4ª Formação – Pobreza

ENEV – Encontro Nacional de Estudantes Vicentinos

Belém, 22 a 25/07 

“Seguir Jesus Cristo na Congregação da Missão, vivendo na liberdade e alegria dos Santos Votos”

4ª Formação:

“A vivência do Voto de Pobreza como participação na vida dos pobres”

Mt 8, 18-22

“Como o próprio Cristo, Senhor verdadeiro de todos os bens, abraçou a pobreza, de modo a não ter onde repousar a cabeça, e colocou aqueles que com Ele trabalhavam em sua missão, isto é, os apóstolos e os discípulos, no mesmo estado de pobreza, sem terem nada de próprio…, cada um de nós procurará, segundo sua pequenez, imitar a Cristo na prática desta virtude’ (RC III, 1). Deste modo os coirmãos demonstrarão sua total dependência em relação a Deus, e a própria evangelização dos pobres se tornará mais eficaz (CC 31).”

                O Evangelho que lemos nos faz recordar aquilo que está contido na teologia paulina do rebaixamento do Filho de Deus, em Fl 2, 6-11 é dito: “Ele tinha condição divina, mas não se apegou à sua igualdade com Deus. Pelo contrário, livremente esvaziou-se a si mesmo, assumindo a condição de servo e tornando-se semelhante aos homens. Assim, apresentando-se como simples homem, humilhou-se a si mesmo, tornando-se obediente até a morte, e morte de cruz!” Cristo, a segunda pessoa da Santíssima Trindade, Senhor de tudo e de toda a glória, obediente à vontade do Pai, assume a nossa humanidade para redimi-la. Para livrar o ser humano das amarras do pecado que produz destruição e morte, Jesus nos ensinou que o verdadeiro caminho para a Santidade é a humanização da humanidade. O caminho de humanização nos faz entender que o que torna a pessoa rica diante de Deus não é o tanto que ela é capaz de possuir e acumular, mas, é o tanto que ela, trilhando um caminho de humanização, é capaz de amar.

Mas, para alcançar o coração das pessoas, Jesus não pôde nascer num palácio. Por isso, por desígnio do Pai, escolheu uma família simples, numa pequena aldeia da Galiléia, chamada Nazaré e nasceu do ventre de uma moça simples do povo, chamada Maria, esposa, de um carpinteiro sem muita projeção na região onde vivia. Seu nascimento não se deu em berço de ouro e nem cercado de honras! Foi numa manjedoura, no lugar onde os animais se alimentam que ele foi depositado após o seu nascimento. Jesus nunca frequentou os grandes palácios e nem nunca desejou ser membro da elite dominante, embora tenha sido tentando pelo diabo a isto: “Eu te darei tudo isso, se te ajoelhares diante de mim, para me adorar (Mt 4, 9)”. Pelo contrário, sempre preferiu a companhia dos pobres, humildes, dos fracos e pecadores (cf. Mt 11,16-19). Assim, podemos perceber que Jesus deu o exemplo para nós, para que seguindo-o pudéssemos também trilhar o mesmo caminho do Mestre.

Os Evangelhos estão repletos de histórias de pessoas que se encontram com Jesus e deixaram-se encantar por sua proposta de vida. Algumas deixaram tudo, se converteram, como é o exemplo de Mateus (o cobrador de impostos), de Zaqueu, do Centurião Romano, do ladrão arrependido, da pecadora perdoada, dos próprios apóstolos e tantos outros. E todos estes seguiram imediatamente a Jesus. Mas, também temos outros exemplos não tão bem sucedidos, como em Mt 19, 16-30. Nesta citação podemos perceber que o jovem que se aproxima de Jesus se vê num primeiro momento encantado por Ele, impressionado com a sabedoria do seu ensinamento e edificado como o modo de vida de Jesus e dos seguidores. Além disso, cultivava um profundo desejo de crescimento espiritual: “o que devo fazer de bom para possuir a vida eterna?” Jesus olhou para aquele jovem com um olhar de muita ternura e disse: “se quer entrar para a vida, guarde os mandamentos!” Essa resposta de Jesus não satisfez o jovem. Ele queria algo mais! Talvez o jovem desejasse que Jesus dissesse a ele para segui-lo, como o fez com os apóstolos! E interrogando mais uma vez a Jesus lhe diz: “tenho observado todas essas coisas. O que é que ainda me falta fazer?” Diante desta pergunta, Jesus então abre o jogo com o rapaz, dando a ele a resposta decisiva que entraria no mais profundo do seu coração: “Se você quer ser perfeito, vá, venda tudo o que tem, dê o dinheiro aos pobres, e você terá um tesouro no céu. Depois venha, e siga-me”. Naquele momento, diz o texto, o jovem fez a opção dele, entristeceu-se e foi embora por que era muito rico!

A proposta de uma vida sobrea e comprometida com os pobres é para toda a Igreja. Toda a comunidade dos discípulos de Jesus é por ele convidada a não se deixar segar pelo fascínio da riqueza, do poder e do prestígio: “não podeis servir a Deus e ao dinheiro” (Lc 16,13). Por mais que uma pessoa seja rica, também ela precisa entrar nesta dinâmica de serviço aos mais pobres: “é mais fácil um camelo entrar pelo buraco de uma agulha, do que um rico entrar no Reino de Deu” (Mt 19, 24). Caso contrário, não fará parte do Reino de Deus!

Os Consagrados são os escolhidos por Jesus para testemunhar esta verdade no mundo. Aliás, a vida consagrada precisa ser um sinal e um testemunho no mundo de que a confiança nas riquezas temporais e a busca pelo poder opressor torna o mundo cada vez mais excludente e aumenta cada vez mais o abismo entre ricos e pobres. O documento Vita Consecrata  aponta para esta realidade que precisa ser vivida por todos os consagrados:

 “A pobreza confessa que Deus é a única verdadeira riqueza do homem. Vivida segundo o exemplo de Cristo que, « sendo rico, Se fez pobre » ( 2 Cor 8,9), torna-se expressão do dom total de Si que as três Pessoas divinas reciprocamente se fazem. É dom que transborda para a criação e se manifesta plenamente na Encarnação do Verbo e na sua morte redentora (VC, 21)

                A reflexão que fizemos anteriormente sobre o voto de castidade apontou o grande desafio para a nossa consagração no serviço aos pobres. Numa sociedade que, muitas vezes, reduz a sexualidade “ao nível de objeto de diversão e consumo (VC, 88)”, não é fácil viver essa opção como “testemunho da força do amor a Deus na fragilidade da condição humana” (VC, 88). Entretanto, foi possível verificar que, quando vista na perspectiva do amor radical, a castidade toca profundamente os corações humanos, faz o missionário ter força de atração e não de “repelimento”. É ilusão pensarmos que com a pobreza tudo se dá de forma mais tranquila. Aliás, acredito que a vivência de nenhum voto é muito tranquila, pois, se nos descuidamos de um, os outros também ficam comprometidos. No mundo da pós-modernidade, a vivência do voto de pobreza enfrenta muitos obstáculos. Basta considerar que o modelo de progresso propagado pela mídia é o do neoliberalismo, ou seja, de “um materialismo ávido de riqueza, sem qualquer atenção pelas exigências e sofrimentos dos mais fracos, nem consideração pelo próprio equilíbrio dos recursos naturais” (VC, 89). Esse modelo implantando no mundo em que vivemos traz sérias consequências não só em perspectiva material, mas, também psicológica e existencial. Trata-se de um mundo que não valoriza a pessoa pelo que ela é, mas, pelo tanto que pode consumir e produzir.

                “Como nos outros conselhos evangélicos, a pobreza vicentina deve entender-se em referência à missão, de modo que a pobreza na Congregação existe para imitar a Cristo evangelizador dos pobres e é inspirada pela missão e para ela orientada. Este critério fundamental é a chave pela qual o missionário (pobreza pessoal) e a Congregação (pobreza comunitária) descobre o verdadeiro critério vicentino ao deparar-se com os diferentes modos de compreender e praticar a pobreza evangélica” (Instrução sobre os Votos, p. 56).

                O voto vicentino de pobreza só se pode entender retamente à luz da decisão de seguir a Cristo evangelizador dos pobres. Uma compreensão séria do voto baseia-se no compromisso de entrega da própria vida à causa do Reino. Desta forma, entendemos que os missionários, na Congregação não abraçam a pobreza para livrar-se das preocupações do dinheiro, mas para seguir Cristo. Não assumem uma vida pobre para manifestar desprezo pelos bens materiais, mas, para caminhar com o Mestre. O desapego e a renúncia da riqueza é somente uma consequência. O desapego é aquela atitude que nos faz perceber que os bens terrenos não possuem um valor absoluto. São relativos. A pessoa desapegada é uma pessoa capaz de escutar a voz de Deus. Quem, ao invés, é apegado ao dinheiro, dificilmente sensibiliza-se diante dos outros.

 São Vicente elucida bem esta questão quando escreve aos seus missionários insistindo que a vivência da pobreza precisa ser antes de tudo uma atitude interior. Para São Vicente, a pobreza missionária é o resultado de contemplar a Jesus que se fez pobre, embora fosse rico a fim de nos enriquecer com sua pobreza (cf. II Cor 8,9). Isto nos faz entender que, assim como no Voto de castidade, não se trata apenas da privação de ter ou não ter isto ou aquilo. Mas de uma atitude que vem de dentro, de uma motivação interior que brota de uma consciência muito clara do seu papel na Congregação e na vida dos mais pobres, trata-se de uma reflexão que alia a pobreza no modo de ser e a pobreza como um modo de possuir:

“Pois bem, a pobreza é uma renúncia voluntária aos bens da terra, pelo amor de Deus, afim de melhor servi-lo e pensar na salvação; é uma renúncia, um desprendimento, um abandono, uma abnegação. Esta renúncia é exterior e interior, não é somente exterior. Não basta renunciar somente a todos os bens; é preciso que esta renúncia seja interior; ela deve partir do coração. Com relação aos bens, é preciso ainda deixar o apego e a afeição, não ter absolutamente amor aos bens perecíveis deste mundo. Renunciar externamente aos bens, conservando o desejo de possuí-los, é nada fazer é enganar-se e conservar o melhor. Deus quer principalmente o coração, o coração, e é o principal” (XI 246-247, XI, 156).

Esta reflexão de São Vicente nos mostra que a vivência do voto de pobreza não é privação daquilo que é necessário para a sobrevivência do missionário e para a obra da Missão. Nem significa que se deve passar por necessidades de falta de alimentação, roupa, higiene pessoal, condução, saúde e outras coisas mais por achar que desta forma está mais parecido com Jesus. Os missionários precisam saber usar bem estes bens. Se o uso desses bens fosse destinado para promover seguranças pessoais, bem-estar para si mesmo, poderia-se então dizer que não correspondem mais aos critérios evangélicos. Ser pobre, neste contexto, significa viver uma vida normal em que não faltem os bens necessários à manutenção da vida. A miséria deve ser sempre considerada um mal e como tal deve ser combatida.

A pobreza da qual nos fala São Vicente é a pobreza responsável e consciente, que nos leva a compreender-nos como administradores do patrimônio dos pobres. A própria Instrução sobre os Votos já nos assinala: “ Pelo seu fim apostólico comunitário, a Congregação da Missão precisa de possuir e usar bens materiais para a evangelização dos pobres. Por isto mesmo a pobreza implica numa sábia administração dos bens. Pois admitindo que “vivemos do patrimônio de Jesus Cristo, do suor dos pobres” (XI, 201), a Congregação quer usar seus bens em favor deles com generosidade (CC 33). Além disto, todos os missionários são responsáveis por bem administrar os bens confiados aos seus cuidados e deles bem cuidar” (Instrução sobre os votos, p. 61). A nossa proximidade com os pobres implica num estilo de vida que seja semelhantes ao deles:

“No cumprimento do seu dever, segundo o fim da Congregação e o projeto comum, da comunidade, cada coirmão se sinta sujeito à lei universal do trabalho. Os frutos do nosso trabalho ou o que, depois da incorporação, recebemos, por motivo de pensão, subvenção ou seguro, no intuito da Congregação, de acordo com o direito próprio, serão bens da comunidade, de tal modo que, a exemplo dos primeiros cristãos, vivamos uma verdadeira comunhão de bens e nos proporcionemos mutuamente ajuda fraterna. Tendo em vista a situação dos pobres, nosso modo de viver transpire simplicidade e sobriedade. Os meios de apostolado, embora mais eficazes e mais modernos, sejam destituídos de todo aspecto de ostentação. O que é necessário à subsistência e à promoção dos coirmãos e ao progresso das obras provenha antes de tudo do trabalho comum. A congregação, evitando qualquer acumulação de bens, cuidará em despender do que é seu em benefício dos pobres. Assim, com efeito, livre da ambição das riquezas, será um testemunho para o mundo, marcado pelo materialismo.  No uso e disposição dos bens é preciso ter o consentimento do Superior, em virtude do voto, segundo as Constituições e Estatutos. Como, porém, para a prática do espírito de pobreza não basta somente ter o consentimento do Superior, é necessário que cada qual julgue sobre o que é mais apto e conforme para a vida e o ministério, segundo o espírito de nosso Fundador, expresso nas Regras Comuns. Empregaremos os bens pessoais, com licença do Superior, segundo o Estatuto Fundamental do voto de pobreza na Congregação, em favor das obras de caridade, bem como dos coirmãos, evitando-se as diferenças entre nós” (CC 31 a 35).

A Instrução sobre os votos na Congregação da Missão nos apresenta seis caminhos para uma boa vivência do nosso voto de pobreza. Tendo em vista aquela pobreza pessoal e comunitária que todos nós, membros da pequena Companhia, somos chamados a viver:

  1. Evitar o acúmulo dos bens: Nossa pobreza procura deixar-nos livres para nos consagrarmos à missão. São Vicente sabia que o apego às posses materiais era um perigo: “…então se poderia dizer: adeus aos trabalhos da Missão e à própria Missão…” (XI,79). Um estilo sóbrio de vida é um meio prático de evitar a tentação de empregar nossas energias em acumular riquezas ou em manter um estilo de vida confortável. Devemos estar dispostos a sentir a “mordida da pobreza”, embora pudéssemos viver de modo melhor.
  1. Pôr nossos bens à disposição dos outros: “o voto permite-nos conservarmos a posse de nossas propriedades pessoais. As exigências de nosso trabalho pastoral postulam que a comunidade tenha recursos materiais. Já que não renunciamos totalmente à propriedade dos bens materiais, nossa pobreza se manifesta praticamente no modo como usamos os bens que temos. Há um grande perigo de que as propriedades pessoais ou comunitárias se destinem só a satisfazer nossas próprias necessidades. A generosidade em relação a nossos bens (também em relação ao nosso tempo e talentos) fomentará o espírito de desprendimento e de liberdade.
  1. Contato pessoal com os pobres e sensibilidade para com eles: Embora nosso trabalho com os pobres não exista sobretudo para nosso benefício, a inserção no mundo dos pobres ajudar-nos-á a transformar nossa visão e nossas vidas. Os pobres não só carecem do supérfluo, mas com frequência carecem também do necessário para viver. São as vítimas da injustiça institucionalizada, da opressão e de desigualdades sócio-econômicas escandalosas. O contato pessoal tornar-nos-á sensíveis a seus sofrimentos, esperanças e desejos, e nos capacitará a aprendermos de seus exemplos de generosidade em meio à escassez e da necessidade. Os pobres podem evangelizar-nos ajudando-nos a transformarmos nossa caridade, vista com um exercício privado de compaixão, numa solidariedade vivida de forma concreta.
  1. Depender da comunidade: Segundo as Constituições, de boa vontade, os administradores atendam às necessidades dos coirmãos em tudo que se refere à vida, a seu ofício particular e trabalho apostólico. A dependência da comunidade, se se vive em um estilo de maturidade, serve para fomentar o espírito de fraternidade e de interesse por uma vida compartilhada. A dependência manifesta-se também em pedir as licenças requeridas. Concretamente, esta ideia exige que cada província defina claramente as quantias para as quais se requer o pedido de licença do superior. Quando, para dar um exemplo, as províncias definem uma cota mensal para cada um, deve haver uma norma clara que defina a quantia e os fins a que ela se dedica. Também deve haver normas concretas sobre as licenças para gastos com dinheiro pessoal, pois tal dinheiro deve ser gasto de acordo com o Estatuto Fundamental da Pobreza tal como o interpretou a Assembleia de 1980.
  1. Ajuda à comunidade: A pobreza comunitária não se manifesta unicamente quando se recebe da comunidade. Deve-se ter em conta também o interesse pelo bem dos outros membros da comunidade. Os estipêndios e tudo o que se recebe pelo trabalho em nome da comunidade não são remunerações por trabalhos pessoais. Devemos entrega-los pensando no bem de todos os membros da comunidade, como sinal de nosso interesse pelos outros membros da Congregação.
  1. Avaliação frequente: O seguimento de Jesus Cristo como missionário exige de nós uma conversão contínua. Como a prática da pobreza é condição de renovação e um sinal de progresso em nossa vocação na Igreja e no mundo, uma revisão frequente da prática da pobreza comunitária e pessoal será um meio para uma conversão permanente. As reuniões para elaborar o projeto comunitário local e os orçamentos serão momentos para revisar nossa maneira de usar as posses materiais, à luz das Constituições, Normas Provinciais e necessidades dos pobres.