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Palestra do Padre Getúlio no Encontro sobre os 400 anos do carisma, no Caraça

13 de abril de 2017
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TEMPO HISTÓRICO:
AÇÃO DO ESPÍRITO SANTO QUE RENOVA

(Palestra do Padre Getúlio no Encontro sobre os 400 anos do carisma, no Caraça)

INTRODUÇÃO: O cristianismo nasceu de um acontecimento decisivo e definitivo para a história da humanidade, acontecimento surgido em tempo histórico e salvífico, “tempo aceitável e dia de salvação” (2 Co 6,2), como é todo tempo em sentido bíblico. Esse acontecimento tem um nome: Jesus de Nazaré, o Cristo Senhor e nosso Salvador.

Os dons de Deus e os carismas inspirados pelo Espírito acontecem igualmente num “tempo favorável”, se inserem na história humana como história de salvação, que o é de fato, desde a criação do mundo, na misteriosa economia dos desígnios da providência de Deus, em favor dos seus filhos e filhas.

Donde a importância e utilidade para a nossa compreensão, de situarmos historicamente o carisma do Santo Fundador e que nos deixou como herança, à luz do Espírito, para o bem da Igreja e do Reino de Deus.

Por absoluta exiguidade de tempo, reduziremos essa contextualização histórica à apenas alguns lampejos, que, aliás, com certeza, já são conhecidos por todos e todas,  reservando um tempo mais amplo para o esclarecimento e o aprofundamento daquilo de que estamos fazendo memória e que estamos celebrando, com a finalidade despretensiosa de tomarmos consciência do significado do que todos andamos proclamando com alegria: os 400 anos do carisma vicentino.

A nossa intenção, portanto, é de fazer um esforço reflexivo no sentido de deixar bem nítido, enquanto possível, o que podemos denominar, com precisão, de carisma vicentino, carisma fundacional, o carisma que herdamos do santo, por graça e dom do Espírito e que precisamos, pelo mesmo Espírito, levar em frente com criativa fidelidade.

Antes, porém, da contextualização histórica, encetamos uma sucinta explanação do termo carisma a partir da exposição de três conceitos ou termos afins, isto é, a tríade: espírito, carisma e instituição.

1. Espírito, Carisma e Instituição

Essa tríade já foi abordada com competência por nosso coirmão Antônio Orcajio na 22ª Semana de Estudos Vicentinos, numa dissertação publicada pelo editorial CEME, à qual também remetemos. Trata-se, como dissemos acima, de temas afins, mas com matizes ou mesmo com significados distintos, embora estreitamente relacionado, em reciprocidade e implicação mútuas.

1.1 – Espírito:

É um termo susceptível de significados diversos nas línguas clássicas e bíblicas, amplamente desenvolvidos no “Vocabulário de Teologia Bíblica”. Atemo-nos, aqui, apenas ao que interessa ao nosso assunto, inspirando-nos no referido “Vocabulário” e na experiência da vida cotidiana.

O significado na linguagem comum se deduz com facilidade das expressões: “Fulano tem bom espírito, bom coração, é dotado de um espírito cordial e serviçal”, e outras mais. Em oposição à positividade dessas expressões, temos também: “Parece que um espírito mal tomou conta de sicrano”; “que espírito intolerante o de beltrano!”. Dessas e de outras expressões é fácil deduzir que se trata de disposição interior, de certa inclinação, de certa índole ou caráter, qualidades da mente e do coração, que dão o tom do ser e do agir das pessoas.

Interessa-nos mais o sentido do termo na linguagem religiosa, sobretudo na da vida consagrada, que as expressões populares acima nos ajudam a discernir. A melhor síntese que encontramos a respeito, a nosso ver, está nas Constituições da Congregação da Missão, nos artigos 5 a 9: “O espírito da Congregação é a participação no espírito do próprio Cristo, do modo como é proposto por São Vicente: enviou-me para evangelizar os pobres” (Lc 4,18). Por conseguinte, “Jesus Cristo é a regra da Missão” e será tido como centro de sua vida e de sua atividade” (XII, 130). Portanto, prossegue o artigo 6, “o espírito da Congregação contém aquelas íntimas disposições de alma de Cristo (…): Amor e reverencia para com o Pai, caridade efetiva e compassiva para com os pobres e docilidade para com a divina Providência”. Nestas “disposições de alma”, segundo o artigo 7, entram as cinco virtudes vicentinas, a simplicidade, a humildade, a mansidão, a mortificação e o zelo pela salvação das almas. Elas “compõem o espírito da Missão (…), e devemos considerá-las como as cinco limpidíssimas pedras de Davi, com as quais, em nome do Senhor dos Exércitos, venceremos o infernal Golias” (RC XII,12). Vale a pena lembrar aqui as palavras de São Vicente na conferência de 22 de agosto de 1659, Sobre as Cinco Virtudes Fundamentais: “Tomemos novas resoluções de conseguir esse espírito, que é o nosso espírito. O espírito da Missão é, sem dúvida, um espírito de simplicidade, de humildade, de mansidão, de mortificação e de zelo”. Temos esse espírito ou não? (…) Ó Senhor, como isso é belo e como vos será agradável a Missão, se o seu espírito é tal que a tudo análise pelo espírito de simplicidade, humildade, mansidão, mortificação e zelo! (XII, 303-309).

Como não nos podemos prolongar nesta explicitação, e não é este o nosso tema direto, passamos à conclusão: o espírito é algo interior, são disposições íntimas que determinam, como aludimos acima, o modo de ser e agir das pessoas, quer individual quer coletivamente. Não deixam de ser também, numa visão de fé, assim como o carisma, dom de Deus, que devemos acolher e a que nos compete corresponder em liberdade, pois é possível, infelizmente, “extinguir o Espírito”, o que Deus não permita! (1 Ts 5,19).

1.2 – Carisma:

É um termo derivado do grego “charis” (χαρις), graça, e geralmente traduzido por “dom do Espírito”. Segundo o “Dicionário Enciclopédico da Bíblia”, no Novo Testamento, fora das cartas de São Paulo, o termo só se encontra em 1 Pd 4,10.

Aqui também, “dada a evolução semântica do termo, acabou ele adquirindo, na linguagem popular, uma amplitude que ultrapassa os limites da esfera religiosa cristã”. Hoje ouvimos falar de carisma político, esportivo, artístico, carisma de direção, de convencimento, que distingue, sobretudo, certas individualidades marcantes em determinadas áreas da atividade humana: “Ele é o cara”, “tem carisma”!

Na ótica das instituições da vida religiosa e consagrada falamos do carisma de Santo Inácio, de São Bento, de São João Bosco, São João da Cruz, Santa Tereza de Ávila e outros: Carisma dos jesuítas, dos beneditinos, dos salesianos e, do que agora nos interessa, do carisma de São Vicente ou carisma vicentino.

Partindo da teologia de São Paulo, todos esses carismas são dons do espírito, para utilidade da Igreja e anúncio do Reino de Deus. O próprio Espírito Santo é o primeiro e fundamental dos dons que vêm do alto, em virtude da Páscoa de Jesus: “O amor de Deus foi derramado em nossos corações pelo Espírito Santo que nos foi dado” (Rm 5,5). Os batizados são todos habitados pelo Espírito Santo e presenteados por ele com o dom da caridade de Deus, do amor de Deus no coração.

Mas as riquezas de Cristo são insondáveis e se fragmentam em dons especiais para a vida da Igreja e a difusão do Evangelho de Jesus Cristo. Aqui se situam os chamados carismas dos Fundadores. Não confundir, nem identificar o carisma do Fundador com seus dotes e qualidades pessoais – que também são dons de Deus – mas são dons individuais e intransferíveis, embora também a serviço dos outros. Já o carisma dos fundadores de Ordens ou Congregações religiosas e Sociedades de Vida Apostólica são dons especiais do Espírito Santo em função e a serviço da vida da Igreja e do interesse do Reino de Deus, em resposta às necessidades que vão surgindo ao longo da história da salvação. Eles surgem no tempo, mas se inserem na economia do mistério da salvação, como acontecimentos de graça, frutos da fecundidade infinita do sacrifício de Jesus na Cruz. Podem ser transferidos às gerações seguintes, sujeitos ao impulso do Espírito que sopra onde quer, não porém no sentido de uma caminhada contra os ventos das trevas, “sem lenço nem documento”, mas no sentido da fidelidade ao carisma original e fundante, da volta às fontes, segundo o ensino do Concílio Vaticano II.

Do que dissemos atrás, decorre a utilidade de contextualizar os dons e os carismas inspirados pelo Espírito e confiados a alguns discípulos do Senhor em favor da caminhada da Igreja até o fim dos tempos, fazendo novas todas as coisas, aguardando a volta da novidade absoluta dos “novos céus e nova terra” (2 Pd 3-13). Antes, porém, da contextualização histórica do carisma vicentino, algumas palavras sobre o terceiro termo ou vocábulo da tríade acima anunciada.

1.3 – A Instituição:

O carisma define o modo especial do seguimento batismal dos discípulos missionários do Senhor e está intimamente ligado à vocação e missão dos filhos e filhas de Deus. Ele é amparado por uma Instituição, sentinela da fidelidade dos herdeiros da inspiração fontal dos Fundadores e do seu carisma fundacional. A instituição é, também, dom do Espírito. É fruto da graça e garantia da coesão e continuidade no serviço do carisma e do fim colimado pelos Fundadores, e transmitidos aos seus seguidores como vocação e missão comuns, por graça e inspiração do Espírito.

Não há mais sentido, hoje em opor espírito, carisma e instituição. Tudo é dom e inspiração do Espírito. “A instituição é uma comunidade eclesial de pessoas, organizada por Regras ou Constituições aprovadas pela Igreja hierárquica, em função de sua vocação: carisma, espírito e fim”. Na instituição, o carismático e o normativo se encontram recolhidos e expressos nas Constituições, como um modo próprio do seguimento de Jesus, inspirado no Evangelho, iluminado pelo Espírito de Cristo, presente nos fundadores e seus herdeiros espirituais, impelindo todos à leitura e à resposta aos sinais dos tempos, dentro de um determinado contexto histórico, ineludivelmente associado também ao mistério de nossa salvação.

2. Contextualização histórica do acontecimento fundacional da Missão 

2.1 – A França no século XVII: Aspecto demográfico, econômico, social e religioso. 

Apesar das badalações do “Grande Século”, a França do tempo de São Vicente, até o ano de sua morte, em 1660, foi também terra devastada, palco de guerras e de peste, de pauperização do povo, de miséria, de fome, de morte e de abandono espiritual de grande parte dos seus habitantes, sobretudo, dos pobres do campo.

A Europa do século XVI e XVII passava por um tempo em que vários de seus países eram impelidos por interesses de domínio político, e procuravam com empenho ampliar seus poderes no continente, por meio da conquista de novos mercados e expansão territorial, da definição de novas fronteiras, do fortalecimento do poder central. A concorrência, porém, entre as monarquias neste afã de consolidar o poder real e a unidade político-administrativa, provocou a respeito vários conflitos e guerras. É neste contexto que ocorre a Guerra dos Trinta Anos, que assolou o país entre 1618 e 1648, cujos efeitos se estenderam até mesmo depois da Paz de Vestfália, de 24 de outubro de 1648.

A Guerra dos 30 Anos mobilizou quase toda a Europa. Aparentemente, a causa especial era o antagonismo entre católicos e protestantes, organizados em ligas e partidos que oscilavam muitas vezes ao sabor de interesses oportunistas, donde o nome de “Guerras de Religião”. Na realidade, mais do que “Guerras de Religião”, tratava-se de conflitos políticos e de poder territorial e civil. Em plena cristandade moderna em que religião e política eram de fato consideradas indissociáveis, a religião era tratada (quando não manipulada) como fator imprescindível e garantia da unidade nacional e do poder civil central. Heresias no campo religioso eram consideradas como ameaças à estabilidade e à unidade do estado. Em especial, a religião católica predominante, antes da reforma protestante e mais ainda depois, era tutelada e legitimada em certos países como fator de unidade nacional. Basta lembrar, no caso especial da França, a prerrogativa do poder estatal sobre a Igreja, que vinha de longe, desde 1516, através de uma concordata com a Santa Sé, que concedia ao Rei a prerrogativa da nomeação dos bispos e principais benefícios religiosos. Acresce a tudo isto a guerra Franco-Espanhola, iniciada em 1635, após a entrada da França na Guerra dos 30 Anos, e também as alianças espúrias de Richelieu com huguenotes, holandeses e suecos, motivadas por interesses políticos e de estado.

Exércitos franceses e espanhóis, e eventualmente de outros países, forças militares ligadas à príncipes simpatizantes ou inimigos de monarcas em busca de consolidação do poder central, arrasavam cidades e povoados, deixando rastros macabros de sua presença brutal: pilhagem de lavradores, assaltos a residências, destruição de plantações, roubo das colheitas, incêndios criminosos, estupros, assassinatos  e violência de toda a sorte. “Na fornalha da Guerra dos Trinta Anos”, diz a eminente jornalista atual, Marie-Joëlle Guillaume, em sua recentíssima biografia de São Vicente: “Somadas à peste e à fome, as violências transformam as paisagens da Lorena, da Picardia, da Champanha e da Borgonha… – para enumerar apenas a França, em verdadeiros pesadelos apocalípticos” (São Vicente de Paulo, uma biografia, Editora Record, Rio de Janeiro. São Paulo, 2017, pp. 321 e 325).

Por fim, o desastre das guerras civis da Fronda (1648-1653), por causa da política interna desastrosa do Cardeal Mazarino, uma espécie de plenipotenciário da França, substituto do Cardeal Richelieu, guerras que levaram ao desespero, sobretudo, o pobre povo dos campos. A título de amostragem, entre várias outras cartas de lideranças de pequenas cidades, de bispos e párocos, citamos aqui uma pequena carta de um missionário vicentino dirigida à São Vicente, datada de 1652: “A fome é tal que vemos pessoas comendo terra, pastando capim, arrancando a casca das árvores, rasgando os molambos com que se cobrem, para engoli-los. Mas o que não ousaríamos dizer, se não o tivéssemos visto, e que causa horror, é que comem os próprios braços e as mãos, e morrem nesse desespero.

Temos três mil pobres refugiados, quinhentos doentes, sem falar da pobre nobreza e dos pobres envergonhados da cidade, cujo número aumenta diariamente”.

Mas não se trata apenas de devastações materiais. O pobre povo, sobretudo dos campos, estava espiritualmente abandonado. É só nos lembrar das objeções ouvidas por São Vicente de um huguenote que pensava em converter-se e tinha dificuldade em crer que o Espírito Santo guiava a Igreja, diante do espetáculo do abandono espiritual do povo dos campos, com pastores viciosos, ignorantes, desprovidos de zelo e dos 10 mil sacerdotes na ociosidade, segundo ele, que vagabundavam pelas ruas de Paris. A isto podemos acrescentar a menção da carta de um bispo a São Vicente, a respeito do clero de sua diocese, para a qual trabalhava com todo o empenho “com pouco sucesso, por causa do grande e inexplicável número de padres ignorantes e viciosos que compunham o seu clero, que não se corrigem nem por palavras nem por exemplos. Fico horrorizado quando penso que em minha diocese há quase 7 mil padres beberrões ou impudicos que sobem diariamente ao altar e que não têm vocação alguma” (II, 428-429).

É neste contexto que a mão da Providência ia guiando os passos de um camponês das Landes, de origem humilde, mas cumulado de dotes excepcionais, de inteligência, de capacidade de organização, de lucidez criativa, de clarividência e percepção nos negócios, de espírito prático e de direção. Com todo este arsenal de qualidades humanas, tudo parecia ir dando errado em suas buscas de ascensão social, frustrando-lhe as iniciativas, mas sem lhe eliminar a esperança de um futuro melhor ou, pelo menos, de uma chance ou saída mais honrosa. Esses percalços nos primeiros passos da caminhada de vida do Padre Vicente aguçavam-lhe providencialmente a inquietude na procura de melhor rumo na vida e, misteriosamente, o orientava aos poucos para um outro norte, na atribulada e acidentada carreira dos anos de juventude, até chegar a hora decisiva do acontecimento inicial e inspirador, depois de uma dolorosa provação contra a fé e da promessa feita de se doar a Deus, por toda a vida, para o serviço dos pobres, que já vinha frequentando e visitando com inteira dedicação na casa dos Gondi, de cujos filhos era preceptor, a pedido do seu diretor, o Padre de Bérulle. Estamos diante de um mistério da escolha do Senhor Jesus “que chama quem ele quer” (Cf. Mc 3,13) e vai chamar Vicente para um outro caminho com que talvez não sonhasse, o de uma prodigiosa santidade de vida.

E abordamos agora, o que mais nos interessa: o Sermão de Folleville.

2. O Acontecimento de Graça: o nascimento do Carisma Vicentino 

Todos conhecemos o acidentado itinerário percorrido pelo Santo, no qual verificamos a insondável presença do Senhor a lhe guiar os passos e a verdade das mui conhecidas palavras, de estilo sapiencial, do famoso prelado francês Dom Fénéllon, Bispo de Sarlat: “O homem se agita, mas Deus o conduz”.

É essencial, para termos clareza do que celebramos e do que herdamos de São Vicente, concentrarmo-nos na reflexão do que aconteceu em Folleville, a 25 de janeiro de 1617, 400 anos atrás, e que marcou definitivamente o itinerário terrestre do camponês das Landes.

Na coleção de Pierre Coste, encontramos 4 relatos do episódio fundante de Folleville. Citamos aqui o mais completo e eloquente, a nosso ver, onde aparece explicitamente a afirmação do Santo, que preside à celebração dos 400 anos: “Eis o primeiro sermão da Missão”!

Tudo ocorreu depois da confissão de um camponês de Gannes, pequena localidade situada no domínio dos Gondi, próxima de Folleville. Era tido como homem de bem, mas tinha a consciência torturada de pecado. Propalou, depois, para todo mundo seu estado miserável e sua gratidão a Deus pelo alívio recebido e por tê-lo, por sua graça, certamente, libertado, como esperava, da condenação eterna.

O ocorrido causou tanta impressão à piedosa Madame Gondi que solicitou a São Vicente o remédio para tal desolação. O remédio sugerido e realizado é o que se encontra no relato do Santo:

“No dia da conversão de São Paulo, dia 25, essa senhora pediu-me que fizesse uma pregação na igreja de Folleville, para exortar os habitantes à confissão geral; o que eu fiz. Mostrei-lhes sua importância e utilidade. Ensinei-lhes a maneira de bem fazê-la. E Deus deu tanta atenção à confiança e à boa fé dessa senhora (pois o grande número e a enormidade dos meus pecados teriam impedido o fruto dessa ação), que ele abençoou minhas palavras. Toda essa boa gente foi de tal maneira tocada por Deus que vinham todos fazer sua confissão geral. Eu continuei a instruí-los e a prepará-los para os sacramentos. E comecei a atender a eles.

Mas a multidão era tão grande que, não podendo dar conta disso com um outro padre que me ajudava, a Madame mandou suplicar aos Reverendos Padres Jesuítas de Amiens que viessem socorrer-nos. Escreveu, a respeito, ao Reverendo Padre Reitor, que veio em pessoa. Mas como pudesse permanecer ali apenas por pouco tempo, enviou para trabalhar em seu lugar o Reverendíssimo Padre Fourché, da mesma Companhia, o qual nos ajudou a confessar, pregar e catequizar, e encontrou, pela graça de Deus, de que se ocupar. Fomos em seguida a outros vilarejos da região, pertencentes àquela senhora, e fizemos como no primeiro. Eis o primeiro sermão da Missão, e o sucesso que Deus lhe deu, no dia da Conversão de São Paulo, o que Deus não fez sem um desígnio em tal dia” (XI, 4).

Esse comovente e significativo texto é tirado de um colóquio “Sobre a Missão pregada em Folleville” em 1617. Data certamente dos anos 50 (década 1650-1660). Evidentemente, a leitura do fato, como se pode deduzir dos outros relatos, especialmente do contido na Partilha de Oração de 25 de janeiro de 1655 sobre as origens da Congregação da Missão e, de modo muito especial, das alusões e comentários feito a esse respeito na Conferência de 17 de maio de 1658, a leitura feita, repetimos, não data da ocasião em que o fato aconteceu. Percebe-se claramente que se trata de uma leitura de fé, feita por São Vicente em plena maturidade espiritual. Na ocasião dessa primeira experiência de fé e da descoberta decisiva do sentido de sua vida e da sua vocação e missão na terra, ele não tinha com certeza a consciência dos desígnios da Providência sobre ele e sobre os desdobramentos desta e da outra experiência fundacional ocorrida em Chatillons-les-Dombes, hoje Chatillon-sur-Chalaronne, igualmente após um sermão, num domingo, a pedido de alguns fiéis, no qual recomendou o socorro de uma família onde todos estavam doentes sem restar ninguém para dar assistência aos outros, o que lhe tocou sensivelmente. Todos conhecemos a resposta generosa da população, o socorro prestado e a organização da caridade, através da instituição da Confraria da Caridade. Para São Vicente, foi uma nova experiência espiritual que lhe inspirou a outra face da Missão, o atendimento aos pobres e doentes, o socorro material aos pobres.

3. A tônica dos 4 relatos:

A um padre sem a envergadura e a inquietação espiritual que trabalhava a alma do Padre Vicente, tudo poderia ter passado por uma acontecimento comum, embora muito bem sucedido, das atividades pastorais ordinárias: um sermão abençoado, o arrependimento dos ouvintes, a confissão geral.

Para Vicente, ele marcou definitivamente seu itinerário espiritual nessa terra. Enfocamos na sua leitura quatro realces praticamente presentes, quanto ao sentido, nos quatro relatos do fato.

3.1. A firmação: “Eis o primeiro sermão da Missão”. Todos os anos, mais tarde, após a fundação da Companhia dos padres da Missão, lembrar-se-á deste dia e deste acontecimento com muita gratidão a Deus, convocará seus filhos à oração de louvor e ação de graças e se humilhará pelo imerecido dom de Deus.

3.2. O que Deus não fez sem o um desígnio, em tal dia: leitura no Espírito, contemplativa, leitura mística do acontecimento de Folleville.

3.3. A Companhia e a Missão.           

São Vicente não alude ao nascimento da Companhia, mas ao da Missão. Quando se refere direta e explicitamente à Companhia, emprega termos desconcertantes de humildade: “Se é que se pode chamar de Comapanhia a um punhado de pessoas, pobres de nascimento, de ciência e de virtude, a borra, o lixo e o rebotalho do mundo” (XI, 2).

Já quando se refere à Missão, emprega termos e expressões de elevadíssimo apreço: “Se nada podemos por nós, podemos tudo com Deus. Sim, a Missão pode tudo, porque temos em nós o germe da onipotência de Jesus Cristo” (XI, 204). “A Missão é o espírito dos primeiros cristãos (…). É o soberano e o último meio que Deus encontrou para reformar a sua Igreja. Parece-me que sua bondade, sua sabedoria e sua onipotência se esgotaram nessa obra prima de suas mãos.

São Vicente, sem dúvida, se coloca aqui sob outro ângulo de visão, se move na esfera de outra luz; podemos dizer, em ótica teológica e mística. Essa percepção e afirmação da grandeza e do poder da Missão estão ligadas e derivam de uma profunda intuição de fé do mistério da missão de Jesus. Sob a luz deste mistério, evidentemente, a Missão ultrapassa os limites da organização ou instituição humana de que ele era o fundador, a Companhia como tal.

A “Missão” passa a ser uma participação no próprio mistério de Jesus, o Filho de Deus, enviado do Pai. Estar na “Missão”, pertencer à “Missão” é ser investido, agraciado com uma vocação, imergir num mistério maior que a Companhia. Por ela, somos convidados a assimilar “o espírito dos primeiros cristãos”, o espírito do próprio Senhor Jesus, e participar de “uma obra-prima” das mãos da Providência, em atitude contemplativa! (Cf. UMM, 328, 2ª ed.).

3.4. Abrangência desta visão de fé

Todas as obras derivadas desta experiência fundante, AIC, C.M., F.C. se irmanam e se inserem no mistério maior da Missão de Jesus, de que todos, por graça de Deus, participamos. Toda a família vicentina, derivada do seu espírito, procede e é herdeira deste mesmo tesouro. Todos somos missionários (Conferir os textos relativos à AIC e às Filhas da Caridade que corroboram essa afirmação).

São Vicente resgata, via caridade, a vocação missionária de todo cristão, como veremos adiante.

4. A destinação aos pobres 

Com toda razão, na mente e nos corações dos fiéis contemporâneos do Fundador e das gerações posteriores, até nossos dias, a imagem, ou o imaginário popular acerca da figura de São Vicente está indissoluvelmente ligado à caridade para com os pobres: o Santo dos pobres, o Pai dos pobres.

Das instituições por ele fundadas, duas trazem expressamente o termo caridade: Filhas da Caridade, Associação Internacional da Caridade. A Congregação dos padres, por ele fundada, não trás o nome caridade, mas o de Missão. Entretanto, o lema dele herdado, presente no brasão da Companhia não deixa a menor dúvida à respeito do sentido de nossa vocação e de nosso carisma de que celebramos a memória: “O Senhor nos enviou para evangelizar os pobres”. E há textos paradigmáticos neste sentido que afastam qualquer hesitação ou dúvida de que a caridade evangelizadora faz parte do nosso carisma e missão como do carisma de todos que descendem do seu espírito. Basta ler a Conferência de 30 de maio de 1659 para perceber como a caridade em São Vicente de Paulo é por excelência a caridade missionária e que “peregrinamos na Missão, impelidos pela caridade”. É o sentido das frases lapidares: “A caridade não pode permanecer ociosa”, “não basta amar a Deus se meu próximo não o ama”.

É verdade, e o Concílio Vaticano II o afirma peremptoriamente, que toda “a Igreja é por natureza missionária, porque se origina da missão do Filho e da missão do Espírito Santo segundo o desígnio do Pai e que esse desígnio provém do “Amor-Fontal” ou da caridade de Deus Pai” (AG, 2). E temos no Evangelho de João: “De tal modo Deus amou o mundo que enviou seu Filho único” (Jo 3,16). Pai e Filho enviarão sobre a Igreja nascente o Espírito de Amor, “força do alto, para guiar a Igreja em sua missão de continuar até o fim dos tempos a missão de Jesus”. “O advogado que eu mandarei para vocês de junto do Pai é o espírito da verdade que procede do Pai”. “Como o Pai me enviou, eu também envio vocês… recebei o Espírito Santo” (Jo 15,26; 20,22).

O amor portanto é o principio, a fonte e o fim da Missão. Enviados por Jesus, anunciamos no mundo seu amor crucificado para a salvação de todos. Batizados, somos discípulos missionários do amor de Deus.

Como falar então de carisma vicentino, se toda caridade é missionária, se todos “peregrinamos na Missão impelidos pela caridade”? Quando São Vicente lembra, agradece, louva a Deus, se humilha pela imerecida graça do dia 25 de janeiro de 2017 e diz contemplativamente: “Eis o primeiro sermão da Missão”, que horizonte de fé ilumina seu espírito? Como justificar expressões suas, de clareza meridiana, a respeito da especificidade de nosso carisma:

“Peço à Companhia que agradeça a Deus pela instituição da Companhia, pela vocação de cada um a ela, por nos achar nesse estado da religião de São Pedro ou antes de Jesus Cristo. Ó meu Salvador, esperastes 1.600 anos para suscitar uma Companhia que fizesse profissão expressa de continuar a missão que vosso Pai vos enviara a cumprir na terra”. “Vede, pois isso é algo inédito, como são felizes aqueles que as observam, porquanto conformarão a vida e todas as ações com as do Filho de Deus! Ó Deus! que motivo tem nisso a Companhia para bem observar as regras: fazer o que o Filho de Deus veio fazer no mundo! Que haja uma Companhia e seja a da Missão, composta de pobres pessoas, destinada totalmente a isso: ir por aqui e por ali, pelos povoados e vilarejos, deixar as cidades, o que jamais se fizera, e ir anunciar o Evangelho somente aos pobres. Nisso, exatamente, consistem nossas regras!”

A razão, portanto, da especificidade de nosso carisma é que o nosso amor missionário, nosso carisma da caridade evangelizadora tem uma direção bem definida: os pobres. E não se trata de “opção pelos pobres”, hoje assimilada e realçada na Igreja com toda a riqueza de sua fundamentação bíblico-teológica. Trata-se de destinação aos pobres e destinação exclusiva e excludente, se quisermos ser fieis a São Vicente e úteis a Igreja de Deus: “Peço a Deus, todos os dias, duas ou três vezes ao dia, nos aniquile, se não formos úteis para sua glória” (XI, 2). A utilidade, sabemos pelo contexto das palavras do Santo é função de nossa “fidelidade aos pobres”. Depende então de nós ressuscitar para a vida ou vegetar na mediocridade e solicitar a “Extrema” Unção, aguardando a “extinção”. Vale a pena lembrar a célebre e, para nós, questionadora carta de São Vicente ao Bispo de Tréguier: “Pelo pendor que muitos têm de trabalhar nas cidades e antes para os ricos do que para os pobres, seria de temer que, uma vez acostumados com isso, não quisessem mais ir aos campos procurar a ovelha desgarrada e assim se tornassem inúteis a Igreja de Deus (IV, 314-315). O pobres, portanto, são os destinatários de nossa Missão, por destinação exclusiva e excludente.

É esta destinação aos pobres, assumida como foi por São Vicente, como dom do Espírito Santo, portanto, assumida na fé, em atitude contemplativa, e vivida na prática misticamente, é esta destinação, queremos dizer, que nos une a todos nós, herdeiros do carisma de missionário dos pobres, convictos da gritante atualidade deste presente de Deus para nós e desafiados à atualizá-lo com corajosa, destemida e generosa fidelidade criativa, sem flexibilizações, sem leniência ou distorções oportunistas: Somos só para os pobres, “nosso peso e nossa dor”, vivendo com o Santo o sentido missionário profundo de suas palavras: “O pobre povo se condena e perece de fome”!

2017 não é pois celebração apenas da Congregação da Missão. 400 anos do “primeiro sermão da Missão”, 400 anos do carisma missionário vicentino de evangelizadores dos pobres, destinados aos pobres, “abençoados”, “eleitos”, “chamados”, “predestinados” (“O que Deus não fez sem um desígnio no dia da conversão de São Paulo”), “agraciados”, “herdeiros” do inestimável dom de Deus concedido ao Santo Fundador (aplicação a nós, inspirada nas palavras do Santo, do hino em louvor da graça sem limites de Deus contido em Ef 1; cf. UMM 3.5.2. p. 42, 2ª ed.). Temos aqui um belo quadro contemplativo e místico do “ser missionário dos pobres”, onde todos da família vicentina estamos incluídos.

5. Ação do Espírito Santo que renova 

Uma palavra agora sobre a ação do Espírito Santo “que renova a face da terra”, em termos de renovação, mediante o carisma por ele inspirado em favor do Reino de Deus e da Igreja, no tempo de São Vicente. Vamos assinalar apenas duas referências esclarecedoras, brotadas do seu espírito e coração, iluminadas pela fé e fruto do dom que Deus lhe concedeu: O seu carisma renovador.

1 – Antes de tudo o seu olhar de fé para os pobres do seu tempo, considerados, não mais, como acontecia então, como estorvos incômodos, como brutos ignorantes, vagabundos, preguiçosos, desprezíveis, mas como a presença viva de Jesus: “Virai a medalha”. É este o comando do seu coração a ecoar nos corações e a provocar os discípulos e seguidores de Jesus, na trilha dos seus passos. Presença viva de Jesus, repetimos, mais desafiadora e empenhativa, mais comprometedora do que a presença de Jesus na Eucaristia: “Minhas filhas, sabei que, quando deixardes a oração e a santa missa pelo serviço dos pobres nada perdeis com isto: pois servir aos pobres é ir a Deus; e deveis ver a Deus nas suas pessoas” (IX, 5). “Uma irmã irá dez vezes ao dia ver os doentes, dez vezes por dia ali encontrará Deus (…)  Ide ver os pobres forçados, ali encontrareis Deus” (IX, 252).  É a visão contemplativa e mística de Jesus nos deserdados que certamente levou o genial bispo Bossuet a acordar a Igreja da França para “a eminente dignidade dos pobres”, em seu célebre sermão.

2 – O pioneirismo de suas obras: se São Vicente tinha uma “devoção especial em seguir a adorável providência de Deus, sem jamais ultrapassar-lhe os passos” (C. 449, III, 194), por outro lado não hesitava em alargar seus próprios passos e dilatar o coração com decisões pioneiras em favor do Reino de Deus, no serviço aos pobres, com respostas generosas e inéditas, diante da vontade de Deus, lida nos sinais dos tempos.

2.1 – O que aconteceu um mês após sua chegada a Chatillon: “Num domingo, enquanto eu me paramentava para celebrar a missa, vieram dizer-me que numa casa separada das demais, a um quarto de légua, todos estavam doentes, sem restar ninguém para assistir os outros, e todos numa necessidade indizível. Isto me tocou sensivelmente” (LGS, I, 92). Todos sabemos do que aconteceu: o poder e a unção de sua palavra no sermão pronunciado, a afluência da população em longa procissão com os remédios e os alimentos e a organização da caridade pelo Santo: ao sinal da Providência, institui a Confraria da Caridade, hoje a AIC, e faz a experiência espiritual da segunda face da Missão, como dissemos anteriormente, o socorro material do pobre. A Confraria da Caridade foi, no seu tempo, uma Instituição pioneira: senhoras leigas, missionárias via caridade, como se pode ver no seu primoroso e terno regulamento.

2.2 – Mais tarde, diante da verificação da contratação de mercenárias pelas Damas da Caridade, no serviço aos pobres, escuta novamente a voz da Providência e amadurece no coração o projeto de atendimento direto aos pobres. Auxiliado pela admirável figura da Mãe dos pobres, Santa Luísa, vai instituir em 1633, as Filhas da Caridade, total novidade em seu tempo: moças simples, geralmente camponesas, vivendo a vida consagrada, fora da clausura restritiva dos conventos e dos claustros dos mosteiros, entregues inteiramente ao socorro material e espiritual dos pobres doentes, portanto, elas também, missionárias, via caridade.

2.3 – Em 1625 a fundação oficial da Congregação da Missão, consagrada por um voto específico à evangelização dos pobres, vivendo em comunidade, como padres seculares, livres para a Missão, para o socorro material e espiritual dos pobres, mediante o voto específico de serviço aos pobres do campo e auxiliados pelos votos da Vida Consagrada.

Conclusão:

De tudo que precede, deduzimos que na expressão do Santo: “eis o primeiro Sermão da Missão”, a palavra Missão, em seus lábios e em seu espírito contemplativo, ultrapassa, como assinalamos atrás, os limites da Companhia ou do grupo institucional por ele fundado. Ela se inspira e se situa no mistério maior da Missão de Jesus em que todos que descendem e participam do seu carisma estão também inseridos. Todos somos desafiados a levar em frente a inspiração e o carisma fundacional de cujos 400 anos estamos fazendo memória e somos desafiados a sustentar, em nosso tempo, seu vigor e fecundidade, deixando-nos converter em direção a  uma fidelidade criativa não só de palavras, mas “em espírito e verdade”, “com a força de nossos braços e o suor de nosso rosto”, atentos aos sinais dos tempos, sem medo do novo, na docilidade ativa à Providência: “IN NOMINE DOMINI”.

Talvez antes do AMÉM final fosse propício escutar algumas advertências ou conselhos. Primeiramente, uma voz que vem de dentro: “Em relação ao carisma vicentino, como função ou tarefa específica na Igreja, há que se ter presente o fim para o qual nasceu a Companhia, fim que se intenta conseguir por meio de ministérios específicos. Neste sentido, convém consignar um perigo que ronda nossa família espiritual, como a qualquer outro Instituto, se assume, sem o devido discernimento, atividades que não lhes são próprias ou que, inclusive, contradizem a vontade dos fundadores. Não há dúvida de que neste terreno tenha acontecido – oxalá não aconteça na atualidade – desvios espirituais e apostólicos do carisma fundacional. Isso acarretou, indiscutivelmente, nas congregações, uma perda de identidade e um confusionismo dentro da mesma instituição. Nesse sentido, alerta o documento Mutuae relationes de 14 de maio de 1978, da Sagrada Congregação dos Religiosos e Institutos Seculares: “É necessário nas circunstâncias de evolução cultural e de renovação eclesial, que a identidade  de cada Instituto seja assegurada de tal modo que se possa evitar o perigo da imprecisão com que os religiosos, sem ter suficientemente em conta o modo de atuar próprio de sua índole, se insiram na vida da Igreja de maneira vaga e ambígua” (MR, 11). Uma Congregação (ou Sociedade de Vida Apostólica) que perdeu seu espaço de trabalho e  o modo de atuar próprio de sua índole, a saber o espírito que a capacita para uma missão concreta na Igreja, passou da hora. Diríamos nós hoje, na língua do Santo: “Il a fait son temps”!

Ouçamos também, como dirigidas a todos nós, as palavras do bem-aventurado Papa Paulo VI às Filhas da Caridade quando diz: “Permanecei fieis ao carisma de São Vicente e às exigências de uma vida espiritual sólida para um melhor serviço à Igreja e à sociedade contemporânea (…) a Igreja de hoje conta com vossa fidelidade, uma fidelidade radical ao carisma de vossos Santos Fundadores, que é dom do Espírito Santo” (26 de junho de 1974). AMÉM, SENHOR JESUS!