5ª Formação – Obediência

ENEV – Encontro Nacional de Estudantes Vicentinos

Belém, 22 a 25/07

“Seguir Jesus Cristo na Congregação da Missão, vivendo na liberdade e alegria dos Santos Votos”

5ª Formação:

Obediência: voto de fidelidade e discernimento para a missão

Jo 17, 6-19

“Lembrando-nos das limitações da natureza humana e imitando a atitude salvadora de Cristo, que se fez obediente até a morte, nós, guiados pelo Espírito Santo, cuidaremos de obedecer à vontade do Pai, que se manifesta a nós de muitos modos”. (CC 36)

Neste Evangelho que lemos está contido um trecho da oração sacerdotal de Jesus. Momento que antecedeu à entrega total de sua vida como consequência de sua obediência à vontade do Pai. Jesus apresenta ao Pai, em forma de oração, todo o programa de sua vida que foi cumprido com a mais pura liberdade, discernimento da vontade do Pai e estrita fidelidade. Com certeza Ele aprendeu muito de São José e de Nossa Senhora o que é ser um homem obediente! Várias passagens da Escritura nos recordam a atitude de discernimento de Jesus: O momento de sua ida para o deserto, os momentos a sós na montanha, a transfiguração, o momento da escolha dos doze, depois de uma noite de oração, o momento da agonia no horto das oliveiras, etc.

 Na sua relação com o Pai, não faltou liberdade, pois Ele mesmo disse: “ninguém tira a minha vida, eu a dou livremente”, nem faltou corresponsabilidade e nem tampouco diálogo. Jesus esteve o tempo todo muito consciente de sua missão e não faltaram momentos em que Ele estabeleceu diálogo com o Pai acerca dos direcionamentos para sua vida na busca por discernimento.

Assim como o que aconteceu com os demais votos, ao longo da história da Igreja, o conceito e o modo de se viver o voto de obediência foi mudando bastante e se distanciando daquele que foi ensinando e vivido por Jesus. O modelo tridentino de obediência se consolidou no período da contra-reforma. Numa época em que a Igreja se sentia ameaçada pelo surgimento do protestantismo, teve de adotar uma forma de obediência absoluta. Um tipo de obediência que não admitia a possibilidade do questionamento, do esclarecimento, da avaliação. O comando do superior era infalível e não podia ser colocado em dúvida. Devia-se obedecer e basta! Era, portanto a obediência cega. Esse modelo de obediência não evidencia tanto a necessidade de valorização da pessoa humana, mas sua imolação e sua destruição. Quanto mais a obediência era absurda, mortificando e eliminando a vontade do consagrado, tanto mais ela era considerada autêntica e necessária. Esse tipo de obediência colaborou intensamente na destruição de muitas iniciativas positivas. Transformou o voto numa coisa apática e insuportável.

Nessa dinâmica de obediência cega (tridentina), o mundo de Deus não coincidia com o mundo real, especialmente com o mundo dos pobres. Nesse esquema, a verdadeira obediência consiste em perguntar o que se deve fazer e não por que devemos fazer.

Nos dias atuais não se admite mais a obediência cega. Hoje, é indispensável promover uma obediência ativa, em que todos se sintam responsáveis pelas tarefas a cumprir e iniciativas a tomar. Esse modelo de obediência, com toda a certeza, é mais difícil, sobretudo para quem exerce a função de superior, mas, é aquele que mais se identifica com as indicações no evangelho.

“A obrigação de escutar, dialogar provém do próprio sentido profundo da obediência. Ela é literalmente, essencialmente ob-audientia, isto é, colocar-se numa atitude de escuta. A verdadeira obediência nasce da convicção de que a Palavra divina parte da Trindade e chega até nós não diretamente, mas pela mediação da palavra das outras pessoas. Por essa razão, a obediência supõe a collatio, ou seja, a capacidade de escutar comunitariamente, em família, oferecendo a cada irmão a possibilidade de contribuir, com sua fala, para o bem de todos” (Viver os votos em tempos de pós modernidade, p. 143)

O resgate do sentido profundo e verdadeiro da obediência se deu, em nosso tempo, por meio do Concílio Vaticano II, que se dispôs a abrir a Igreja para o diálogo e reflexão com o mundo. Fazendo isso, abriu-se à colaboração das ciências, sobretudo, da psicologia.  Esta atitude de abertura possibilitou uma releitura profunda dos textos sagrados e consequente reconfiguração de nossos documentos acerca deste voto e, mais importante ainda, imprimiu uma nova consciência nos consagrados.

As nossas Constituições estão impregnadas deste novo espírito do Vaticano II e enfatizam a orientação comunitária da obediência vicentina e de seu fim missionário: “A participação neste mistério do Cristo obediente requer que, comunitariamente, todos procuremos a vontade do Pai, por meio da mútua comunicação das experiências e de um diálogo franco e responsável, em que se confrontam as diversas idades e mentalidades, de modo que disso nasçam e amadureçam as tendências comuns que conduzem à tomada de decisões. Em espírito de corresponsabilidade e lembrados das palavras de São Vicente, os coirmãos, dentro de suas possibilidades, hão de se esforçar por obedecer aos Superiores, de modo pronto, alegre e perseverante. Embora julguem ser melhor a própria opinião, entretanto procurarão seguir as decisões dos Superiores, à luz da fé. Por força do voto de obediência, somos obrigados a obedecer ao Sumo Pontífice, ao Superior Geral, ao Visitador, ao Superior da casa e aos seus substitutos, quando nos ordenam, de acordo com as Constituições e Estatutos. Aos Bispos, porém, em cujas dioceses a Congregação está estabelecida prestaremos obediência, segundo o direito universal e o próprio do nosso Instituto, de acordo com a mente e o espírito de São Vicente” (CC  37 e 38).

“Os Superiores têm a delicada tarefa de promover o discernimento da vontade de Deus e também a responsabilidade última na tomada de decisões” (Instrução sobre os votos, p. 78)

Conforme foi refletido na meditação anterior sobre o voto de pobreza, há um elo bastante forte entre os três votos, de tal maneira, que um depende do outro. A não observância de um compromete o outro voto. Neste sentido, a obediência, mais do que um terceiro voto, é o ponto de encontro entre a castidade e a pobreza. Ela, enquanto disponibilidade total para acolher o projeto de Deus, é o elo de ligação entre o compromisso de amar sempre mais e a opção de partilhar tudo. A obediência, a exemplo de Jesus, “significa a disposição íntima e pessoal à disponibilidade para a oblação. Significa não pertencer a si mesmo e para seus interesses, mas pertencer ao outro de forma oblativa e, possivelmente, martirial” (viver os votos em tempos de pós modernidade, p. 137).

De modo muito profundo a Instrução sobre os votos nos apresenta a vivência da virtude da obediência como um caminho de total entrega de si mesmo à vontade de Deus, desapego de suas vontades ou desejos pessoais que não estejam em conformidade com o projeto comunitário e com o fim da Congregação e de liberdade e fidelidade: “A obediência missionária consiste na entrega de si mesmo em total disponibilidade para a evangelização dos pobres. Esta opção faz que o Reino de Deus e sua irrupção nas vidas dos pobres sejam a referência fundamental em nossas vidas. A obediência move o missionário a desapegar-se de seus desejos pessoais e o libera para preocupar-se mais com a vontade libertadora de Deus em favor dos pobres. A liberdade que brota de nossa identificação plena com a vontade de Deus faz que nossa obediência seja profética. Quando a fidelidade a Deus é o mais profundo de nossos motivos, qualquer outro motivo ou plano se converte em secundário. A obediência é um desafio não só para nossos desejos e fins pessoais, mas também para os da sociedade em geral (…). Nem os superiores, nem os outros têm o direito de identificar sua vontade pessoal com a vontade de Deus; nem de preferir seus planos pessoais à missão da comunidade. Todos os missionários devem contar com a comunidade e com o que esta opina, na hora de tomar decisões pessoais” (Instrução sobre os votos, p. 80 e 81).

Assim, podemos concluir com esta meditação que o Evangelho é o caminho para a obediência hoje enquanto ele nos mostra Jesus sugerindo que a responsabilidade daqueles que são chamados ao oficio de coordenação de uma obra deve ter como meta possibilitar às pessoas um verdadeiro crescimento em termos de humanidade e de humanização. É preciso entender que a obediência é e sempre será fruto da ação do Espírito de Deus. Neste sentido, o discernimento e a escuta são dois elementos que não podem faltar. Nenhum de nós podemos decidir tudo sozinho, precisamos escutar os outros e avaliar as situações. E a obediência deve ser a garantia dessa possibilidade.

Conforme insistimos desde a primeira meditação, os votos devem se instrumentos de libertação e não de escravidão da pessoa. Devem conduzir à vida e não à morte. O povo de Deus, sobretudo os pobres, precisam do testemunho de pessoas vivas! Alegres! Entusiasmadas com a missão, pessoas que trazem a certeza de que no seu modo de vida consagrado para a missão no serviço aos pobres, estão trilhando um caminho de Santidade. Deus deseja que por meio dos santos votos, sejamos sal e luz deste mundo maravilhoso que Ele criou, mas, ao mesmo tempo, tão desfigurado e escurecido pelos efeitos do pecado. Para isso, é preciso que nossos missionários não deixem a luz apagar e nem o sal que há em nós perder o sabor. O encanto pelo Senhor precisa ser renovado todos os dias por meio de nosso encontro pessoal com Ele, razão de ser de nossa vida! Precisamos, por meio da vivência dos votos encantar o mundo por meio de uma castidade sadia que se doa com coração indiviso e se constitui em força de atração das pessoas para Cristo, numa pobreza que nos faça participar da vida dos pobres dando o melhor de nós junto deles e uma obediência que nos abra para a dimensão da escuta, da partilha, do discernimento e de tomadas de decisão que sejam de acordo com a vontade de Deus e que construa relações fraternas de mútua confiança e de diálogo!