Quem é Jesus para Luísa de Marillac?

            Por que a Encarnação?

            Santa Luísa gostava de compreender bem as coisas. Refletia sobre as razões que puderam levar Deus a enviar seu Filho à terra. Uma frase pode resumir seu pensamento sobre o motivo da Encarnação: “Deus jamais testemunhou maior amor aos homens do que quando resolveu encarnar-se” (Santa Luísa de Marillac, Correspondência e Escritos. Trad. da Irmã Lucy Cunha. Ribeirão Preto, Editora Legis Summa, s. d.; p. 793).

Depois que Adão rejeitou Deus de sua vida e quis fazer de si mesmo seu próprio deus, a Encarnação manifesta a grande atenção de Deus por suas criaturas. Deus quer encontrar-se com o pecador no mais profundo de seu sofrimento e dar-lhe de novo confiança em si mesmo. Deseja que ele compreenda bem a dignidade de seu ser, pois foi feito à imagem e semelhança de Deus. Este desejo divino, insiste Santa Luísa, não pode realizar-se a não ser num total respeito da liberdade da pessoa.

            Cada um poderá acolher esta graça divina ou rejeitá-la conforme o que pessoalmente decidir. Deus não condiciona as escolhas humanas. O homem é liberdade; tem, pois, toda a capacidade de fazer escolhas, de dizer sim ou não às iniciativas de Deus.

            Realização da Encarnação

            Santa Luísa de Marillac gostava de contemplar a Trindade reunida em conselho, procurando como manifestar aos homens todo o seu amor e decidindo junto a Encarnação do Verbo: “Logo que a natureza humana pecou, o Criador, no Conselho de sua Divindade, quis reparar esta falta. E para isso, com um supremo e puríssimo amor, decidiu: uma das três pessoas iria encarnar-se; nisso aparece, mesmo na Divindade, uma profunda e verdadeira humildade” (Escritos, p. 792).

            A promessa da Encarnação da segunda pessoa da Trindade se inscreve no plano de amor de Deus pela humanidade. Para Santa Luísa, a humildade define Deus tanto quanto o Amor. Deus não é mais o Deus distante e exigente, o Todo-Poderoso, tão frequentemente apresentado ao povo.

            A própria Encarnação já bastaria para fazê-lo reconhecer. Mas muitos outros atos da vida de Jesus vêm confirmá-lo. Por seu nascimento num presépio, “Jesus se fez criança, a fim de facilitar às criaturas o livre acesso até ele” (Escritos, p. 812). Considera “a humildade vivida por Nosso Senhor em seu batismo” (Escritos, p. 813). E, meditando sobre o lava-pés na tarde da quinta-feira santa, Santas Luísa anota: “Não pode haver nada que me impeça de humilhar-me ante o exemplo de Nosso Senhor” (Escritos, p. 813). Cristo tinha interesse em ser honrado por seus Apóstolos, mas aceitou rebaixar-se  até “lavar os pés de seus Apóstolos” (Escritos, p. 813).

            Maria, a Mãe de Jesus

            A Encarnação do Filho de Deus é real. O Verbo se faz carne na Virgem Maria. Com muita emoção e reconhecimento, Santa Luísa contempla a escolha que Deus fez de Maria, essa simples mulher de Nazaré: “a dignidade de Mãe de seu Filho, para a qual Deus a destinava” (Escritos, p. 843).

Por experiência pessoal, Santa Luísa de Marillac conhecia a alegria de dar a vida a uma criança, de fornecer-lhe o mais íntimo dele mesma, seu sangue. Ela gostaria de expressar toda a felicidade que a invadia: “Eis que chegou o tempo de cumprir vossa promessa. Sede para sempre bendito, ó meu Deus,pela escolha que fizestes da Santíssima Virgem (…) e para isso vos servis do sangue da Santíssima Virgem para, com ele, formar o corpo de vosso amado Filho” (Escritos, p. 919).

            Toda a glória de Maria vem de sua maternidade divina. Santa Luísa proclama que Maria é “a obra-prima da onipotência de Deus na natureza puramente humana” (Escritos, p. 954). Louvar Maria, por Deus a ter escolhido, não será glorificar o próprio Deus? Deus tanto amou os homens que ele mesmo quis vir para o meio deles, recebendo sua humanidade de Maria.

            A humanidade santa de Cristo

            Em 1652, Santa Luísa escreve às Irmãs de Richelieu e lhes lembra a importância de contemplar a vida do Filho de Deus durante sua permanência entre nós. Ali descobrirão a verdadeira Caridade: “A mansidão, a cordialidade e a tolerância hão de ser a prática peculiar das Filhas da Caridade, do mesmo modo que a humildade, a simplicidade, o amor à santa humildade de Jesus Cristo, que é a perfeita caridade, são seu espírito. Eis, queridas Irmãs, o que pensei dizer-vos como um resumo de nossos regulamentos” (Escritos, p. 462).

Em sua longa carta de agosto de 1655 às distantes Irmãs da Polônia, Santa Luísa insiste também na importância de contemplar a vida humana de Cristo: “honrando assim a Nosso Senhor pela prática das virtudes que ele mesmo, por sua santa humanidade, nos ensinou” (Escritos, p. 545).

As últimas cartas de Santa Luísa ainda retomam o mesmo tema, como na carta à Irmã Geneviève Doinel, em 1659, por ocasião do Natal: “Vós me convidais a ir ao presépio a fim de encontrar-me convosco aos pés do Menino Jesus e de sua Santa Mãe. (…) Dele, queridas Irmãs, aprendereis os meios para viver as sólidas virtudes que sua santa Humanidade praticou  no presépio, desde o nascimento. De sua infância alcançareis o que necessitardes  para chegardes a ser verdadeiras cristãs e perfeitas Filhas da Caridade” ( Escritos, p. 752).

A insistência de Santa Luísa sobre a contemplação da humanidade de Jesus Cristo mostra o quanto desejava que a vida de toda Filha da Caridade fosse um reflexo do rosto de Cristo, de sua infinita bondade, de seu amor incomensurável. Cristo é verdadeiramente a Regra das Filhas da Caridade, como o é de toda a Família Vicentina.

            Jesus, o Redentor

            Santa Luísa de Marillac, que tem uma boa formação teológica, reconhece que “a Encarnação do Filho de Deus [é], segundo seu desígnio, por toda a eternidade, para a Redenção do gênero humano” (Escritos p. 954). A ruptura entre Deus e os homens, provocada pelo pecado, não podia durar para sempre. Enviando seu Filho à terra, Deus quis renovar a Aliança e permitir aos homens que reencontrassem de novo o que dá sentido às suas vidas. A redenção, nota Santa Luísa, é uma nova criação, uma recriação, o que só se pode conseguir ao termo de um longo processo de transformação, de morte e ressurreição de vida.

            A humanidade sofredora aparece a Santa Luísa como um prolongamento da humanidade sofrida de Cristo. O serviço do amor de cada vicentino é uma continuação da Redenção, permitindo a todo pobre, humilhado e aniquilado, que possa reviver, ressuscitar, tornar-se novamente um homem vivo, libertado de seu mal, de seu pecado, um homem livre. Esta reflexão espantosa se liga à de São Paulo, que ousa dizer: “Agora me alegro de sofrer por vocês, pois vou completando em minha carne o que falta nas tribulações de Cristo, a favor de seu corpo, que é a Igreja” (Col 1,  24).

            A Paixão do Filho de Deus é um ato de amor tão profundo que Santa Luísa quis inscrevê-lo no brasão da Companhia das Filhas da Caridade: “A caridade de Cristo Crucificado nos impele”. Para Santa Luísa, esse amor deve animar e inflamar o coração de toda Filha da Caridade para o serviço de todos os necessitados. Na fórmula com que termina suas cartas, Santa Luísa menciona muitas vezes esse amor inaudito manifestado por Jesus Cristo na Cruz. “Sou, no amor de Jesus crucificado, vossa humilde serva”. Luísa deseja, para si mesma e para as pessoas a quem escreve, que estejam repletas do mesmo amor que levou Jesus a morrer na Cruz. Fez suas as palavras de São João em sua primeira epístola: “O amor consiste nisto: Não fomos nós que amamos a Deus, mas foi ele que nos amou e nos enviou o seu Filho como vítima expiatória por nossos pecados. É nisto que de agora em diante conhecemos o amor: Jesus deu a vida por nós e também devemos dar nossa vida por nossos irmãos (cf. 1 Jn. 4, 10, 16).

            A Eucaristia

            A Encarnação não se limita ao tempo da vida de Cristo. Jesus, quando chega sua Hora, encontra um meio de prolongá-la, de conseguir ficar para sempre conosco. Santa Luísa se maravilha com esta invenção extraordinária da Eucaristia: “A imensidão do seu amor para conosco não se contentou com isso, mas, querendo unir inseparavelmente a natureza divina com a natureza humana,  realizou-a após a Encarnação, na admirável invenção do Santíssimo Sacramento do Altar, no qual habita, continuamente, a plenitude da divindade da segunda Pessoa da Santíssima Trindade” (Escritos, p. 898).

            Parece que Deus quer dizer e repetir ao homem toda a profundeza do seu Amor. A Encarnação já manifestava este profundo desejo de união; a Eucaristia a realiza de um modo ainda maior. Santa Luísa de Marillac não se detém no aspecto “memória e sacrifício” da Eucaristia, mas fala longamente da comunhão, “esta ação tão admirável e incompreensível aos sentidos humanos”  (Escritos, p. 942).

            Receber o Corpo de Cristo é, segundo Santa Luísa, tornar-se participante desta Vida de Deus. Cristo se dá em alimento para que o homem busque nele uma energia nova para cumprir suas tarefas no mundo. À imitação de Cristo, o cristão é chamado a doar todo o seu ser, se deseja levar vida e amor a seu próximo. A recepção da comunhão nos traz uma força excepcional, pois nos dá   “capacidade de nele viver, tendo-o vivo em nós” (Escritos, p. 943).

            Em resposta a tal dom de Deus, Santa Luísa deseja para si mesma e para aquelas a quem acompanha em sua caminhada espiritual, “uma suave e amorosa união com Deus” (Escritos, p. 942-943). É de fato possível a um ser humano ter tal união com seu Deus? O tempo de ação de graças que se segue à comunhão vai permitir-nos dizer novamente a Deus toda a nossa alegria e todo o nosso reconhecimento, porque Cristo, vindo a nós, nos torna semelhantes a ele! Alegremo-nos “admirando este surpreendente invento e esta amorosa união, pela qual Deus, vendo-se em nós, faz-nos, uma vez mais, à sua semelhança, com a comunicação não só de sua graça, mas dele próprio” (Escritos, p. 943). Santa Luísa não sabe como agradecer a seu Senhor e seu Deus que tenha querido permanecer assim na terra, para que todos os homens possam oferecer-lhe toda a glória que sua Santa Humanidade já recebe no céu.

            Conclusão

            Santa Luísa tem uma percepção muito forte e toda interior do Amor divino. Como os escritores bíblicos, Santa Luísa reconhece que “Deus é um fogo devorador” (Hb 12, 26). No cotidiano de suas vidas, as Irmãs e todos os que partilham o carisma vicentino são chamados a deixar esse fogo divino invadir seu ser, a acolher a plenitude do Amor que o Espírito vem infundir em seus corações. É nesta relação que encontrarão forças, energia e criatividade para cumprir seu serviço de Amor junto aos que sofrem da pobreza em todas as suas formas antigas e novas.

            Santa Luísa de Marillac reconhece que ir no seguimento de Jesus e servi-lo em seus membros sofredores é amar com um “amor não comum” (Escritos, p. 952), isto é, com um amor forte, sólido, que não se deixa abalar à menor dificuldade. Este amor forte se traduz, concretamente e no dia-a-dia, pela atenção a cada um, pela mansidão, pela bondade para com todos. Quanto mais o Amor de Deus cresce em nós, mais tomamos consciência da dignidade de cada um, de sua liberdade, do respeito que lhe é devido. Foi assim que Cristo expressou seu Amor.

            Perguntas para a reflexão pessoal e em grupos

            Que aspectos do Jesus apresentado por Santa Luísa de Marillac ressoam em seu coração?

            Como podemos aprofundar em conjunto a compreensão do carisma vicentino, para que possa impregnar-nos e orientar nosso serviço?

Reflexão por Irmã Elisabeth Charpy, FC, da província da Paris e
Irmã Louise Sullivan da província da Albany  dos Estados Unidos
Tradução por Lauro Palú, CM, Província do Rio de Janeiro