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400 anos do nascimento do Carisma Vicentino: tempos presentes e futuros, desafios e perspectivas – Pe. Eli Chaves dos Santos, CM

13 de abril de 2017
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400 anos do nascimento do Carisma Vicentino: tempos presentes e futuros, desafios e perspectivas

Calçando e renovando as sandálias da missão e da caridade

Para falar dos 400 do carisma vicentino e seus desafios e perspectivas, tomo aqui a imagem das sandálias, inspirado no bonito vídeo do Superior Geral.  As imagens muito nos ajudam a entender, caracterizar e explicar as experiências de vida, sem encerrar tudo numa definição completa e precisa. As imagens têm seus limites, mas elas contêm um significativo apelo existencial e têm uma grande capacidade de interpelar a nossa vontade e as nossas emoções.

Falar dos 400 anos do carisma vicentino é falar do caminhar de quem calçou e gastou as sandálias da missão e da caridade. Todos nós sabemos que o carisma é um dom de Deus concedido a uma pessoa e a seus seguidores, para responder por palavras e ações aos apelos concretos de Deus na Igreja e no mundo. É uma experiência do Espírito e, portanto, um caminhar no Espírito. São Vicente, em suas experiências históricas e primordiais e em suas respostas de serviço e ação junto aos pobres, fez uma experiência espiritual, caminhou no Espirito de Cristo Evangelizador dos pobres. Suas sandálias surradas e velhas são o símbolo de uma herança histórica viva e que hoje, 400 anos depois, queremos viver, guardar, aprofundar e desenvolver.

1. Celebrar as sandálias velhas e surradas de um caminho realizado: Memória

As sandálias velhas, furadas e fora de moda nos levam a um passado longínquo. Elas nos levam a uma França do século XVII, com uma sociedade altamente estratificada, fortemente marcada por grandes conflitos políticos, por desigualdades sociais, com a grande maioria de sua população sem acesso às condições básicas de vida. Estas sandálias nos levam à história concreta do Pe. Vicente de Paulo. Um eclesiástico, homem de seu tempo, que, após alguns anos de incerteza e busca de um rentável benefício, começou a frequentar o mundo dos pobres e se deixou tocar profundamente pelo abandono pastoral e social dos camponeses, pela realidade sofrida dos escravos das galeras, das crianças abandonadas, dos doentes sem assistência, dos pobres famintos, do clero despreparado e vivendo de forma indevida… Estas sandálias lembram a notável caminhada história do Pe. Vicente, em seu serviço eclesial e social, para atender as necessidades pastorais da Igreja e as necessidades sociais das classes pobres e necessitadas. Vistas no seu aspecto externo, estas sandálias são uma peça de museu, são retrato de um tempo histórico e de uma experiência edificante que passaram.

No entanto, para além de sua aparência e aspecto material, estas sandálias nos falam de uma experiência de fé, uma experiência de seguimento de Cristo. Elas recordam e atualizam para nós hoje um ideal de paixão por Cristo nos pobres, ou pelos pobres em Cristo. Elas falam de São Vicente que sentiu e conviveu com a realidade concreta de pobreza, miséria, sofrimento e fome. Falam de alguém que leu esta realidade à luz da fé e aí descobriu Cristo como Deus presente no mundo para compartilhar a sorte dos humildes e anunciar-lhes o Reino. Sem cair em teorias abstratas e frias, sem se deixar levar pelo intimismo ou pela fuga da realidade, São Vicente viu o serviço ao pobre como a missão do Cristo Verbo Encarnado; viu no rosto desfigurado do pobre e do padre o rosto de Cristo, e entendeu que a conversão da Igreja em geral, dos padres e dos leigos em particular, está no serviço a Cristo presente no pobre abandonado.

Estas sandálias falam de um testemunho de vida e de fé encarnada, compromissada e profética. Falam de São Vicente que denunciou a realidade desumana da pobreza, que se pôs ao lado dos pobres na defesa da vida e da dignidade humana, anunciando com zelo incansável o Evangelho e promovendo ações transformadoras. Elas são testemunhas da rica, diversificada e criativa ação missionária e caritativa de São Vicente, onde ele, sob a inspiração do evangelho e na linha dos profetas bíblicos, nos ensinou que devemos aprender dos pobres, nossos Mestres e Senhores; que devemos subir para chegar aos pobres e não nos abaixar para colocar-nos no seu nível; que devemos, em atitudes fraternas e em espírito comunitário, colocar as estruturas e mecanismos eclesiais e sociais a serviço do pobre; que devemos deixar Deus por Deus; que devemos cultivar o amor afetivo e o amor efetivo; que devemos tratar os pobres não como objetos, mas como sujeitos, nossos irmãos, senhores e mestres…

Estas sandálias se gastaram no intenso caminhar de São Vicente, que encontrou o centro unificador de toda sua pessoa em Cristo evangelizador dos pobres, que empreendeu inúmeros serviços missionários e caritativos de renovação da sociedade e da Igreja. Elas são sandálias que São Vicente calçou de modo exemplar e com um zelo notável, deixando-nos uma proposta de serviço organizado e integral aos pobres, onde caridade e missão se articulam, onde a missão se faz com palavras e ações transformadoras, onde a caridade acontece no serviço espiritual e material. Estas são as sandálias da missão e caridade, elas repetem para nós hoje os ensinamentos e apelos de São Vicente:

  • “A missão é um dos maiores e mais necessários bens que conheço”… “Evangelizar é um ofício tão nobre que é por excelência o ofício do Filho de Deus… “É maravilhoso fazer conhecer a Deus, anunciar Jesus Cristo aos pobres, dizer-lhes que está próximo o Reino de Deus e que este Reino é para eles”… “Como é feliz a condição de um missionário que não tem, em suas missões, nenhum outro limite que o mundo habitável. Por que restringir-nos a um ponto e estabelecer limites, dentro de uma paroquia, se é nossa toda a circunferência do círculo?” (XII, 828-829).
  • A caridade está acima de todas as regras e é preciso, pois, que todas as coisas a ela se relacionem. É uma grande dama, é preciso fazer o que ela ordena. Empreguemo-nos, pois, com um novo amor a servir os pobres e também procurar os mais pobres e abandonados; reconheçamos diante de Deus eles são nossos senhores e nossos patrões”(XI, 393).

Estas sandálias, símbolo de uma caminhada de missão e caridade, são um convite para hoje fazermos memória desta notável experiência de fé, que permanece ainda hoje atual, cheia de provocação e iluminação para nosso caminhar de fé. Fazer memória é olhar com gratidão o passado. Nestas sandálias surradas e velhas, descobrimos que temos uma rica história carismática. Nas nossas origens, está presente a ação de Deus que, no seu Espírito, chamou São Vicente e seus colaboradores para seguirem de perto a Cristo, traduzirem o Evangelho numa forma particular de vida, lerem com os olhos da fé os sinais dos tempos, responderem criativamente às necessidades da Igreja. Estas sandálias convidam-nos a recordar os inícios e o desenvolvimento histórico da missão vicentina, para agradecer a Deus que deste modo ofereceu à Igreja tantos dons que a tornam bela e habilitada para toda a boa obra (cf. LG, 12).

Nestas sandálias temos um símbolo do carisma que celebramos neste Ano Jubilar. Elas nos convidam, tomando emprestadas as palavras do Papa Francisco ditas às pessoas consagradas, “a repassar a nossa própria história para manter viva a identidade e também robustecer a unidade da família e o sentido de pertença dos seus membros. Não se trata de fazer arqueologia nem cultivar inúteis nostalgias, mas de percorrer de novo o caminho das gerações passadas para nele captar a centelha inspiradora, os ideais, os projetos, os valores que as moveram, a começar dos Fundadores, das Fundadoras e das primeiras comunidades. É uma forma também para se tomar consciência de como foi vivido o carisma ao longo da história, que criatividade desencadeou, que dificuldades teve de enfrentar e como foram superadas. Poder-se-á descobrir incoerências, fruto das fraquezas humanas, e talvez mesmo qualquer esquecimento de alguns aspectos essenciais do carisma. Tudo é instrutivo, tornando-se simultaneamente apelo à conversão. Narrar a própria história é louvar a Deus e agradecer-Lhe por todos os seus dons”.

2. Renovar/reformar as sandálias para o nosso caminhar hoje: a Identidade

As sandálias velhas e furadas levam-nos à lembrança agradecida do passado e impelem-nos a escutar atentamente o que o Espírito diz hoje à Igreja e, em particular, à Família Vicentina; elas nos levam a implementar de maneira cada vez mais profunda os aspectos constitutivos do carisma vicentino, ou seja, sua identidade.  Ao fazer memória do carisma, somos chamados, usando as palavras de São João Paulo II, “à mesma generosidade e abnegação que impeliram os Fundadores…, a manter vivos os seus carismas, que continuam – com a mesma força do Espírito que os suscitou – a enriquecer-se e adaptar-se, sem perder o seu carácter genuíno, para se porem ao serviço da Igreja e levarem à plenitude a implantação do seu Reino”.

Ao fazer memória do carisma, somos convidados ao reencontro com capacidade inovadora da experiência caritativa e missionária de São Vicente. Isso se faz necessário para reproduzir com valor a audácia, a criatividade e a santidade de São Vicente, como resposta aos sinais dos tempos no mundo de hoje. A história dos 400 anos do carisma vicentino nos chama a aprofundar a assimilação e a apropriação da identidade deste carisma, para continuar a testemunhá-lo de modo vibrante, fiel e fecundo. As sandálias estão velhas e furadas, precisam de manutenção, necessitam ser renovadas, pois não podemos cair na mera repetição de práticas tradicionais. O carisma precisa ser atualizado e revitalizado.

A verdadeira e evangélica assimilação e renovação da identidade do carisma exigem um sério e profundo processo conversão pessoal e comunitária, realizado na liberdade e no discernimento da vontade de Deus dentro da realidade histórica. Os Superiores Gerais, em 2015, diziam: O carisma não é “engarrafamento” e conservação; ele deve ser reavivado com maior frequência; as origens do Instituto não podem ser consideradas como a totalidade do carisma: este tem um desenvolvimento e crescimento, mas também pode ocorrer esclerose e declínio. Manter o carisma vivo e animado a sair, deixando as rotinas habituais e não se fechar em posições adquiridas. Para abraçar a identidade do carisma e ser abraçado por ela, é preciso abertura ao Espírito, assumindo atitudes, expressões e formas de vida pessoal e comunitária, coerentes com os apelos do momento atual. O modo concreto de viver o carisma vicentino “não é uma realidade dada para sempre. Está em devir, em construir-se. E isso se faz em relação aos diferentes da realidade histórica que surgem… A identidade não existe como algo fixo, definido uma vez para sempre. A rigidez da identidade aponta para a morte. A acomodação é mortal, porque já não se sabe o que se é… Só há identidade em íntima relação com os diferentes e em permanente transformação…”.

Os 400 anos do carisma questionam-nos sobre a fidelidade à missão que nos foi confiada. Os nossos serviços, as nossas obras, a nossa presença correspondem àquilo que o Espírito pediu e pede hoje, através de São Vicente? Com simplicidade e humildade e em nível pessoal e comunitário, necessitamos discernir a atual realidade e apelos dos pobres e dos ramos da Familia Vicentina e buscar as mudanças e intervenções necessárias para renovar-nos, para termos um rosto verdadeiramente vicentino, ou seja, uma espiritualidade encarnada e comprometida com os pobres, uma ação renovada e transformadora lá onde os gritos dos pobres mais abandonados são mais fortes, uma busca de estruturas e mecanismos de ação apropriados e coerentes.

A memória dos 400 anos nos pedem um esforço e compromisso de resgatar tudo o que promove a centralidade de Cristo evangelizador dos pobres na vida e missão da Família Vicentina. Esta é a prioridade das prioridades; sem reavivar o dom de carisma e os elementos espirituais que configuram a identidade da vocação vicentina, o processo de renovação se torna sem alma e sem fecundidade evangélica. Em um encontro com os padres vicentinos do Brasil, Paulo Suess nos fez uma advertência: “Vocês Lazaristas devem ser especialistas em missão, tenham cuidado para não pecar onde estão chamados a ser mais virtuosos”. Nestes 400 anos, podemos parafrasear essa advertência, dizendo: “Nós da Família Vicentina devemos ser especialistas em missão e caridade, tenhamos cuidado para não pecar onde estamos chamados a ser mais virtuosos”.

3. Calçar as sandálias renovadas para um caminho novo e desafiante: Profecia

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As sandálias de São Vicente caminharam num tempo difícil. Hoje também somos chamados a caminhar num tempo desafiante de mudança de época. Conhecemos as dificuldades que enfrenta a missão vicentina nas suas diversas formas: a diminuição das vocações e o envelhecimento do pessoal, os problemas econômicos decorrentes da grave crise financeira brasileira e mundial, os desafios da internacionalidade e da globalização, as influências do relativismo, o individualismo, a crescente marginalização social dos pobres… É precisamente nestas incertezas, que somos chamados a reencontrar a vitalidade do carisma vicentino, acolhendo com renovado ardor o apelo de São Vicente: “Ide aos pobres, missionários, ide; estais ainda está aqui, quando há tantas almas que vos esperam…?”(XI, 56). É neste momento que somos desafiados a ouvir o apelo do Papa Francisco, que nos chama a ser “Igreja em saída”, a buscar uma “conversão missionária”, a “recuperar o frescor original do Evangelho”, a voltar a Jesus que pode romper esquemas enfadonhos e surpreender-nos com sua criatividade, e  a ir às periferias… (cf. EG).

Somos chamados a calçar as sandálias renovadas da missão e da caridade e trabalhar duro para promover uma nova etapa evangelizadora e caritativa, centrada na alegria do Evangelho e na conversão a Jesus Cristo. Não podemos ficar paralisados pelo medo, ressentidos, desperançados e ouvindo os “profetas da desventura” – diz-nos o Papa Francisco: “Os desafios estão aí para ser superados. Sejamos realistas, sem perder a alegria, audácia e a entrega esperançada” (EG, 109). Provavelmente, estamos mais habituados a uma missão e caridade, realizadas dentro de uma dinâmica de conservação (transmissão da fé e da caridade em sintonia com uma sociedade estática, tradicional e homogênea e com uma Igreja de cristandade): uma missão enquadrada no âmbito paroquial e sacramental, uma caridade de assistência e obras caritativas para os pobres. No entanto, dentro do mundo atual, cada vez mais secularizado e plural, este modelo se mostra insuficiente para inspirar uma ação missionária e caritativa na sociedade atual e futura.

Precisamos, na abertura ao Espírito, buscar novos caminhos para expressar, viver e realizar o carisma. As sandálias da caridade e missão, revitalizadas na força do Espírito, não nos permitem ficar passivos e paralisados no medo, buscando a autodefesa ou a restauração de práticas e ideias do passado. Papa Francisco nos questiona: “Estamos abertos às surpresas de Deus ou nos fechamos, com medo, à novidade do Espírito Santo? Estamos decididos a percorrer os caminhos novos que a novidade de Deus nos apresenta ou nos entrincheiramos em estruturas caducas que perderam a capacidade de resposta?” (Homilia de Pentecostes, 19 de maio de 2013) Somos chamados a uma renovação evangélica, corajosa, sem medo de falhar.

A celebração dos 400 nos interpela e nos convida a voltar às fontes, ao primeiro amor e ao frescor original do Evangelho, a exemplo de São Vicente de Paulo. Este grande desafio significa recuperar e desenvolver na Família Vicentina algumas tarefas básicas, que podemos sinteticamente resumir em cinco pontos:

a. Aprofundar o encontro pessoal com Cristo evangelizador dos pobres. Papa Francisco fala do perigo atual de “ser cristãos sem Jesus” (Homilia em Santa Marta, 7 de setembro de 2013). Do mesmo modo, podemos falar do perigo de ser vicentino sem Cristo nos pobres, ser vicentino sem Jesus Cristo e/ou então sem os pobres”. Jesus Cristo é o centro de nossa vida e missão, regra para nossa identidade, conteúdo de nossa pregação, razão de nossa paixão pelos pobres. Os pobres nos revelam Cristo na Igreja, no mundo e na Família Vicentina. Em nossa aproximação em relação a eles, encontramo-nos com Cristo. Os pobres constituem nosso lote próprio, nossa herança. A eles, dirige-se nossa ação evangelizadora. Eles são também nossos primeiros interlocutores. No contato direto com os pobres, eles nos evangelizam. Para nós, os pobres não são apenas “nossos amos e senhores”, mas também “nossos irmãos e mestres”. Aprendemos deles, partilhando com eles nossa vida. Nossa relação com os pobres, com os mesmos sentimentos de Cristo Jesus, identifica-nos como Missionários da Caridade[1]. Aqui está coração, o essencial, o mais belo e o mais importante do carisma vicentino. Esta é a experiência fundante, o sentido último e absoluto, que anima, sustenta e renova a vocação vicentina. É essencial conhecer e ler a realidade dos pobres à luz da fé, renovar a experiência do encontro com Jesus e cultivar uma paixão por Cristo nos pobres e pelos pobres em Cristo. Se a falta esta experiência espiritual, falta tudo e a vocação vicentina perde seu frescor evangélico e sua vitalidade missionária.

b. Sair para as periferias onde estão os pobres mais abandonados que são o sacramento de Cristo. Os pobres vistos em Cristo são o fio condutor que deve dar sentido e revitalizar toda a vida e missão vicentina. Os pobres não são uma categoria intelectual ou virtual, são pessoas reais com dignidade, necessidades e sofrimentos, são rostos sofridos de É essencial ir até eles, conhecê-los em sua realidade concreta, fazer-se irmão e amigo deles, inserir-se no seu mundo e participar de sua vida. Os pobres e seu mundo são o lugar da Família Vicentina na Igreja e na sociedade. A verdadeira revitalização vicentina acontece quando se desenvolvem o encontro e o diálogo com os pobres[2], que têm um potencial evangelizador. Na força transformadora do diálogo e do encontro de fé com os pobres, se desenvolvem simultaneamente a mística do encontro com Deus e a profecia que nos faz amigos solidários dos pobres e servidores da sua causa de justiça. Nesta perspectiva, devem ser lidas e assumidas as cinco virtudes vicentinas. Elas são um programa de vida missionária, elas dão sentido e força para uma assimilação da caridade missionária de Jesus Cristo, para um despojamento missionário, para uma vida comunitária para a missão, para a inserção na realidade dos pobres, para a inculturação da mensagem do Evangelho; elas nos possibilitam ter o “cheiro dos pobres”. Sem a inserção de fé no mundo dos pobres e um efetivo compromisso missionário com eles, a vocação vicentina perde sua força evangélica e não tem futuro!

c. Aprofundar a caridade missionária de Cristo como constitutivo da vocação vicentina. A caridade missionária é o dom que o Espírito deu à Igreja através de São Através da santidade na caridade missionária, a vocação vicentina participa da santidade da Igreja e, ao mesmo tempo, dá a sua colaboração específica para a santificação da Igreja. O serviço da Família Vicentina deve ser uma profecia que ajude a Igreja a ser uma comunidade de caridade que continue o “espírito de caridade perfeita de Cristo”. É necessário, portanto, rever nossa vida e trabalho e ver se eles são uma expressão atualizada e profética do carisma. A vitalidade missionária vicentina requer uma “Família Vicentina em saída”. Essa dinâmica bíblica de se colocar em estado de êxodo, também presente no pensamento de São Vicente, apresenta a necessidade de acolher as novidades do Espírito e cultivar a disponibilidade e a criatividade para novas formas de serviço aos pobres. Uma família espiritual missionária que se fecha em sua estrutura ou em seus interesses próprios existe para si, trai a sua essência, mesmo realizando ações cheias de boas intenções. Em nível pessoal e comunitário, a missão supõe uma dinâmica de mudança, exige sair de si mesmo e desinstalar-se. Estamos diante de um contexto sociocultural que enfatiza o individualismo e o consumismo, fragmenta as pessoas, cria uma crise de identidade e uma diminuição do fervor missionário. É necessário, individual e coletivamente, sair da “zona de conforto”, do comodismo, da estagnação; é preciso evitar algumas formas desvirtuadas de vivência da fé, tais como o mundanismo espiritual, espiritualidades pouco sadias que visam somente o bem-estar e a prosperidade pessoal, certos estilos de vida longe de Deus e dos pobres, etc. A vitalidade missionária vicentina exige uma conversão, buscando com intensidade e coragem novas atitudes e ações que reconfigurem a realidade pessoal e comunitária e gerem vitalidade missionária, através da identificação profunda com Cristo evangelizador dos pobres, uma identificação com sólida maturidade humana, autêntica qualidade de vida evangélica e profunda paixão missionária pelos pobres.

d. Desenvolver uma ação transformadora e integral de missão e caridade. Nos passos de São Vicente, o frescor evangélico do carisma está em Jesus, enviado a evangelizar e servir os pobres (Lc 4, 14-21). Isso significa voltar a Jesus e sua missão libertadora. Significa recuperar a dimensão histórica e social do Reino de Deus, abraçando o projeto humanizador e compassivo do Pai, um projeto de vida fraterna e de construção de um mundo de justiça e dignidade para todos, a partir dos pobres e excluídos. Aqui se coloca o desafio para todos: assumir a Mudança de Estruturas como método próprio de nossa ação missionária e caritativa. Este instrumento teórico-prático contém uma compreensão sistêmica da vida, da realidade e do fenômeno social da pobreza; possibilita uma compreensão integral e transformadora da evangelização e um modo de agir dentro de uma dinâmica crítica, profética e transformadora, com estratégias adequadas e coerentes. Esta metodologia não é um instrumental específico, isolado, somente para ações específicas ou projetos transformadores com os pobres. Em seu sentido amplo, a metodologia de Mudança de Estruturas se aplica à toda ação evangelizadora, à realização específica de ações transformadoras com os pobres e à renovação da vida da Família Vicentina. Esta metodologia nos compromete e nos desafia a: desenvolver uma ação missionária toda transformadora, a partir dos pobres, integral e comprometida com a promoção de vida digna, justa e solidária e de ação contra as estruturas geradoras de pobreza e de injustiça; promover iniciativas e ações ou projetos específicos que transformem as causas do empobrecimento, realizados juntamente com os pobres e pessoas/grupos comprometidos com eles e em sintonia com uma ação evangelizadora toda transformadora; e aprofundar os processos de organização e colaboração dos ramos, em vista da conversão pessoal e comunitária e da dinamização missionária. Esta metodologia exige de todos nós uma séria uma formação contínua que nos leve a assumir um novo modo de pensar, uma nova sensibilidade social e pastoral e uma prática nova e coerente no serviço aos pobres.

e. Promover a colaboração ativa e fecunda entre os membros e ramos da Família Vicentina. Em uma cultura onde existe uma “crise do compromisso comunitário” (EG, Cap. III), estamos continuamente chamados a testemunhar o sentido comunitário e de colaboração da vocação vicentina. O trabalho realizado por São Vicente foi um grande trabalho comunitário e participativo, um trabalho em equipe. A colaboração entre os membros e ramos da Família Vicentina ajuda a refletir e assimilar a vocação vicentina em seus atuais e novos desafios e oportunidades. Ajuda a promover a partilha solidária dos dons e da riqueza da missão vicentina na sua diversidade, abre perspectivas para revitalizar a vida e a missão dos ramos, dá impulso para novas e criativas ações e projetos conjuntos. A colaboração ajuda a manter o carisma sempre rejuvenescido e convida cada ramo a melhor definir o seu lugar e papel dentro da Igreja e da sociedade, como um agente efetivo e eficaz de serviço aos pobres. A colaboração encontra a sua alma no mistério da Igreja que, por meio do Espírito, é chamada a construir a comunhão dentro da multiplicidade de dons, pessoas, grupos e A colaboração é uma expressão e uma exigência da virtude vicentina de zelo no serviço dos pobres e se desenvolve a partir das atitudes de humildade e responsabilidade, pois “precisamos uns dos outros”. São Vicente, mestre da colaboração, colocou a humildade como uma virtude indispensável para a missão vicentina. Ninguém basta a si mesmo. A colaboração requer uma atitude de reciprocidade e responsabilidade, interdependência e de abertura à colaboração com o outro; requer uma relação fraterna, sem discriminação e interesses de poder e de grupo. O intercâmbio de dons e a humilde somatória das forças ajudam os grupos e indivíduos a crescer na criatividade, a descobrir seus valores e possibilidades, capazes de transformar a si mesmos, de trabalhar em conjunto para enfrentar os desafios e melhor atingir seus objetivos comuns. A colaboração amplia o horizonte da missão vicentina, não nos deixa cair no grande perigo de cada ramo se fechar em suas dificuldades e carências. Este fechamento alimenta resistências e medos, cria um círculo vicioso que impede encontrar respostas criativas para os problemas, provoca rigidez e inflexibilidade para mudar e enfraquece os ideais comunitários. “Estamos no mesmo barco e vamos para o mesmo porto!” (EG, 99) Estamos na mesma família e nosso porto é Cristo nos pobres. A consciência da missão comum e os desafios cada vez mais inquietantes e comuns devem conduzir à superação de barreiras e interesses ideológicos, culturais e de grupo e promover a ajuda mútua. Para que a Família Vicentina colabore de fato e não fique apenas em boas intenções, é preciso fortalecer a comunhão e a corresponsabilidade, evitar desconfianças e distanciamento entre os ramos, desenvolver uma agenda comum de propostas e projetos, a curto, médio e longo prazo, com políticas e ações a realizar.

Um grande e desafiante horizonte se descortina hoje para o caminhar das sandálias vicentinas de caridade e missão. A celebração deste Ano Jubilar nos desafia, nos passos de São Vicente e de tantos membros de nossa Família,  a renovar o ardor missionário, a por o pé na estrada, a calçar as sandálias da missão e da caridade. Para poder continuar hoje sua caminhada, as sandálias necessitam estar vigilantes e manter vivo seu sentido evangélico e sua mística vicentina e, assim, responder aos apelos e desafios formulados pelo Papa Francisco, em “Evangelii Gaudium”: “Não nos deixemos roubar o zelo missionário” (n. 80), “a alegria evangelizadora” (n. 83), “esperança”(n. 86), “a comunidade” (n. 92), “o Evangelho” (n. 97), “o ideal do amor fraterno” (n. 101) e “nunca deixemos os pobres sozinhos” (n. 48). A velha sandália de São Vicente nos anima e quer continuar rejuvenescida em nossos passos, para outros ou mais 400 anos, a serem vividos com fidelidade e muitos frutos de missão e caridade, em beneficio dos pobres mais abandonados!…

Pe. Eli Chaves dos Santos, CM
Belo Horizonte – MG, março de 2017