2ª Formação – Estabilidade

ENEV – Encontro Nacional de Estudantes Vicentinos

Belém, 22 a 25/07 

“Seguir Jesus Cristo na Congregação da Missão, vivendo na liberdade e alegria dos Santos Votos”

2ª Formação:

Estabilidade: Voto de Fidelidade na Evangelização dos Pobres

Jo 15, 1-6

Neste Evangelho, Jesus convida os seus discípulos a estarem unidos a Ele assim como a videira está unida aos seus ramos. Sem esta união natural da videira aos ramos, não possível a produção de frutos. A mesma coisa acontece com os discípulos. Eles só podem produzir frutos para o Reino, se estiverem unidos ao mestre Jesus e atentos aos seus ensinamentos e à sua Palavra. A consagração pelos votos é sinal desta íntima união do discípulo com o mestre. O voto de fidelidade na evangelização dos Pobres nos faz perceber que é ele (o voto) que nos liga ao Cristo evangelizador dos pobres e, por conseguinte, nos torna capazes de produzir os frutos necessários para a missão. De acordo com as nossas Constituições:

“Por um voto especial de estabilidade, prometemos dedicar-nos ao fim da Congregação, durante todo o tempo da nossa vida, na dita Congregação, executando os trabalhos que nos forem prescritos pelos Superiores, segundo as Constituições e Estatutos” (CC 39).

Os missionários que desejam seguir Jesus na radicalidade da vida Consagrada na Congregação da Missão emitem diretamente a Deus, um primeiro voto que é a razão de ser da emissão dos outros três. Trata-se do Voto de Estabilidade. A fórmula direta da emissão de nossos votos dizem o seguinte:

“Senhor, meu Deus, eu … , diante da Bem-aventurada Virgem Maria, faço o voto de me dedicar fielmente à evangelização dos pobres, na Congregação da Missão, durante todo o tempo de minha vida, no seguimento de Cristo evangelizador. E, por isto, faço voto de castidade, pobreza e obediência, segundo as Constituições e Estatutos do nosso Instituto, com o auxílio da vossa graça” (Instrução sobre os votos, p. 106).

Para São Vicente, bastaria este primeiro voto de Estabilidade para que os missionários pudessem desempenhar bem a sua missão (II, 28), contudo, para ser fiel às orientações canônicas da Igreja e para solidificar a consagração dos missionários, os membros da Congregação emitem também os outros três votos.

“Desejando continuar a missão de Cristo, consagramo-nos a evangelizar os pobres, durante toda a nossa vida. Para cumprir esta vocação, abraçamos a castidade, a pobreza e a obediência, segundo nossas Constituições e Estatutos.” (CC 28).

O Voto de estabilidade emitido pelos coirmãos na Congregação possui três elementos que o caracterizam bem: Fidelidade e perseverança durante toda a vida; na Congregação da Missão; Consagrando-se a conseguir o seu fim conforme o definem as Constituições.

Quando falamos às pessoas que em nossa Congregação emitimos quatro votos para nossa Consagração definitiva a Deus, elas logo perguntam: Além dos três comuns, qual é o outro? E quando respondemos: “Voto de Estabilidade”, a ideia que aparece para muitas pessoas é aquela ideia de algo estático. Como assim estabilidade? É ficar sempre no mesmo lugar? Fazendo as mesmas coisas? Diante destes questionamentos óbvios, é preciso então ter isso bem respondido, em primeiro lugar, para nós mesmos, pois, senão este voto tão importante para nós, pode vir a tornar-se isso mesmo.

O voto de estabilidade, na verdade, longe de ter um caráter estático, possui um significado bastante dinâmico, pois, nos remete ao compromisso e à fidelidade na missão. A Instrução sobre os votos reforça bastante esta ideia. Trata-se do nosso compromisso em dedicar-nos fielmente à evangelização dos pobres. E, para esta finalidade, devemos dispor todas as nossas energias. A fidelidade em cumprir o Fim da Congregação nos faz perceber a amplitude do nosso carisma e as múltiplas possibilidades que temos em nossas mãos para realizar bem o nosso trabalho.

“Esta fidelidade no seguimento de Jesus evangelizador dos pobres compromete-nos a irmos além do mínimo jurídico que consiste em nos mantermos satisfeitos com fazer o que nos mandam os superiores segundo as Constituições” (Instrução sobre os votos, p. 31)

A outra ideia que nos aparece é a da perseverança por toda a vida na Congregação da Missão. Nos tempos atuais, tão marcados pelo imediatismo das coisas, da cultura do descartável, do passageiro, do medo de se assumir compromissos que durem para toda a vida, da busca desenfreada somente por aquilo que traz satisfação pessoal, em detrimento da preocupação pelos outros, as pessoas têm tido dificuldade com a vivência da perseverança. Há dificuldade de se perseverar na vida matrimonial, na vida acadêmica, de trabalho, de amizade, de família, e, como não poderia ser diferente, na vida consagrada. Por isso, é preciso ter uma convicção muito profunda deste propósito assumido diante de Deus, identificação verdadeira com o carisma, conhecimento de si mesmo para saber se se tem condições de assumir um voto desta magnitude, capacidade de superar as dificuldades advindas de conflitos na vida comunitária e pastoral, dos momentos de solidão e de carência e, acima de tudo, muita vontade de ir ao encontro daqueles e daquelas para os quais nós somos enviados.

Para São Vicente, a Congregação foi constituída por Deus para ser um perfeito caminho de santidade para os seus membros, pois, o que ela realiza, também o fez Jesus: “todos trouxemos para a Companhia a resolução de viver e de morrer nela; trouxemos o que somos, o corpo, a alma, a vontade, a capacidade, a destreza e tudo o mais. Para quê? Para fazer o que fez Jesus Cristo, para salvar o mundo” (XII, 98; XI, 402).

Segundo a Instrução sobre os votos na CM (p. 31 e 32), o voto de Fidelidade e  perseverança na evangelização dos Pobres na Congregação da Missão possui alguns efeitos na vida do missionário que o ajuda a trilhar bem o seu caminho de realização na missão:

1º – “Supõe uma resposta pessoal a Jesus. O voto confirma a nossa decisão radical de aceitarmos o chamado a seguir o Evangelizador dos pobres;”

2º – “No aspecto psicológico o voto dá força ao missionário e o capacita para superar dificuldades e momentos de crise;”

3º – “Já que a consagração vicentina se dá na e para a missão, este voto dá um sentido missionário aos outros conselhos evangélicos (CC 28), orienta todas as energias do missionário para a evangelização dos pobres, liberta-os de interesses pessoais para assim poder dedicar-se aos serviços dos outros.”

4º – São Vicente reuniu os primeiros missionários para evangelizar juntos os pobres (CC 19). Por isto, este voto convoca os membros da Congregação para uma missão em comum.”

5º – “Este voto tem uma dupla função profética: A primeira: enquanto é um compromisso por toda a vida, é um sinal de contradição que supera a instabilidade que existe em tantos aspectos da sociedade; a segunda: já que supõe a opção pelos pobres, é um sinal de solidariedade com os fracos e desprezados.”

Estes cinco elementos que caracterizam o voto de fidelidade no serviço dos pobres na Congregação da Missão que a Instrução sobre os votos nos oferece para a vida missionária nos ajudam a solidificar a nossa opção ao chamado do Senhor neste estilo de vida e a bem viver os demais três votos que fazemos em decorrência deste primeiro voto.

A Instrução sobre os votos na Congregação também nos oferece alguns importantes caminhos para vivermos bem o voto de Fidelidade na evangelização dos pobres por toda a vida na Congregação da Missão. Além dos momentos fortes celebrativos de nossa vida missionária, tais como: oração individual e comunitária, exercícios espirituais, reuniões e celebrações comunitárias, o documento nos apresenta algumas pistas para a observância do voto:

  1. Convicção profunda de que o Senhor nos ama como membros da Congregação: São Vicente de Paulo sempre esteve muito convicto que a Pequena Companhia é um caminho de salvação e santificação para os seus membros. E que, se Deus os chamou, Ele os quer na Congregação: “Deus ama os pobres e consequentemente ama os que os amam” (XI, 392; XI, 273). É preciso, pois, que cada missionário nutra-se de um profundo amor pela Congregação, na pessoa de cada coirmão, pelos seus trabalhos, ministérios e outras tantas atividades que nos foram deixados por outros coirmãos que viveram antes de nós e que certamente nós vamos transmitir a outros, fazendo o nosso trabalho multiplicar sem vezes mais seja em quantidade, seja em qualidade.
  1. Estudar e conhecer a tradição da Congregação da Missão: Este item é fundamental na vida de todo missionário. Não há verdadeiro amor se não houver conhecimento. Por isso, é preciso, desde a formação inicial ir cultivando este amor por meio de leituras que nos ajudem a conhecer melhor a Congregação no mundo, a história de nossa Província, os coirmãos que já passaram e que também fizeram história, ter interesse em escutar as histórias dos coirmãos mais velhos e sobretudo seus conselhos, participar de encontros e atividades inter-provinciais e internacionais da Congregação para estreitar os laços com coirmãos de outras realidades no mundo, etc. Alguns seminaristas jovens quando chegam em nossos seminários não vem com aquela humildade ou entendimento de que ele está entrando para uma família. E que precisa conhece-la primeiro para ver se ele se enquadra nesta proposta. Mas ao contrário, parece que tais rapazes já chegam achando que é a Instituição que deve se enquadrar ao jeito deles. E nós temos até coirmãos mais experientes que ainda não perceberam isto. Basta vermos quando um ou outro é transferido e começa a desfazer ou destruir aquilo que foi feito por outros coirmãos. Em todo o caso, a busca de conhecimento e o interesse por tudo quanto acontece hoje em nossa província como nas outras nos ajuda a compreender como se vive hoje o espírito vicentino.
  1. Promover o espírito fraterno de diálogo e amizade: São Vicente escreveu algumas vezes que o verdadeiro espirito da Companhia deve ser uma fraternidade de amigos que se querem bem. O maior patrimônio que a Congregação e as províncias possuem no mundo não são os bens materiais, mas, são as pessoas. Por isso, precisamos cuidar uns dos outros para que haja um ambiente favorável de vida para todo mundo. O espírito de fraternidade e de diálogo nos ver a Congregação e nossas Províncias como uma verdadeira família. Por isso, é um empenho de todos fazer com que este ecossistema seja cada vez mais saudável e habitável. Um ambiente marcado por críticas destrutivas, por pessoas que se deixam consumir pelos ciúmes e pela inveja, pessoas negativistas que não conseguem ver nada de positivo no próprio trabalho e no trabalho dos outros, por pessoas que vivem para difamar os outros ou que pensam só em si mesmas se torna um ambiente inabitável e insuportável. Por isso, é preciso que haja esforço da parte de cada um em fazer da vida comunitária um espaço importante de diálogo, de fraternidade, um ambiente para partilhar com facilidade com os irmãos os problemas pessoais que talvez experimentemos e que podem dificultar a perseverança na vocação.
  1. Manter e renovar o caráter vicentino de nossos ministérios: o voto de Fidelidade na evangelização dos pobres por toda a vida na Congregação da Missão implica em fidelidade também no cuidado que precisamos ter de fazer com que nossos ministérios estejam plenamente de acordo com o Fim da Congregação e identidade carismática.
  1. Contato direto com os pobres: o contato direto com os pobres favorece, incentiva e fortalece a fidelidade e a perseverança na Congregação. Mesmo aqueles coirmãos que cuidam de atividades burocráticas em suas províncias, precisam, de alguma forma ter este contato direto com aqueles para os quais somos enviados.
  1. Colaborar com outras pessoas também comprometidas com o trabalho entre os pobres: Nos últimos anos a Congregação tem estreitado cada vez mais o sentido de colaboração e participação com os leigos dos demais ramos da Família Vicentina e com pessoas que se dedicam ao trabalho assistencial em diferenciados tipos de organização. Este tipo de iniciativa favorece o apostolado e é um caminho para manter vivo o carisma, dado o estado avançado de diminuição de coirmãos no mundo todo.