A espiritualidade vicentina, um encontro com Cristo no Pobre               

Conhecer

No século XVII, a espiritualidade estava na moda. Nos salões de recepções se falava de Deus. Henri Brémond falou de uma “invasão mística”. Madame Acarie, cada vez que ouvia falar de Deus, caía em êxtase. Pensava-se que a santidade fosse um fato místico: alguém é santo quando tem visões ou faz milagres. Por isto se buscavam nas vidas dos santos fatos extraordinários. Mas assim os cristãos comuns não se sentiam responsáveis, por pensarem que a santidade fosse alg fora de suas possibilidades.

Entre os Santos Padres da Igreja, desde São Gregório de  Nazianzo vinha desenvolvendo-se a teoria segundo a qual haveria três tipos de vida espiritual: a contemplativa (própria dos monges e das monjas, e que é o tipo mais alto), a ativa(própria de quem vive no mundo e que é menos perfeita) e a mista (própria da ação pastoral, que une contemplação e ação). Como consequência, achava-se que a contemplação levasse mais facilmente à santidade, por meio da via mística, ao passo que, para os que estão imersos no mundo, era possível só uma santidade ascética, por meio da via ascética. É verdade que São Francisco de Sales tinha contado o  exemplo de duas irmãs, uma monja, que vivia como uma leiga, e a outra, casada, que vivia como uma monja. Para ele, a santidade era para todos. Mas esta ideia não tinha sido acolhida de modo unânime. Os religiosos defendiam obstinadamente a ideia de que só eles estariam “em estado de perfeição”. Tornou-se mais agudo o contraste entre vida ativa e vida contemplativa, entre Marta e Maria.

Experiências convergentes

Em sua experiência espiritual São Vicente e Santa Luísa eram muito diferentes. Mas os percursos deles foram convergentes.

O de São Vicente foi um percurso de “espiritualização”: numa primeira fase da vida, procurou a si mesmo (até 1608/10); depois teve uma grave “crise” que o fez reconhecer que Deus é a necessidade do homem.

O deSanta Luísa foi um percurso de “humanização”: numa primeira fase, buscou a fuga no mosteiro, depois  a fuga das responsabilidades da Família, para depois, após o encontro com São Vicente, descobrir que  o homem é a necessidade de Deus.

Nos dois encontros de Folleville e Châtillon em 1617 e na experiência de Pentecostes de 1623, São Vicente e Santa Luísa descobriram sua vocação de serem
– dados a Deus
– para “servir o próximo”, respondendo à fome de Palavra e à fome de Pão.

Contemplar

Uma espiritualidade do Amor

São Vicente utilizou muito a imagem do coração. Deus é Deus do coração (XI, 156), “o Amante do seu coração” (XI, 102; 145-147): “Eia, pois, peçamos a Deus que dê à Companhia este espírito, este coração, este coração que nos faça ir por toda parte, este coração do Filho de Deus,  coração de Nosso Senhor, coração de Nosso Senhor, coração de Nosso Senhor, que nos disponha a ir, como ele iria e como teria ido, se sua sabedoria eterna tivesse julgado oportuno trabalhar para a conversão das nações pobres” (XI, 291).

A sua foi uma espiritualidade do mistério de Amor do Filho de Deus, que se fez homem e está presente em todo homem. Foi – como escreveu Giuseppe Toscani – um místico que não “foi arrebatado por uma imagem fantástica de Cristo”, porquanto os Pobres os viu em Cristo. A espiritualidade medieval tendia, como para Platão, a evadir-se do corpo para subir ao alto. Pensemos, por exemplo, na definição da oração como “elevação da alma a Deus”. A espiritualidade de São Vicente seguiu, antes, o impulso da Encarnação, de “fazer-se próximo dos últimos dos homens, como Deus em Cristo”. No aniquilamento (kenosis) da humildade, São Vicente encontrou Cristo e os Pobres. Enquanto na tradição mística se fala de “noite dos sentidos e noite do espírito”, como momento de esvaziamento para chegar a uma visão da Face de Deus, São Vicente se deixou crucificar na cruz dos Pobres, “seu peso e sua dor”. Por isto, os Pobres se tornaram, como Cristo, “senhores e patrões”.

Santa Luísa, por sua vez, fala de “amor puro”, isto é, de um amor purificado de todo resíduo de amor humano: “Quanto maiores são as dificuldades que um lugar oferece ao serviço, seja por falta de meios, seja por outros motivos, tanto mais se deve esperar o auxílio do céu, se quisermos trabalhar por puro amor, como me alegro, crendo ser esta a vossa intenção” (Escritos, p. 689-690).

No coração da Trindade

São Vicente colocou tudo isto no íntimo da Trindade. Exprime este conceito com o verbo “honorer” [honrar], expressão que implica participação, reconhecimento filial, conformação com Jesus no seu olhar para a Trindade. São Vicente se sentia amado pelo Pai como o Filho, se sentia convidado à mesa da Trindade. Como os grandes místicos, percebeu o fluxo de amor da Trindade: o Pai que toma a iniciativa do amor, o Filho que acolhe e o Espírito que realiza a comunhão e a união.

Santa Luísa, por sua vez, se sentia cercada pelo Espírito, como se o Espírito Santo tivese sido infundido nela: “Curai minha cegueira, ó Luz eterna! Dai simplicidade à minha alma, Unidade perfeita! Humilhai meu coração para assentar o fundamento de vossas graças e que a capacidade de amar que pusestes na minha alma não se detenha nunca mais no desregramento de minha presunção insolente que, com efeito, não é mais que um obstáculo e um impedimento ao puro Amor que hei de receber com a efusão do Espírito Santo” (Escritos, p. 939).

Da Trindade nasceu a missão. A missão não nasceu de uma iniciativa pessoal, mas da Trindade. É habitando na Trindade que nasceu a missão. E da Trindade vem um estilo de missão: “Firmemo-nos, pois, neste espírito, se queremos ter em nós a imagem da adorável Trindade, se queremos ter uma santa relação com o Pai, o Filho e o Espírito Santo. O que é que faz a unidade e  a união no amor, em Deus, se não a igualdade e a distinção das três pessoas? Que é que o amor deles faz, se não a semelhança deles? E se não houvesse o amor entre eles, que haveria de amável?, diz o bem-aventurado Bispo de Genebra. A uniformidade, pois, está na Santíssima Trindade: o que o Pai quer, o Filho o quer; o que o Espírito Santo faz, o Pai e o Filho o fazem; eles agem igual; não têm senão o mesmo poder e o mesmo amor. Eis a origem da perfeição e nosso modelo” (XII, 256-257).

Encarnação

Sem dúvida alguma, a espiritualidade vicentina é cristocêntrica. São Vicente, de fato, não propõe, a si mesmo e a nós, devoções (a santos, a lugares, a ideias), mas vai direto ao centro de tudo, a Cristo (“Tu solus Dominus”). “Arrebatado pelo amor das criaturas” (XII, 265), Cristo abandonou o Trono do Pai para manifestar a ternura de Deus: “Foi essa ternura que o fez descer do céu: via os homens privados de sua glória; foi tocado pela infelicidade deles” (XII, 271).

Em todo caso, São Vicente nos adverte de que seu Cristo ele o encontrou verdadeiramente. São Vicente percebeu a voz de Cristo só quando se encontrou com uma sofrida humanidade de Pobres, de gente faminta e desejosa de pão e da palavra. Vendo os Pobres, encontrou Cristo. Viu Cristo no seu “contrário”.

Para o Santo da caridade, a Encarnação está na origem de uma nova relação com Cristo e com o homem, de uma espécie de impulso vital: “Vejamos o Filho de Deus; ó que coração de caridade! Que chama de amor! Há um amor igual a este? Mas quem poderia amar de um modo tão extraordinário? Não há senão Nosso Senhor que tenha sido  tanto arrebatado pelo amor das criaturas a ponto de deixar o trono de seu Pai para vir assumir um corpo sujeito às enfermidades. E por quê? Para estabelecer entre nós, por seu exemplo e por sua palavra a caridade para com o próximo. Foi este amor que o crucificou e produziu esta obra admirável da nossa redenção. Ó meus Padres, se tivéssemos um pouco deste amor, ficaríamos de braços cruzados? Deixaríamos perder-se  as pessoas que pudéssemos assistir? Oh! não, a caridade não pode permanecer ociosa; ela nos impele a buscar a salvação e a consolação dos outros” (XII, 264-265).

Compreende-se que o Santo não perca tempo buscando mediações. Tinha encontrado Cristo, tinha visto os Pobres, queria “construir o Reino de Deus”. A frase “o povo morre de fome e se condena” não era um argumento para obter favores da Santa Sé, mas uma urgência, um grito de dor, uma ferida na alma. A Encarnação não era para ele um mistério a contemplar, mas a origem da ação. Segundo Henri Brémond, portanto, “não foi o amor dos homens que o levou à santidade, mas foi antes a santidade que o tornou verdadeira e eficazmente caridoso; não foram os Pobres que o deram a Deus, mas, ao contrário, foi Deus – isto é, o Verbo Encarnado – que o deu aos Pobre”. Por isto, não se pode considerar São Vicente só um homem de ação, um distribuidor de esmolas, mas um homem de oração que encontra o mundo na esfera de Deus e por isso sua oração foi uma oração feita caridade.

Santa Luísa por sua vez, convidou as Irmãs a ter um amor forte, para estarem como que possuídas por ele e pelo serviço dos Pobres, quase como se estes dois amores fossem uma coisa só. “Sede muito esforçada na desconfiança que deveis ter de vós mesma. Digo o mesmo a todas as nossas queridas Irmãs; estejam todas cheias de um amor forte que, suavemente, as plenifique de Deus e as lance no serviço dos Pobres; que seu coração não mais possa admitir pensamentos perigosos à sua perseverança. Coragem, queridas Irmãs, não pensemos senão em agradar a Deus pela prática exata de seus santos mandamentos e conselhos evangélicos, pois a bondade de Deus dignou-se chamar-nos a eles; para tal deve servir-nos a exata observância de nossas regras, porém com alegria e diligência. Servi a nossos amos com grande doçura” (Escritos, p. 92).

Deixar Deus por Deus

Em força destes princípios, São Vicente não teve dificuldade em convidar os Missionários e as Irmãs a “deixar Deus por Deus”. Porque os Pobres são os Pobres de Jesus Cristo, são Jesus Cristo, e assim, ao deixarem Jesus Cristo o reencontrariam nos seus membros. O homem, portanto, é o rosto de Deus e Deus é o rosto do homem. A Encarnação esteve, portanto, na origem de sua antropologia.. Como escreveu Calvet, São Vicente “é o homem daqui que mais amou os homens. Tinha realizado plenamente no seu coração o sentimento da fraternidade, isto é, acreditava, não de palavra, por metáfora ou por reflexão filosófica, mas substancialmente e nas suas entranhas, que o esfarrapado, o pobre diabo da rua era seu irmão. Este sentimento em tal grau é raríssimo. Todos os dias, trazia dois mendigos para comerem à sua mesa e lhes servia ele mesmo com grande respeito. Todos os santos serviram os Pobres para conformar-se ao espírito do Evangelho; ele, além disso, os servia por prazer. Quando se estabeleceu no priorado de São Lázaro, encontrou lá alguns loucos, abandonados por todos, lixo da humanidade. Tinha-se afeiçoado a eles e os tinha conquistado com a mansidão, tanto que, se algum dia, tivesse tido que ir embora de lá, se perguntava que coisa teria lamentado mais, ao ir embora, e chegou à conclusão de que lhe teria custado mais ao coração deixar aqueles pobres loucos, de quem ninguém mais se teria ocupado”. Se escolheu o lema “evangelizar os Pobres”, foi porque se convencera que estava continuando a missão histórica do Filho de Deus, que veio ao mundo, renunciando aos seus privilégios e abraçando a pobreza, pela salvação dos homens. Daí provém o caráter evangélico de sua espiritualidade, na qual não quis “acréscimos” de nenhum tipo, mas que centrou na Trindade e na Encarnação.

Bem o compreendeu Frederico Ozanam, talvez o mais fiel intérprete de São Vicente quando escreveu sobre os Pobres:“Deveríamos cair aos pés deles e dizer-lhes, com o Apóstolo: ‘Tu es Dominus meus’ [Você é meu Senhor]. Vocês são nossos patrões e nós seremos seus servidores; vocês são para nós as imagens sagradas de Deus que não vemos e, não sabendo amá-lo de outro modo, nós o amamos nas pessoas de vocês” (carta a Louis Janmot).

Servir

Face a semelhantes verdades, não podemos limitar-nos a uma consideração puramente racional. O mistério não é coisa que tenhamos que conhecer, não o compreenderemos jamais, mas é uma porta a ser ultrapassada.

Neste ano centenário, também nós devemos “entrar” no amor de Cristo. Nós, amando Cristo, somos modelados por ele, aderimos a ele e então ficamos em condição de amar como ele, evangelizador dos Pobres (Lc 4, 18-19): “Deus ama os Pobres e, por conseguinte, ama os que amam os Pobres, porque, quando amamos alguém, temos afeição por seus amigos e servidores. Por isso, temos motivo de esperar que pelo amor deles, Deus nos amará. Vamos, pois, meus irmãos, e dediquemo-nos com um amor novo a servir os Pobres, e mesmo busquemos os mais pobres e os mais abandonados; reconheçamos diante de Deus que eles são nossos senhores e nossos amos e que somos indignos de prestar-lhes nossos humildes serviços” (XI, 392-393.). Este amor tem dois movimentos: para o alto, para a Trindade, é admiração, é adoração, é busca do agrado de Deus; para baixo, é promoção dos Pobres, é amor gratuito. É como o olhar de Cristo do alto da Cruz: um olhar de amor na necessidade, de um Deus que está na necessidade de ser amado.

Santa Luísa  dizia que nós, “livres de tudo”, devemos “seguir Jesus Cristo” (Escritos, p. 786). Disso deve derivar uma oração “livre”, “cristocêntrica”, isto é, que vai diretamente a Cristo, rica de Evangelho, sem deter-se em demasiadas devoções; uma oração “ferida”, no sentido de que, no rezar, não poderíamos ignorar as ansiedades e as dores da humanidade; uma oração “evangélica”, rica das expressões de fé do Evangelho: Senhor, fazei que eu veja; Senhor, fazei que eu caminhe; Senhor, dizei uma só palavra e o meu filho será curado; Senhor, Filho de Davi, tende piedade de mim”.

Fazer conferência

Uma de nossas mais belas tradições é a da conferência. A palavra quer dizer “levar juntos” (cum-ferre), isto é, partilhar os pensamentos, as emoções, as ideias. Falar de Deus uns com os outros.

Experimentemos ler alguns trechos de conferências:

1. “Praza a Deus dar-nos o espírito que os anima, um coração grande, largo, amplo! Magnificat anima mea Dominum [Minha alma glorifica o Senhor]. Nossa alma deve engrandecer e reconhecer a grandeza de Deus, de modo que Deus dilate nossa alma e nos dê uma profunda inteligência para conhecermos bem a grandeza e a extensão de sua bondade e de seu poder; para compreender até onde se estenda o dever de estar a seu serviço e de glorificá-lo de todos os modos possíveis: uma abertura da vontade para aproveitar todas as ocasiões de procurar a glória de Deus. Se não podemos nada por nós mesmos, podemos tudo em Deus. Sim, a Missão pode tudo, porque temos em nós o germe de poder tudo em Jesus Cristo. Por isso, ninguém pode excusar-se por não a poder realizar; sempre teremos mais força do que o necessário, principalmente na situação concreta, porque nela o homem se sente um homem completamente novo” (XI, 203-204).

            Nossa vocação é um encontro com Cristo ou uma pura adesão a um grupo de pessoas? Temos a convicção de que nossa Família Vicentina “pode tudo, porque temos em nós o germe de poder tudo em Jesus Cristo”? Temos alguma experiência a compartilhar?

2. “Não devo considerar um pobre camponês ou uma pobre mulher pelo seu aspecto, nem pela sua aparente mentalidade; muito frequentemente, quase não têm a fisionomia, nem a inteligência das pessoas racionais, de tal modo são grosseiros e materiais. Mas virai a medalha e vereis, à luz da fé, que o Filho de Deus, que quis ser pobre, nos é representado por esses Pobres. Ele quase não tinha a semelhança de homem na sua paixão, e foi julgado louco pelos gentios e pedra de escândalo para os judeus; entretanto, ele se chama de evangelizador dos Pobres. Evangelizare pauperibus misit me [Enviou-me a evangelizar os Pobres]. Ó Deus! Como é bonito ver os Pobres, se os consideramos em Deus, e com a estima que Jesus Cristo tinha por eles! Mas se os olhamos segundo os sentimentos da carne e do espírito mundano, nos parecerão desprezíveis” (XI, 32).

Os Pobres estão presentes em nossa oração? Lembramos rostos, situações, necessidades?

“Como são felizes aqueles a quem Deus concede tais disposições e tais desejos! Sim,  senhores, devemos ser todos de Deus e para o serviço de todos; devemos dar-nos a Deus para isso, consumir-nos para isso, dar nossa vida para isso, despojar-nos, por assim dizer, para revestir-nos disso, pelo menos desejar estar em tal disposição, se nela ainda não estamos; estar dispostos a ir e vir onde prazerá a Deus, seja às Índias seja em qualquer outro lugar; em suma, expor-nos voluntariamente pelo serviço do próximo e dilatar o reino de Jesus Cristo nas almas. E eu mesmo, velho e idoso como estou, não posso deixar de ter esta mesma disposição em mim, até de partir para as Índias, para lá conquistar as almas para Deus, mesmo se tivesse que morrer pelo caminho ou no navio” (XI, 402).

Reflexão por Pe. Luigi Mezzadri, CM, província do Roma
Tradução por Pe. Lauro Palú, CM, província do Rio de Janeiro