O espírito de São Vicente de Paulo

Pe. Antonino Orcajo, C. M.

            350 anos depois da morte de São Vicente de Paulo e de Santa Luísa de Marillac, o espírito deles está muito vivo entre nós, com expressões inegáveis de identidade. Quando tudo muda e passa (pessoas, culturas, formas, costumes e ideologias), o único invariável e permanente é o espírito. Se há algo que deve manter-se na Missão e na Caridade é o espírito que as caracteriza e distingue, por desejo expresso do Fundador, que nos deixou um exemplo a seguir.

            Se não fosse assim, a Missão e a Caridade deixariam de ser e atuar em vista do fim para o qual foram suscitadas pelo Espírito de Deus, que concedeu a São Vicente de Paulo o carisma de fundador. Em relação a isto, fosse qual fosse o tema sobre que estava falando, seus ensinamentos e suas experiências sobre o tema do espírito afloravam constantemente a seus lábios, testemunhando sua vida espiritual e apostólica e a vida que deve animar os Missionários e as Filhas da Caridade. Está tão plenamente convencido de que sem o espírito evangélico não se consegue nada, que poderia ter dito como São Paulo: “Quem não tem o espírito de Cristo não lhe pertence”” (Rm 8, 9).

            Por isso, o Irmão Bertrand Ducourneau, secretário de São Vicente, destacou, em seu tempo, a importância capital de viver o espírito que são Vicente legou, por palavras e obras. “É importante que as conferências do padre Vicente se conservem sempre na Companhia, para que, se apraz a Deus mantê-la, mostrem em todo tempo e a todas as nações, qual é o espírito deste homem apostólico, que será tanto mais apreciado quanto mais for visto como semelhante ao espírito evangélico; e esta estima, necessária aos fundadores das comunidades, contribuirá notavelmente para multiplicar e santificar a nossa” (SV XII, 447).

            Tal convicção foi compartilhada pelos sucessores do Fundador no governo da Congregação da Missão e da Família Vicentina. O tema mais tratado por eles foi, sem dúvida, o ponto relativo ao cultivo do espírito “fundamental” da Comunidade, pois somente assim seria verdadeira testemunha de Cristo e servidora da Igreja e dos Pobres. Apostam no santo Fundador, porque o veem sincero “quanto à prática e quanto à expressão”, como diria o citado Irmão Ducourneau.

O passado histórico

            Quando recordamos as palavras e a vida de São Vicente de Paulo, impressiona ver como ele luta para esvaziar-se de si mesmo e encher-se do Espírito de Deus e de Jesus Cristo, seu Filho, enviado ao mundo para evangelizar os Pobres. A verdade é que, quando São Vicente fala, nem sempre fica fácil saber a que espírito se refere, se ao Espírito Santo, terceira pessoa da Santíssima Trindade, ou ao espírito, com minúscula, cujo sentido é múltiplo e complexo: estilo ou maneira de ser, estar e atuar, vigor que fortalece, ar que oxigena, seiva regeneradora, impulso apostólico, etc.

            Nós de hoje preferiríamos que São Vicente se detivesse mais em explicar-nos como sentia a presença do Espírito Santo e a atração de Jesus, mas ele se limita a dizer-nos brevemente: “Quando se diz que o Espírito de Deus atua numa pessoa, isto significa que este Espírito, ao habitar nela, lhe dá as mesmas inclinações e disposições que Jesus Cristo tinha na terra e elas a fazem agir do mesmo modo, não digo que com igual perfeição, mas segundo a medida dos dons deste divino Espírito” (SV XII, 108).

            O que não deixa a menor dúvida é que São Vicente estabelece, ordinariamente, uma ligação estreita entre a dependência do Espírito Santo e o Espírito de Jesus. A trilogia: Jesus Cristo, evangelização e Pobres, condensa o pensamento e a experiência espiritual e pastoral de São Vicente e dá unidade às práticas e conferências feitas sobretudo aos Missionários e às Irmãs.

            O exemplo de Jesus, que, impulsionado pelo Espírito, ia rezar sozinho no deserto e na montanha e ia às sinagogas, onde ensinava as Escrituras e curava os doentes, movia São Vicente a agir do mesmo modo. O Espírito de Deus o levava a uma semelhança com Cristo, cujo espírito de amor e misericórdia transforma seus seguidores em apóstolos do Evangelho e em continuadores de sua missão caritativa de Salvador do mundo.

            Assim sendo, a dependência do Espírito Santo se traduz em São Vicente por um seguimento de Jesus Cristo missionário, acessível, sensível, humilde, manso, dono de si e cheio de zelo pela glória do Pai e pela salvação do povo. Tais virtudes apostólicas constituem sua identidade e devem ser a característica própria e fundamental de suas Congregações. Comentando por exemplo, a humildade, diz que ela é nosso “selo” e nossa “senha”: “Peçamos ao Senhor que, quando nos perguntem por nossa condição, nos permita dizer: é a humildade. Que seja esta a nossa virtude. Se alguém perguntar: ‘Quem vem lá?’ [possamos responder:] ‘A humildade’. Que seja esta a nossa palavra de ordem” (SV XII, 206). Pronunciava palavras iguais ou parecidas, ao referir-se às demais virtudes que constituem o espírito da Missão e da Caridade, comparadas às potências da alma, que dinamizam o exercício da caridade.

            A fórmula paulina, “revestir-se do Espírito de Cristo” aparece frequentemente no Fundador, que expressou manifestamente sua necessidade e urgência, desde que tomou contato com o “pobre povo”. Colocou isso no prólogo das Regras Comuns da Congregação da Missão: “chamados a continuar a missão do mesmo Cristo (que consiste principalmente em evangelizar os Pobres), devem encher-se dos sentimentos e afetos e até do mesmo Espírito de Cristo e seguir suas pegadas”.

            Se os bens colhidos para a Igreja e os Pobres por aqueles que procuram deixar-se penetrar pelo espírito missionário são incalculáveis, não acontece o mesmo com os que resistem ao Espírito de Deus, pois, ao fechar-se à sua ação santificadora e apostólica, ficam reduzidos a matéria amorfa, a “cristãos em pintura”, a “cadáveres ambulantes”, a “corpos sem alma”, a “ramos secos” e a “fantasmas de missionários”, comparações que revelam, de um lado, a indigência de quantos não apóiam a missão do espírito e, de outro, a urgência de revestir se do Espírito de Jesus Cristo evangelizador, para continuar sua obra de salvação pelo amor.

            Valha o seguinte exemplo: ao expor o tema da caridade e descer aos pormenores da solidariedade com os que sofrem, São Vicente nos faz participantes de seus sentimentos mais profundos: “Ser cristão e ver seu irmão na aflição, sem chorar com ele nem sentir-se mal junto com ele?! Isso é não ter caridade; é ser um cristão só pintado; é não ter humanidade; é ser pior que os animais” (SV XII, 271).

            De toda forma, se São Vicente nem sempre esclarece a diferença entre a obediência ao Espírito Santo e o chamado a seguir as pegadas de Jesus compassivo e misericordioso, o contexto e o objetivo de sua intervenção ajudam a compreender o sentido do termo em questão. A vida que levou desde sua “conversão” e o seu ensino sobre o espírito dependem do carisma que ele recebeu em vista da extensão do Reino de Deus e de que devem participar seus discípulos, evangelizando com palavras e obras. Não nos esqueçamos de que o carisma de fundador fica reforçado, em seu caso, pelo carisma do fundador: a caridade.

            Um dado nos confirma nesta afirmação: a vitalidade das obras apostólicas, das missões e dos diversos serviços aos Pobres, demonstra o zelo apostólico que consumia por dentro São Vicente e também seus primeiros discípulos, verdadeiros heróis na luta contra o mal. Não existe outra explicação que nos leve à mesma conclusão, mesmo que tratemos de prová-la com argumentos que reforcem o comportamento e o feito histórico de nossos antepassados.

            Lembremo-nos de que o Fundador pretendia que seus companheiros se enchessem de Cristo e que, para isso, deveriam viver sua condição de cristãos, recebida no batismo, porque este motivo: “Todos os batizados estão revestidos de seu Espírito, mas nem todos realizam as suas  obras. Cada um tem que tender, por conseguinte, a conformar-se com Nosso Senhor…, a ligar-se com o afeto e na prática aos exemplos do Filho de Deus, que se fez homem como nós, para que sejamos não apenas salvos, mas também salvadores como ele” (SV XII, 113). Pois era para isso que tinham entrado na Comunidade: para serem bons cristãos e seguidores de Cristo.

            Às Filhas da Caridade lhes diz expressamente: “Se as senhoras são fiéis na prática desta forma de viver, todas serão boas cristãs. Não lhes estaria dizendo mais que isso, se dissesse que as senhoras seriam boas religiosas. Por que motivo se fizeram religiosos e religiosas senão para serem bons cristãos e boas cristãs?” (SV IX, 127). Que prática era essa? Não outra senão o exercício do amor afetivo e efetivo aos pobres e necessitados, amor derramado em nossos corações pela água e pelo Espírito.

            Trata-se, pois, de pôr em prática as exigências batismais, já que “a graça que recebemos pelo batismo nos dá o desejo [da virtude]. Sim, o espírito de Nosso Senhor dá a mesma inclinação para a virtude como a natureza dá para o vício” (SV XII, 197-198). E também: “O estado dos missionários é um estado apostólico, que consiste, como os apóstolos, em deixar e abandonar tudo para seguirmos Jesus Cristo e tornar-nos verdadeiros cristãos” (SV XI, 163).

            Por conseguinte, não se pode romper na prática o laço de união entre a docilidade ao Espírito e o seguimento de Jesus Cristo, cuja proximidade e bondade resplandece no Evangelho e no ensino dos apóstolos. A proximidade de Cristo em relação ao povo e a confiança que inspirava aos pobres de corpo e alma fazia que se aproximassem dele. E ele, cheio de misericórdia, se compadecia e operava sinais e milagres, perdoando os pecados e restituindo a saúde aos doentes.

            Como conclusão desta parte, podemos assegurar: o “ser em Cristo” pode entender-se como “ser no Espírito”. Essa é a questão chave para decifrar a qualidade da vida espiritual e apostólica de São Vicente, que costumava comentar: “Entremos em seu espírito [de Jesus] para agir como ele. Não basta fazer o bem, é preciso fazê-lo bem feito”(SV XII, 179), de acordo com o referido pelo evangelista: “fez tudo bem” (Mc 7,37).

O presente

            Quem ignora que o ambiente que nos circunda na atualidade contamina e ameaça o espírito genuíno da Missão e da Caridade? Por isso temos que estar em guarda contra o perigo presente, para não decair no espírito legado pelo Fundador: a cada época correspondem seus ciclos de fluxos e refluxos, de avanços e retrocessos.

            São Vicente tratou de remediar oportunamente as calamidades que afligiam a Igreja e a sociedade de seu tempo, ao mesmo tempo em que prevenia suas Congregações contra os riscos que poderiam acabar com os projetos da Missão e da Caridade, se não se opusessem às correntes em moda, promovidas pela tendência às novidades. E era no cultivo do espírito evangélico que se centrava seu receituário espiritual e pastoral.

            O consumismo e o hedonismo de nosso tempo não deixam de ser uma prova constante para os que optaram por um seguimento mais radical de Jesus, o que supõe matar o egoísmo, origem de todo mal e das contendas entre irmãos. O cansaço, a indolência e a falta de fidelidade à palavra dada estão hoje na ordem do dia, por falta de perseverança e por excesso de obstáculos contrários à liberdade dos filhos de Deus, cuja primeira vocação é tender, com afinco, à santidade.

            Não obstante, São Vicente tem em mente uma palavra de São Paulo, embora não a mencione expressamente: “Se se vivemos pelo Espírito, caminhemos também sob o impulso do Espírito” (Gl 5, 25). Não importam as contrariedades que sobrevenham, por que nada será capaz de nos separar do amor de Cristo e de nos impedir de saborear os frutos do seu santo Espírito: a alegria, o gosto pelo serviço, a amabilidade, o domínio de si. Isso pode parecer estranho aos olhos de quem é escravo de si mesmo e das aparências deste mundo que passa, mas a experiência demonstra que ninguém é mais feliz e livre, eficiente e convincente, que o missionário que dá sua vida por amor, impulsionado pelo Espírito de Jesus Cristo.

            Para citar só um documento pontifício contemporâneo, valha o juízo que o papa Paulo VI emitiu na exortação apostólica Evangelii Nuntiandi: “O mundo inteiro espera de nós simplicidade de vida, espírito de oração, caridade para com todos, especialmente para com os pequenos e os pobres, humildade e obediência, desapego de nós mesmos e renúncia. Sem esta marca de santidade, nossa palavra dificilmente abrirá uma brecha no coração das pessoas de nosso tempo. Arrisca-se a tornar-se vã e infecunda” (n. 76).

            Já são Vicente se tinha adiantado em dizer-nos: “Façamos o que quisermos, jamais acreditarão em nós, se não testemunharmos amor e compaixão por aqueles que queremos que acreditem em nós” (SV I, 320).

            A distância de anos e séculos que nos separam do grande santo da caridade não é motivo nem obstáculo para não participarmos de seu carisma e de seu espírito de amor, já que a fonte da graça é inesgotável e não acaba no tempo nem no espaço. É responsabilidade de todo discípulo de São Vicente não deixar apagar-se o fogo do amor, mas entregar a tocha do zelo apostólico às gerações futuras, para o bem da Igreja e dos Pobres. Está fora de dúvida que o futuro da Família Vicentina depende do cultivo do espírito com que nasceu e para o qual nasceu, vivendo na adesão à pessoa de Jesus evangelizador dos Pobres, fonte de alegria e de dinamismo apostólico.

Questões para a reflexão pessoal e comunitária

1. Conheço a fundo o espírito de São Vicente de Paulo ou o reduzo a uma simples informação sem compromisso moral nem pastoral na Igreja e no mundo?
2. Em que razões me apóio para justificar o esforço pessoal e comunitário para recuperar, se foi perdido, ou manter o espírito genuíno da Congregação?
3. Um Missionário pode separar, na prática, a docilidade ao Espírito Santo e o revestir-se de Cristo, simples, humilde e cheio de zelo pela glória do Pai e pela extensão do Reino? Não se vive tudo isso ao mesmo tempo?
4. É necessário recordar hoje aos Missionários que, se querem ser tais, primeiro devem ser educados e bons cristãos, fiéis às promessas e aos compromissos do batismo, para que nada contradiga o nome que levam?
5. Como exprimo, com palavras e fatos da vida, que o ter ou não ter o espírito evangélico é questão de vida ou morte para a Comunidade e para cada um de nós?

Reflexão porAntonino Orcajo, C.M., Província do Madrid
Tradução por Lauro Palú, CM, Província do Rio de Janeiro