3º Domingo do Tempo Comum (Homilia do Pe. Gregory Gay, Superior Geral da C. M.)

Leituras:
Neemias 8, 2-4ª.5-6.8-10
1Coríntios 12, 12-20
Lucas 1,1 -4.4, 14-21

Durante estes dias, refletimos sobre o tema da colaboração, que constitui a perspectiva mais apropriada, pois estamos celebrando o ano da colaboração. Aproximando-nos do final do nosso encontro fraterno, a Palavra de Deus confirma tudo o que estivemos compartilhando.

Embora sendo muitos, somos uma só realidade… Como Família, nossa missão é clara:

Proclamar a Boa Nova aos Pobres.

As leituras de hoje, de maneira forte e com grande precisão, descrevem nossa identidade vicentina. Quando Jesus iniciou seu ministério público, optou preferencialmente, pelos que eram abandonados pela sociedade: leprosos, doentes, pecadores, cobradores de impostos, estrangeiros, viúvas, crianças. Jesus disse a todos eles que eram abençoados; que tinham uma posição privilegiada em seu Reino; que valiam mais do que as aves do céu e os lírios do campo…; e, o mais importante de tudo, lhes disse que, por serem seus amigos, daria a vida por eles, para partilhar com eles a plenitude da vida.

Vemos, assim, como Jesus e, mais tarde, seus discípulos centraram sua energia na Missão… e com isso o número dos membros e das comunidades crentes aumentou.

Frequentemente, hoje em dia, costumamos ouvir alguns ramos da Família manifestarem sua preocupação pelo baixo número de seus membros e/ou pelo envelhecimento de seus poucos integrantes. Em certo sentido, posso entender esta preocupação… mas, ao mesmo tempo, estou convencido de que tal preocupação é irrelevante.

De fato, estou mais convencido disto:

  • na medida em que nos dedicamos à Missão de proclamar a Boa Nova;
  • na medida em que vamos nos envolvendo em projetos com outros ramos da Família;
  • já que estes projetos visam contribuir para derrubar, destruir e arrasar as estruturas de injustiça, opressão e exclusão social;
  • já que nossos esforços de colaboração proclamam a Boa Nova do Reino, em lugar de ficar repetindo estas palavras desanimadoras: “Mas sempre fizemos as coisas desta maneira”;
  • na medida em que assumimos a condição dos golpeados, feridos e sujos, como resultado da inserção e de querer compartilhar nossas vidas com as pessoas na rua;
  • quando nos transformamos no aspecto pastoral, atrevendo-nos a ir muito além do mero aspecto administrativo…

… ao fazer tudo isto, as preocupações acerca do número de membros e seu envelhecimento se desvanecem rapidamente em nosso panorama existencial. Rapidamente descobrimos que nossa participação numa missão comum e a vontade de viver nosso ministério junto aos outros se converte numa luz que anima e atrai outras pessoas para nossa realidade. Nosso entusiasmo e zelo se tornam comunicativos. Descobriremos em nós novas energias que nunca pudéramos sequer imaginar. Começamos a estabelecer novas relações e conseguimos viver nosso ministério junto com outras pessoas, que antes não chegávamos a considerar como aliadas.

Falando de aliados… deixem-me acrescentar uma observação. Ao fazer essas novas alianças com os outros, precisamos ter consciência de que também vamos criar inimigos. É natural, porque, quando proclamamos a Boa Nova aos Pobres, os ricos e poderosos se sentem ameaçados e vão lutar contra nós. Mas também recordem: não há inimigos permanentes, nem aliados permanentes. O inimigo de hoje pode converter-se facilmente em nosso aliado na luta de amanhã; e o aliado de hoje em dia também poderia tornar-se nosso inimigo na próxima luta.

Colaboração e mudança de estruturas. Algumas pessoas me criticam por falar com demasiada frequência sobre estes temas. Mas me sinto como se não houvesse podido me expressar o suficiente sobre estas realidades. Como veem, tenho uma visão do Reino onde os homens e mulheres de todas as raças, credos e crenças religiosas possam viver juntos: como irmãos e irmãs, filhos e filhas do Deus único. Além disso, creio que o Reino estará mais vivo, no nosso meio, na medida em que juntos, como Vicentinos, dermos a nossa contribuição única para a construção desse Reino. Qual é essa contribuição única?

O ministério afetivo e efetivo; o ministério que realizamos como uma família; o ministério que combina caridade e justiça, ao servirmos nossos amos e senhores, os homens e mulheres que vivem na pobreza. Numa de suas conferências sobre direito comercial, Frederico Ozanam falou assim: “A caridade sozinha não basta. A caridade trata as feridas, mas não impede os golpes que as provocam… A caridade é o samaritano que derrama azeite sobre as feridas do viajante que foi atacado. Mas é papel da justiça evitar os ataques”.

Ao refletir sobre a Palavra de Deus que nos foi proclamada aqui nesta manhã, espero que todos nós, como as pessoas que se reuniram ao redor de Neemias, possamos escutar com atenção o que Deus nos está falando, bendizer ao Senhor e clamar, dizendo: Amém! Amém! Nas palavras do Papa Francisco, que possamos seguir adiante, alegrando-nos com os que estão alegres, chorando com os que choram e comprometendo-nos na construção de um mundo novo, lado a lado com os outros (cf. Evangelii Gaudium, 269). Então, mais uma vez, poderemos unir-nos, escutando com atenção o que Deus está nos dizendo, gritar que é esse o nosso projeto e continuar construindo esse novo mundo… e logo! E isto é apenas o começo!!!