1ª Formação – Seguimento de Jesus

ENEV – Encontro Nacional de Estudantes Vicentinos

Belém, 22 a 25/07

“Seguir Jesus Cristo na Congregação da Missão, vivendo na liberdade e alegria dos Santos Votos” 

1ª Formação:

Seguimento de Jesus na Congregação da Missão

Mc 3, 13-19

O texto do Evangelho de Marcos nos apresenta o chamado dos discípulos. De acordo com o texto, Jesus, tendo subido à montanha chamou os que ele quis para estarem com Ele e para anunciar o Evangelho. Este trecho do Evangelho nos apresenta duas situações importantes: Por um lado, não foram eles (os discípulos) que escolheram seu mestre, foi o próprio Cristo quem os escolheu. E por outro lado, eles foram escolhidos para se vincularem intimamente à pessoa dEle, fazer parte do grupo dos seus e participar de sua missão. “O discípulo experimenta que a vinculação íntima com Jesus no grupo dos seus é participação da vida saída das entranhas do Pai, é formar-se para assumir seu estilo de vida e suas motivações” (DA, 131).

No discipulado cristão, o seguimento de Jesus é para todos aqueles que aceitam o convite de Jesus de participar de sua vida e de sua intimidade. Participar da intimidade de Jesus é participar dos mesmos sentimentos e desejos que estão em seu coração. Contudo, não pode haver verdadeiro discípulo sem um verdadeiro encontro com Jesus. Cristo, como nos lembra a Conferência de Aparecida, não é uma ideia, não é uma filosofia ou um conceito abstrato. Mas, é alguém com quem nos devemos encontrar todos os dias. Sem este encontro pessoal não há verdadeiro seguimento. É preciso, então, deixar-se apaixonar por Jesus e, como nos diz a escritura, deixar-nos seduzir por ele: “seduziste-me Senhor e eu me deixei seduzir” (Jr 20,7) e, mais ainda, configurar a própria vida ao Cristo (Cf. Fl 1,21 e Gl 2, 19-21).

“Conhecer a Jesus Cristo pela fé é nossa alegria; segui-lo é uma graça, e transmitir este tesouro aos demais é uma tarefa que o Senhor nos confiou ao nos chamar e nos escolher” (DA, 18).

            Neste caminho de encontro, encanto e configuração com o Senhor, cada cristão vai dando sua resposta no seguimento de Jesus na forma de vida para a qual o Senhor lhe chama. No nosso caso, que optamos por seguir Jesus na Congregação da Missão é preciso que toda a nossa vida se configure ao Cristo evangelizador dos pobres. São Vicente chamava isto de “revestir-nos do espírito de Cristo” (RC I,3). Revestir-se do espírito de Cristo ou configurar-se a Cristo, é o que o Evangelho de Marcos chama de estar ou permanecer com o Senhor. Somente permanecendo com o Senhor, fazendo parte de sua vida e deixando que o Evangelho nos forme podemos ser capazes de ir reproduzindo em nossas vidas a atitudes de Jesus. Não se trata pura e simplesmente de imitação dos atos de Jesus, como se dizia antigamente, mas, colocando-nos na esteira do seu discipulado aprender dele, a cada dia, como se vive a nossa missão.

A nossa resposta às propostas que Cristo nos faz é sempre pessoal, mas, como membros de uma mesma Congregação, temos um projeto comum que está contido em nossas Constituições, para o qual todas as nossas ações devem convergir:

“O fim da Congregação da Missão é seguir Cristo evangelizador dos pobres. Este fim se realiza, quando os coirmãos e as comunidades, fiéis a São Vicente: 1) procuram com todas as forças revestir-se do espírito do próprio Cristo, para adquirirem a perfeição conveniente à sua vocação; 2) se aplicam a evangelizar os pobres, sobretudo os mais abandonados; 3) ajudam os clérigos e os leigos na sua própria formação e os levam a participar mais plenamente na evangelização dos pobres. ‘O espírito da Congregação é a participação no Espírito do próprio Cristo do modo como é proposto por São Vicente: ‘Enviou-me para evangelizar os pobres (Lc 4,18)’. Por conseguinte, ‘Jesus Cristo é a regra da Missão’ e será tido como o centro de sua vida e de sua atividade” (CC 5)

Cada coirmão, então, seguindo Jesus na vivência do carisma vicentino é chamado, por Cristo, a desempenhar esta tríplice missão que pertence, desde a fundação, à nossa Pequena Companhia. Isto significa que nos múltiplos trabalhos que a Congregação desempenha no mundo, devem estar presentes estas três finalidades do nosso carisma. O objetivo é dar continuidade à obra de Cristo Evangelizador e servidor dos pobres. Ele é a Regra da Missão: “Se temos de participar na missão de Jesus evangelizador dos pobres, Ele tem que ser a Regra da Missão” (Instrução sobre os votos, p. 7). Para não perder o foco e se manter fiel ao carisma, a Congregação nos tempos atuais tem refletido muito acerca de suas obras. Muitos têm sido os esforços para que haja uma verdadeira reconfiguração de nossas obras e das consciências dos coirmãos em todo o mundo.

De acordo com as nossas Constituições para que cada missionário se encontre nesse caminho de santidade proposto por Cristo à Congregação da Missão e seja feliz e realizado nos trabalhos que desempenhar neste Instituto é preciso ter presente duas coisas bastante importantes:

“O espírito da Congregação contém aquelas íntimas disposições de alma do Cristo que o Fundador desde o início já recomendava aos coirmãos: amor e reverência para com o Pai, caridade efetiva e compassiva para com os pobres e docilidade para com a Divina Providência” (CC 6).

O amor e reverência para com o Pai consistem numa atitude filial capaz de compreender que tudo neste mundo pertence ao Pai e que nós somos administradores e colaboradores dele no Reino que lhe pertence. Deste Reino, fazem parte os pobres. Uma grande parcela da população mundial que é esquecida e desprezada pelos poderosos deste mundo, os pobres são o maior tesouro do Pai e os prediletos de Nosso Senhor Jesus Cristo. Jesus considera como sendo feito a Ele tudo quanto for feito aos menores de nossos irmãos (cf. Mt 25, 31-40). Antigamente compreendia-se mal esta passagem do Evangelho de Mateus. Entendia-se que deveríamos fazer o bem aos sofredores porque o estávamos fazendo a Jesus. E uma vez fazendo o bem a Jesus, receberíamos uma recompensa no céu. Teologicamente tratava-se de uma relação de troca com Deus, movida por um sentimento não de gratuidade, mas de interesse em participar da glória dos céus mediante a caridade feita aos pobres. Na nova visão da antropologia teológica, os pobres não são objetos de nossa caridade, mas, são sujeitos. Toda caridade feita à pessoa necessitada é feita para ela. Entretanto, Cristo considera feito a si o que se faz pelos pobres e para os pobres. Cuidando dos pobres fazemos a vontade do Pai e prestamos-lhe o devido amor e reverência.

A caridade efetiva e compassiva com os pobres da qual nos fala as nossas Constituições, diz respeito à experiência profunda vivida por São Vicente quando ele percebe que a razão de ser de sua vida estava no serviço aos sofredores. São Vicente levou muito a sério aquilo que está contido na Palavra de Deus: “Se alguém diz: ‘Eu amo a Deus’, e, no entanto odeia o seu irmão, esse tal é mentiroso; pois quem não ama o seu irmão, a quem vê, não poderá amar a Deus, a quem não vê. E este é justamente o mandamento que dele recebemos: quem ama a Deus, ame também o seu irmão” (1 Jo 4, 20-21). Esta experiência mística de São Vicente ele a transmitiu tanto para a  Congregação da Missão como para a Companhia das Filhas da Caridade e Damas da Caridade: “Não podemos ver sofrer nosso próximo, sem sofrer com ele…” (XII, 270).

A Docilidade à Divina Providência caracterizou toda a vida de Jesus. Ninguém se empenhou tanto em fazer a vontade do Pai como o próprio Filho Jesus Cristo. No seu contato com os sofredores Jesus foi percebendo que o Pai tinha para ele um grande projeto de libertação que implicaria na entrega total de sua vida pelo Reino. E a oração que Jesus fez no Monte das Oliveiras é sinal desta inteira confiança e total entrega: “não se faça a minha vontade, mas, a Tua!” (Lc 22, 42). São Vicente trilhou este mesmo caminho trilhado pelo Filho amado do Pai. Abriu mão de seus interesses pessoais e lançou-se nas mãos na Divina Providência.  São Vicente não tinha certeza se os trabalhos de suas fundações dariam certo ou se teria as adesões necessárias para a realização dos trabalhos missionários. Mas, tinha a certeza de que Deus estava suscitando no seu coração a criação das mesmas para o socorro dos pobres e que estas obras são dEle. E se são dEle, Ele daria todas as condições para que pudessem continuar existindo e suscitaria as pessoas para somar seus esforços aos dele: “O bem que Deus quer acontece como por si mesmo, sem que nele pensemos. Assim nasceu nossa Congregação, assim começou nossa consagração às missões, os exercícios dos ordinandos;  Assim vieram a existir todas as outras obras de que estamos encarregados” (IV, 122-123; VI, 499). Desta mesma forma, também precisa ser a nossa confiança na Divina Providência. Acreditamos que Deus abençoa e conduz os nossos trabalhos e, por causa disso, precisamos estar sempre atentos aos apelos dos sinais dos tempos para que deixemos falar ao nosso coração a voz de Deus que nos pede criatividade e inventividade em nossos trabalhos. Amarrar-se ao que já vem sendo feito há anos e contentar-se com este lugar de conforto não faz parte do espírito vicentino e nem expressa a nossa confiança na Providência!

“A Congregação procura exprimir seu espírito por meio de cinco virtudes, colhidas também de uma visão muito própria do Cristo: simplicidade, humildade, mansidão, mortificação e zelo das almas. Delas disse São Vicente: ‘A Congregação se aplicará com a maior diligência a cultivá-las e exercitá-las, de modo que estas cinco virtudes sejam como que as faculdades da alma de toda a Congregação e todas as nossas ações sejam sempre animadas por elas’ (RCC II, 14)” (CC 21).

A vivência e prática das virtudes vicentinas é a marca registrada do missionário vicentino. No dizer de São Vicente, não há melhor forma de se configurar ao Cristo do que vivendo e praticando as cinco virtudes. Com elas, Cristo derrotou o poder de Satanás e com elas todo missionário pode também vencer as artimanhas e investidas do inimigo de Deus. As virtudes nos dão o devido equilíbrio psicológico e espiritual para viver bem a nossa vida consagrada. É muito comum as pessoas que convivem conosco expressarem que o nosso estilo é diferente, que há algo em nós que não é semelhante aos demais sacerdotes ou consagrados. Pois então, é justamente a vivência do carisma e a prática das virtudes vicentinas que dão este diferencial aos nossos missionários. E por isso, devemos nos alegrar, pois, sempre que procuramos colocar em prática tais virtudes, vamo-nos deixando configurar ao Senhor, ou, como São Vicente gostava de dizer, revestindo-nos do espírito de Cristo.

No seguimento de Jesus na Congregação da Missão, nós somos chamados por Cristo a aperfeiçoar nossa Configuração a Ele por meio dos Santos Votos. O objetivo de toda Consagração é a liberdade e a realização de quem se consagra. Ninguém entra num Instituto de vida consagrada para se sentir acorrentado, infeliz e não realizado. Se isto acontece, este estilo de vida está sendo anti-evangélico, pois, o Evangelho é fonte de libertação e de liberdade, é fonte de vida e não de morte, é fonte de alegria e não de tristeza! O documento de Aparecida já nos recorda que a realização de todo discípulo missionário é a alegria no seguimento de Jesus. O Papa Francisco nos diz que ninguém evangeliza “com cara de Sexta-feira da paixão”!

A vivência dos votos de modo consciente torna-se então fonte de verdadeira liberdade e de alegria! Servir a Deus e aos pobres, por toda a vida na Congregação da Missão (Estabilidade), com o coração indiviso (castidade), não acorrentado às preocupações advindas do ter e do possuir, mas, sabendo-se administrador do patrimônio que pertence aos pobres, por isso, a necessidade de sobriedade no estilo de vida e mais próximo dos pobres (pobreza) e vivendo a obediência corresponsável e participativa são os caminhos de santidade e de vida que todo coirmão é chamado quando consagra sua vida pelos conselhos evangélicos na Congregação da Missão (obediência) são a finalidade dos Conselhos Evangélicos na Congregação: “Todos os membros da Congregação da Missão se entregam a Deus para evangelizar os pobres. A entrega plena a esta missão só será possível se vivermos, de modo radical, os conselhos evangélicos. ‘Desejando continuar a missão de Cristo, consagramo-nos a evangelizar os pobres, abraçamos a castidade, a pobreza e a obediência, segundo nossas Constituições e Estatutos’ (C 28). A chave de nossa vocação é a entrega de nossas pessoas à evangelização dos pobres, continuando assim a missão de Cristo, que foi pobre, casto e obediente. Esta entrega é confirmada e ratificada ao fazermos os votos próprios da Congregação da Missão.” (Instrução sobre os Votos na CM, p. 20).