Os modos como o carisma de São Vicente e de Santa Luísa
é vivido nos vários ramos da Família Vicentina

            Um carisma é vivo e relevante quando, ao longo do tempo, é aceito e adotado por muitas pessoas. Nos 350 anos desde a morte de São Vicente e  Santa Luísa, o “carisma vicentino” provou ser desse tipo, porque inspirou numerosos seguidores ao longo dos séculos. Até hoje continua a ser assumido, adotado e vivido por numerosos grupos, associações, institutos e movimentos. Sua vitalidade e relevância para nosso tempo se manifesta de vários modos: 1) na profunda consciência de sermos uma família que partilha um carisma; 2) nos projetos e programas que atendem às múltiplas necessidades dos Pobres de hoje; 3) na abordagem pastoral que enfatiza a solidariedade, a colaboração e a parceria; 4) na continuada reflexão sobre os seus laços espirituais distintivos.

1. Uma família que partilha um carisma

            Viver um carisma começa pela profunda consciência e apreciação de seu sentido e de sua importância. Urgidos pelos chamados que o Concílio Vaticano II fez aos grupos religiosos para que voltassem a seu carisma e à sua missão original, os seguidores de São Vicente Santa Luísa estiveram entre as Congregações e Associações que responderam com entusiasmo a este reexame e a esta atualização das expressões de seu carisma distintivo. No processo e ao longo do caminho, perceberam que não eram os únicos a viver o carisma vicentino. Atualmente, uma inteira família espiritual está redescobrindo os laços que nos unem e nos levam juntos à evangelização e ao serviço dos Pobres.

            Antes da década de 1980, se falava na dupla família de São Vicente, referindo-nos às duas fundações originais e diretas da Congregação da Missão e da Companhia das Filhas da Caridade; hoje falamos de Família Vicentina, que consiste em mais de 260 grupos, institutos e movimentos que partilham o carisma de São Vicente e Santa Luísa1. Ao lado das duas mencionadas acima, entre os muitos grupos internacionais dessa Família, há dois grupos leigos: as Confrarias da Caridade – Senhoras da Caridade, de fato a primeira fundação de São Vicente (1617), hoje conhecidas como Associação Internacional de Caridades (AIC), e a Sociedade de São Vicente de Paulo (SSVP), o mais numeroso ramo da Família. Outros grupos internacionais da Família incluem hoje as muitas Congregações de Irmãs de Caridade (especialmente  as das duas federações – de Estrasburgo e dos Estados Unidos – e as de Santa Joana Antide Thouret), os Irmãos da Caridade, os Irmãos e Irmãs da Misericórdia, a Juventude Marial Vicentina (JMV), a Associação da Medalha Milagrosa (AMM), os Religiosos de São Vicente (RSV), os Missionários Leigos Vicentinos (MISEVI), etc.

            Esses variados grupos foram fundados ou diretamente por São Vicente e Santa Luísa ou depois, por algum membro da Congregação da Missão ou por Filhas da Caridade, ou seguiram as regras dos Padres da Missão e das Filhas da Caridade, ou simplesmente assumiram os dois santos como seus patronos. O que une e move todos nós é a missão de amar e servir os que vivem nas várias formas de pobreza e marginalização. A Família Vicentina hoje conta entre seus membros pessoas leigas e  consagradas/ordenadas, homens e mulheres, jovens e adultos, ricos e pobres, católicos e mesmo não católicos2. Sentem-se chamados a agir juntos para superar a pobreza extrema, a desnutrição, a precariedade da saúde, o analfabetismo, as migrações, a desigualdade de gênero, as injustiça, a opressão, etc. Embora sejamos bem mais de um milhão de membros, a maioria dos quais são voluntários leigos, não podemos eliminar todas as formas de pobreza3; entretanto representamos uma formidável e genuína força que pode fazer diferença nas vidas dos Pobres.

2. Caridades e Missões hoje: programas que dão segurança aos Pobres

            O carisma vicentino, além disso, está sendo vivido hoje em muitos projetos e programas concretos de serviço direto dos Pobres. Desde o século 17 os dois pilares gêmeos das intervenções de São Vicente e Santa Luísa em favor dos Pobres – as missões ou a evangelização e as obras de caridade (em favor dos pobres, dos idosos, das crianças, dos deficientes, etc.) foram sempre os principais compromissos dos vários ramos da Família Vicentina. Assim, os Padres e Irmãos da Congregação continuam a pregar missões populares, a trabalhar em seminários e casas de formação de futuros padres, enquanto que as Filhas da Caridade, as Irmãs da Caridade, as Irmãs da Misericórdia, entre outros, estão engajadas em clínicas, hospitais e centros de saúde, em orfanatos, em programas de distribuição de alimentos, etc. Muitos grupos da Família ajudam os Pobres administrando escolas, colégios e mesmo universidades e estão envolvidos em outras formas de capacitação e educação. Muitos grupos trabalham com os idosos, os jovens, os deficientes físicos, as crianças de rua e também com os presos nas cadeias, nos centros de detenção, etc. Um bom número de nossos grupos predominantemente femininos, como a AIC, as Filhas da Caridade e as Irmãs da Caridade, trabalha com mulheres pobres seja cuidando da saúde das mães ou ensinando o modo de criar os filhos, seja em programas de alfabetização e preparação para conseguir emprego e subsistência. Alguns desses projetos que direta e concretamente impactam as vidas dos Pobres foram devidamente reconhecidos em tempos recentes e premiados por governos e diversas instituições.

            Mas, além desses serviços comprovados pelo tempo, muitos dos ramos da nossa Família Vicentina empreenderam projetos de ajuda às pessoas vítimas das “novas formas da pobreza”, como pacientes de HIV AIDS, dependentes de drogas, refugiados, migrantes, vítimas de guerra e pessoas que são segregados culturalmente. Além disso, inspirados não pouco pela visão mais ampla do Vaticano II, nossos amigos “vicentinos” se lançaram a trabalhos pela justiça e pela paz, trabalhos de educação política, de desenvolvimento comunitário, em programas de geração de renda e microfinanciamentos, na construção de casas e em projetos de infraestrutura, etc. Seguindo a intuição de São Vicente e Santa Luísa em relação a uma perspectiva integrada para enfrentar a pobreza – tanto material como espiritual – e reconhecendo que os vários fatores da sociedade interagem uns sobre os outros, a Família Vicentina lançou o programa da “mudança de estruturas”. Isto representa um passo profético e um repensar mais corajoso de suas intervenções nas vidas dos Pobres. Como família, não somos chamados apenas a providenciar o evidente mas temporário atendimento de comida, casa, vestuário, cuidados de saúde, etc., mas, muito mais importante que isso, somos chamados a lutar pelos Pobres e a defender seus direitos, de modo que possamos provocar uma mudança nas estruturas que perpetuam a pobreza, para preparar o próprio envolvimento deles nessas mudanças e assim criar condições para um desenvolvimento sustentável. Nossos trabalhos em Akamasoa (em Madagascar), em Payatas (nas Filipinas) e no Haiti são apenas uns poucos projetos desse tipo.

3. Solidariedade, colaboração e parceria

            Um dos modos mais característicos como os ramos de nossa Família concretizam o carisma vicentino no presente é a atitude positiva em relação à solidariedade, à colaboração e à parceria, particularmente com os Pobres. Pegando a deixa do próprio São Vicente e de suas habilidades organizacionais, a Família Vicentina hoje procura envolver vários setores da Igreja e da sociedade no serviço dos Pobres. Formas modernas de colaboração e parceria vêm acontecendo em nossa família em vários níveis.

            Dentro de cada ramo, programas de irmanação (hermanamiento, jumelage, twinning programs), tanto em projetos pelos Pobres como em sessões de formação dos membros,  tornaram-se um meio muito efetivo de exercer a corresponsabilidade entre aqueles que dispõem de meios e os que sofrem necessidades urgentes. Entre as associações leigas, por exemplo, a Sociedade de São Vicente de Paulo e a Associação Internacional de Caridades refinaram suas estratégias, resultando num conhecimento alargado da pobreza em nível mundial, numa consciência realista dos meios disponíveis e também numa apreciação mais profunda de nossa missão institucional e do nosso carisma vicentino.

            Entre os ramos em nível nacional, vários países e mesmo continentes organizaram conselhos coordenadores da Família Vicentina com a finalidade de sincronizar projetos e atividades. Na Irlanda a Congregação da Missão, as Filhas da Caridade e a Sociedade de São Vicente de Paulo formaram a “Millenium Partnership for Social Justice” para trabalhar em favor das mudanças sociais e econômicas que combatem vigorosamente a pobreza e a exclusão. No nível internacional, os Superiores Gerais e os Presidentes internacionais de vários ramos se encontram anualmente, há já 16 anos, para providenciar orientações para nossas atividades comuns e para os projetos internacionais relativos à luta contra a fome, para a celebração anual das festas de São Vicente e Santa Luísa e para planejar acontecimentos extraordinários como os 350 anos da morte de São Vicente e Santa Luísa, os 200 anos da fundação de Santa Elizabeth Seton, etc.

            A parceria está sendo promovida também entre ramos da nossa Família Vicentina e outros setores da Igreja e da sociedade. A AIC, por exemplo é representada na Conferência das Organizações Católicas, no Pontifício Conselho dos Leigos, etc. As Filhas da Caridade assumiram o projeto DREAM para vítimas da Aids em parceria com a comunidade de santo Egídio. A Sociedade de São Vicente de Paulo está em coordenação com várias companhias químicas para produzir remédios mais acessíveis contra a malária. Muitos de nossos grupos da Família trabalham  estreitamente unidos com paróquias locais e com seus organismos sociais, com alguns ramos nacionais da Caritas, e também com outras congregações religiosas que também servem os Pobres. Além disso, vários ramos gozam de representação como ONGs junto às Nações Unidas e seus vários órgãos como a Unesco, o Unicef, etc. De fato, muitos projetos da Família Vicentina tentam realizar os oito Objetivos do Desenvolvimento no Milênio, iniciativa das Nações Unidas4, especialmente a redução da pobreza extrema, a promoção das mulheres e o desenvolvimento de parcerias globais. Tudo isso se está se tornando como que uma segunda natureza para a nossa Família Vicentina, na medida em que tenta fazer o que São Vicente e Santa Luísa fizeram no século 17 – aumentar o nível de engajamento dos ricos e dos poderosos no compromisso em favor dos Pobres. Promovendo solidariedade, parceria e colaboração sem fronteiras, nossa Família provoca mudanças nas vidas dos Pobres de uma forma organizada.

4. Reflexão continuada sobre o espírito vicentino

            Um quarto meio significativo de viver e incorporar o carisma vicentino hoje é através da contínua reflexão sobre a espiritualidade distintiva que fundamenta nossos projetos e programas. Nossa Família crê sinceramente que a genuína formação no espírito tem que andar em conjunto com nossos projetos e programas em favor dos Pobres.

            Esta visão espiritual está ancorada em intuições fundamentais de São Vicente: o discernimento da vontade de Deus e a fidelidade a ela, a identificação dos Pobres com Cristo, a caridade efetiva e afetiva, o serviço holística do corpo e da alma, a evangelização integral, a visão dos Pobres como nossos “senhores e patrões”, etc. Estudos sobre estes e outros temas ajudaram a aprofundar nossa compreensão e as motivações de nosso trabalho com os Pobres. Então, sessões de formação sobre o espírito e o carisma vicentino continuam a ser um componente regular de nossas reuniões e encontros, seja a Semana anual de Estudos Vicentinos de Salamanca, na Espanha, a Escola de Espiritualidade Vicentina em Curitiba, no Brasil, a sessão para formadores vicentinos na Ásia e na África, o encontro da Família Vicentina nos Estados Unidos, as sessões continentais para assessores e líderes da Família Vicentina (no México, no Brasil, nos Camarões, na Tailândia, na Europa, nos Estados Unidos/Canadá) sobre as mudanças de estruturas, sejam os encontros anuais de Superiores e Responsáveis internacionais da Família Vicentina. Estas sessões de formação nos ajudam a impregnar-nos da riqueza de nossa visão fundamental e a concretizá-la e operacionalizá-la num dado contexto de pobreza e necessidades. Enraizados em nossas vidas e na experiência com os Pobres, tais estudos nos ajudam especialmente a entrar no espaço sagrado do encontro entre os Pobres, Deus e nós mesmos, dando-nos a oportunidade de ser os simples, humildes e amorosos servos dos Pobres. Neste processo, com Maria, damos ao mundo um brilhante testemunho do amor de Deus por toda a humanidade.

FAMVIN e o “site” na Internet

            Finalmente, um meio criativo e atual de concretizar nosso carisma vicentino é precisamente através dos diversos meios de comunicação disponíveis hoje. Praticamente cada ramo da Família mantém sua página na Internet, que está ligada e relacionada com as dos outros ramos. O “website” da Família, FAMVIN, serviu como rede central de informações, por meio da qual os membros da Família e outros que de algum modo estejam interessados poderão ser capazes de crescer em seu conhecimento da história da família, das atividades e programas atuais e dos planos futuros. É pensar que tudo isso está disponível em espanhol, francês e inglês e, além disso, em alemão, indonésio, italiano e português, etc.!

            Estes diferentes meios ilustram a vitalidade e validade do carisma vicentino em muitas partes do mundo hoje. Ainda mais, confirmam que a Família Vicentina não só permaneceu fiel ao espírito e à metodologia de São Vicente e Santa Luísa mas também procurou renovar-se a si mesma nesse espírito ao mesmo tempo em que esteve aberta às novas possibilidades e estratégias. Do mesmo modo esses meios confirmam-nos em nossa crença de que o melhor caminho para responder à pobreza global é com a forma igualmente global da solidariedade, da colaboração e das parcerias.

            Em conclusão, é bom lembrar-nos do que São Vicente disse às Filhas da Caridade, em relação à origem do carisma delas: “Eis aí, minhas Filhas, qual foi o começo da Companhia de vocês; como então ela não era o que é hoje, pode-se crer que ainda não é o que será, quando Deus a tiver posto no estado em que a deseja; porque, minhas Filhas, vocês não devem pensar que as Comunidades se fazem num instante. São Bento, Santo Agostinho, São Domingos e todos esses grandes servos de Deus cujas Ordens são tão florescentes, não pensavam absolutamente naquilo que fizeram. Mas Deus agiu por meio deles” (SV IX, 245, conferência de 13 de fevereiro de 1646). Santa Luísa também nos mostra como podemos impregnar-nos deste especial carisma que nos foi dado por Deus:  “Bem-aventurados os que…  A fome e a sede são duas necessidades cobradas com avidez pela natureza, sobretudo nos corpos sadios; se nossas almas o estão também, devem senti-las, não como paixões, mas como desejos de justiça. Pela fome de justiça, entendo a renúncia geral a todas as minhas paixões, tão contrárias aos mandamentos de Deus, como à perfeição que ele me pede; e também a preocupação de dar ao próximo, por palavra e obra e sentimentos do coração, aquilo que a caridade requer. E pela sede [de justiça] que, por ser mais premente, nos deve fazer desejar algo de mais nobre, será a união com nosso Deus e as disposições e meios para alcançá-la, um veemente desejo de que reine em nós o efeito da santa Vontade e de procurar, tanto quanto dependa de nós, que reine ela também nos outros” (Santa Luísa de Marillac5, E. 35 [A 30], p. 841).

Questões para reflexão:

1. Em sua experiência pessoal, o que o inspirou abraçar o carisma vicentina? Que consequências isso tem para você e para seu serviço com os Pobres?

2. O que você deve fazer para promover a colaboração e a parceria na Família Vicentina, primeiro em seu país e depois no mundo inteiro?

____________________________________________________

1    O estudo mais abrangente e abalizado sobre este ponto é o da Irmã Betty Ann McNeil, The Vincentian Family Tree, A Genealogical Study, Chicago, 1996, revisto em 2006.

2    Segundo o estudo da Irmã B. McNeil, em 2006, cerca de 87% são Sociedades de Vida Apostólica e Institutos de Vida Consagrada, 9% são Associações de Leigos e 3% são Congregações anglicanas.

3    Pesquisa bem documentada das Nações Unidas diz que mais de um bilhão de pessoas vive com menos de um dólar por dia; 800 milhões vão dormir com fome; 28.000 morrem de fome por dia; 103 milhões de crianças não recebem educação primária, das quais 56% são meninas; 133 milhões de jovens não sabem escrever; meio milhão de mulherres morre todo ano na gravidez ou no parto – o equivalente a uma morte por minuto; 42 milhões de pessoas têm o vírus HIV/AIDS; as nações mais ricas gastam mais de 100 bilhões de dólares por ano para proteger seu mercado e sua economia, o que é mais do dobro do que dão como ajuda aos países pobres; 7 milhões de crianças morrem cada ano como consequência da dívida externa; o dinheiro usado para pagar a dívida externa poderia garantir água potável para um bilhão e trezentos milhões de pessoas.

4    Objetivos do Desenvolvimento para o Milênio: 1. erradicar a fome e a pobreza extrema; 2. conseguir uma escolarização elementar universal; 3. fomentar a igualdade de gênero e a promoção das mulheres; 4. reduzir a mortalidade infantil; 5. melhorar a saúde maternal; 6. combater a AIDS, a malária e outras enfermidades; 7. assegurar a sustentabilidade ambiental; 8. criar colaborações globais para o desenvolvimento.

5    Santa Luísa de Marillac. Correspondência e Escritos. Trad. da Irmã Lucy Cunha, F. C. Ribeirão Preto, Editora Legis Summa, s. d.

Escrito por Pe. Manuel Ginete, CM, Delegado para a Família Vicentina
Traduzido por Pe. Lauro Palu, CM, provincia do Rio de Janeiro o Brasil