3ª Formação – Castidade

ENEV – Encontro Nacional de Estudantes Vicentinos

Belém, 22 a 25/07 

“Seguir Jesus Cristo na Congregação da Missão, vivendo na liberdade e alegria dos Santos Votos”

3ª Formação:

Castidade: Fidelidade e amor no celibato

Mt 19, 1-12

“Como imitadores de Cristo em seu amor universal aos homens, abraçamos a castidade perfeita no celibato, por força do voto, por causa do reino dos céus. Recebemo-la, no entanto, como um dom da benevolência pessoal e íntima de Deus”. (CC 29)

Como nos dizem as Constituições de nossa Congregação, desejando seguir Jesus Cristo na vivência do celibato e de uma vida toda inteira doada ao Reino do Pai, nós abraçamos, por força do voto, a castidade. A castidade consiste em seguir Jesus Cristo com o coração indiviso. Conforme lemos no Evangelho (Mt 19,1-12), seguir o Cristo casto e assumir a castidade para nós, significa abrimos mão de ter uma companhia, de constituir família, de gerar filhos, para dedicar-nos a um projeto muito mais amplo, que consiste no amor a todas as pessoas e à missão no serviço aos pobres. Muito mais do que uma opção de vida, o voto de castidade é um dom que Deus nos dá e que deve ser assumido com liberdade e consciência: “O amor célibe há de reconhecer-se sobretudo como um dom de Deus e um projeto que se assume por fidelidade a um chamado; um projeto que compromete a pessoa inteira a viver e amar pelo Reino de Deus” (Instrução sobre os votos, p. 44).

Como todos os demais votos, a castidade precisa ser bem compreendida para ser bem vivida, pois, uma fecunda vivência deste voto nos ajuda a sermos pessoas realizadas na missão. Durante muitos anos, uma mentalidade que compreendia o voto de castidade como sinônimo de castração gerava pessoas infelizes, amarguradas, complexadas, dominadoras e desajustadas. Atualmente, com o auxílio das ciências humanas, entendemos que para viver o voto de castidade, não precisamos lutar contra a força da sexualidade que é parte constitutiva do ser humano. Não nos tornamos assexuados quando fazemos os votos. Pelo contrário! A força da sexualidade continua presente em nossas vidas. Portanto, para uma boa vivência deste voto é necessário não tamponar esta força que há em nós, mas, é preciso integrá-la e integrar também os nossos sentimentos. O amor, por exemplo, é parte integrante da vida humana. Nós amamos e sentimos necessidade de amar. Todos nós temos a necessidade de oferecer afeto e de receber afeto e atenção. Por isso, querer abraçar o voto de castidade negando a natureza humana que está em nós significa viver infeliz e recalcado para toda a vida.

A fidelidade a Deus e à missão pelo voto de castidade de modo algum exclui a intimidade. Aliás, a vida consagrada não é um estilo de vida que deve representar um não à intimidade. Nesse sentido, diga-se com toda a força possível, não é suficiente uma vida comunitária genérica, em que no final das contas, as relações são formais, frias e, muitas vezes, tristes, amargas e superficiais. O voto de castidade pede uma experiência mais profunda, uma experiência de amizade. Indo na contramão daquilo que se compreendia na época como castidade, São Vicente de Paulo foi um grande exemplo de alguém que soube partilhar de sua intimidade com seus amigos. Basta lermos suas cartas dirigidas aos padres e às irmãs. São cartas cheias de ternura, de partilha da vida, de cuidado com a pessoa, de espírito de amizade e de bem querer. Nas cartas endereçadas à Santa Luiza, vemos o exemplo de um coração que se abre profundamente com aquela que se tornou sua grande amiga e confidente. Pelas cartas podemos perceber como era o Padre Vicente no dia a dia. Como ele mesmo disse em sua Conferência sobre a vocação dirigida aos coirmãos, que um missionário que ama a sua vocação, está feliz e realizado na opção que fez e vive a castidade como um dom e na alegria do serviço, “é como um vale que atrai para si toda a água das montanhas”. Desta forma, São Vicente não distanciava as pessoas dele, mas, as aproximavam. Este é o objetivo deste voto, dom de Deus que nos é dado.

Até bem pouco tempo atrás, a amizade na vida consagrada era vista com grandes suspeitas. Sobretudo se essa amizade envolvesse pessoas de sexos diferentes. Ainda hoje existem congregações e pessoas que avaliam e consideram as relações afetivas, a sexualidade e o cultivo dos sentimentos como os maiores perigos e as maiores perturbações da vida religiosa consagrada. Alguns religiosos imaginam que para ser consagrado, não se pode deixar expressar os sentimentos. O homem não pode ser homem e a mulher não pode ser mulher e ambos não podem ser e nem ter amigos! Isso me faz imaginar uma vida consagrada de robôs!

Contudo, podemos perceber que “a amizade e a vida em comum provêem ambientes que nos ajudarão a descobrir alguns modos sadios de expressar nosso amor e de recebe-lo, e de integrar a sexualidade e a afetividade de um modo maduro em um projeto harmonioso de vida. A atividade e o serviço pastoral são um terreno muito adequado para expressar a criatividade e a fecundidade” (Instrução sobre os votos, p. 45).

Se por um lado a vivência da castidade não consiste em colocar a sexualidade, afetividade e amor dentro de uma panela de pressão, por outro lado, assim como os demais votos, a vivência do voto de castidade requer de nós muito espírito de desprendimento, mortificação, disciplina e consciência da importância dele para o nosso ministério. Para viver bem este voto é preciso passar por um bom processo de auto conhecimento para saber passar bem pelos momentos de frustrações, de solidão, de sofrimento e de carências. Estas situações de limite, quando não se tem um bom autoconhecimento de nós mesmos e quando não há em nós um desejo profundo de mortificação e disciplina dos sentidos, podem desencadear em sérios problemas de ordem afetiva.

No dizer de São Vicente a mortificação dos sentidos significa, em linguagem atual, não transformar o outro em objeto de mero prazer físico, de pura satisfação egoísta. Não é, como já dissemos anteriormente, a exclusão do prazer e da afetividade, mas a superação daquela sensualidade que, propositadamente, reduz o outro ou a outra a coisa. Toda vez que coisificamos as pessoas, estamos atentando violentamente contra a castidade assumida como voto. “Não é no centro da renúncia à sexualidade genital que está o celibato. Ele está no centro da disponibilidade de minhas energias, de minha preocupação, de minha doação aos outros” (Viver os votos em tempos de pós modernidade, p. 70)”.

Se é verdade que precisamos tomar cuidado com nossos sentimentos para que eles não nos traiam, também é verdade que precisamos estar atentos aos sentimentos dos outros. Pois, pessoas carentes, rejeitadas, mal amadas, frustradas e deprimidas têm uma tendência grande em confundir carinho afetivo, advindo de um sentimento puro de cuidado e de amizade com sexualidade genital. Pessoas carentes têm a tendência psicológica de dominar os outros. Há muitos religiosos que caem neste jogo de sedução e ficam dominados afetivamente. Não estou falando de infidelidade ao voto, mas, daquela dominação velada em que o religioso é o tempo todo solicitado por quem o domina veladamente. É preciso então que estejamos bem atentos para não cair nesta armadilha! São Vicente de Paulo, no linguajar próprio da teologia da época nos recorda esta importância da prudência e do discernimento no relacionamento com as pessoas:

“Cada um se esforçará, quanto puder, por ter todo o cuidado, diligência e precaução para conservar inteiramente esta castidade, assim do corpo como da alma. A fim de poder consegui-lo com o auxilio de Deus, guardará com a maior vigilância os sentidos interiores e exteriores; nunca falará a mulheres só para só, em lugar e tempo indevidos; falando com elas ou escrevendo-lhes, se absterá de palavras, ainda que pias, que cheirem a ternura de afeto para com elas; ouvindo suas confissões, como também falando-lhes fora de confissão, não se chegará muito perto delas nem presumirá de sua castidade” (RC 1 e 2)

                Diante que tudo que á foi exposto, é preciso ter muito presente que “para evitar que a castidade se transforme numa espécie de tortura inútil é necessário entende-la não como privação, mas como convite à comunhão. É necessária uma mudança de perspectiva. Caso contrário, ela acaba sendo uma busca de compensações, de coisas que possam substituir a afetividade reprimida. E, quando se chega a esse nível de busca de compensações e gratificações, é difícil obter uma transformação. Por outro lado, viver exclusivamente para Deus não significa excluir o próximo” (Viver os votos em tempos de pós modernidade, p. 92). Pelo contrário! A castidade é libertação plena: capacidade de amar de maneira oblativa, sem exigir do outro uma compensação egoísta.

                Partindo de Jesus Cristo, o documento sobre os votos na Congregação (pág. 46 a 49) nos apresenta algumas pistas interessantes que podem se somar a estas que já foram mencionadas a partir dos Evangelhos para a boa vivência do voto de castidade:

1º Relação Intima com Cristo: O seguimento de Cristo centra-se em sua pessoa, não em uma ideia. Portanto, a vida inteira do missionário deve estar enraizada na intimidade com o Senhor. O missionário célibe e casto sabe que não pode caminhar só, sem a presença de Cristo. Ele é quem nos fortalece para vivermos castamente pelo Reino. Ele torna possível o amor célibe em meio às dificuldades e desafios do mundo. A oração e a eucaristia são os caminhos privilegiados para encontrarmos a Cristo, caminhos também essenciais para cultivarmos o amor célibe.

2º Fecundidade Apostólica: Também o voto de castidade está orientado a promover nossa missão evangelizadora dos pobres. A entrega ao apostolado em seguimento de Cristo dá sentido ao compromisso de amor célibe e é uma excelente ajuda para alimentar uma castidade fiel. A missão e o serviço proporcionam terreno privilegiado para a capacidade criadora e geradora. O trabalho pela promoção humana, que se expressa na solidariedade com aqueles cujas vidas estão destruídas pela pobreza e pelo sofrimento, eleva o amor casto acima do simples interesse pessoal ao terreno do interesse pelo bem social.

3º Vida em comunidade: o seguimento de Jesus Cristo é uma realidade que só se pode compreender e viver em uma relação fraternal e amistosa. A comunhão verdadeiramente fraterna respalda o missionário em sua resposta ao dom do celibato que recebeu. A vida comunitária deve ser o espaço privilegiado para viver a dimensão afetiva que todo ser humano carrega consigo.

4º Amizade e prudência: São Vicente era um homem de uma afetividade rica. Também o missionário de hoje precisa de uma experiência semelhante de amar e sentir-se amado. Uma amizade sadia, que conduza a um maior zelo apostólico e produz liberdade e ajuda mútua, pode constituir um modo de viver com alegria o amor célibe. O missionário encontra-se no meio de um mundo complexo, cheio de graça e de pecado. É decisivo que saiba discernir quais situações, ações e pessoas o conduzem à liberdade de Cristo e quais o conduzem à escravidão. Seu discernimento deve ter sempre em conta seu compromisso radical de seguir a Cristo.

5º Humildade de mortificação: A decisão de seguir Cristo no celibato abre possibilidades novas para amar em verdade, mas por outro lado exige a renúncia a toda expressão genital do amor, ainda que esta seja legítima na vida matrimonial. O missionário deve ser sincero consigo mesmo e com Deus e deve discernir as situações e relações pessoais que não conduzem a um amor célibe. É preciso que tenha consciência clara de suas debilidades, sem se enganar a si mesmo. O missionário não presume de suas próprias forças, mas, confia na presença de Cristo em sua vida. Há ocasiões em que a fidelidade a Cristo significa renuncia. São Vicente recomenda uma séria mortificação dos sentidos interiores e exteriores, assim como o saber evitar os modos de expressão afetiva e sexual que não são compatíveis com uma vida célibe(RC IV, 2-5; XI, 70-71; XI, 758-759).

6º Sinceridade: O missionário vive a castidade a partir de sua humanidade com todas as suas energias e debilidades. Realidades tais como a solidão, a integração da afetividade e da sexualidade não se ocultar, se devem ser integradas convenientemente em uma personalidade madura. Deve-se falar com sinceridade sobre elas com Deus e com os que podem ajudar. A sinceridade com o diretor espiritual e o confessor é indispensável para orientar a vida de celibato.

Ao finalizar essas reflexões sobre o voto de castidade, podemos concluir que a sexualidade humana é fonte de vida, é relação, é comunhão. Ela, porém, foi também atingida pela realidade do pecado. Assim sendo, caso não seja vivida na perspectiva do projeto original do Criador, pode tornar-se expressão de morte, de egoísmo, de dominação, de despersonalização e de incomunicabilidade, também na vida consagrada. Sendo a castidade apenas um modo concreto de viver a sexualidade, ela só é autêntica quando se torna fonte de vida, de relação, de fraternidade e de comunhão.