermin Get, temporariamente no Seminário de Montpellier, reafirma essas idéias: “A principal finalidade que deveis buscar na educação dos eclesiásticos é formá-los na vida interior, na oração, no recolhimento e na união com Deus (…). Não se trata do trabalho de um dia, mas de muitos anos” (SV VII,503-504). “O que mais recomendo, em nome de Nosso Senhor, é que formeis vossos seminaristas na vida interior. Não carecerão de ciência se têm virtude, nem de virtude se se entregam à oração; se esta se faz bem e com fidelidade, ela os introduzirá, sem dúvida, na prática da mortificação, do desapego dos bens, do amor à obediência, do zelo pelas almas e em todas as outras obrigações” (SV VIII,8). E ainda a outro superior de Seminário: “Não vos faltarão nunca (seminaristas) se tendes cuidado de formá-los no verdadeiro espírito de seu estado, que essencialmente consiste na vida interior e na prática da oração e das virtudes. Porque não basta ensinar-lhes o canto, as cerimônias e um pouco de moral; a principal coisa é formá-los na sólida piedade e santidade” (SV IV,555).
Os distintos momentos, como: a oração pessoal, a oração mental – “segundo o método de nosso bem-aventurado pai Francisco de Sales” –, a celebração e adoração da Eucaristia, a prática do sacramento da Penitência, a leitura do Novo Testamento, da Imitação de Cristo e de outros livros espirituais constituíam a estrutura fundamental do edifício espiritual.

2. A PROGRESSIVA IDENTIFICAÇÃO COM CRISTO

Toda espiritualidade cristã tem Jesus Cristo como o seu ponto de partida e a fonte do seu dinamismo. Considerando os desafios do continente latino-americano e caribenho, a Conferência de Aparecida não deixou de ratificar o caráter fontal e decisivo do encontro com Cristo na experiência dos discípulos missionários. Ele, com efeito, é quem nos revela “o amor misericordioso do Pai e a vocação, dignidade e destino da pessoa humana” (DA 6). Por isso, “conhecer Jesus Cristo pela fé é nossa alegria; segui-lo é uma graça e transmitir este tesouro aos demais é uma tarefa que o Senhor nos confiou ao nos chamar e nos escolher” (DA 18). Na conformidade com Cristo, a vocação, a liberdade e a originalidade de cada pessoa são redescobertas como dons de Deus para o serviço do mundo, a defesa do direito dos mais fracos e a promoção da vida digna para todos (cf. DA 111-112).

Para São Vicente, Jesus Cristo constitui a vida de sua vida e a única pretensão do seu coração (cf. SV VI,562), o amor que nutre e fortalece (cf. SV VIII,15), a regra fundamental e primeira da Missão (cf. SV XII,130), “nossa mãe, nosso pai e nosso tudo” (SV V,534), “o modelo de todas as virtudes” (cf. SV VIII,231), ao qual devemos “conformar nossas ações” (SV XI,212). Continuar a missão de Jesus Cristo, enviado pelo Pai para evangelizar e servir aos pobres, é tarefa tanto dos Missionários quanto das Filhas da Caridade (cf. SV XII,80; SV IX,15). Segundo Vicente de Paulo, a vontade de Deus se manifesta na palavra e no agir de Jesus e sua realização consiste em conformar-se, o máximo possível, a ele, assimilando seus valores e atitudes para continuar sua obra salvífica. Servindo-se da imagem joanina da videira (cf. Jo 15,5), o fundador exorta os membros de sua Congregação: “Foi um grande favor que Deus concedeu a esta pequena e miserável Companhia, a felicidade de imitar Jesus Cristo. Como os ramos da videira unidos ao tronco, continuamos a missão de Jesus Cristo” (SV XI,344). Uma das mais eloqüentes exortações de Vicente, endereçada ao Padre Portail, seu companheiro da primeira hora, não nos permite duvidar da sua progressiva identificação com Cristo, cotidianamente aprofundada na contemplação e na ação: “Lembrai-vos, Padre, que vivemos em Jesus Cristo pela morte de Jesus Cristo e que havemos de morrer em Jesus Cristo pela vida de Jesus Cristo e que nossa vida deve estar oculta em Jesus Cristo e plena de Jesus Cristo e que, para morrer como Jesus Cristo, é necessário viver como Jesus Cristo” (SV I,295).

3. A CONFORMIDADE A Cristo: PROPOSTA FUNDAMENTAL DO DISCIPULADO

O percurso de São Vicente é balizado pelo Evangelho. Serve-se dele para expor suas convicções, confirmando sua fé e sua experiência. Nas Regras Comuns da Congregação da Missão (1658), fermentadas ao longo de 33 anos nos odres da Comunidade nascente, escreve o santo fundador: “Antes de tudo, procurará cada um fundamentar-se bem nesta verdade, que a doutrina de Cristo nunca pode enganar (…). Por isso, a Congregação professará agir sempre conforme as máximas de Cristo e nunca segundo as do mundo” (RC II,1). Na espiritualidade vicentina, revestir-se do espírito de Cristo, firmar-se em sua doutrina, imprimir no coração e expressar na vida seus valores, assimilar suas atitudes mais profundas, assumir como própria sua opção fundamental pelo Reino e nutrir-se do seu amor são as condições de possibilidade de qualquer empreendimento missionário. É o que diz Vicente de Paulo, em plena maturidade humana e espiritual, dirigindo-se aos Padres e Irmãos da Missão: “O propósito da Companhia é imitar Nosso Senhor, na medida em que podem fazê-lo pessoas pobres e ruins. Que quer dizer isso? Que ela se propõe conformar-se a ele em seu comportamento, em suas ações, em suas tarefas e em seus fins. Como pode uma pessoa representar outra, se não tem as mesmas características, os mesmos traços, as mesmas proporções, modos e forma de ver? É impossível. Portanto, se nos propusemos fazer-nos semelhantes a este divino modelo e sentimos em nossos corações este desejo e esta santa afeição, é necessário procurar conformar nossos pensamentos, nossas obras e nossas intenções às suas” (SV XII,75).

4. PARTICIPAR DA PRÓPRIA VIDA DE JESUS

O chamado que Jesus Mestre faz, implica uma grande novidade. Na antiguidade, os mestres convidavam seus discípulos a se vincular com algo transcendente e os mestres da   Lei
propunham a adesão à Lei de Moisés. Jesus convida a nos encontrar com Ele e a que nos vinculemos estreitamente a Ele, porque é a fonte da vida (cf. Jo 15,1-5) e só Ele tem palavras de vida eterna (cf. Jo 6,68). Na convivência cotidiana com Jesus e na confrontação com os seguidores de outros mestres, os discípulos logo descobrem duas coisas bem originais no relacionamento com Jesus. Por um lado, não foram eles que escolheram seu mestre, foi Cristo quem os escolheu. E por outro lado, eles não foram convocados para algo (purificar-se, aprender a Lei…), mas para Alguém, escolhidos para se vincularem intimamente à pessoa dele (cf. Mc 1,17; 2,14). Jesus os escolheu para “que estivessem com Ele e para enviá-los a pregar” (Mc 3,14), para que o seguissem com a finalidade de “ser dele” e fazer parte “dos seus” e participar de sua missão. O discípulo experimenta que a vinculação íntima com Jesus no grupo dos seus é participação da Vida saída das entranhas do Pai, é formar-se para assumir seu estilo de vida e suas motivações (cf. Lc 6,40b), correr sua mesma sorte e assumir sua missão de fazer novas todas as coisas.

A grande novidade que a Igreja anuncia ao mundo é que Jesus Cristo, o Filho de Deus feito homem, a Palavra e a Vida, veio ao mundo para nos fazer “participantes da natureza divina” (2 Pd 1,4), para que participemos de sua própria vida. É a vida trinitária do Pai, do Filho e do Espírito Santo, a vida eterna. Sua missão é manifestar o imenso amor do Pai, o qual quer que sejamos seus filhos. O anúncio do querigma convida a tomar consciência desse amor vivificador de Deus que nos é oferecido em Cristo morto e ressuscitado. Isso é o que por primeiro necessitamos anunciar e também escutar, porque a graça tem primado
absoluto na vida cristã e em toda a atividade evangelizadora da Igreja: “Pela graça de Deus sou o que sou” (1 Cor 15,10).

5.  A VINCULAÇÃO A JESUS NA QUALIDADE DE AMIGO E IRMÃO

Com a parábola da Videira e dos Ramos (cf. Jo 15,1-8), Jesus revela o tipo de vínculo que Ele oferece e que espera dos seus. Não quer um vínculo como “servos” (cf. Jo 8,33-36), porque “o servo não conhece o que seu senhor faz” (Jo 15,15). O servo não tem entrada na casa de seu amo, muito menos em sua vida. Jesus quer que seu discípulo se vincule a Ele como “amigo” e como “irmão”. O “amigo” ingressa em sua Vida, fazendo-a própria. O amigo escuta a Jesus, conhece ao Pai e faz fluir sua Vida (Jesus Cristo) na própria existência (cf. Jo 15,14), marcando o relacionamento com todos (cf. Jo 15,12). O “irmão” de Jesus (cf. Jo 20,17) participa da vida do Ressuscitado, Filho do Pai celestial, porque Jesus e seu discípulo compartilham a mesma vida que procede do Pai: o próprio Jesus, por natureza (cf. Jo5,26; 10,30) e o discípulo por participação (cf. Jo 10,10). A conseqüência imediata desse tipo de vínculo é a condição de irmãos que os membros de sua comunidade adquirem.

Jesus faz dos discípulos seus familiares, porque compartilha com eles a mesma vida que procede do Pai e lhes pede, como discípulos, uma união íntima com Ele, obediência à Palavra do Pai, para produzirem frutos de amor em abundância. Desta forma o testemunha São João no prólogo de seu Evangelho: “A todos aqueles que crêem em seu nome, deu-lhes a capacidade de serem filhos de Deus”, e são filhos de Deus que “não nascem por via de geração humana, nem porque o homem o deseje, mas sim nascem de Deus” (Jo 1,12-13).

6. A LIVRE CORRESPONDÊNCIA AO AMOR GRATUITAMENTE OFERECIDO

A admiração pela pessoa de Jesus, seu chamado e seu olhar de amor despertam uma resposta consciente e livre desde o mais íntimo do coração do discípulo, uma adesão a toda a sua pessoa ao saber que Cristo o chama pelo nome (cf. Jo 10,3). É um “sim” que compromete radicalmente a liberdade do discípulo a se entregar a Jesus, Caminho, Verdade e Vida (cf. Jo 14,6). É uma resposta de amor a quem o amou primeiro “até o extremo” (cf. Jo 13,1). A resposta do discípulo amadurece neste amor de Jesus: “Eu te seguirei por onde quer que vás” (Lc 9,57).

O Espírito Santo, que o Pai nos presenteia, identificamos com Jesus-Caminho, abrindo-nos a seu mistério de salvação para que sejamos filhos seus e irmãos uns dos outros; identifica-nos com Jesus-Verdade, ensinando-nos a renunciar a nossas mentiras e ambições pessoais; e nos identifica com Jesus-Vida, permitindo-nos abraçar seu plano de amor e nos entregar para que outros “tenham vida nele”.

A própria natureza do cristianismo consiste, portanto, em reconhecer a presença de Jesus Cristo e segui-lo. Essa foi a maravilhosa experiência daqueles primeiros discípulos que, encontrando Jesus, ficaram fascinados e cheios de assombro frente à excepcionalidade de quem lhes falava, diante da maneira como os tratava, coincidindo com a fome e sede de vida que havia em seus corações. O evangelista João nos deixou plasmado o impacto que a pessoa de Jesus produziu nos primeiros discípulos que o encontraram, João e André. Tudo começa com uma pergunta: “O que procuram?” (Jo 1,38). A essa pergunta seguiu o convite a viver uma experiência: “Venham e verão” (Jo 1,39). Essa narração permanecerá na história como síntese única do método cristão.

Em íntima união com Jesus Cristo, Verbo encarnado na pobreza de nossa humanidade, revestido do seu espírito e impregnado dos seus sentimentos, Vicente de Paulo procurará percorrer o caminho da santidade na busca incansável da vontade de Deus, no esforço cotidiano de superação dos seus próprios limites e no dom total de si mesmo aos menores dos irmãos de Jesus. Ser santo, para ele, consiste fundamentalmente em “fazer a vontade de Deus em todas as coisas”, como escreveu, certa vez, a Luísa de Marillac (SV II,36). E a quem pretendesse se eximir da livre correspondência a essa graça comprometedora, repetiria o Padre Vicente: “Se quisermos, poderemos fazer sempre a vontade do Pai. Oh! Que felicidade fazer sempre e em todas as coisas a vontade de Deus! Não é fazer o que veio fazer na terra o Filho de Deus? (…). O Filho de Deus veio evangelizar os pobres. Nós, Padres, não somos enviados para fazer a mesma coisa? Sim, os Missionários são enviados para evangelizar os pobres. Oh! Que felicidade! Fazer na terra o mesmo que fez Nosso Senhor” (SV XI,315). — [VT, 23]

7. A FÉ INABALÁVEL NA PROVIDÊNCIA DIVINA

Sob a orientação de seus mestres espirituais, mantendo os olhos fixos no Senhor (cf. Hb 3,1), Vicente seguirá o seu caminho, impregnando-se sempre mais do espírito de Cristo, através de duas atitudes fundamentais (cf. SV IV,393): o amor e a reverência para com o Pai, contemplando Jesus como aquele que não encontrava satisfação em outra coisa a não ser no cumprimento fiel da vontade daquele que o enviou (cf. SV XII,164); e a caridade compassiva e operosa para com os pobres, sem a qual nos desumanizaríamos (cf. SV XII,261) e não poderíamos amar a Deus concretamente (cf. SV XII,261). A esses dois princípios estruturantes da espiritualidade vicentina, vincula-se a docilidade para com a Divina Providência que, no sentir de Vicente, tem até mesmo feições maternas: “Devemos ter, pois, a mesma confiança na Divina Providência, vendo como toma conta de tudo o que nos diz respeito, como uma mãe toma conta do seu menino” (SV X,503). Ao longo de sua vida, São Vicente deixou-se fascinar pela proximidade do Senhor. Sabia que um olhar providencial de Deus velava por ele, por suas fundações e, sobretudo, pelos mais pobres. Essa experiência fortalecia sua fé, confirmava sua vocação e rejuvenescia seu empenho missionário. “A graça tem seus momentos”, gostava de dizer (SV II,453). Ele se mostrava intimamente convencido de que Deus caminha conosco (cf. SV II,226) e “suas verdades jamais enganam” (SV IX,240). Vicente fala da Providência com muita freqüência. Diz a Luísa de Marillac: “Siga a ordem da Providência. Oh, como é acertado deixarmo-nos guiar por ela!” (SV I,241). Ele tem uma compreensão concreta e prática do amor de Deus, cuja vontade buscava em seu cotidiano e acolhia nos acontecimentos, seguindo-a passo a passo, com confiança e familiaridade, para colocar-se em suas mãos como instrumento de sua predileção pelos pobres.

8. A VIDA DE ORAÇÃO

Como resposta às exigências da evangelização, junto com as comunidades eclesiais de base, existem outras formas válidas de pequenas comunidades, inclusive redes de comunida-
des, de movimentos, grupos de vida, de oração e de reflexão da palavra de Deus. Todas as comunidades e grupos eclesiais darão fruto na medida em que a Eucaristia for o centro de sua vida e a Palavra de Deus for o farol de seu caminho e de sua atuação na única Igreja de Cristo.

A oração pessoal e comunitária é o lugar onde o discípulo, alimentado pela Palavra e pela Eucaristia, cultiva uma relação de profunda amizade com Jesus Cristo e procura assumir a vontade do Pai. A oração diária é sinal do primado da graça no caminho do discípulo missionário. Por isso, “é necessário aprender a orar, voltando sempre a aprender essa arte dos lábios do Mestre”.
Numa visão de fé, a oração entra na dinâmica da formação como pilar básico. O encontro pessoal e comunitário com Deus exige tempo, disponibilidade, entrega, sacrifício, concentração, escuta generosa do Pai, a exemplo de Jesus.
Aliar-se-ão, de modo fecundo e equilibrado, a dimensão pessoal e a comunitária, pois  o mesmo Senhor que manda orar ao Pai em segredo (cf. Mt 6, 6) pede aos discípulos que orem com ele, no instante do decisivo desafio de sua fidelidade à missão recebida do Pai (Lc 22, 29; Mt 26, 40-41).

9. NÃO HÁ DISCIPULADO SEM COMUNIDADE

Diante do subjetivismo hedonista, Jesus propõe entregar a vida para ganhá-la, porque “quem aprecia sua vida terrena, a perderá” (Jo 12,25). É próprio do discípulo de Jesus gastar a vida como sal da terra e luz do mundo. Diante do individualismo, Jesus convoca a viver e caminhar juntos. A vida cristã só se aprofunda e se desenvolve na comunhão fraterna. Jesus nos diz: “Um é o seu Mestre, e todos vocês são irmãos” (Mt 23,8). Diante da despersonalização, Jesus ajuda a construir identidades integradas.

A vocação ao discipulado missionário é con-vocação à comunhão em sua Igreja.. Não há discipulado sem comunhão. Diante da tentação, muito presente na cultura atual, de ser cristãos sem Igreja e das novas buscas espirituais individualistas, afirmamos que a fé em Jesus Cristo nos chegou através da comunidade eclesial e ela “nos dá uma família, a família universal de Deus na Igreja Católica. A fé nos liberta do isolamento do eu, porque nos conduz à comunhão”. Isso significa que uma dimensão constitutiva do acontecimento cristão é o fato de pertencer a uma comunidade concreta na qual podemos viver uma experiência permanente de discipulado e de comunhão com os sucessores dos Apóstolos e com o Papa.

A vida em comunidade é essencial à vocação cristã. O discipulado e a missão sempre supõem a pertença a uma comunidade. Deus não quis salvar-nos isoladamente, mas formando um Povo. Este é um aspecto que distingue a experiência da vocação cristã de um simples sentimento religioso individual. Por isso, a experiência de fé é sempre vivida em uma Igreja Particular.

A condição do discípulo brota de Jesus Cristo como de sua fonte, pela fé e pelo batismo, e cresce na Igreja, comunidade onde todos os seus membros adquirem igual dignidade e participam de diversos ministérios e carismas. Desse modo, realiza-se na Igreja a forma própria e específica de viver a santidade batismal a serviço do Reino de Deus.

A dimensão comunitária é intrínseca ao mistério e à realidade da Igreja que deve refletir a Santíssima Trindade. Essa dimensão especial tem sido vivida de diversas maneiras ao longo dos séculos. A Igreja é comunhão. As Paróquias são células vivas da Igreja e lugares privilegiados em que a maioria dos fiéis tem uma experiência concreta de Cristo e de sua Igreja. Encerram inesgotável riqueza comunitária porque nelas se encontra imensa variedade de situações, idades e tarefas. Sobretudo hoje, quando as crises da vida familiar afeta a tantas crianças e jovens, as Paróquias oferecem espaço comunitário para se formar na fé e crescer comunitariamente.

10. MÍSTICA E ASCESE

A espiritualidade cristã possui duas dimensões inseparáveis: a mística e a ascese. A Trindade vem ao nosso encontro, se revela à humanidade e toma a iniciativa de nos chamar, amando-nos por primeiro. Ela “bate à porta” da nossa liberdade, da nossa vida. Mas porque esse movimento divino é um              gesto respeitoso da nossa liberdade, a Trindade espera a nossa resposta e não nos força e não nos impõe nada. Deixa à pessoa a liberdade de abrir a porta do coração (cf. Ap 3,20).

Assim, a mística pode ser entendida como experiência maravilhosa e bonita do amor divino, do amor gratuito, da graça que nos amou primeiro. É a experiência da beleza, do encanto e da graça. A experiência de profunda comunhão com o mistério trinitário que nos envolve e nos fascina. É algo que toca a totalidade da pessoa e toda as realidades a ela relacionadas.

Sendo um encontro de pessoas, um apelo à liberdade humana, a experiência do amor divino tem necessidade de um esforço, da ascese. Só é possível progredir na relação com a Trindade, por meio do seguimento de Jesus, através de uma acolhida generosa da proposta divina. Tal esforço muitas vezes pode significar também rupturas corajosas (cf. Mt 5,29-30), renúncias (cf. Mc 8,34-38) e busca de consolidação da própria vocação (cf. 2Pd 2,3-11).

Não se trata, é claro, de atitudes e comportamentos que aniquilam e escravizam a pessoa humana, mas de um jeito humano de acolher o mistério. Mesmo que para tanto seja necessário se esforçar e lutar para vencer os obstáculos e eliminar as possíveis barreiras que são colocadas pela nossa condição de pessoas pecadoras e frágeis. Podemos estão afirmar que fazem parte da ascese cristã a vigilância, a revisão de vida, o autocontrole, a abnegação, a renúncia, o equilíbrio nas relações interpessoais, a disciplina, a luta, o combate, a aceitação do mistério da cruz.

Esta dimensão da ascese é muito delicada, uma vez que hoje a cultura pós-moderna (caracterizada pelo imediatismo, pelo relativismo, pelo individualismo, pela busca da satisfação imediata de toda forma de prazer, pela ética utilitarista, pela ausência de limites) tende a rejeitar tudo aquilo que pode significar ruptura, esforço e renúncia. No âmbito da animação vocacional isso deve merecer uma especial atenção.

11. O PROCESSO DE FORMAÇÃO

1. Formação é um processo contínuo, dinâmico, progressivo, gradual e integral de amadurecimento e desenvolvimento pessoal e comunitário, que se realiza dentro de um contexto histórico, à luz da fé e do compromisso batismal, mediante a ajuda de pessoas, instituições, ambientes e atividades. Enquanto processo, a formação estimula a sentir, cada dia mais exigente, a opção por Deus, em resposta a seus apelos. Em cada ato, Cristo nos chama à Ressurreição.
2. No processo de formação, os indivíduos, como pessoas e sujeitos, livremente, experimentam, escolhem, assumem e assimilam valores, critérios de ação e modos de agir, próprios do carisma e da missão vicentina de serviço aos Pobres, a serem realizados dentro de uma comunidade consagrada. Por isso, precisam de formação para a doação, no serviço fraterno aos outros.
3. Nosso processo de formação é dialético: não separa, mas integra, harmoniosamente, oração e ação, fé e vida, assim como as várias etapas, conteúdos, instâncias e agentes, num movimento de interação e complementaridade cada vez mais fecundo e enriquecedor.

12. O ASPECTO ÉTICO-PESSOAL DA FORMAÇÃO

A formação capacitará para agir com lucidez, isto é, com consciência crítica e reto discernimento das razões e motivos de nossas ações. Isto não exclui a paixão sadia e o entusiasmo fecundo, mas apenas a inconsciência alienante e a impulsividade perturbadora do juízo. A visão lúcida e o juízo sadio ajudam a situar-nos dentro das contradições e ideologias em luta, em nosso mundo capitalista idolátrico, e a orientar nossa linha de ação pastoral.

É preciso empenho para assimilar os valores morais fundamentais, como a verdade, a fidelidade, a transparência nas palavras e atitudes, a honestidade e firmeza de caráter, a coerência no comportamento pessoal e comunitário, a sinceridade, a justiça e a solidariedade, especialmente com os oprimidos. Tudo isso, aliado à misericórdia, à ternura, à bondade, à delicadeza de sentimentos, à gratidão, à generosidade, à educação, à fineza, à cordialidade e ao bom humor no trato com as pessoas, ao acolhimento e à partilha, dará credibilidade à nossa vida e ao nosso agir humano.

A formação capacita para o sacrifício e a renúncia, na linha evangélica do assumir a Cruz, dentro da perspectiva positiva e fecunda do seguimento de Jesus Cristo, com decisão e alegria. A aceitação de si mesmo é fundamental para o crescimento humano e é ponto de partida para assumir a própria identidade e abrir-se aos outros. Aceitar seu próprio corpo, marcado como Templo de Deus no Batismo, seu caráter, com suas aptidões e seus limites. Aceitar suas raízes familiares, com suas riquezas e deficiências, e sua própria afetividade e sexualidade.

13. O ASPECTO AFETIVO DA FORMAÇÃO

A maturação psico-afetiva é uma construção progressiva, em que interagem a ação de Deus e a liberdade humana. Os Formadores a acompanhem diligentemente, em clima de abertura e confiança mútua, não só valendo-se oportunamente da colaboração de pedagogos, psicólogos e outros especialistas de comprovada idoneidade, competência e orientação cristã, mas também capacitando-se, assim como os seus colaboradores, a fim de melhor cumprirem os seus ofícios.

Com naturalidade e equilíbrio, as manifestações da afetividade, no Formando para a vida consagrada, devem adquirir, com a graça de Deus e o esforço pessoal de cada um, orientação e sentido próprios, com irrecusáveis e coerentes renúncias, mas sobretudo com generoso e alegre aprofundamento de seu significado na perspectiva do Reino.

Com efeito, as energias afetivas e sexuais, em seus distintos níveis e dimensões, não são cerceadas, mas colocadas em um processo de integração, à luz do projeto de vida pelo qual o Formando amadurece sua opção. Assim, a abertura à amizade franca e sincera, o relacionamento sadio e espontâneo com os companheiros e as outras pessoas, homens e mulheres, jovens e crianças, nos ajudarão na integração serena e equilibrada de nossa vida afetiva.

A fidelidade nesta área, se é fruto de esforço e ascese pessoal, é também fonte de profunda paz e alegria. Acompanhada do compromisso social com as grandes causas da humanidade, especialmente com a causa da justiça no mundo, com as lutas transformadoras e os movimentos de libertação dos oprimidos, dentro da inspiração evangélica, a fidelidade será geradora de inestimável enriquecimento e fecundidade humana, espiritual e comunitária.

14. A FORMAÇÃO INTELECTUAL

“A preparação intelectual é uma dimensão insubstituível da formação. A organização das matérias de estudo e a seriedade científica deverão contribuir para harmonizar as atitudes próprias da vida consagrada”. Uma formação intelectual sólida e adequada supõe o cultivo dos dons pessoais, também dos dons artísticos e práticos, como desenvolvimento da pessoa e capacitação para os diversos ministérios da Missão, na perspectiva pastoral de melhor servir os Pobres: santos e sábios Missionários são o tesouro da Companhia (cf. SV XI, 126).

A capacitação sólida e necessária para um efetivo serviço missionário exige de nós, hoje, em nosso contexto de Brasil, criatividade e busca de formas alternativas para respondermos, sem prejuízo da boa formação intelectual, às novas circunstâncias e exigências de onde emergem as vocações.

A formação intelectual para nós, vicentinos da América Latina e do Brasil, exige a análise séria das causas da pobreza, da injustiça e da violência, e não se pode efetivar sem ligação orgânica com o mundo dos Pobres, com seus anseios e suas lutas. Recebe deles as prioridades fundamentais, o conteúdo de suas reais exigências e reflete sobre elas, à luz da fé e da razão humana (cf. CC 12, 2).

A crescente complexidade dos problemas do nosso mundo e da ciência moderna exige que os estudos atuais dos Missionários vicentinos sejam programados e se realizem com um forte caráter de interdisciplinaridade e que se entreguem sem reservas ao estudo sério, exigente, que lhes será indispensável para “ler os sinais dos tempos” e ser capazes de aplicar-lhes a solução mais adequada. Alcançarão isto apenas aqueles que conseguirem uma profunda visão da realidade pela reflexão pessoal sobre a experiência do homem no mundo, em especial a da realidade dos Pobres e de sua confrontação com a realidade transcendental de Deus.

Enfim, lembremo-nos de que a primeira exigência da formação é poder encontrar na pessoa uma base humana e cristã.  A existência desta base humana e cristã não só deve ser verificada na ocasião da entrada na vida consagrada, como também deve assegurar as avaliações ao longo de todo o ciclo da formação, em função da evolução das pessoas e dos acontecimentos.

A formação intelectual se regulava por princípios e normas aos quais o superior da Casa, os professores e os estudante deviam prestar muita atenção. Davam-se aos estudantes uma série de preciosos conselhos: Em primeiro lugar, que pedissem à Sabedoria Divina que os instruísse; que lessem livros – escolhendo-os com cuidado e discernimento – e, sobretudo, que refletissem sobre o lido; que estudassem sistematicamente com certo método, que previssem e preparassem globalmente a lição que seria dada em aula; finalmente, que conjugassem o exercício da memória com o juízo crítico. Estas eram as disposições que deviam ter no estudo para tirar o máximo proveito, de modo que se traduzisse em um estilo de vida.

15. O ASPECTO COMUNITÁRIO DA FORMAÇÃO

A Comunidade é o lugar natural do desabrochar da pessoa, que não pode desenvolver as promessas e virtualidades inscritas em seu coração, a não ser numa vida relacional. Nela se aprendem o diálogo e o respeito ao outro, testa-se a capacidade de abertura e de aceitação do diferente, de integração no grupo sem sacrifício da própria originalidade, aliam-se o espírito de iniciativa e a criatividade inovadora com a fidelidade ao patrimônio vivo recebido daqueles que nos precederam. A Comunidade transforma, ajuda, desafia, interpela, exige e abre possibilidades. Nela partilhamos ideais, lutas, dificuldades e experiências e comunicamos esperanças e vitórias.

Na Província a Comunidade Local é o espaço vital onde o Formando aprende a viver sua pertença apostólica e afetiva à Congregação da Missão. O senso de pertença cresce com a vitalidade da Comunidade em que está inserido. Nela aprenderá a expressão característica do modo próprio de proceder, crescerá na consciência da missão, de sentir-se enviado pela mediação da Congregação e em comunhão com os outros Missionários como missão que envolve toda a vida.

A comunidade para nós é mais do que mero fenômeno natural e sociológico ou simples exigência de eficácia organizativa; é valor religioso, é lugar de fé, é dom do Espírito que comunica seus dons a todas as pessoas para o bem comum (cf. 1Cor 12, 7), e que dá a todos um só coração e uma só alma (At 4, 32) em favor da evangelização dos Pobres.

Esforçar-se para que reine na comunidade um clima de respeito, confiança, amor e estima pessoal, amizade por cada membro da Comunidade e pela Comunidade como um todo.

A atividade apostólica e missionária é a fonte alimentadora de nossa vida comunitária. É preciso insistir também na importância da vida comunitária como testemunho de nossa vocação, de nossa missão e de nossa realidade multicultural.  Acrescente-se ainda que o tempo do Seminário Maior é, por excelência, o tempo do aprendizado da vida comunitária, em vista da missão.

16. O ASPECTO COMUNITÁRIO DA FORMAÇÃO

A formação espiritual tem por objetivo levar o candidato, sob a inspiração da graça e com a colaboração de sua liberdade pessoal, a uma abertura crescente à ação do Espírito de Jesus, de modo a se deixar conduzir cada vez mais por Ele, por seu estilo de vida e pelos valores que viveu e pregou, buscando:

a.    Realizar a condição de filhos de Deus (cf. Rm 8, 14-21; Gl 3, 26, 4, 4-7) .

b.    Atingir a plenitude do amor do Pai, revelado em Jesus Cristo e derramado em nossos corações pelo Espírito Santo que nos foi dado (Rm 5, 5).

c.    Deixar-nos interpelar pela realidade dos Empobrecidos e abrir-nos para o potencial evangélico, o apelo contemplativo e a exigência de seguimento do Senhor, Evangelizador e Servidor dos Pobres, embutidos na experiência desta realidade a partir da fé.

Desenvolver o espírito e a prática da oração, alimentada na contemplação de Jesus, missionário orante, modelo de contemplação ativa, que alternava, com misteriosa e inspiradora naturalidade, momentos de oração, a sós, com o Pai, e tempos de ação junto aos irmãos.

17. OBJETIVO DA FORMAÇÃO APOSTÓLICA

O objetivo da formação apostólica de nossos candidatos à Congregação é ajudá-los a se identificar com Jesus, Pastor, Sacerdote, Missionário e Evangelizador dos Pobres, de maneira viva e atual, para uma missão que não conhece fronteiras.

18. A MÍSTICA DO AMOR À FAMÍLIA RELIGIOSA VICENTINA

Aplicar-nos ao conhecimento aprofundado, afetivo e crítico de São Vicente, de sua vida, de suas obras e de seus escritos e do tesouro das Regras Comuns. Interessar-nos por tudo o  que nasceu de seu espírito e inspiração, pela história da Congregação e  da Província, pelas Constituições e Estatutos, pelas Normas Provinciais. Tudo, segundo o planejamento de cada etapa.

A mística do amor à Congregação, nossa mãe, mesmo que mais pobre e menos bela que as outras (cf. RC XII, 10), será um estímulo ao esforço alegre e generoso pela formação vicentina. A solicitude para com os pobres é a graça por excelência das Comunidades Vicentinas: “Ah, minhas filhas! Se soubésseis da graça que é servir aos pobres, ser chamado por Deus para isso(…). Quando uma boa Filha da Caridade entrega toda a sua vida ao serviço de Deus, tendo deixado tudo e sem ter no mundo nada por ela, nem pai, nem mãe, nem bens, nem posses, nem conhecimentos, senão sobre Deus e para Deus; temos grande motivo para crer que essa Filha será feliz um dia” (SV X,337). Trata-se, pois, de um dom empenhativo, cujo acolhimento se dá mediante a correspondência humilde, criativa e entusiasta da liberdade humana: “Vamos, pois, meus irmãos, e trabalhemos com um amor renovado no serviço dos pobres. Busquemos também os mais abandonados, reconhecendo diante de Deus que eles são nossos amos e senhores e que somos indignos de lhes prestar nossos humildes serviços” (SV XI,273). — [VT, 28]

19. SEGUIR JESUS, O BOM PASTOR

Jesus, o Bom Pastor, quer comunicar-nos a sua vida e colocar-se a serviço da vida. Vemos como ele se aproxima do cego no caminho (cf. Mc 10,46-52), quando dignifica a samaritana (cf. Jo 4,7-26), quando cura os enfermos (cf. Mt 11,2-6), quando alimenta o povo faminto (cf. Mc 6,30-44), quando liberta os endemoninhados (cf. Mc 5,1-20). Em seu Reino de vida, Jesus inclui a todos: come e bebe com os pecadores (cf. Mc 2,16), sem se importar que o tratem como comilão e bêbado (cf. Mt 11,19); toca com as mãos os leprosos (cf. Lc 5,13), deixa que uma prostituta lhe unja os pés (cf. Lc 7,36-50) e, de noite, recebe Nicodemos para convidá-lo a nascer de novo (cf. Jo 3,1-15). Igualmente, convida seus discípulos à reconciliação (cf. Mt 5,24), ao amor pelos inimigos (cf. Mt 5,44) e a optarem pelos mais pobres (cf. Lc 14,15-24).

O Senhor nos chama a promover por todos os meios a caridade e a santidade dos fiéis. Empenhamo-nos para que o povo de Deus cresça na graça mediante os sacramentos presididos por nós mesmos e pelos demais ministros ordenados. Somos chamados a ser mestres da fé e, portanto, a anunciar a Boa Nova, que é fonte de esperança para todos, e a velar e promover com solicitude e coragem a fé católica. Em virtude da íntima fraternidade que provém do sacramento da Ordem, temos o dever de cultivar de maneira especial os vínculos que nos unem a nossos presbíteros e diáconos. Servimos a Cristo e à Igreja mediante o discernimento da vontade do Pai, para refletir o Senhor em nosso modo de pensar, de sentir, de falar e de se comportar em meio aos homens. Em síntese, os bispos têm de ser testemunhas próximas e alegres de Jesus Cristo, Bom Pastor (cf. Jo 10,1-18).

O presbítero, à imagem do Bom Pastor, é chamado a ser homem de misericórdia e compaixão, próximo a seu povo e servidor de todos, particularmente dos que sofrem grandes necessidades. A caridade pastoral, fonte da espiritualidade sacerdotal, anima e unifica sua vida e ministério. Consciente de suas limitações, ele valoriza a pastoral orgânica e se insere com gosto em seu presbitério.

20. NO MOVIMENTO DA MISERICÓRDIA, AMAR MISERICORDIOSAMENTE

O que Vicente de Paulo propõe aos seus, portanto, é um verdadeiro itinerário de humanização, cujas sendas ele mesmo percorreu ao longo da sua vida. Tal itinerário passa necessariamente pelas encostas do mundo, onde a vida se encontra ferida e a dignidade humana vilipendiada: “Como?! Ser cristão e ver seu irmão sofrendo sem chorar com ele? Sem ficar doente com ele? É não ter caridade; é ser cristão de fachada; é não ser humano, é ser pior que os animais” (SV XII,271). Trata-se, então, de entrar no movimento da misericórdia, à luz do exemplo do samaritano (cf. Lc 10,33-35), como explicita São Vicente: “Quando vamos ver os pobres, devemos entrar em seus sentimentos para sofrer com eles e colocar-nos nas disposições daquele grande apóstolo que dizia: ‘Omnibus omnia factus sum’ (1Cor 9,22), fiz-me tudo para todos (…). Para isso, é preciso empenhar-nos em enternecer nossos corações e torná-los sensíveis aos sofrimentos e misérias do próximo, pedindo a Deus que nos dê o verdadeiro espírito de misericórdia, que é o espírito próprio de Deus” (SV XI,340-341). Na perspectiva vicentina, santidade é participação na vida do Deus de Jesus, cujo coração, sempre inclinado sobre os pequenos e pobres, se compraz unicamente em amar misericordiosamente. “Ó Salvador! Ó meus irmãos! Quão felizes somos nós por nos acharmos no caminho da perfeição! Salvador, dai-nos a graça de caminhar direito por ele e de caminhar sem desanimar” (SV XII,77).

21. AS CINCO “VIRTUDES VICENTINAS”

O eixo vicentino integra as cinco virtudes inspiradas na dedicação do Bom Pastor, tão caras ao coração de São Vicente e que nele adquirem, além do caráter de moldura do coração, uma fisionomia nitidamente missionária, faculdades da alma, princípio dinâmico de nossos ministérios junto aos Pobres (cf. RC II, 14; XII, 12): A simplicidade de coração, manifestada nas atitudes e palavras (cf. RC II, 14), de modo a sermos escutados e entendidos pelos Pobres: eles ouvirão a minha voz (cf. Jo 10, 3; RC XII, 5). A humildade de quem se identifica com os pequeninos (cf. RC II, 4), procura as ovelhas e se coloca como servidor delas (cf. Mc 10, 45). A mortificação, como libertação das amarras interiores, em ordem a uma vida simples e austera, que nos leva a assumir com alegria todas as exigências do trabalho junto aos Pobres, até mesmo o dar a vida pelas ovelhas (cf. Jo 10, 11; SV XII, 307). A mansidão, que ganha os corações e nos aproxima das pessoas simples e rudes, lentas e ignorantes (cf. SV XII, 305), pois não há pessoas mais constantes, mais firmes no bem do que os mansos e pacíficos (SV XI, 752). O zelo missionário inventivo e criativo, a ponto de nos desdobrarmos e nos comprometermos com a salvação e libertação integral de nosso povo pobre, impelidos pelo mais profundo amor,  de que o zelo é a chama (SV XII, 307), a exemplo do Senhor que deixa as noventa e nove ovelhas no aprisco e vai em busca da que se desgarrou (cf. Mt 18, 12).
Estudar, meditar e discernir, à luz das palavras de nosso Fundador e da inspiração do Espírito para os tempos atuais, as cinco virtudes vicentinas da simplicidade, humildade, mansidão, mortificação e zelo. Essas virtudes, que têm uma orientação missionária, são a fonte das atitudes que Jesus Cristo teve para com o Pai e os Pobres. São virtudes que não só aperfeiçoam o missionário, mas também o dispõem para ser verdadeiro evangelizador dos Pobres.

22. A VIRTUDE BÁSICA DA HUMILDADE

O ideal, para São Vicente, era “um homem verdadeiramente sábio e verdadeiramente humilde” (SV XI,51). Essa era a razão de sua estima por André Duval, que era “muito culto e, ao mesmo tempo, humilde e muito simples” (SV XI,74); pelo Cardeal Pierre de Bérulle, que unia cultura e santidade de vida; e, ainda mais, por Francisco de Sales, que anunciava o Evangelho, servindo-se também de seus escritos.

1. “Não te importes muito de saber quem seja por ti ou contra ti; mas trata e procura que Deus seja contigo em tudo que fizeres. Tenha boa consciência e Deus te defenderá, pois a quem Deus ajuda não há maldade que o possa prejudicar. Se souberes calar e sofrer, verás, sem dúvida, o socorro do Senhor. Ele sabe o tempo e o modo de te livrar; portanto, entrega-te todo a Ele. A Deus pertence aliviar-nos e tirar-nos de toda a confusão. Às vezes é muito útil, para melhor conservarmos a humildade, que os outros saibam os nossos defeitos e no-los repreendam.

2. Quando o homem se humilha por seus defeitos, aplaca facilmente os outros e satisfaz os que estão irados contra ele. Ao humilde Deus protege e salva, ao humilde ama e consola, ao humilde ele se inclina, dá-lhe abundantes graças e depois do abatimento o levanta a grande honra. Ao humilde revela seus segredos e com doçura a si o atrai e convida. O humilde, ao sofrer afrontas, conserva sua paz, porque confia em Deus e não no mundo. Não julgues ter feito progresso algum, enquanto te não reconheças inferior a todos.